miniaturadaimagem|Zezinho do Morro da Casa Verde em entrevista ao MIS, 1981. José Narciso Nazaré (São Paulo, 28 de agosto de 1910 – São Paulo, 7 de dezembro de 1989), conhecido como Zezinho do Morro da Casa Verde, foi sambista, compositor, instrumentista, mestre luthier, dirigente carnavalesco, memorialista e pesquisador da tradição oral do samba paulistano. Foi fundador da Escola de Samba Morro da Casa Verde e destacou-se por sua atuação na preservação da memória dos cordões carnavalescos e das primeiras escolas de samba da cidade de São Paulo.

Ao longo de sua vida, participou diretamente das principais fases da formação do samba paulistano, desde os antigos cordões carnavalescos das primeiras décadas do século XX até a consolidação das escolas de samba. Seus depoimentos constituem importantes fontes para pesquisadores da história do carnaval de São Paulo, entre eles Olga Rodrigues de Moraes von Simson e José Carlos Gomes da Silva.

Biografia José Narciso Nazaré nasceu em 28 de agosto de 1910, na Rua da Consolação, em São Paulo. Era filho de Gabriel Narciso Nazaré e da sambista Maria Antonia Gonçalves, que o introduziu ainda criança nas manifestações do carnaval negro paulistano.

Levado por sua mãe, passou a frequentar o Cordão Carnavalesco Camisa Verde e Branco ainda na infância. Em entrevista concedida à antropóloga Olga Rodrigues de Moraes von Simson para a Coleção Carnaval Paulistano do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), recordou que era chamado de "mascote" por Dionísio Barbosa, fundador do Camisa Verde e Branco. A convivência com Dionísio Barbosa exerceu profunda influência em sua formação cultural e em sua compreensão do samba como manifestação da cultura negra paulistana.

Por volta dos oito anos de idade, acompanhando sua mãe, passou a frequentar as festas de Pirapora do Bom Jesus, onde teve seus primeiros contatos com o samba rural paulista, os batuques tradicionais e manifestações culturais afro-brasileiras de influência bantu. Essas experiências marcaram profundamente sua formação e sua trajetória artística.

Ainda jovem, participou da fundação do Cordão Flor da Mocidade, na Barra Funda, formado por rapazes oriundos do Camisa Verde e Branco. No cordão atuava como baliza. Entre seus integrantes encontrava-se também Grande Otelo, que igualmente desfilava como baliza antes de se tornar um dos maiores atores da história do Brasil.

Paralelamente ao carnaval, jogou futebol no São Geraldo, tradicional clube da Barra Funda formado por jogadores negros. Segundo seus relatos, jogava para obter alguma remuneração, mas não chegou ao futebol profissional em um contexto marcado pelas limitações impostas aos atletas negros nas primeiras décadas do século XX. Ao lado de companheiros da equipe, participou também da fundação do Cordão Geraldino.

Como muitos trabalhadores negros de sua geração, conciliou sua intensa atuação cultural com diferentes atividades profissionais. Trabalhou carregando sacas de café no Largo da Banana, importante território negro paulistano ligado à formação do samba na cidade, e também exerceu a profissão de topógrafo, atividade aprendida ao lado de seu padrasto, Antenor.

Ao longo de sua trajetória participou de diversos blocos e cordões carnavalescos, tornando-se um dos principais articuladores do samba paulistano. Viveu nos bairros do Bixiga, Barra Funda e, posteriormente, Casa Verde, três dos mais importantes redutos negros da cidade de São Paulo.

Na Casa Verde participou do Unidos da Casa Verde e fortaleceu sua atuação como liderança comunitária. Em 6 de abril de 1962, ao lado de sua filha Dona Guga, então ainda criança, fundou a Escola de Samba Morro da Casa Verde. A agremiação consolidou-se como uma das mais tradicionais do carnaval paulistano e permanece em atividade até os dias atuais. As cores verde e rosa foram escolhidas em homenagem à Estação Primeira de Mangueira, escola pela qual Zezinho nutria grande admiração.

Além de dirigente carnavalesco, destacou-se como compositor, instrumentista e mestre luthier. Dominava a construção artesanal de instrumentos de percussão utilizados pelas escolas de samba paulistanas. A tradição oral do samba paulista atribui a José Narciso Nazaré um papel pioneiro na popularização do banjo nas rodas de samba. A incorporação do instrumento contribuiu para transformações na sonoridade do gênero e, ao longo das décadas seguintes, o banjo consolidou-se como um dos instrumentos característicos do samba brasileiro.

Também integrou o conjunto Águias da Meia-Noite, formado por músicos negros, com o qual participou de apresentações, concursos musicais e programas de rádio em diversas regiões do Brasil e em países da América Latina, contribuindo para a difusão do samba paulistano.

Nos últimos anos de vida retornou ao Camisa Verde e Branco como integrante da Velha Guarda, reafirmando os vínculos com a escola onde iniciou sua trajetória. Sua importância permanece reconhecida pela comunidade da agremiação, sendo citado no hino do tradicional Botequim do Camisa Verde e Branco.

José Narciso Nazaré faleceu em 7 de dezembro de 1989.

Memória e legado Ao longo de sua vida, José Narciso Nazaré tornou-se uma das principais referências para pesquisadores da história do samba paulistano. Seu conhecimento sobre os cordões carnavalescos, as primeiras escolas de samba, os territórios negros de São Paulo e a cultura popular afro-paulistana foi registrado em entrevistas de história oral e utilizado em pesquisas acadêmicas, documentários e publicações especializadas.

Entre os pesquisadores que registraram seus depoimentos destacam-se Olga Rodrigues de Moraes von Simson, autora de Carnaval em Branco e Negro (1914–1988), e José Carlos Gomes da Silva, autor da dissertação Os Suburbanos e a Outra Face da Cidade: Negros em São Paulo (1900–1930). Seus relatos também integram a Coleção Carnaval Paulistano do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, composta por entrevistas, fotografias e documentos relacionados à história do carnaval paulistano.

Olga von Simson observa que José Narciso Nazaré atravessou as principais fases da história do carnaval paulistano ao longo do século XX. De mascote do Camisa Verde e Branco à condição de fundador da Morro da Casa Verde, músico, luthier, memorialista e integrante da Velha Guarda, sua trajetória acompanha a transformação dos antigos cordões carnavalescos nas modernas escolas de samba.

Seu legado permanece preservado por meio da Escola de Samba Morro da Casa Verde, da tradição oral do samba paulistano, da Coleção Carnaval Paulistano do MIS-SP, de pesquisas acadêmicas e de acervos documentais públicos e particulares, constituindo importante referência para a história da cultura popular e da população negra na cidade de São Paulo.

Referências Simson, Olga Rodrigues de Moraes von. Carnaval em Branco e Negro (1914–1988). Campinas: Editora da Unicamp, EDUSP e Imprensa Oficial, 2007. https://mis-sp.org.br/vitrines/a-colecao-carnaval-paulistano-no-acervo-mis-sp/ Silva, José Carlos Gomes da. Os Suburbanos e a Outra Face da Cidade: Negros em São Paulo (1900–1930). Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 1990. ACERVO SASP – Carnaval Paulistano. Histórico da G.R.C.S.E.S. Morro da Casa Verde. Sociedade Amantes do Samba Paulista (SASP). Disponível em: https://www.carnavalpaulistano.com.br/a_escola.asp?rg_escola=23 Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Coleção Carnaval Paulistano. Entrevista de José Narciso Nazaré concedida a Olga Rodrigues de Moraes von Simson para a Coleção Carnaval Paulistano do MIS-SP, 1981.

Categoria:Sambistas do estado de São Paulo