Os becritas ou Banu Becre ibne Uail () foram uma tribo árabe que pertenceu ao grupo dos rebiaítas, um ramo dos adenanitas.
Genealogia
Os becritas pertenciam ao grande agrupamento tribal dos rebiaítas e eram aparentados aos abuceus. Segundo a sistematização genealógica tradicional apresentada por Kindermann, seu ancestral epônimo, Becre, era filho de , que descendia de Jadila, Açade e Rebia; por meio deste, a linhagem remontava a Nizar ibne Maade ibne Adenane. Uail era igualmente considerado ancestral dos taglibitas, enquanto Abede Alcaice, ancestral dos abuceus, pertencia ao mesmo ramo de Jadila. Os genealogistas árabes medievais atribuíam a Becre os filhos Ali, Iascur e Badane, dos quais se originaram diferentes ramos da tribo. A estrutura interna atribuída aos becritas compreendia numerosas subdivisões. No esquema genealógico apresentado por Donner, de Ali ibne Becre descendia Sabe, de cuja linhagem procediam Lujaime e Uqueba. Lujaime era ancestral de Hanifa e Ijel; de Hanifa descendia um ramo chamado Dul, enquanto Ijel era apresentado como pai de Sade e Rebia. Uqueba, por sua vez, era pai de Talaba, de quem descendiam Taime Alate, Caice, Dul e Xaibane, além de outros descendentes não identificados nominalmente no esquema. A linhagem de Taime Alate é registrada mais detalhadamente como Taime Alate ibne Talaba ibne Uqueba ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail. Na genealogia tribal examinada por Caskel, os talabaítas figuravam no mesmo nível que os ijelitas e hanifaítas, enquanto os iascuritas se encontravam três gerações acima deles.
História
Período pré-islâmico
Os becritas habitavam a região de Iamama. Naquele tempo, esta compreendia: (antiga Alirde), seus afluentes Lua (Xaibe Ha), Niça e Açulai, o distrito de , ao sul, e o distrito de , com seus afluentes, ao norte do divisor de águas. , capital de Iamama (perto da atual Riade), estava originalmente sob os hanifaítas. Mais tarde, membros de outras tribos becritas instalaram-se ali. A segunda maior cidade, (depois Alquidrima), ao sudeste de Hajar, era igualmente habitada em grande parte pelos hanifaítas, que possuíam os oásis Currã e Malame, além do divisor de águas. Colonizações dos hanifaítas podiam ser encontradas mais ao noroeste, nas regiões de e . Os dulitas viviam em (Cariate Bani) , nomeada por um de seus sub-ramos, num vale que corre para o . Os caicitas viviam, entre outros lugares, em , ao sul de Riade. Há também evidências de aldeias dos iascuritas, ijelitas e xaibanitas. Jau e Hajar eram locais de uma cultura antiga, associada nas lendas e épicos posteriores às tribos desaparecidas dos tasmitas e jadicitas. Existiam bétilos (obeliscos cultuais) em Hajar nos primórdios islâmicos, mas em Jau haviam sido destruídos durante uma incursão de um membro da dinastia sul-arábica de Haçane (Alaxa, nº 13, 16-21). Tâmaras eram cultivadas em todos os oásis, mas nos vales do Irde e de Alcarje também se cultivavam cereais. Em anos bons, enviavam trigo para Meca, mas em anos ruins nem havia o suficiente para consumo próprio (Alaxa, nº 19, 24; 23, 22-23; Ibne Hixame, 997s.). Como as aldeias becritas eram próximas umas das outras, às vezes eclodiam guerras internas, durante as quais os palmeirais eram incendiados (Alaxa nº 15, 56-57; 38, 9-11; Iacute, Almuarraca, abaixo de Sadus). Alguns becritas escaparam dessa situação tornando-se mercenários (, ed. Geyer, nº 14; Mufaḍḍaliyyāt, ed. Lyall, nº 119).
Historicamente, os becritas são registrada pela primeira vez no . Conhecida por seu caráter guerreiro, entrou em conflito com estados vizinhos, tribos limítrofes e, às vezes, com seus grupos irmãos, obtendo ocasionalmente importantes conquistas, mas também sofrendo derrotas. Aliando-se às tribos dos tamimitas e dos abuceus, os becritas realizaram incursões no território do Império Sassânida, mas por volta de 325 sofreram pesadas perdas quando o xainxá respondeu a esses ataques. Eventualmente, muitos becritas assumiram o nomadismo — que posteriormente passou a caracterizar consideráveis segmentos da tribo. É possível que esse movimento tenha começado com o aparecimento dos quindaítas. Não há informação precisa sobre as rotas que os becritas nômades seguiram naquele tempo, embora fontes posteriores (Mufaḍḍaliyyāt, 430, 13) indiquem que se dirigiram para o oeste e talvez leste de Iamama. No , foram obrigados a reconhecer a autoridade iamanita, e, por volta da metade do século, através da mediação de , rei do Reino de Quinda, firmaram acordos com tribos da Arábia Central, especialmente com a tribo irmã dos taglibitas. Contudo, a aliança não durou, e iniciou-se a sangrenta Guerra de Albaçus, com intervalos, que perdurou por cerca de quarenta anos entre becritas e taglibitas. Para evitar a destruição mútua, essas tribos aceitaram temporariamente a administração dos quindaítas, fortalecendo-se e conquistando junto a ela a região de Hira. A Crônica de Zuquenim (§ 57) menciona os talabaítas em 503 como a tribo dominante do Reino de Quinda na Arábia do Norte, e pouco depois o grupo aparece também numa inscrição sul-arábica. No reinado do xainxá , o rei lácmida atacou os quindaítas e seus aliados, garantindo uma vitória decisiva e retomando o controle da região. Nesse período, a hostilidade entre becritas e taglibitas ressurgiu, retomando a Guerra de Albaçus. Após uma derrota, os becritas recorreram a Almondir III para intermediar a paz, encerrando a guerra (por volta de 525). Pouco tempo depois, os combates foram retomados e a Batalha de Culabe I (travada entre dois herdeiros do Reino de Quinda, por volta de 530, em Talane, sudoeste de ) é um episódio dessa disputa. Um acordo de paz definitivo foi concluído sob o patrocínio de Meca, em , fora do harame (, Muʿallaqa, ed. Arnold, 66).
Pouco depois, os taglibitas — cuja zona de migração então se estendia de , no alto do Sir, até , perto do Golfo Pérsico (Mufaḍḍaliyyāt, 430, 13; Alharite, Muʿallaqa, 79) — deixaram a Arábia Central e se estabeleceram nas estepes do lado próximo do baixo Eufrates, onde possivelmente alguns já tinham se fixado antes. Os becritas os seguiram, mas pararam antes do . A região que mais tarde foi deixada pelos taglibitas e becritas no lado próximo da curva da estava provavelmente, antes de 530, intercalada por tamimitas, cujo lar se estendia pelos dois lados do . Depois de 530, eles se espalharam através de Tuaique rumo à Arábia Oriental. Como as rotas nômades de ambos os grupos se cruzavam, era preciso manter a paz, e de fato nas décadas seguintes há pouca menção de lutas entre os becritas e os tamimitas. Surgiu nesse período uma série de famílias de xeques proeminentes, à medida que as relações mutáveis entre os becritas e os taglibitas, os tamimitas, e os reis de Quinda e de Hira exigiam líderes de experiência política. Uma dessas famílias foi a dos Dul Aljadaine (Dhū ’l-Jaddayn). Ligações com Hira foram responsáveis por um desenvolvimento precoce da poesia, especialmente entre os caicitas, como testemunham as obras de (a lenda sobre ele aparece pela primeira vez em , Seis Poetas, nº 13, 14-19), as obras de , que jamais viajou ao Império Bizantino com Inru Alcaice ibne Hujer, as de Tarafa, e as de Alaxa, que viveu até o . A poesia também floresceu entre os iascuritas, a quem pertencia Alharite ibne Hiliza. Quando os taglibitas desocuparam as estepes do baixo Eufrates, migrando rio acima, após seu chefe, Anre ibne Cultume, matar o rei de Hira, (m. 569), os becritas estenderam ainda mais sua área de ocupação. Uns dez anos depois, os tamimitas — especialmente os — começaram a avançar, a fim de montar suas tendas em durante a primavera. Isso deu origem a ataques mútuos, alguns dos quais, ocorridos entre 605 e 615.
Sabe-se bastante sobre as tribos becritas nômades nesse período e algo também sobre a área que ocupavam. As tribos envolvidas eram os xaibanitas, ijelitas, caicitas e taimalatitas. Os ijelitas iam até o que mais tarde se tornou a rota dos peregrinos cufanos no oeste, e até no leste; os xaibanitas montavam suas tendas ao norte e ao sul da linha (perto da baía do Cuaite) — Ras Alaine (talvez — ); os caicitas, ao sudeste destes, entre (em Iacute, erroneamente Almutana) e Ras Alaine (Alaxa, n.º 14, v. 20; 29, v. 24). Os taimalatitas, caicitas e ijelitas formaram a confederação dos laazimitas (Lahāzim), para não serem subjugados pelos xaibanitas. Não se sabe exatamente onde os becritas setentrionais passavam o inverno, mas os caicitas parecem ter alternado — ao menos nos anos 580 — entre Iamama e o norte (Alaxa, n.º 32, um poema antigo, especialmente v. 48). Os xaibanitas iam ocasionalmente até os oásis do Barém, enquanto os ijelitas parecem ter permanecido no norte. No verão, as tribos se reuniam onde havia água, deste lado do , entre e . Foi nessa região que se travou a famosa Batalha de Di Car, na qual as tribos becritas derrotadas um exército do Império Sassânida (604/11). Diz a tradução que o último governante lácmida, , deixou seu tesouro e armas ao ramo xaibanita dos becritas antes de ser assassinado por e quando , designado por Cosroes II para governar Hira, requisitou tesouros, os becritas recusaram, o que culminou na batalha. Apesar disso, os becritas logo voltaram a cair sob influência persa. Ao mesmo tempo, a hostilidade entre becritas e tamimitas no norte se espalhou para a Arábia Central, onde o príncipe de Jau, , dos hanifaítas e vassalo dos persas, foi duramente pressionado pelos tamimitas, até que o governador persa do Barém o esmagou com violência (Alaxa, n.º 13, vv. 62–69).
Período islâmico
O cristianismo foi adotado por alguns dos becritas tanto no norte quanto no sul, especialmente entre os ijelitas e, dentro dos xaibanitas, pelos Du Aljadaine. Alaxa e Hauda ibne Ali também professavam essa fé. A adesão de Iamama à pregação do alegado profeta Muçailima mostra que o cristianismo não se firmara na região, ao passo que a situação no norte era bem diferente: o caso do antigo líder dos gazus, , que morreu cristão em Cufa em 641, não aparenta ser o único entre os ijelitas. O paganismo — tema de uma passagem em , nº 2, vv. 9–15 — é raramente mencionado pelos poetas posteriores, a menos que se conte Alaxa, nº 39, v. 47. Sabe-se entretanto, que os becritas veneravam os ídolos de , e . Particularmente Almuarraque, que era cultuado em Salmã (Iacute iv, verbete Mu‘arrik), não aparece no Kitāb al-Aṣnām de Ibne Alcalbi. Maomé tentou se corresponder com Hauda ibne Ali mesmo antes da Conquista de Meca (630), mas sua mensagem foi recebida de forma fria e altiva. Em Hajar, o líder que o sucedeu foi Muçailima. Tumama ibne Utal, conhecido na sīra (biografia do profeta) e no episódio das Guerras da Apostasia, não figura na genealogia de Ibne Alcalbi, que, neste ponto, se apoia em uma autoridade becrita.
Após a morte de Maomé a eclosão das Guerras da Apostasia, o califa Abu Becre enviou um exército sob Alalá ibne Alhadrami contra os contingentes árabes que declararam guerra aos muçulmanos, e apoiado por contingentes becritas e tamimitas que converteram-se ao islamismo, derrotou os revoltosos. Enquanto isso, os becritas do norte aproveitaram-se da disputa sucessória em Ctesifonte para atacar as terras cultivadas. Um líder dos dulitas, Almutana ibne Harita, destacou-se nessas incursões e, ao saber da derrota das Rida, converteu-se ao Islã, consolidando seu papel de comandante. Ao lado de Calide ibne Alualide, criou as condições que acabariam levando à rendição de Hira (633). Após a transferência de Calide para a Síria no início de 634, e com os muçulmanos na defensiva, Almutana comandou a cobertura da retirada na Batalha da Ponte, no outono de 634. Seu último grande feito ocorreu cerca de um ano depois, na (635), após a qual sucumbiu aos ferimentos. Os becritas — e possivelmente os tamimitas — prepararam então o terreno para a conquista do território que mais tarde seria organizado como a província de Baçorá. Ijelitas e hanifaítas combateram na Batalha de Niavande em 642.