Operação Tarântula foi uma grande operação policial realizada no estado brasileiro de São Paulo, entre 27 de fevereiro e 10 de março de 1987. Baseava-se na criminalização do trabalho sexual de travestis e transgêneros, no contexto de luta contra o aumento do contágio pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV, na sigla em inglês).SILVA, Brune Herculano da. OPERAÇÃO TARÂNTULA E A TRAVESTI MARAVILHA. In: Anais do 3º Seminário Internacional Gêneros, Sexualidades e Educação na Ordem do Dia – Trajetórias interrompidas e caminhos possíveis. Anais...Nova Iguaçu(RJ) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/3sigse/815898-OPERACAO-TARANTULA-E-A-TRAVESTI-MARAVILHA. Acesso em: 05/07/2025

Mais de 300 travestis foram presas e torturadas em 10 dias, cerca de 56 travestis foram detidas já na primeira noite da operação. "Foi um dos episódios mais cruéis da história contra mulheres trans e travestis".Hiago de Souza Tavares; Marwyn Soares de Souza. Travesti não entra: uma análise crítica sobre o tratamento dado as travestis durante a ditadura civil-militar. Dignidade Re-Vista, v.8, n.13, nov 2021.

O nome da operação deveu-se à ideia de que "a tarântula tem, de fato, longos braços", tal como a operação, que abrangia uma grande parte da Região Metropolitana de São Paulo, incluindo Osasco, Guarulhos e ABC Paulista.

A Tarântula não foi a única operação policial para higienizar a cidade e eliminar supostas ameaças à ordem pública e aos bons costumes. Também houve similares, dentre as quais: Arrastão (São Paulo), Cidade (São Paulo), Rondão (São Paulo), Limpeza (São Paulo), Sapatão (São Paulo), e Asa Branca (em Recife).

Histórico No Brasil, no final dos anos 1980, estava em curso um processo de redemocratização do país, após mais de duas décadas de ditadura militar brasileira (1964-1985). Nesse momento de abertura política, havia, na sociedade, a expectativa de extensão de direitos e garantias fundamentais às populações vulnerabilizadas.

Paralelamente, desde o início dos anos 1980 até, pelo menos, o início dos 1990,FDA Approval Of HIV Medicines. A timeline with all the FDA approval dates for HIV medicines, categorized by drug class. National Institutes of Health. HIV/AIDS treatment and research information.HIV/AIDS Treatment:Antiretroviral Drug Discovery and DevelopmentRocha, Lucas; Luduvig, Laura; Sarmento, Jonatan. Virada de jogo: evolução da medicina revoluciona o tratamento do HIV. Veja Saúde, 21 de fevereiro de 2024 havia um pânico moral relacionado à proliferação da AIDS, então associada a homens gays e a mulheres trans, sendo nomeada, no âmbito acadêmico, como Gay Related Immunedeficiency (GRID) e, na mídia, como "câncer gay", "peste gay" ou "peste rosa", o que resultou na estigmatização da população LGBTI. Em 1º de maio de 1980, O Estado de S. Paulo exibia a seguinte manchete: “Polícia já tem plano conjunto contra travestis”. Em 1981, o Jornal do Brasil publicou a matéria “Câncer em homossexuais é pesquisado nos EUA”.

A perseguição policial intensificou-se entre 1980 e 1985, quando o delegado José Wilson Richetti ordenou a prisão em massa de travestis e transexuais, por meio das chamadas operações Limpeza e Rondão, que levaram mais de 1.500 pessoas à prisão, somente no centro da cidade de da São Paulo.LGBT e prostitutas denunciam violência. Memorial da Democracia, 13 de junho de 1980.

A Operação Tarântula tinha base no Código Penal Brasileiro (promulgado em 1940) Art. 130, que condena à detenção de três meses a um ano (ou multa) todo indivíduo que expuser alguém ao contágio de moléstia venérea com a qual sabe estar contaminado. Sendo acrescido um ano à pena se o indivíduo tiver a intenção de transmitir a doença. A operação era, portanto, uma ação para combater a AIDS.

Ao mesmo tempo, a operação tinha uma ligação com um certo pensamento religioso apocaliptista, centrado na criminalização da prostituição, em especial de pessoas trans, ocultando informações sobre a contaminação do HIV entre heterossexuais cisgêneros. Nos primeiros dias da operação, Márcio Prudente Cruz, delegado-chefe do departamento que reunia as delegacias regionais de polícia da Região Metropolitana de São Paulo (Degran), pontificou: "Os tempos de Nostradamus estão chegando".

As travestis recolhidas pela polícia respondiam a processos por crime de contágio venéreo, e jornais da época indicaram a possibilidade de testagem compulsória para averiguação de doenças sexualmente transmissíveis, e o sistema penal aparecia como instrumento de contenção do crescente contágio por HIV. Configurava-se uma relação de antagonismo entre o Estado e a sociedade bem-pensante, de um lado, e as travestis e demais pessoas LGBTI, de outro.

"Diferentemente de boa parte da população, que comemorava o fim da ditadura e o início da redemocratização do Brasil, as travestis estavam sendo encarceradas generalizadamente em São Paulo, ou até mortas pelos próprios agentes policiais ou grupos associados à polícia (e não somente) que simpatizavam com o extermínio trans."

Grupos de defesa dos direitos LGBTI pressionaram a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo pelo encerramento da operação. Nos 12 dias da Operação Tarântula, estima-se que mais de 300 travestis foram presas. Além delas, outras tantas foram mortas.

Neon Cunha, uma das sobreviventes da Operação Tarântula, relembra, numa entrevista à CNN Brasil, o que passou na época: "É difícil narrar todo aquele período de transformação política e social no Brasil recém-saído da ditadura, que, na prática, não termina". Segundo ela, quando "a barca" passava e causava pânico em todos, a violência era desenfreada. Os policiais podiam "descer a porrada" ou coisa pior. Ela contou já ter visto uma mulher ser executada com um tiro na testa.

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