Cleópatra e César, também conhecida como Cleópatra diante de César (em francês: Cléopâtre devant César), é uma pintura a óleo sobre tela do artista acadêmico francês Jean-Léon Gérôme, concluída em 1866. Originalmente encomendada pela cortesã francesa La Païva (Esther Lachmann), a obra acabou sendo rejeitada pela cliente, que a devolveu ao artista por insatisfação com o resultado. A pintura foi exibida no Salão de Paris de 1866 e na Academia Real Inglesa em 1871.
Considerada um exemplo clássico de egiptomania, a obra foi reproduzida em massa pela Goupil & Cia., alcançando grande difusão popular. A tela pertenceu ao banqueiro californiano Darius Ogden Mills e permaneceu na coleção de arte da família Mills por mais de um século, até ser vendida a um colecionador privado em 1990.
Contexto Jean-Léon Gérôme (1824–1904) foi um dos principais pintores e escultores franceses do século XIX.Hooper, Lucy H. (1877). "Léon Gérôme." The Art Journal, 3: 26–28. Aos 23 anos, chamou a atenção do mundo artístico ao apresentar no Salão de 1847 a obra A Briga de Galos (1846), pintura neogrega elogiada por Théophile Gautier.Musée d'Orsay (2006). Jean-Léon Gérôme. "Young Greeks Attending a Cock Fight, also called The Cock Fight." Consultado em 23 de outubro de 2015. Com trabalhos inspirados por suas frequentes viagens ao Oriente Médio e ao Egito, Gérôme especializou-se em pintura histórica e pintura orientalista, consolidando-se como um dos líderes do movimento da arte acadêmica. Segundo o historiador Charles Sowerwine:
[Gérôme] pintava temas eróticos com abordagem fotográfica e carga sensual, mas evitava a 'indecência' por meio de contextos orientais e históricos... Para nós, os nus de Gérôme parecem pornográficos, mas para os contemporâneos eram idealizados por seu distanciamento da sociedade contemporânea e sua inserção no universo oriental.Sowerwine, Charles (2009). France Since 1870: Culture, Society and the Making of the Republic. Palgrave Macmillan. pp. 46-47. ISBN 9781137013859. O escritor francês Prosper Mérimée propôs pela primeira vez o tema de Cleópatra e César em carta enviada a Gérôme em dezembro de 1860.Bovet, Alfred (1884). Lettres autographes composant la collection de m. Alfred Bovet. Paris: Charavay Freres. p. 320. Posteriormente, La Païva, rica cortesã francesa, encomendou a pintura a Gérôme, com a intenção de exibi-la no Hôtel de la Païva, sua mansão nos Champs-Élysées. Segundo o crítico de arte americano Earl Shinn, a obra foi originalmente executada sobre seda e projetada como uma "transparência a ser levantada ou abaixada no meio de um longo salão" na mansão de La Païva, que era "desejável dividir ocasionalmente em dois".Shinn, Earl [Edward Strahan] (1881). Gerome: A Collection of the Works of J.L. Gerome in One Hundred Photogravures. Volume 10, Plate 6. Samuel L. Hall. OCLC 607078.
Desenvolvimento thumb|Estudo a lápis preparatório para a pintura.|248x248px Gérôme realizou pelo menos dois estudos a óleo e vários esboços preparatórios antes de chegar à versão final. Um deles mostra Cleópatra deitada no chão, estendendo-se em direção a Júlio César, com Apolodoro agachado atrás dela. Em outra variação anterior à versão definitiva, César aparece sozinho com as mãos sobre a mesa (em vez de estendidas), sem seus quatro secretários. Na obra finalizada em 1866, a posição de Cleópatra foi alterada para mostrá-la em pé diante de César, com Apolodoro curvado ao seu lado.Trafton, Scott (2004). Egypt Land: Race and Nineteenth-Century American Egyptomania. Duke University Press. pp. 198, 298–299. ISBN 978-0-8223-8631-5.
Gérôme baseou a cena no encontro entre Cleópatra e César descrito nas Vidas Paralelas (Vida de César) pelo historiador grego Plutarco (c. 46 d.C. – 120 d.C.), mais de um século após o episódio ter ocorrido.Pelling, Christopher (2011). Plutarch Caesar: Translated with an Introduction and Commentary. Oxford University Press. p. 385. ISBN 978-0-19-814904-0. Embora Gérôme tenha visitado o Egito em 1857, onde, segundo George W. Whiting da Universidade Rice, "adquiriu abundante colorido local e detalhes exatos" que informaram a execução de Cleópatra e César,Whiting, George W. (1960). "The Cleopatra Rug Scene: Another Source." The Shaw Review, 3 (1): 15–17. o cenário egípcio ao fundo deriva de uma estampa presente em um volume da Description de l'Égypte (1809–29) que retrata um templo em Deir el-Medina.Riggs, Christina (2014). Ancient Egyptian Art and Architecture: A Very Short Introduction. Oxford University Press. p. 113. ISBN 978-0-19-150525-6.
Conclusão e exibição La Païva rejeitou a pintura que havia encomendado e a devolveu a Gérôme. Ackerman observa que La Païva considerou a obra excessivamente cara. Gérôme então modificou a pintura, adicionando tela no verso para reforçá-la, e a obra foi posteriormente adquirida por seu sogro, Adolphe Goupil (1806–1893), da Goupil & Cia., principal galeria de arte do século XIX na França. Gérôme conheceu Goupil pela primeira vez em 1859 e casou-se com sua filha Marie alguns anos depois.Papet, Edoard; Laurence des Cars; Dominique de Font-Réaulx (2006). "The Spectacular Art of Jean-Léon Gérôme (1824–1904)". Musée d'Orsay. Consultado em 6 de junho de 2015. Cleópatra e César foi uma das três obras apresentadas por Gérôme no Salão de Paris de 1866, onde foi exibida sob o título César et Cléopâtre. A pintura foi exposta na Academia Real Inglesa em 1871 com o título mais extenso Cléopâtre apportée à César dans un tapis (Cleópatra trazida a César em um tapete).Graves, Algernon (1905). The Royal Academy of Arts: A Complete Dictionary of Contributors and their Work from its Foundation in 1769 to 1904. Volume 3. London: H. Graves and co., ltd. p. 226. OCLC 874275133.Hering, Fanny Field (1892). Gérôme: The Life and Works of Jean Léon Gérôme. New York: Cassell Pub. Co. pp. 112–113. OCLC 229374.
Descrição A pintura retrata o ano 47 a.C., momento em que Cleópatra se apresenta diante de Júlio César após ser contrabandeada para o palácio dentro de um tapete por Apolodoro, seu servo. As figuras são representadas em aproximadamente metade do tamanho natural.Ackerman, Gerald M. (1986). The Life and Work of Jean-Léon Gérôme. Sotheby's Publications. p. 218. ISBN 978-0-85667-311-5. Desde a exposição de 1866, a obra tornou-se conhecida por outros títulos, como Cleópatra diante de César e, mais recentemente, Cleópatra e César.Humbert, Jean-Marcel; Michael Pantazzi; Christiane Ziegler (1994). Egyptomania. National Gallery of Canada. pp. 574-575. ISBN 978-0888846365.
Recepção crítica O projeto American Egyptomania da Universidade George Mason caracteriza a pintura como um exemplo clássico de egiptomania, contendo "sexo, escravidão, nudez e decadência". Lucy H. Hooper considerou-a uma obra companheira da pintura anterior de Gérôme, Friné diante do Areópago (1861). A tela foi uma das duas representações notáveis de Cleópatra do século XIX, ao lado de Cleópatra e o Camponês (1838) de Eugène Delacroix.Grafton, Anthony; Glenn W Most; Salvatore Settis (2010). The Classical Tradition. Harvard University Press. p. 207. ISBN 978-0-674-03572-0.
Influência thumb|upright|Ilustração da Goupil & Cia. (1909) O relacionamento profissional de Gérôme com o colecionador de arte Adolphe Goupil permitiu que suas pinturas fossem produzidas em massa na forma de gravuras e fotografias, atingindo um público amplo e impactando a cultura tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos.Richards, Jeffrey (2008). Hollywood's Ancient Worlds. Continuum. p. 11. ISBN 978-0-8264-3538-5. Com o tempo, tanto produções teatrais quanto cinematográficas sobre Cleópatra buscaram inspiração na pintura de Gérôme.Não apenas teatro e cinema, mas também outras artes. Dream of the Shulamite (1934), óleo sobre tela do pintor americano R. H. Ives Gammell, demonstra a influência de Cleópatra e César de Gérôme, tanto em sua concepção quanto em sua composição. Ver Ackerman, Gerald M. e Elizabeth Ives Hunter (2001). Transcending Vision: R. H. Ives Gammell 1893–1981. R.H. Ives Gammell Studios Trust. p. 104. ISBN 978-0969418815.Morcillo, Marta Garcia; Pauline Hanesworth (2015). Imagining Ancient Cities in Film: From Babylon to Cinecittà. Routledge. pp. 118, 176, 181. ISBN 978-0-415-84397-3. Whiting argumenta que a obra de Gérôme pode ter influenciado a peça do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, César e Cleópatra (1898), particularmente a cena do tapete no Ato III. Muitas das pinturas históricas de Gérôme influenciaram a composição de cenas cinematográficas que retratam a história antiga.
Proveniência A pintura foi adquirida pelo banqueiro californiano, filantropo e investidor imobiliário nova-iorquino Darius Ogden Mills na década de 1870 e permaneceu na coleção de arte da família Mills até ser vendida a um colecionador privado em 1990.Ackerman, Gerald M. (2000). Jean-Leon Gerome. Monographie revisee et catalogue raisonne mis a jour. (Les Orientalistes, Vol. 4) Edição francesa revisada. Courbevoie. p. 258. ISBN 978-2867701375."New York Top Art". Yareah Magazine. 24 de abril de 2014.
Notas
Leitura adicional
Thoré, T. (1870). Salons de W. Bürger 1861 à 1868. Volume 2. Paris: Librairie de Ve Jules Renouard. pp. 294–295. ISBN 978-0793564064.
Categoria:Pinturas de 1866 Categoria:Pinturas de Jean-Léon Gérôme Categoria:Pinturas do orientalismo