O Cine-Teatro de Ovar é um antigo cineteatro situado em Ovar, no distrito de Aveiro, em Portugal. Inaugurado em 30 de dezembro de 1944, localiza-se no gaveto formado pela Avenida do Bom Reitor e pela Rua Ferreira de Castro, junto à Igreja Matriz de Ovar e à entrada do Parque Urbano da cidade.
Durante várias décadas funcionou como sala de cinema, teatro e festas, tornando-se um dos equipamentos culturais de referência da cidade. Encerrado desde o início da década de 1990, entrou depois num processo de degradação física que culminou numa demolição parcial em 2016. Em 2018, foi adquirido pela Câmara Municipal de Ovar, que anunciou então a intenção de recuperar o imóvel e preservar a sua fachada principal.
Em 2024 e 2026, o edifício tornou-se objecto de controvérsia pública devido à intenção municipal de demolir integralmente o que restava do antigo cineteatro e criar no local a designada Praça Cine-Teatro de Ovar, como nova entrada do Parque Urbano. A decisão foi contestada por movimentos cívicos, partidos da oposição e personalidades ligadas às artes cénicas, que defenderam a preservação e reabilitação dos elementos sobreviventes do imóvel.
Arquitectura O Cine-Teatro de Ovar é identificado pelo Sistema de Informação para o Património Arquitectónico como um cine-teatro modernista. Foi projectado com 1246 lugares e era composto por volumes semicilíndricos e paralelepipédicos, conjugando elementos modernistas com características associadas à arquitectura do Estado Novo.
A antiga sala integrava uma sala de espectáculos e um salão de festas. Após a demolição parcial de 2016, subsistiram essencialmente a fachada principal, o vestíbulo de entrada, o salão de festas e uma das escadarias.
História O Cine-Teatro de Ovar foi inaugurado em 30 de dezembro de 1944. Foi fundado pela Empresa de Melhoramentos de Ovar Limitada e projectado pelos arquitectos Francisco Augusto e Luiz Helbling. O primeiro filme exibido na sala terá sido Sinfonia de Estrelas, apresentado no dia da inauguração.
O edifício ocupava uma posição central na malha urbana de Ovar, entre a Igreja Matriz e o Mercado Municipal, num ponto de articulação entre a Avenida do Bom Reitor, a Rua Ferreira de Castro e a zona que viria a integrar o Parque Urbano. A implantação próxima da igreja foi referida como tendo suscitado polémica desde a origem, pela proximidade entre um equipamento de lazer e um espaço religioso.
Ao longo da segunda metade do século XX, o Cine-Teatro de Ovar acolheu sessões de cinema, espectáculos, bailes e outras actividades culturais e recreativas. O edifício funcionou até ao início da década de 1990, entrando depois em progressivo abandono e degradação.
Degradação, derrocada e aquisição municipal Depois do encerramento no início da década de 1990, o edifício permaneceu sem utilização regular. A degradação acentuou-se nas décadas seguintes, tendo a situação sido agravada por problemas estruturais e pela falta de obras de conservação. Em agosto de 2016, na sequência da derrocada de parte da estrutura, a Câmara Municipal de Ovar tomou posse administrativa do imóvel e promoveu uma intervenção de segurança que levou à demolição de parte substancial do edifício, incluindo a zona do auditório.
Em 2018, a Câmara Municipal adquiriu o imóvel por 375 mil euros, com o presidente da autarquia, Salvador Malheiro, a considerar o edifício como um dos mais carismáticos da comunidade vareira, afirmando que a intenção municipal era recuperá-lo e adaptá-lo a novas valências. O projecto anunciado previa que parte do imóvel fosse reservada para uma nova entrada no Parque Urbano, destinando-se o restante a serviços de turismo e a actividades pontuais de cinema e teatro, para não apagar a missão original do edifício. A autarquia indicou ainda que a fachada principal seria preservada.
Apesar dessas intenções, a solução definitiva para o espaço foi sendo adiada. Em 2024, a imprensa regional descrevia o antigo cineteatro como uma ruína cada vez mais degradada, sem utilização desde a década de 1990, e referia que apenas cerca de um terço do edificado original sobrevivia.
Pedido de classificação e protecção patrimonial Em julho de 2024, o Movimento 2030 apresentou um requerimento de classificação do Cine-Teatro de Ovar. O pedido deu origem a apreciação pelo Património Cultural, I.P., que viria a propor o arquivamento do processo de classificação de âmbito nacional, por o edifício se encontrar há muito parcialmente demolido. O despacho de arquivamento foi proferido em 27 de setembro de 2024 e comunicado ao requerente e à Câmara Municipal de Ovar em 11 de outubro do mesmo ano.
A ficha do Património Cultural assinala, por isso, a situação do imóvel como «procedimento encerrado / arquivado — sem protecção legal», não sendo aplicável uma categoria de protecção nacional. Apesar do arquivamento, a informação remetida no processo observava que o valor patrimonial do edifício era relevante, atendendo à sua concepção arquitectónica, valor estético e reflexo na memória colectiva, embora a sua situação física e a demolição parcial condicionassem a possibilidade de classificação nacional. O processo foi posteriormente remetido à Câmara Municipal de Ovar para ponderação de eventual classificação de âmbito municipal.
Polémica sobre a demolição A intenção de demolir integralmente o que restava do Cine-Teatro de Ovar gerou contestação pública em 2024. A petição «Demolição do Cine Teatro de Ovar, Não!», subscrita por 1031 peticionários e apresentada pelo Movimento 2030, deu entrada na Assembleia da República em 22 de outubro de 2024. Os peticionários defenderam que o antigo cineteatro constituía um marco da história e da cultura da cidade, opuseram-se à demolição total e pediram a conservação e reabilitação do edificado existente.
Na audição parlamentar de dezembro de 2024, os peticionários afirmaram que a demolição implicaria uma perda irreversível de património edificado e defenderam uma solução de reabilitação do edifício e de requalificação da envolvente. Durante a discussão parlamentar, foram também referidas posições distintas sobre o tema: deputados da oposição sublinharam a memória colectiva e a possibilidade de preservação integrada, enquanto representantes do PSD salientaram que quase todo o imóvel já tinha sido demolido por questões de segurança e que Ovar possuía desde 2009 outro equipamento cultural de grandes dimensões, o Centro de Artes de Ovar.
A polémica prolongou-se nos anos seguintes. Em maio de 2026, a imprensa local noticiou que a Câmara Municipal de Ovar adjudicara à empresa Saavedra — Arquitetura, Engenharia e Imobiliária, Lda. a elaboração dos projectos de especialidades para a «Requalificação do Espaço Público — Entrada Principal do Parque Urbano de Ovar», pelo valor de 40 500 euros e com prazo de execução de 60 dias. O contrato incluía projectos de demolição, contenção periférica, terraplanagens, estabilidade, iluminação pública e arranjos exteriores.
O município pretendia criar no local a Praça Cine-Teatro de Ovar, um espaço cultural ao ar livre associado à entrada do Parque Urbano. A oposição à demolição alegou, além da perda de memória histórica, o impacto urbanístico da remoção da fachada, designadamente a exposição de uma empena cega de sete pisos do edifício contíguo, junto à Igreja Matriz e a uma das principais artérias da cidade.
Várias personalidades ligadas ao teatro, incluindo os actores Diogo Infante, Joaquim Nicolau e José Raposo, foram referidas pela imprensa local como tendo manifestado apoio à preservação do antigo cineteatro.
Propostas de reabilitação Apesar da opção municipal pela demolição total, foram divulgadas propostas alternativas de reabilitação. Em 2020, uma dissertação apresentada na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto propôs a recuperação dos elementos sobreviventes do antigo edifício e a sua articulação com um novo volume, destinado à criação de um Museu do Carnaval de Ovar. A proposta partia da preservação da memória do cineteatro e da sua importância para a cidade, combinando a ruína existente com novas funções culturais.
No debate público e parlamentar, foram também sugeridos usos alternativos para o que restava do edifício, incluindo espaços expositivos, áreas de convívio, serviços de apoio ao turismo, integração com o Parque Urbano e eventual uso como suporte para espectáculos ao ar livre.
Estado actual Em outubro de 2024, o Diário de Aveiro descrevia o antigo Cine-Teatro de Ovar como abandonado desde a década de 1990 e em acentuado estado de degradação, restando cerca de um terço do edificado original. A autarquia declarou então que o que sobrevivia se encontrava «significativamente degradado», com risco de, a curto ou médio prazo, apresentar novos problemas de segurança pública.
Em maio de 2026, o estado do processo era o de avanço administrativo da demolição total, com adjudicação dos projectos técnicos necessários à intervenção. Segundo a imprensa local, a solução municipal prevista passava pela remoção dos vestígios sobreviventes do cineteatro e pela criação da Praça Cine-Teatro de Ovar como espaço público e entrada principal do Parque Urbano.
Categoria:Ovar Categoria:Teatros de Portugal Categoria:Salas de cinema de Portugal Categoria:Arquitetura modernista em Portugal Categoria:Património edificado em Ovar Categoria:Fundações em Portugal em 1944 Categoria:Antigos cinemas