O Acidente do Elevador da Glória foi um acidente ocorrido com o Elevador da Glória a 3 de setembro de 2025, na Calçada da Glória, em Lisboa, Portugal. A quebra ou desprendimento do cabo de sustentação do elevador terá causado a queda livre e descarrilamento da cabina n.º 1, com a morte de 16 pessoas e ferimentos de outras 22.

Antecedentes O Elevador da Glória é um funicular construído na Calçada da Glória sob projeto do engenheiro português Raoul Mesnier du Ponsard.Octaviano Correia: “Do Pombal ao Bom Jesus de Braga ” Jornal da Madeira / Revista Olhar 2007.09.08 Foi inaugurado a 24 de outubro de 1885, constituindo-se no segundo do género implantado na cidade por iniciativa da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa.João Manuel Hipólito Firmino da COSTA: “Um caso de património local: A tomada de Lisboa pelos ascensores” Universidade Aberta: Lisboa, 2008. Desde setembro de 1915 que é movido a eletricidade. (PDF original) Em 1926 foi finalmente integrado na Carris após a absorção da NCAML em 1913,António Paes Sande e CASTRO: “A Vida atribulada de uma Companhia lisboeta de Viação” Olisipo XVII=65 (1954.01): 13-27 tendo sido completamente remodelado em 1944. Tem como principal função permitir a ligação entre a Praça dos Restauradores e o Bairro Alto, percorrendo 275 metros ao longo de uma via bastante íngreme, percurso esse que efetua em pouco mais de três minutos.

Este elevador é um dos principais pontos turísticos da capital portuguesa, sendo utilizado anualmente por cerca de três milhões de pessoas.

A 7 de maio de 2018, uma falha de manutenção grave causou o descarrilamento de uma das cabinas, embora sem que a mesma tombasse e sem causar quaisquer vítimas. Como resultado deste acidente o elevador ficou inoperacional durante um mês. No dia 3 de outubro de 2024, a cabina n.º 1 colidiu com as escadas no topo do Calçada da Glória, e a 4 de maio de 2025, o lado superior da cabina n.º 2 colidiu com um veículo rodoviário de manutenção.

A manutenção dos elevadores de Lisboa está externalizada desde 2011. O último concurso público para a manutenção foi aberto em 2022, ao qual concorreram quatro empresas, após o qual a Carris assinou um contrato com a empresa MAIN - Maintenance Engineering​, no valor de um milhão de euros, englobando os elevadores da Bica, Lavra e Santa Justa. Segundo o sindicato dos trabalhadores da Carris, os funcionários da empresa reportaram por várias vezes um deficiente trabalho de manutenção por parte desta empresa. O elevador esteve em manutenção entre 26 de agosto e 30 de setembro de 2024, sendo esta a sua última manutenção antes do acidente. Ao contrário de outros transportes por cabo no país, o Elevador da Glória, como também o do Lavra, nunca foram supervisionados pela Autoridade Nacional de Segurança Ferroviária, que funciona no âmbito do Instituto da Mobilidade e dos Transportes. miniaturadaimagem|Teatro de operações na Praça dos Restauradores após o acidente

No dia do acidente, pelas 06:07, um técnico de manutenção chega ao local de estacionamento noturno das cabinas do Elevador da Glória, junto ao Largo da Oliveirinha (no meio do percurso), e começa por abrir a cabina n.º 2. Menos de um minuto depois, dirigiu-se para a cabina n.º 1 e abre-a também, entrando e saindo pouco tempo depois, com esta verificação não demorando mais do que 2 minutos. Pelas 06:56, o segurança que vigia as cabinas sai da cabina n.º 1, onde esteve durante a noite, e afasta-se, com o primeiro guarda-freio chegando à cabina n.º 1 dois minutos depois, seguido do segundo guarda-freio que entra na cabina 2 dois minutos depois, com ambas começando a sua marcha às 07:05, com a cabina n.º 1 descendo para o terminal inferior e a cabina n.º 2 subindo para o terminal superior, começando o serviço comercial 10 minutos depois. Após a realização de 35 viagens, o guarda-freio da cabina n.º 1 é rendido às 14:20 pelo seu colega do turno da tarde, André Marques, e na viagem seguinte, às 14:30 é rendido o guarda-freio da cabina n.º 2. Ambos os guarda-freios que viriam a estar envolvidos no acidente estavam devidamente habilitados para a função e tinham experiência naquele trabalho. As viagens decorreram normalmente durante a tarde, e durante o dia esteve presente pessoal da manutenção, o qual falou com ambos os guarda-freios e subiu com o guarda-freio da cabina n.º 1 até à oficina no Largo da Oliveirinha na última viagem ascendente dessa cabina.

Acidente miniaturadaimagem|Mapa do trajeto do acidente do elevador +Vítimas mortais e feridos por nacionalidade Nacionalidade Mortes31 - -1 - -11 - -1 -1 -1 -21 -1 - -1 - - -2 - -2 - -1 - -1 - -1 Total 16 9 13 Pelas 18:00, ambas as cabinas n.º 1 e n.º 2 estavam estacionadas respetivamente no Jardim de São Pedro de Alcântara e na Praça dos Restauradores, recebendo passageiros. Na cabina n.º 1, estavam 27 pessoas (incluindo uma criança e o guarda-freio André Marques), enquanto na cabina n.º 2 estavam 33 pessoas (incluindo três crianças e o guarda-freio), estando abaixo da sua lotação máxima de 42 passageiros. Pelas 18:03, ambas as cabinas iniciam viagem (para sentido descendente e ascendente, respetivamente). Três segundos após o início da marcha e percorrendo pouco mais de dois metros, o cabo dentro do trambolho da cabina n.º 1 rompe e ambas as cabinas perdem subitamente a força de equilíbrio garantida pelo cabo de equilíbrio que as une, acionando o dispositivo de segurança existente na cabina do volante, cortando a corrente de ambos os veículos. A cabina n.º 2, que começava a subir da posição inferior junto à Praça dos Restauradores, descaiu cerca de sete metros, sendo sustida pela saída parcial além do final da via-férrea e enterramento do trambolho do lado inferior no final da vala do cabo, ficando presa pelo gradil no limite inferior do carril, sem descarrilar.

Já a cabina n.º 1, que começava a descer da posição superior junto ao Jardim de São Pedro de Alcântara, começou a descer a calçada da Glória desgovernadamente em grande velocidade. Apesar das tentativas do guarda-freio de travar usando o freio de emergência da cabina, e apesar de reduzir ligeiramente a aceleração do veículo, essas ações mostrariam-se redundantes devido ao corte da energia elétrica pelo dispositivo de segurança da cabine. Cerca de 180 metros após o início do seu percurso, no início da curva à direita na parte final do percurso perto do cotovelo da Calçada da Glória, a cabina começa a descarrilar e a tombar para a esquerda devido à velocidade que tinha e ao reduzido raio da curva. Apesar de parcialmente ser sustido pelo encaixe dos trambolhos nos perfis Z da cabina, reduzindo ligeiramente a velocidade, os perfis Z seria arrancados do pavimento, fazendo a cabine perder totalmente o seu guiamento, embatendo no edifício localizado no cotovelo da calçada da Glória a cerca de 45km/h, destruindo a caixa de madeira. Tudo isto acontecia 20 segundos após o início da marcha das cabinas. O alerta para o acidente foi dado às 18:08. Para o local foram enviados meios do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, do INEM, de Bombeiros Voluntários de vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, da Polícia Municipal de Lisboa, da Polícia de Segurança Pública e do Serviço Municipal de Proteção Civil.

O acidente causou no imediato 15 mortos e 22 feridos, dos quais 13 em estado grave, tendo um destes acabado por falecer na madrugada do dia seguinte no Hospital de São José, entre ocupantes da carruagem e transeuntes que circulavam na calçada da Glória. Os feridos foram transportados para os hospitais da região de Lisboa, designadamente para o Hospital de São José, Hospital de Santa Maria, Hospital de São Francisco Xavier, e ainda para o Hospital Fernando Fonseca e para o Hospital de Cascais.

Um dos mortos era o guarda-freio da carruagem, André Marques. As outras quatro vítimas mortais portuguesas eram funcionários da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. De uma família de turistas alemães que se encontrava a bordo, uma criança de três anos sobreviveu com ferimentos leves encontrando-se os pais internados em estado grave. Entre os treze feridos ligeiros estão dois de nacionalidade espanhola, uma mulher italiana que sofreu uma fratura no braço, entre outros de nacionalidade portuguesa, canadiana, americana, ucraniana, brasileira, australiana, israelita e francesa. Segundo informações das autoridades de saúde, nomeadamente Álvaro Almeida, diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, todos os feridos considerados ligeiros já teriam tido alta hospitalar no final da tarde do dia 4 de setembro de 2025.

Este acabou por ser o pior acidente ferroviário em território nacional desde o desastre em Póvoa de Santa Iria em 1986, que vitimou 17 pessoas, e um dos piores desde Moimenta-Alcafache em 1985, considerado o pior acidente ferroviário nacional. Entretanto, não foi a primeira vez que este tipo de acidente acontecia na cidade de Lisboa. Em 1914, durante a conclusão das obras de eletrificação no Elevador da Bica, uma das cabines do elevador desceu a Rua da Bica de Duarte Belo e a Calçada da Bica descontroladamente, embatendo na estação da Rua de São Paulo, ficando completamente destruído e imobilizando o mesmo elevador, que só seria reaberto em 1923, 9 anos depois do acidente.Oásis Alfacinhas - Guia Ambiental de Lisboa Câmara Municipal de Lisboa

Reações

Nacionais miniaturadaimagem|Decreto de luto nacional em 4 de setembro de 2025 O presidente da Carris rejeitou qualquer falha ao nível da manutenção do ascensor. Por outro lado, o presidente da Fectrans (Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações) assegurou à RTP que havia relatos dos trabalhadores da Carris sobre problemas de segurança com o elevador. Francisco Oliveira, do SITRA (Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes), descartou a hipótese de falta de manutenção.

A companhia aérea TAP disponibilizou-se para prestar todo o apoio necessário, incluindo transporte para território nacional de familiares (nacionais ou estrangeiros), repatriamento de feridos e transladação dos corpos das vítimas mortais.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assim como o Primeiro-Ministro Luís Montenegro e todo o governo português, assim como o Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, lamentaram profundamente o grave acidente.

O Governo de Portugal declarou luto nacional no dia 4 de setembro de 2025. Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ordenou a suspensão do funcionamento dos elevadores da Bica, Lavra, Santa Justa e Graça. miniaturadaimagem|Bandeiras a meia haste nos Paços do Concelho de Lisboa durante o período de luto municipal O governo português decretou um dia de luto nacional, e a Câmara Municipal de Lisboa declarou três dias de luto municipal.miniaturadaimagem|Bandeiras a meia haste na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa durante o período de luto municipal Internacionais Este acidente teve grande repercussão internacional, com extensa cobertura mediática por todo o mundo: Nações Unidas – O secretário-geral António Guterres expressou condolências às famílias das vítimas e manifestou “total solidariedade para com o povo de Lisboa”. Comissão Europeia – Ursula von der Leyen lamentou o “descarrilamento do famoso Elevador da Glória” e transmitiu condolências às famílias das vítimas. Conselho Europeu – António Costa também expressou “as mais sentidas condolências a Portugal e à cidade de Lisboa”. Parlamento Europeu – Roberta Metsola sublinhou que a Europa está solidária com os familiares e vítimas do acidente. O Parlamento Europeu colocou as bandeiras a meia haste em Bruxelas, Estrasburgo (França) e Lisboa, de forma a acompanhar o luto português.