A Primeira Campanha de Napoleão em Itália foi uma parte importante da Guerra da Primeira Coligação (1793-1797), a primeira das Guerras revolucionárias francesas iniciadas em 1792; foi a campanha decisiva para a vitória francesa e o fim da Guerra da Primeira Coligação; foi a primeira campanha militar em que Napoleão Bonaparte assumiu o comando de todas as forças francesas presentes no teatro de operações e foi aquela em que ele revelou as suas excepcionais qualidades militares.

Antecedentes thumb|right|300px|Situação poítica da Itália em 1796. A França revolucionária tomou a iniciativa da guerra em 1792. Inicialmente, a Áustria e a Prússia, seguidas pelo Reino da Sardenha, foram as únicas potências opositoras. No ano seguinte, após a execução de Luís XVI, formou-se a Primeira Coligação e as operações militares prolongaram-se na chamada Guerra da Primeira Coligação. No que respeita à Itália, os Franceses iniciaram as operações na fronteira italiana, a 23 de setembro de 1792, com uma incursão sobre o pequeno porto de Oneglia, na costa italiana, cerca de 85 Km para Leste de Nice. No entanto, a 18 de novembro, em Sospello, num encontro entre forças francesas e piemontesas (do Reino da Sardenha), estas últimas levaram a melhor o que, à semelhança do que aconteceu noutras frentes de combate, revelou as profundas falhas que a Revolução tinha criado na organização militar francesa. Durante o ano de 1792 não houve mais incidentes na fronteira entre a França e a Itália.Smith, pp. 27 e 33

Em todo o ano de 1793, não se verificaram mais que sete combates, os primeiro deles em Cagliari (14 de fevereiro) e em La Maddalena (22 de fevereiro), portos nas costas norte e sul da ilha da Sardenha. Os Franceses tiveram de retirar e não se verificaram mais acções nesta área durante a guerra. Nas outras acções, em Itália, os Franceses sofreram apenas uma derrota. Não se verificou nenhuma batalha importante mas pelo menos um dos combates envolveu mais de 10 000 homens do lado francês.Smith, pp. 41 a 66 No ano seguinte registaram-se sete combates (nenhuma batalha importante) e em dois deles os Franceses empenharam forças de efectivos perto dos 20 000 homens.Smith, pp. 72 a 97. Estas acções militares que nunca foram mais que combates de dimensão relativamente pequena, em geral sucessos por parte do Franceses, permitiram à França ocupar Saboia e levar as suas tropas até Savona, na costa mediterrânica. Durante o ano de 1795, os Franceses progrediram ligeiramente ao longo da costa. A principal acção foi a Batalha de Loano (23-25 de novembro) em que se distinguiu o general de divisão André Massena.Dupuy & Dupuy, p. 682.

Ao iniciar o ano de 1796, a Áustria era a única grande potência continental que se mantinha em guerra com a França. A Inglaterra, que também continuava em guerra com a França, desenvolvia a sua actividade no mar. Napoleão tinha influenciado o Directório e o seu plano, antes rejeitado por Carnot, acabou por ser adoptado. Algumas tentativas de desembarque de tropas francesas na Irlanda e até no País de Gales mostraram a impossibilidade de atacar as Ilhas Britânicas enquanto fosse a Inglaterra a dominar o mar. A Áustria, aliada da Inglaterra, como potência continental era vulnerável tanto pela Alemanha como pela Itália. Foi decidida uma grande ofensiva contra a Áustria. Para a derrotar, um exército avançaria pelo vale do Meno, outro pelo vale do Danúbio e um terceiro pelo vale do Pó e pelos vales dos Alpes austríacos.Nogaret, p. 11. Aqui, o objectivo era criar uma diversão para obrigar os Austríacos a desviar forças do principal teatro de operações onde o Armée de Sambre-et-Meuse, com cerca de 78 000 homens, sob o comando do general de divisão Jean-Baptiste Jourdan, e o Armée de Rhin-et-Moselle, com cerca de 80 000 homens, sob o comando do general de divisão Jean Victor Marie Moreau, lançariam a acção ofensiva principal, através da Alemanha.Connelly, p. 77. Na sua directiva para Napoleão, quando este assumiu o comando do Armée d'Italie (Exército de Itália), o Directório não pretendia mais que expulsar os Austríacos da Itália e considerava este objectivo suficientemente ambicioso.Barnett, p. 43.

O teatro de operações thumb|right|250px|Teatro de operações da Primeira Campanha de Napoleão em Itália. Quando se iniciou a Guerra da Primeira Coligação, em 1792, a Itália não era um Estado unificado como é hoje. Naquele tempo, a Itália estava dividida em várias entidades políticas. A situação era a seguinte:

Reino da Sardenha com as suas províncias de Saboia, Nice, Piemonte e Sardenha. As províncias de Nice e Saboia foram invadidas pela França em 1792 e, posteriormente, anexadas à República Francesa. República de Génova. Em 1974, os Franceses expulsaram as tropas do Piemonte para norte do Desfiladeiro de Tende e ocuparam o território da República de Génova até Savona. Houve uma tentativa de recuperar o território, feita pelas tropas austríacas, mas estas acabaram por ser obrigadas a recuar para as regiões montanhosas. Principado Episcopal de Trento, frequentemente referido como Bispado de Trento, domínio directo da dinastia de Habsburgo. República de Veneza. República de Lucca. Ducado de Parma e Piacenza. Ducado de Modena. Ducado da Toscânia. Província austríaca de Milão. Estados Pontifícios. Reino de Nápoles.

Para além da Província de Milão, os Austríacos exerciam uma grande influência nos ducados de Parma e de Módena embora estes estados fossem neutrais. Os outros estados não hostilizavam a França, mas também não estabeleciam com ela um bom relacionamento devido aos excessos violentos da Revolução. Estes estados tentaram, tanto quanto possível, manter uma posição de neutralidade no conflito. Em todos eles existia uma classe média onde se encontravam facilmente apoiantes dos ideais da revolução.Fiebeger, pp. 1 e 2.

A região costeira ao longo da qual encontramos as cidades de Nice, Loano, Savona e Génova, é conhecida como Riviera (Riviera Francesa e Riviera Italiana). O rio Pó nasce nos Alpes e corre para oriente, em direcção ao mar Adriático. A bacia hidrográfica do Pó, região rica de Itália, estava separada da Riviera por duas cadeias de montanhas, os Alpes Marítimos e o extremo Noroeste dos Apeninos.

Napoleão Bonaparte, comandante do Exército de Itália

O Exército de Itália foi criado em 1792, ano em que se iniciou a guerra. Após várias transformações, tinha no início de 1796 perto de 41 000 homens. Antes de Napoleão Bonaparte, tinha sido comandante deste exército o general Schérer, que tinha obtido, em novembro do ano anterior, na Batalha de Loano, uma vitória importante contra as forças austríacas e do Reino da Sardenha. No entanto, poucos apoios chegavam de França e a situação material e moral do exército degradou-se muito.

Em março de 1794, o general de brigada Napoleão Bonaparte, com apenas 24 anos, foi nomeado comandante da artilharia do Exército de Itália. Nestas funções, participou numa ofensiva bem-sucedida ao longo da costa mediterrânica e tornou-se a principal fonte dos planos operacionais, tal como já tinha acontecido em Toulon.Barnett, p. 36. Num memorando feito após esta operação militar, em Itália, em 1794, Napoleão escreveu:

[...] Com a finalidade de enfrentar a Áustria, devemos derrotar o Piemonte. [...] Uma vez no planalto do Piemonte, podemos afastar o Rei da Sardenha e expulsar os Austríacos da Lombardia. A Áustria deverá então trazer tropas do Reno para se defender em Itália e o nosso exército no Reno poderá adquirir vantagem sobre o exército austríaco que se lhe opõe. [...].WILKINSON, Spencer, The Rise of General Bonaparte, Oxford, 1930, p. 56, in Britt, p. 5.

Napoleão foi nomeado comandante do Exército de Itália a 2 de março de 1796. Deixou Paris no dia 10 desse mês, dois dias depois do seu casamento com Josephine, e assumiu o comando em Nice, no dia 26. A sua primeira tarefa seria a de fazer com que os restantes generais do Exército de Itália aceitassem a sua liderança. O mais novo destes generais, André Massena, era onze anos mais velho que Napoleão e todos tinham maior experiência de guerra. O marechal Marmont, duque de Ragusa, que serviu no Exército de Itália, inicialmente com o posto de Capitão, escreveu nas suas Mémoirs, I: [...] ele tinha a qualidade de comando na sua atitude, no seu olhar, na sua maneira de falar; e todos, vendo isto, entenderam estarem prontos a obedecer [...]. Portanto, na primeira reunião que teve com os seus subordinados directos, Napoleão conseguiu impor a sua autoridade e anunciou que queria fazer de imediato uma inspecção ao Exército para, em breve, dar início às operações ofensivas.

Em primeiro lugar, Napoleão reuniu um pequeno estado-maior; escolheu Berthier como chefe desse estado-maior. Como ajudantes-de-campo, Napoleão escolheu dois capitães que tinha conhecido no cerco de Toulon: Auguste Frédéric Louis Viesse de Marmont e Jean-Andoche Junot. Também foi colocado no Exército de Itália o tenente-coronel de cavalaria Joachim-Napoléon Murat que já tinha colaborado com Napoleão durante a repressão no 13 Vendémiaire, em Paris, e o seu irmão mais novo Louis, com 18 anos.Cornwall, pp. 48 e 49

Para além das muitas preocupações, antes de iniciar a ofensiva conta o Piemonte, Napoleão preocupou-se também em alterar o seu nome que, até aí, era sempre assinado Buonaparte, evidenciando a sua ascendência italiana. Desde o início do seu comando do Exército de Itália, Napoleão assinou o apelido Bonaparte.

Os planos franceses

A directiva de 2 de março, que nomeava Napoleão comandante do Exército de Itália, explicitava que o objectivo a atingir era [...] expulsar os Austríacos de Itália e obter tão cedo quanto possível uma paz gloriosa e duradoura [...]. Mas também pormenorizava alguns objectivos intermédios:

Derrotar os Piemonteses no início das operações militares para que, em consequência, o exército francês em Itália tivesse que se preocupar apenas com os Austríacos durante o resto da campanha. E especificava que as forças francesas deveriam apoderar-se de Ceva onde o comandante das forças devia abastecer o seu exército à custa dos recursos disponíveis no Piemonte.

Derrotar os Austríacos, empurrá-los para além do rio Pó e concentrar os esforços na direcção de Milão, capital da Lombardia, então sob domínio austríaco. Especificava a directiva que o Exército de Itália teria de obter por si só os meios para a travessia daquele rio e insistia na necessidade de obter recursos nos territórios ocupados.Cornwall, pp. 47 e 48.

A directiva deixava ao critério de Napoleão a escolha das rotas a seguir e os seus métodos tácticos. Apenas lhe eram fixados os principais objectivos estratégicos. Não fixava nenhum objectivo a atingir depois de Milão (e portanto, da Lombardia).

Situação do Exército de Itália no início de 1796

Napoleão assumiu o comando em circunstâncias especialmente difíceis. O Exército de Itália encontrava-se numa posição difícil, ao longo das alturas dos Alpes Marítimos, uma região acidentada e de poucos recursos que dificilmente supria as necessidades da sua população. Uma ténue linha de comunicações ligava Nice a Savona, uma estrada costeira inteiramente exposta à artilharia naval dos navios britânicos.