Dirso José de Oliveira (Bragança Paulista, 14 de novembro de 1932 – Goiânia, 23 de setembro de 2005), conhecido como DJ Oliveira (por vezes grafado D.J. Oliveira, pronúncia ), foi um artista plástico e muralista brasileiro, com atuação destacada no estado de Goiás. Sua produção inclui pinturas, gravuras e murais com forte influência expressionista. Além da atividade artística, teve papel central na formação de artistas goianos nas décadas de 1960 e 1970, por meio de sua atuação como professor na Escola de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás. Influenciou artistas como Ana Maria Pacheco, Iza Costa, Roosevelt, Sáida Cunha e Siron Franco, impulsionando o circuito artístico, crítico e cultural da região.

Vida e carreira Primeiros anos Filho de Rosa Capozolli de Oliveira, filha de imigrantes italianos, e de Honorato José de Oliveira, lavrador e operário, DJ se interessou pelas artes visuais desde a infância. Estudou no Grupo Escolar José Guilherme, no qual já demonstrava profundo interesse pelo desenho e por entalhes em madeira. Com onze anos, precisou trabalhar com a venda de jornais para ajudar a família financeiramente.

Ainda durante a infância, DJ projetou um painel através do incentivo financeiro de um tio. O painel lhe rendeu uma oferta de trabalho como executor de cartazes para filmes do Cine Teatro Bragantino. Assim, o artista passou a trabalhar durante o dia e a estudar pintura à noite, no estúdio de Luiz Gualberto, que tinha suas influências artísticas em Colette Pujol. Nesse período, DJ aprende a técnica de óleo sobre tela. Diante do potencial de DJ, Luiz Gualberto o incentiva a se mudar para a cidade de São Paulo para continuar seus estudos em arte.

Formação artística em São Paulo (SP) Aos 14 anos, DJ se muda para São Paulo. Após 4 anos, o artista começa a trabalhar como operário em uma fábrica têxtil, na qual aprende sobre o processo de aplicação de estampas, o que futuramente contribuiria em sua técnica de gravura. Como atividade profissional, Dirso também realizava serviços de restauração e retoque de fotografias antigas. esquerda|miniaturadaimagem|234x234px|Fachada e Carrinho de Pipocas. Obra de DJ Oliveira que reflete as influências de seus mestres paulistas, adaptadas à síntese regional Nesse período em São Paulo, DJ trabalhou também na oficina de decorações de Ângelo de Sordi, o que lhe ocasionou a convivência com diversos artistas do núcleo Acadêmicos do Braz. Dirso foi orientado por Francisco Priori, artista pertencente ao grupo, que posteriormente o levou para a Associação Paulista de Belas Artes, na qual passou a ser orientado sobre pintura e desenho por Laurindo Galante e Arcângelo Ianelli. Paralelamente à sua formação acadêmica, Oliveira engajou-se em atividades coletivas com outros artistas, dedicando-se a práticas como o desenho de modelo vivo, a representação de nus artísticos e a pintura de paisagens em sessões realizadas ao ar livre. Francisco Priori também o apresentou ao Grupo Santa Helena, coletivo de artistas modernistas atuantes em São Paulo. Oliveira passou a frequentar regularmente o ateliê do grupo, integrando-se ao seu círculo em virtude do ambiente propício ao desenvolvimento técnico e estético, favorecido pela convivência e troca de experiências com nomes como Alfredo Volpi, Fulvio Penacchi, Aldo Bonadei, Clóvis Graciano, Rebolo Gonzáles, Santa Rosa e Mário Zanini.

No ano de 1954, Oliveira conhece Luciano Maurício, importante pintor e cenógrafo em São Paulo, com quem passou a trabalhar como auxiliar. Nessa função, participou da execução de diversos cenários teatrais, incluindo os do Balé do IV Centenário de São Paulo, além de produções realizadas para a TV Tupy.

Em 1955, Oliveira participou de sua primeira exposição, uma mostra coletiva promovida pelo Clube de Artistas no Teatro Municipal de São Paulo, na qual apresentou desenhos de nu artístico.

Desenvolvimento da carreira no Centro-Oeste miniaturadaimagem|275x275px|Fotografia de DJ Oliveira em seu primeiro ateliê em Goiânia, em 1957 Em 1956, Oliveira mudou-se para Goiânia. Inicialmente, trabalhou como pintor de paredes, mas logo estabeleceu contato com Agostinho de Souza e Juca de Lima, que trabalhavam em uma oficina de pintura produtora de letreiros, placas e fachadas comerciais. Passou, então, a integrar a equipe do ateliê. Nos períodos livres, reunia-se com os dois colegas para retomar a prática da pintura de paisagem ao ar livre – atividade ainda incomum na cidade, que causava estranhamento entre os moradores, mas que, com o tempo, contribuiu para aproximar a população do trabalho artístico.

Posteriormente, Oliveira estabeleceu um ateliê-oficina no centro de Goiânia, onde continuou produzindo letreiros, além de painéis e murais destinados a fachadas, vitrines e interiores de comércios. Também se dedicou à criação de decorações para bailes de carnaval e passou a ser recorrentemente contratado para decorar eventos promovidos por instituições como o Jóquei Clube de Goiás, o Country Clube e a Boite Lizita.

miniaturadaimagem|275x275px|DJ Oliveira executando mural "Candangos Heróicos" em Brasília, no restaurante do SAPS, em 1957|esquerda

Nesse período, recebeu uma encomenda do médico Omar Carneiro para a realização de um mural na fachada de sua residência, o que lhe rendeu outras solicitações similares em Goiânia, Brasília e cidades do entorno.

Em 1960, Oliveira conheceu o ator e diretor teatral João Bênnio e passou a integrar o núcleo artístico “Bênnio e seus Artistas”, colaborando na criação de cartazes e atuando como cenógrafo, cenarista e figurinista. Nesse contexto, teve papel importante na introdução da cenografia moderna no estado de Goiás. À época, Bênnio dirigia o Teatro de Emergência do Estado e convidou Oliveira a instalar seu ateliê nos fundos do palco da instituição. O ateliê se transformou em um ponto de encontro para artistas e intelectuais da cidade, contribuindo para a efervescência cultural local.

Em 1961, Dirso é convidado pelo professor Luiz Curado a integrar o corpo discente da Escola de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás, assumindo as cadeiras de desenho e pintura. Durante seu trabalho, transformou a sala de aula em uma oficina prática, incentivando a atuação artística dos alunos e o desenvolvimento da liberdade criativa. Embora não fosse responsável pela cadeira de gravura, Dirso teve papel fundamental na introdução e consolidação dessa técnica na instituição, especialmente nas modalidades de xilogravura e gravura em metal.

Em 1968, com o aumento da repressão da Ditadura Militar Brasileira, o Teatro de Emergência foi desativado e o ateliê de DJ passou para a Escola de Belas Artes. O público que frequentava o ateliê do artista aumentou consideravelmente com a incorporação de professores, alunos e jovens que não tinham condições de pagar pelo curso regular. Dentre os artistas que frequentaram assiduamente o ateliê e puderam, nesse ambiente, desenvolver sua arte, destacam-se Ana Maria Pacheco, Iza Costa, Roosevelt, Sáida Cunha e Siron Franco. DJ, juntamente com frei Nazareno Confaloni, Henning Gustav Ritter e Cleber Gouvêa, ajudaram a criar e consolidar um ambiente de efervescência cultural em Goiânia entre as décadas de 1960 e 1970.

Período no Rio de Janeiro miniaturadaimagem|259x259px|Clarice Lispector em seu gabinete. Ao fundo, à esquerda, é possível visualizar um dos retratos pintados por DJ Oliveira em sua passagem pelo Rio de Janeiro Em 1966, DJ Oliveira passou uma temporada no Rio de Janeiro, hospedando-se em Copacabana. Durante esse período, contou com o apoio do diplomata Lauro Moreira, então casado com Marly de Oliveira, o que garantiu conexões com a cena cultural da cidade, incluindo nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector.

Na cidade, DJ produziu mais de 20 obras, incluindo retratos de Marly de Oliveira e Clarice Lispector. Clarice demonstrou grande apreço por um de seus retratos, dispondo-o em sua sala particular e sendo fotografada ao lado da pintura em inúmeras ocasiões. Ao fim da estadia, foi organizada uma exposição privada em um apartamento na Praia de Botafogo, reunindo nomes do meio diplomático e cultural. A mostra apresentou mais de vinte obras inéditas do artista e recebeu cobertura da imprensa carioca. Na exposição, DJ foi convidado pelo Governo da Checoslováquia, mediante Conselheiro Cultural presente na mostra, para pintar um painel no Museu da Guerra, da cidade de Lídice - obra que realizaria anos mais tarde, em sua passagem pela Europa.

Como aprendiz de DJ, o pintor Siron Franco acompanhou o mestre nessa viagem, adquirindo contatos, experiências e inspirações.

Período na Europa miniaturadaimagem|257x257px|Fotografia de DJ Oliveira em 1969, junto a um de seus murais em Madrid Em 1968, em reconhecimento à atuação de Dirso como professor na Escola de Belas Artes, o então reitor da Universidade Católica de Goiás concedeu ao artista um estágio remunerado em uma escola de artes gráficas em Madrid, na Espanha. Durante o estágio, Dirso aprimorou suas técnicas de gravura e pintura em murais.

Nesse período, também percorreu diversos países europeus para ampliar seu repertório artístico, sendo influenciado principalmente por El Greco, Francisco de Goya e Pablo Picasso. DJ Oliveira passou por países como Holanda, Itália, França, Inglaterra, Suíça e Checoslováquia - deixando produções em alguns desses locais. Em destaque, realizou uma exposição individual na Maison du Brésil na França, executou dois murais na Cidade Universitária de Madrid e pintou um painel no museu de Lídice, Checoslováquia, em homenagem às vítimas do Massacre de Lídice.

Volta ao Brasil e mudança para Luziânia miniaturadaimagem|249x249px|Fotografia de DJ Oliveira junto a um de seus murais em Luziânia, no ano de 2000|esquerda Em 1970, DJ Oliveira retorna a Goiânia, reassumindo sua posição de professor e reabrindo seu ateliê. Dois anos depois, deixa seu posto na universidade, alegando cansaço com o circuito social do meio artístico. Em 1973, muda-se para Luziânia, cidade localizada no interior de Goiás, próxima ao Distrito Federal, motivado pelo desejo de reclusão. Na nova cidade, encontrou inspiração e estímulo para sua produção artística, retomando suas atividades artísticas com grande produtividade.

Nas três décadas seguintes, DJ Oliveira realizou uma produção artística extensa, com mais de uma centena de obras. Em seu ateliê, continuou a realizar pinturas e gravuras utilizando das mais diversas técnicas (da xilogravura à gravura em metal). Fora dele, produziu murais e painéis sob encomenda para espaços públicos e privados localizados em municípios de diversos estados, especialmente Goiás, Distrito Federal e Tocantins (ver Lista dos principais murais e painéis). Nesse período, também foi indicado e assumiu a 13ª cadeira da Academia de Letras e Artes do Planalto. Os projetos desenvolvidos contribuíram para a consolidação de sua influência na cena artística regional.

Últimos anos Nos últimos anos de vida, Dirso continuava a pintar e planejava desenvolver diversos projetos, entre eles a restauração de seus murais em esgrafito na Universidade Federal de Goiás (UFG) e a conclusão de murais em Palmas. Contudo, o artista faleceu em 23 de setembro de 2005, aos 72 anos, em decorrência de complicações pulmonares, possivelmente agravadas devido à exposição contínua a substâncias utilizadas em seu trabalho artístico.

Produção artística esquerda|miniaturadaimagem|293x293px|Fotografia de DJ Oliveira junto às suas obras no ano de 2000 no ateliê em Luziânia