Em 17 de janeiro de 2022, o movimento Hutis no Iémen realizou um ataque terrorista utilizando drones e mísseis balísticos contra os Emirados Árabes Unidos, alvejando três caminhões-tanque de petróleo e uma infraestrutura de extensão de aeroporto em construção em Abu Dhabi. Embora vários mísseis e drones tenham sido interceptados, 3 civis foram mortos e 6 ficaram feridos por um ataque de drone.

Antecedentes Desde 2014, o Iémen está envolvido numa guerra civil. Os rebeldes são liderados pelo Conselho Político Supremo, composto e liderado principalmente pelo movimento xiita conhecido como movimento Hutis. Estas forças são contra o governo de Mansur Hadi. Uma intervenção liderada pela Arábia Saudita no Iémen, que inclui os Emirados Árabes Unidos, interveio em 2015 para apoiar e auxiliar as forças do governo Hadi. A Arábia Saudita e seus apoiadores acusaram a República Islâmica do Irã de apoiar e usar os Hutis como proxies, o que o Irã negou. Os Emiários Árabes Unidos desempenham um papel significativo na guerra, fornecendo grande assistência a milícias pró-governo, incluindo as Brigadas dos Gigantes.

Ao longo do conflito, considerado uma das maiores crises humanitárias do mundo, os Hutis realizaram numerosos ataques fora do Iémen, principalmente contra a Arábia Saudita. Muito poucos dos seus ataques ocorreram fora da Arábia Saudita e do Iémen. Embora os Hutis tenham continuamente afirmado ter organizado múltiplos ataques nos Emirados Árabes Unidos antes de 2022, estas alegações foram negadas pelas autoridades emiratis.

Em 2019, as forças Hutis anunciaram ter atacado uma importante instalação petrolífera da Arábia Saudita. O governo saudita acusou o Irã de cumplicidade nos ataques, o que este negou. Investigações das Nações Unidas encontraram poucas evidências de que uma operação tão sofisticada pudesse ter sido realizada pelos Hutis sem assistência direta de uma potência estrangeira. Em 2020, em retaliação ao que considerou ser uma ameaça à região, os Estados Unidos assassinaram o major-general iraniano Qasem Soleimani, aprofundando ainda mais a instabilidade no Médio Oriente, enquanto as forças pró-iranianas lutavam para manter a sua posição na região. Em 2021, paramilitares xiitas iraquianos tentaram assassinar o Primeiro-Ministro iraquiano Mustafa Al-Kadhimi, marcando um importante ponto de viragem na história da região. Figuras pró-sauditas e pró-ocidentais acusaram o Irã de fornecer os drones aos perpetradores. O Irã negou qualquer ligação ao ataque e condenou a tentativa de matar Kadhimi. Em 2021, Joe Biden removeu os Hutis da lista de organizações terroristas dos Estados Unidos, com o fundamento de que, caso contrário, os civis iemenitas não conseguiriam obter ajuda humanitária.

Em 11 de janeiro de 2022, os Hutis perderam três distritos durante os confrontos em curso na Província de Chabua para as Brigadas dos Gigantes, treinadas pelos Emirados, resultando no colapso da sua campanha para ganhar os distritos de Ain, Bayhan e Usaylan. Os planos dos Hutis para liderar uma ofensiva na cidade iemenita de Ma'rib também foram frustrados.

Poucos dias antes do ataque à cidade, e no segundo aniversário da morte de Qasem Soleimani, os Hutis capturaram e invadiram o navio de carga emirati Rwabee perto de Al Hodeida, que alegaram estar a transportar equipamento militar que os Emirados planeavam fornecer às forças pró-governo. A coligação disse que o navio transportava equipamento hospitalar. Em resposta às perdas territoriais dos Hutis nos distritos de Ain, Bayhan e Usaylan no Iémen, que foram frustradas pelas Brigadas dos Gigantes, os Hutis lançaram um ataque com drones e mísseis que chamaram de "Operação Furacão do Iémen" sobre Abu Dhabi, matando 3 civis e ferindo outros 6 com um ataque de drone.

Ataque Por volta das 10:00 da manhã de 17 de janeiro de 2022, drones atingiram três veículos de abastecimento de combustível numa refinaria de petróleo da Abu Dhabi National Oil Company em . Um porta-voz militar Hutis disse que o grupo disparou "um grande número" de drones e cinco mísseis balísticos no ataque. Os Emirados Árabes Unidos afirmaram que vários mísseis e drones foram interceptados. Um ataque de drone simultaneamente incendiou uma extensão do Aeroporto Internacional de Abu Dhabi, sem mortes registadas. A identificou dois nacionais indianos e um paquistanês mortos pelo ataque, Seis pessoas ficaram feridas pelos ataques de drone.

Um estudo da Associated Press de fotos de satélite tiradas pela Planet Labs revelou fumo a subir acima da instalação da ADNOC. Imagens tiradas após o bombardeio mostraram "marcas de queimado e espuma branca de supressão de incêndio" no chão da instalação.

Pouco depois dos ataques, as autoridades sauditas relataram que tinham acabado de intercetar nove mísseis lançados pelos Hutis em direção à Arábia Saudita.

Yahia Sarei, o porta-voz militar Hutis, reivindicou a responsabilidade pelo ataque em nome da organização. Autoridades Hutis também afirmaram que drones tinham atingido um aeroporto na cidade de Dubai, mas o governo emirati não encontrou qualquer evidência de tal ataque.

Vítimas Três civis foram mortos durante o ataque. Eles foram identificados como dois cidadãos indianos do Panjabe: Hardeep Singh, de 28 anos, e Hardev Singh, de 35 anos; e um cidadão paquistanês, Mamoor Khan, de 29 anos, natural do Vaziristão. Os corpos das vítimas foram repatriados para suas casas na Índia e no Paquistão, respectivamente.

Outros seis civis ficaram feridos, incluindo dois egípcios, dois indianos e dois paquistaneses.

Consequências O governo emirati condenou imediatamente o ataque. O Ministro das Relações Exteriores e Cooperação Internacional, Abdullah bin Zayed Al Nahyan, prometeu que os Emirados Árabes Unidos não recuariam diante dos "responsáveis por este ataque ilegal ao nosso país" e que responsabilizariam os Hutis por suas ações.

Uma investigação preliminar das autoridades emiratis apoiou as alegações dos Hutis de um ataque com drone, bem como a presença de mísseis balísticos e de cruzeiro.

Os Emirados procederam a pedir ao Secretário de Estado americano, Antony Blinken, que restabelecesse os Hutis na lista de entidades terroristas dos EUA. O presidente americano Joe Biden prometeu reconsiderar essa designação em resposta. O príncipe herdeiro Mohamed bin Zayed Al Nahyan telefonou ao Ministro das Relações Exteriores indiano S. Jaishankar no dia seguinte, expressando empatia pelas vítimas indianas do ataque e suas famílias.

Em 21 de janeiro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma resolução denunciando "nos mais fortes termos os hediondos ataques terroristas em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, na segunda-feira, 17 de janeiro, bem como em outros locais na Arábia Saudita."

Em 24 de janeiro de 2022, as Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos interceptaram mais dois mísseis balísticos dos Hutis com destino à em Abu Dhabi. A base aérea também abriga tropas dos EUA.

A Brigada dos Gigantes iemenita, apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, continuou a avançar na região produtora de energia de Ma'rib, no Iémen, contra os Hutis, apesar dos avisos do movimento alinhado ao Irã de novos ataques aos Emirados Árabes Unidos. Em 25 de janeiro de 2022, eles anunciaram ter assumido o controle do Distrito de Harib, um distrito em Ma'rib onde a Brigada dos Gigantes havia entrado duas semanas antes.

Retaliação A intervenção liderada pela Arábia Saudita no Iémen anunciou mais tarde naquele dia que havia retaliado com ataques aéreos contra alvos Hutis em Saná. Um meio de comunicação afiliado à Arábia Saudita noticiou inicialmente que onze pessoas haviam sido mortas. O The Washington Post e meios de comunicação pró-Hutis relataram estimativas de vítimas em 14 mortos e 11 feridos. Entre os mortos estava o Major-General Abdullah Qassem al-Junaid, um oficial Hutis e ex-líder da academia da força aérea Hutis em Saná, e muitos membros de sua família, incluindo sua esposa e seu filho de 25 anos. Um ataque aéreo numa prisão localizada na cidade de Sadá matou cerca de 80 pessoas.

Os ataques foram descritos pela Reuters como os "ataques mais mortais da coligação em Saná, no Iémen, desde 2019".

Reações O ataque gerou indignação por parte do Conselho de Cooperação do Golfo, especialmente da Arábia Saudita, que descreveu os eventos como um "covarde ataque terrorista". O Coronel saudita descreveu o ataque como um crime de guerra. A coligação liderada pela Arábia Saudita anunciou que seria realizada uma operação de dissuasão abrangente em resposta ao ataque. Bahrein, Omã, Catar, Iraque e Kuwait emitiram fortes condenações aos ataques em Abu Dhabi. A eles juntaram-se a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica.

O Iémen, de onde os Hutis operam, denunciou veementemente o incidente, descrevendo-o como uma escalada da guerra e um ato de terror.

Pouco depois do ataque ser noticiado, o ministro das Relações Exteriores do Egito, , denunciou o incidente, manifestando solidariedade com os Emirados.

O ministro das Relações Exteriores indiano, S. Jaishankar, classificou o ataque como "inaceitável" e expressou "choque e as mais profundas condolências aos que morreram", enquanto "orou pela rápida recuperação dos feridos".

O Conselheiro de Segurança Nacional americano, Jake Sullivan, apelou para que os perpetradores fossem responsabilizados e afirmou que o "compromisso americano com a segurança dos Emirados Árabes Unidos é inabalável, e estamos ao lado dos nossos parceiros emiratis contra todas as ameaças ao seu território."

O primeiro-ministro israelense Naftali Bennett twittou sua condenação do "ataque terrorista com drone", enviando uma carta de condolências a Mohamed bin Zayed por meio de seu porta-voz. No dia seguinte, disse ao Fórum Econômico Mundial num discurso que o Irã estava a financiar operações terroristas no estrangeiro, o que foi interpretado como uma referência ao ataque em Abu Dhabi.

O primeiro-ministro paquistanês Imran Khan telefonou ao xeque Mohamed bin Zayed, dizendo-lhe que estava chocado com os ataques e solidário com os Emirados. O Paquistão perdeu um cidadão nos ataques. Em 18 de janeiro, a porta-voz russa Maria Zakharova condenou a "provocação contra instalações de infraestrutura civil nos amigos Emirados Árabes Unidos". A Rússia expressou preocupação de que tais ataques pudessem alargar-se dos Emirados Árabes Unidos a outras nações. O membro da Duma expressou críticas significativas aos Hutis, alertando que quaisquer novos ataques resultariam no descarrilamento do . O porta-voz das relações exteriores da Turquia, Mevlüt Çavuşoğlu, teve uma conversa telefónica com o xeque Mohamed bin Zayed, na qual denunciou o evento.

O Irã respondeu mais tarde do que outros países. No dia seguinte ao ataque, o Ministério das Relações Exteriores iraniano emitiu um comunicado afirmando que "a solução para qualquer crise regional não é recorrer à guerra e à violência", em resposta ao que classificou como novos "desenvolvimentos relacionados com o Iémen". Embora o comunicado não mencionasse explicitamente o ataque em Abu Dhabi, o evento estava implícito.

Além destes países, Argentina, Etiópia, Japão, Alemanha, Tunísia, Líbano, Singapura, Malásia, Jordânia, Sudão, Itália, Reino Unido, a União Europeia e Marrocos expressaram fortes condenações dos ataques.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, denunciou os eventos apelando à manutenção da estabilidade na região. Numa declaração, Guterres condenou o ataque, considerando que os ataques a civis e infraestruturas civis são proibidos pelo direito internacional. O ministro das Relações Exteriores francês, , expressou sentimentos semelhantes.

O porta-voz dos Hutis, Mohammed Abdel Salam, justificou o ataque, alertando para qualquer nova tentativa das forças pró-sauditas de intervir no Iémen contra os Hutis, e ameaçou lançar mais ataques.

Os ataques foram congratulados por uma série de paramilitares xiitas iraquianos, incluindo o Kata'ib Hezbollah.