A Capela de Nossa Senhora de Monserrate, também referida como Ermida de Nossa Senhora de Monserrate, é uma capela católica situada no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, Portugal. Encontra-se edificada sob um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres, junto ao Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, na antiga zona manufactureira das Amoreiras.

Foi construída em 1768 por iniciativa dos fabricantes de seda ligados à Real Fábrica das Sedas, tendo sido dedicada a Nossa Senhora de Monserrate em homenagem à padroeira dos artífices franceses que trabalharam naquela unidade manufactureira. A capela integra o conjunto patrimonial associado ao Aqueduto das Águas Livres.

História

Origem e ligação à Real Fábrica das Sedas

A origem da capela está ligada à comunidade de mestres e oficiais da seda instalada nas Amoreiras no âmbito da política manufactureira pombalina. A zona fazia parte do programa urbano associado à Real Fábrica das Sedas, que incluía habitações-oficina para fabricantes e artífices, bem como espaços de sociabilidade e assistência religiosa.

A devoção a Nossa Senhora de Monserrate antecede a construção do templo actual. Segundo documentação da Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate, os mestres fabricantes de sedas largas deram início, em 1 de agosto de 1761, a uma capela dedicada à Senhora, cuja imagem se encontrava até então numa barraca de madeira relacionada com os religiosos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, após o terramoto de 1755.

Um documento de 1787 refere que a irmandade fora erigida para nela se incorporarem os artífices das corporações das Reais Fábricas, seguindo o modelo de outras confrarias profissionais lisboetas. A pertença à confraria seria condição indispensável para os indivíduos que trabalhassem em teares de seda.

Construção e protecção régia

A capela actual foi concluída em 1768, sendo nesse ano transferida a imagem de Nossa Senhora de Monserrate para o novo templo, com festas solenes em honra da padroeira, na presença da família real. Um alvará de D. José I, datado de 17 de junho de 1768, confirmou a doação do terreno da ermida e das casas anexas à Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate, situando expressamente o edifício no vão do quinto arco das Águas Livres, fora da Praça da Fábrica da Seda.

O mesmo enquadramento régio colocou a capela sob protecção directa do monarca e isentou-a da sujeição ordinária à paróquia de Santa Isabel. A documentação estudada por Mangucci, Câmara e Verão mostra que a capela e as suas dependências foram financiadas por esmolas, contribuições dos fabricantes e donativos de devotos ligados à fábrica.

A localização sob o aqueduto corresponde a uma integração particularmente invulgar entre arquitectura religiosa, infra-estrutura hidráulica e urbanismo manufactureiro. O projecto inicial da ermida é associado a Carlos Mardel, arquitecto ligado às obras do Aqueduto das Águas Livres e ao planeamento da praça e do bairro das Águas Livres; após a sua morte, a execução terá contado com acompanhamento de Miguel Ângelo de Blasco.

Arquitectura esquerda|miniaturadaimagem|333x333px|Interior da capela de Monserrate A capela encontra-se implantada sob um dos arcos do Aqueduto das Águas Livres, no Jardim das Amoreiras, junto à Rua das Amoreiras. A sua planta é de configuração oitavada, adaptada ao espaço disponível sob a arcaria, com capela-mor destacada e dependências anexas.

O interior apresenta painéis de azulejos azuis e brancos, cúpula simples com pintura a têmpera e altares em talha marmoreada de influência rococó. A fachada e a volumetria do edifício foram condicionadas pela sua implantação no vão do aqueduto; segundo o estudo publicado nos Cadernos do Arquivo Municipal, a fachada avançou ligeiramente para fora dos arcos em relação ao desenho inicial, permitindo ganhar altura e resolver a concordância com a estrutura envolvente.

Azulejaria e decoração

Um dos elementos artísticos mais relevantes da capela é o seu conjunto azulejar. Os azulejos foram encomendados à Real Fábrica de Louça do Rato, instituição que, tal como a Real Fábrica das Sedas, se inscrevia no contexto manufactureiro pombalino da zona.

O estudo de António Celso Mangucci, Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara e Teresa Verão transcreve um recibo de 9 de setembro de 1783, assinado por João Anastácio Botelho de Almeida, mestre da Fábrica de Louça, relativo ao pagamento de 95$544 réis por azulejos executados para a Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate. Os painéis integram um programa ornamental de carácter religioso e emblemático, relacionado com a devoção mariana e com modelos gráficos europeus do século XVIII.

Além dos azulejos interiores, o muro voltado para a Rua das Amoreiras possui painéis setecentistas aí colocados em 1950, provenientes da Igreja de São Lourenço de Carnide.

Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate

A capela esteve historicamente ligada à Irmandade de Nossa Senhora de Monserrate, associação religiosa e profissional dos fabricantes de seda das Amoreiras. Roberto Godin, figura central na primeira fase da Real Fábrica das Sedas, surge registado como primeiro irmão da confraria em 1761.

A irmandade desempenhava funções de culto, reconhecimento profissional e assistência social. Além da protecção espiritual dos fabricantes, auxiliava irmãos em caso de doença e tinha responsabilidades práticas no universo manufactureiro, incluindo a manutenção das amoreiras plantadas na praça e o apoio à criação de bichos-da-seda.

Conservação e uso actual

Ao longo dos séculos XIX e XX, a capela manteve-se como espaço religioso e sofreu pequenas intervenções de conservação. O estudo sobre os azulejos refere obras interiores e exteriores realizadas em 1928, bem como processos municipais posteriores relativos a reparações e conservação do edifício.

Actualmente, a capela continua afecta ao culto católico. No Patriarcado de Lisboa surge associada à paróquia de São Mamede, com celebração dominical às 10h30. A sua localização no Jardim das Amoreiras e a proximidade à Mãe d'Água das Amoreiras fazem dela também um ponto de interesse em percursos patrimoniais dedicados ao Aqueduto das Águas Livres, à Real Fábrica das Sedas e à história urbana das Amoreiras.

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