Geraldo Nogueira Porto Filho, conhecido artisticamente como Geraldo Porto (São Paulo, 17 de janeiro de 1950), é um artista visual, professor, pesquisador e curador brasileiro. Destaca-se por sua trajetória docente e institucional no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e por uma produção artística multifacetada que transita por vertentes como o surrealismo, o expressionismo abstrato, a arte conceitual e a arte homoerótica. Possui também papel fundamental no mapeamento, salvaguarda e difusão crítica da obra do artista bruto e naif Antônio Roseno de Lima.Tour Virtual da exposição "A.R.L. Vida e Obra" – Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).Matéria sobre a exposição "A.R.L. Vida e Obra" no CCBB – Trace Brasil.Antônio Roseno de Lima – Vídeo sobre a obra do artista com curadoria de Geraldo Porto (YouTube).
Biografia e Primeiras Influências Entrevista com Geraldo Porto – Programa Memória Científica (YouTube). Geraldo Porto nasceu na cidade de São Paulo em 1950, transferindo-se com a família para Campinas aos cinco anos de idade. Realizou seus estudos primários no Externato São João, concluindo essa etapa em 1961 com distinção acadêmica. Suas memórias de infância mais remotas ligadas à arte moderna envolvem as tristes figuras circenses das fases azul e rosa de Pablo Picasso e a pintura A Persistência da Memória, de Salvador Dalí.
Sua formação visual e técnica foi influenciada diretamente pelo trabalho de seu pai, um artesão qualificado que estruturou uma indústria própria de móveis sob medida. O convívio com projetos de design moderno, texturas e o manuseio de madeiras nobres forneceu bases para o seu desenvolvimento plástico. Outros fatores determinantes em sua juventude foram o ambiente escolar religioso, a estética barroca católica e o incentivo de sua mãe, que trabalhava continuamente para lhe prover livros.
Carreira Artística Início e Atuação na Vanguarda (Anos 1960) Em 1965, ainda na adolescência, Porto visitou a VIII Bienal de São Paulo, evento que o aproximou do surrealismo e o motivou a conceber sua primeira pintura a óleo, intitulada Espectros, com forte influência de Paul Delvaux. No ano seguinte, aos 16 anos, foi selecionado pelos críticos Mário Schenberg e Aracy Amaral para participar do Primeiro Salão de Arte Moderna do recém-inaugurado Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC), onde expôs as telas Espectros e Paisagem Noturna.
Em 1967, Porto passou a integrar o Grupo Vanguarda de Campinas, participando de discussões sobre o modernismo e de mostras no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA). No mesmo ano, seus desenhos receberam menção honrosa no VI Salão do Trabalho do SESC/SENAI, em São Paulo, sob o júri de Wolfgang Pfeiffer e Caciporé Torres. Em 4 de outubro de 1968, inaugurou sua primeira exposição individual na Galeria Aremar, dirigida por Raul Porto, reunindo pinturas e monotipias abstrato-gestuais inspiradas na action painting expressionista.
Em 1969, ao lado do artista Paulo Ottoni, foi selecionado no V Salão de Arte Contemporânea do MACC com uma instalação composta por centenas de bandeirinhas juninas de papel de seda preto cobrindo o teto do museu, unindo elementos da cultura caipira a uma crítica anarquista e de luto contra a ditadura militar. Na abertura do evento, Porto e integrantes do "Grupo Renovação" promoveram um happening de protesto contra o júri de premiação, culminando na detenção dos envolvidos por uma noite.
Viagens, Contracultura e Expressão Conceitual (Anos 1970) Ainda no final de 1969, Porto realizou uma viagem de carona de cinco meses como mochileiro pela América Latina. No percurso, visitou o ateliê CasaPueblo de Carlos Páez Villaró no Uruguai, o escultor Líbero Badíi em Buenos Aires e frequentou aulas de gravura em metal ministradas por Eduardo Vilches na Universidade Católica do Chile.
Ao retornar ao Brasil em maio de 1970, cofundou a comunidade hippie Bethânia nos arredores de Paulínia com sua irmã Sonia. Entre 1968 e 1973, frequentou assiduamente a Casa do Sol da escritora Hilda Hilst, ambiente marcado por debates metafísicos e estéticos; na fazenda da escritora, editou o jornal O Grifo entre 1972 e 1973.
Em 1973, Porto enfrentou um período de detenção de 100 dias no Rio de Janeiro. Essa vivência prisional fundamentou a criação da intervenção multimídia coletiva A incrível viagem de Tarsila War Roll e Duse Purple, levada ao Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC/USP) na mostra internacional PROSPECTIVA/74. Posteriormente, participou da Bienal do Ano 2000 no MAC/USP, organizada pelo crítico francês Pierre Restany.
No IX Salão de Arte Contemporânea de Campinas, em 1974, Porto e o artista Chico Fransé receberam o Prêmio de Aquisição por uma obra conceitual focada em lâminas de barbear. No final daquele ano, foi apontado por um comitê liderado por Roberto Pontual como um dos jovens artistas de maior destaque no cenário nacional. Em fevereiro de 1975, obteve premiação do Jornal do Brasil no VII Salão de Verão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) ao expor estandartes inspirados no folclore nacional, incluindo um painel de Nossa Senhora Aparecida bordado por sua mãe.
Período Monástico (1980–1984) Após o falecimento de seu pai em 1978, Porto afastou-se temporariamente do circuito de arte contemporânea para ingressar na vida contemplativa no Mosteiro Beneditino de Vinhedo, onde permaneceu de 1980 a 1984. Influenciado pelas correntes da Teologia da Libertação e da filosofia marxista, sua produção desse período concentrou-se na representação de Cristos marginalizados, aquarelas inspiradas na estética zen-budista de Thomas Merton e releituras da Sagrada Família sob a ótica dos retirantes nordestinos.
Atuação Acadêmica e Pesquisa Ingresso na UNICAMP e Arte Homoerótica Ao deixar a vida monástica em 1984, foi convidado pelos docentes Berenice Toledo e Bernardo Caro para integrar o recém-constituído Departamento de Artes Plásticas da UNICAMP.Entrevista com Geraldo Porto – Programa Memória Científica (YouTube). Em 1987, concebeu uma exposição individual de grande porte no MACC inspirada nas fotografias do Barão Von Gloeden, composta por doze representações clássicas em tons de sépia sobre papel canson. A mostra de teor homoerótico contou com uma cenografia e sonorização provocativas (unindo ópera e punk rock) e garantiu a inclusão do nome de Porto no mapeamento histórico da arte homoerótica latino-americana coordenado pelo pesquisador belga Rudy Bleys, da Universidade de Louvain.
Estudo e Catalogação de Antônio Roseno de Lima A partir de 1988, Porto iniciou um trabalho sistemático de pesquisa e preservação da obra de Antônio Roseno de Lima (ARL), pintor primitivista e marginalizado que habitava uma favela em Campinas. Sendo o primeiro colecionador a adquirir formalmente suas produções, Porto organizou em 1991 a primeira exposição individual de Roseno na Galeria Casa Triângulo, em São Paulo, o que conferiu projeção nacional e cobertura midiática de massa ao artista bruto. O estudo crítico dessa obra fundamentou a dissertação de mestrado de Porto defendida na UNICAMP.
Curadoria no MACC e Produção Tardia Durante a década de 1990, atuou como Curador-Chefe do Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC), coordenando acervos e o intercâmbio entre artistas regionais e o poder público. No mesmo período, desenvolveu as séries pictóricas Arqueologias e Arquétipos, que incorporavam símbolos primitivos estruturados sob a influência geométrica do pintor uruguaio Joaquín Torres-García. Também atuou na curadoria para incorporação de grandes coleções ao acervo fixo da Galeria de Arte da UNICAMP.
Prêmios e Distinções Geraldo Porto. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. Menção Honrosa – VI Salão do Trabalho do SESC/SENAI, São Paulo (1967). Prêmio de Aquisição – IX Salão de Arte Contemporânea de Campinas (1974). Destaque Artístico Jovem – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1974). Prêmio Jornal do Brasil – VII Salão de Verão do MAM, Rio de Janeiro (1975).
Referências
Ligações externas Currículo Lattes de Geraldo Porto. Matéria sobre Antônio Roseno de Lima e Geraldo Porto – Jornal da Unicamp, edição 343 (Novembro de 2006). Artigo no Jornal da Unicamp (Formato PDF) – Edição 449, página 12 (Novembro de 2009).
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