Sóror Madalena da Glória (1672 - c. 1760), nascida Madalena Eufémia de Vilhena, também conhecida como Leonarda Gil da Gama, foi uma religiosa do Convento de Nossa Senhora da Esperança e escritora portuguesa do período barroco. Publicou literatura de caráter espiritual, sob a forma de verso ou prosa, servindo-se de géneros textuais como a hagiografia e a novela alegórica.
Biografia
Nascimento Sóror Madalena da Glória, batizada Madalena Eufémia de Vilhena, nasceu em 11 de Maio de 1672. Era de família nobre, filha de Henrique de Carvalho e Sousa, senhor da Azambujeira e Provedor das Obras do Paço de Sintra, e de D. Helena de Távora, também poetisa. O local de nascimento é incerto: o abade Castro e Sousa a declara natural do Paço de Sintra; porém, no “Termo de preguntas feitas a Dona Magdalena Eufemia de Vilhena”, consta que nasceu em Lisboa, em freguesia incerta. Possivelmente tratar-se-á da freguesia de Santa Catarina, onde a sua mãe nascera e se casara, além de ser a freguesia em que se situava o mosteiro onde Madalena da Glória professou.
Profissão religiosa Depois de dez meses de noviciado, Madalena Eufémia de Vilhena teve a sua profissão religiosa no Mosteiro da Esperança (ou Convento de Nossa Senhora da Esperança), a 25 de março de 1688, sob o nome Madalena da Glória. Pertencia à Ordem dos Frades Menores (Ordem das Irmãs Clarissas Capuchinhas).
Desconhecem-se as razões para a sua entrada no convento, mas especula-se que possa ter estado relacionada à morte do seu pai, assassinado numa briga, e que levou a sua mãe a fechar-se em casa por 14 anos. No entanto, não é possível averiguar a veracidade desta hipótese, por ser desconhecida a data de óbito de Henrique de Carvalho e Sousa.
Início da produção literária É difícil saber como terá sido alfabetizada, mas confirma-se que, em 1688, Madalena da Glória sabia ao menos assinar. Há também indícios de que já nos primeiros anos da autora no convento ela se dedicou à aprendizagem da arte literária. Sóror Madalena foi discípula de Sóror Maria do Céu, religiosa escritora que residia no mesmo convento desde 1676.
Astro Brilhante em Novo Mundo é considerada a sua primeira obra, editada em 1733, mas desconfia-se que alguns manuscritos seus, hoje desaparecidos, possam ter circulado antes disso, pois na data referida ela já era conhecida e lida. Seguiu-se a publicação de mais cinco obras, todas sob o pseudónimo Leonarda Gil da Gama, anagrama do seu próprio nome (com a grafia da época, Magdalena da Glória). Dado o lapso temporal entre a data da sua profissão (aos 16 anos) e a data de publicação da sua primeira obra (aos 61 anos), o mais provável é que tenha prescindido da divulgação de seus escritos por imitação da humildade materna, como era aliás comum entres mulheres escritoras. A sua mãe, D. Helena de Távora, teria escrito quatro volumes de poesia, condenados à fogueira aquando da sua entrada no convento.
Receção da obra Os seus livros foram muito aplaudidos pelos leitores de seu tempo, que a denominavam “Fénix dos Engenhos”. Como era costume na época, as obras vinham endossadas de paratextos nos seus preliminares, como textos laudatórios. No caso da escritora, estes eram bastante numerosos, e permitem confirmar que os seus textos circulavam amplamente, não só dentro da comunidade conventual, nem apenas entre uma rede de leitoras femininas das casas nobres e dos palácios, estendendo-se a um leitorado mais amplo. Entre os paratextos das obras de Madalena da Glória constavam também alguns de sua própria autoria, como prefácios, assinados.
Soror Madalena da Glória assinou todos os seus livros sob o pseudónimo anagramático Leonarda Gil da Gama, e descrevia-se “natural da serra de Sintra”, talvez sinalizando o local onde nasceu e possivelmente cresceu, ao mesmo tempo em que o vocábulo “serra” sugere um espaço rústico e isolado. O uso do pseudónimo não parece servir o propósito de encobrir a sua verdadeira identidade, pois é reconhecida pelos seus contemporâneos e, desse modo, fica evidente que não há secretismo em redor de seu nome.
Obra A obra de Sóror Madalena da Glória enquadra-se num contexto de produção literária monástica feminina dos séculos XVII e XVIII em Portugal. Podemos relacionar a sua obra com a da já referida Sóror Maria do Céu, ou mesmo outras, como Sóror Violante do Céu e Sóror Mariana Alcoforado.
O seu primeiro livro, Astro Brilhante em novo mundo, é uma biografia de Santa Rosa de Lima, que morrera em 1617, mas cujo dia de festa se incluíra no calendário romano em 1727, apenas seis anos antes de Sóror Madalena decidir publicá-lo.
Também Aguia Real (1744) é uma hagiografia, desta vez de Santo Agostinho. Já Brados do Desengano (1739) e Orbe Celeste (1742) reúnem textos em prosa e verso.
Orbe Celeste, adornado de brilhantes estrellas e dous ramilhates é composto por três textos. O primeiro, "Orbe Celeste", reúne textos em prosa e verso sobre vários santos e figuras bíblicas. Os dois últimos textos são, na sua maioria, poéticos: “Ao lado de Cristo na cruz. Ramalhete de várias Flores colhidas no campo da consideração” e “Ramalhete colhido pela malencolia no campo do divertimento”.
Reyno da Babylonia, uma novela alegórica moral, é o seu volume mais estimado, devido, em grande parte, à presença de ilustrações (emblemas) do prestigiado gravador Debrie.
A alegoria moral assume uma posição central na produção literária barroca. Está em todo caso de acordo com a ética de Horácio, prodesse ac delectare, que estabelecia então um dos critérios para a publicação e circulação das obras, cujas intenções deveriam ser sempre didático-recreativas. Numa narrativa alegórica há sempre dois níveis de sentido: o primeiro, literal, funciona como disfarce do segundo nível, figurado, onde reside uma ideologia.
Reyno da Babylonia desenvolve o tema da Alma que percorre o mundo em busca da salvação eterna. É, portanto, um texto de espiritualidade que se serve da ficção para transmitir uma mensagem moral. A ação desenrola-se segundo um modelo de batalha entre forças do Bem e do Mal e obedece um esquema de progresso e ascensão dos protagonistas do mundo terreno até Deus. Aqui, a personagem Angelica (Alma) revela sentimentos hesitantes pelo Príncipe, Filho do Supremo Imperador (Cristo), por quem não sabe se nutre devoção ou desprezo. A sua inconstância deve-se a ela estar dividida entre o prazer sensorial e o dever moral, que a culpabiliza. A culpa é um mecanismo de auto-censura que a impulsiona a alterar o seu comportamento para ascender a Deus. Angelica conta com a ajuda de Esperança, Fé, Penitência e Fervor, personagens também alegóricas, para traçar um caminho de renúncia e aniquilação do «eu» e dedicação abnegada do seu amor ao Príncipe, atingindo a recompensa da salvação eterna.
Apesar da fama em vida, todas as obras de Sóror Madalena da Glória caem rapidamente no esquecimento. Nota-se que em 1858 já pareciam não circular e eram pouco lidas. Atualmente, os exemplares disponíveis são raros e estão dispersos.
Obras impressas
Astro Brilhante em novo mundo, fragrante flor do Paraíso, plantada no Jardim da America. Historia Panegyrica de Santa rosa de Santa Maria. Lisboa, Pedro Ferreira, 1733. Novena de Santa Rosa de Sancta Maria. Lisboa, Officina da Musica 1734. Brados do Desengano, contra o profundo sonmno do esquecimento, em tres historias exemplares, para melhor conhecer-se o pouco que duram as vaidades do mundo. etc Lisboa, Miguel Rodrigues, 1736; Segunda Parte, Lisboa, Officina da Musica, 1739. Orbe Celeste, adornado de brilhantes estrellas e dous ramilhates etc, Lisboa, Pedro Ferreira, 1742. Aguia Real, Fenix abrasado e Pelicano amante. Historia panegyrica, e vida prodigiosa do inclyto patriarcha Sancto Agostinho. Lisboa, Officina Pinheirense de Musica, 1744. Reyno de Babylonia ganhado pelas armas do Empyreo: discurso moral, etc, Lisboa, Pedro Ferreira, 1749.
Obra manuscrita desaparecida
Obsequio de huma alma devota oferecida à Sagrada Imagem do Senhor dos Passos que se venera no Colégio de S. Paulo dos Missionários Ingleses.
Bibliografia e ligações externas ARAÚJO, Filipa Marisa Gonçalves Medeiros, "Brados do desengano: a escrita conventual feminina no século XVIII e o caso de Leonarda Gil da Gama" Colóquio Por prisão o Infinito, Porto, 2011.
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__________, Brados do desengano contra o profundo sono do esquecimento. Miguel Rodrigues, 1736
__________, Brados do desengano contra o profundo sono do esquecimento. II parte. Oficina da Música, 1739.
__________, Orbe celeste adornado de brilhantes estrelas e dois ramilhetes: hum colhido pela consideração, outro pelo divertimento. Pedro Ferreira, 1742
__________, Aguia real, fenix abrazado, pelicano amante. Historia panegyrica, e vida prodigioza do inclito Patriarca, que alcançou ouvir da boca de Deos o titulo de grande S. Agostinho. Oficina Pinheirense da Música, 1744.
__________, Reyno de Babylonia, ganhado pelas armas do empyreo. discurso moral. Pedro Ferreira, 1749.
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