Originalmente chamada Real Fundiçam da Artelharia da Comarca de Thomar, ou como ficaram conhecidas mais tarde Reais Ferrarias da Foz de Alge, também referidas como Ferrarias de Tomar e Figueiró ou Fábricas Reais da Fundição de Artilharia da Comarca de Thomar, foram um dos mais importantes complexos industriais-militares do Império Português. Localizadas na margem da Ribeira de Alge, perto da sua confluência com o rio Zêzere, no atual concelho de Figueiró dos Vinhos, operaram de forma intermitente desde meados do século XVII até ao início do século XX. A sua função primordial era a fundição de artilharia de ferro e outros artefactos metálicos, como alfaias agrícolas, desempenhando um papel crucial na autonomia militar e no desenvolvimento tecnológico de Portugal.

A escolha da sua localização foi estratégica, motivada pela abundância de matas, que forneciam o carvão vegetal essencial para os fornos, e pela proximidade a jazidas de minério de ferro na região. A história das ferrarias é um microcosmo das ambições, contradições e desafios da política industrial portuguesa ao longo de três séculos.

História + Fases e Eventos-Chave das Reais Ferrarias da Foz de Alge Período Evento-Chave Figuras Associadas Contexto Político/Económico 1654–1655 Instituição da Superintendência e concessão do primeiro alvará D. João IV, Francisco e Pedro Dufour Guerra da Restauração; necessidade de autonomia bélica. c. 1740s–1750s Apogeu científico e técnico sob gestão iluminista Bento de Moura Portugal, FRS, D. João V Iluminismo; aplicação da ciência à indústria; conflitos com a Inquisição. 1759–1761 Encerramento das ferrarias por ordem do Marquês de Pombal Marquês de Pombal Política de fomento industrial em Angola; centralização do poder. 1801 Carta Régia ordena a reativação e modernização D. Maria I, D. João VI, José Bonifácio de Andrada e Silva Reação anti-pombalina ("Viradeira"); consciência do atraso tecnológico. 1807–1809 Interrupção dos trabalhos de modernização José Bonifácio de Andrada e Silva Invasões Francesas e subsequente instabilidade política. Início do séc. XX Encerramento definitivo N/A Obsolescência tecnológica e logística face à Revolução Industrial.

Fase I: Fundação e Consolidação no Século XVII (1655–c. 1700) A criação das ferrarias foi uma consequência direta da Guerra da Restauração (1640-1668). Após sessenta anos de União Ibérica, Portugal enfrentava uma grave vulnerabilidade militar, dependendo da importação de armamento. Em resposta, o governo de D. João IV instituiu, em 18 de Outubro de 1654, a Superintendência das Ferrarias de Tomar e Figueiró, com o objetivo de criar uma capacidade industrial doméstica para a produção de canhões e munições.

O primeiro alvará para a construção da fábrica foi concedido em 1655. Para superar a carência de conhecimento metalúrgico, a Coroa recrutou mestres estrangeiros, tendo a administração inicial sido confiada aos peritos franceses Francisco Dufour e, mais tarde, ao seu filho, Pedro Dufour. A sua liderança foi fundamental para o arranque tecnológico da produção, estabelecendo um precedente de importação de know-how técnico.

Fase II: Apogeu, Ciência e Iluminismo no Século XVIII (c. 1700–1759) No auge do Iluminismo em Portugal, a gestão das ferrarias foi entregue a uma das figuras mais proeminentes da aristocracia cientifica europeia: o engenheiro Bento de Moura Portugal, FRS (1702-1766). Cientista de renome internacional, eleito membro da Royal Society de Londres em 1741, foi nomeado para o cargo de "Superintendente e Conservador das fabricas reais da fundiçam da artelharia da Comarca de Thomar". A sua nomeação, sob o patrocínio de D. João V, refletia uma política de Estado que visava aplicar o conhecimento científico e a engenharia moderna à produção industrial do Reino.

Sob a sua superintendência, a produção diversificou-se, incluindo alfaias agrícolas além da artilharia. Contudo, este período de progresso foi marcado por conflitos. Entre 1745 e 1748, o Superintendente de Sua Majestade Bento de Moura Portugal, FRS, enfrentou um processo no Tribunal do Santo Ofício, acusado de "proposições heréticas e escandalosas", revelando o choque entre a inovação e as forças conservadoras.

Fase III: O Encerramento Pombalino e o Interregno (1759–1801) Entre 1759 e 1761, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, as ferrarias foram encerradas. A justificação oficial apontava para a "má condução das lenhas", mas a análise histórica revela uma razão estratégica mais complexa do regime pombalino. O Marquês de Pombal planeava criar grandes fundições em Angola e, para tal, necessitava de técnicos qualificados. A solução foi transferir "à força" os mestres e operários de Figueiró dos Vinhos para Angola, esvaziando a fábrica metropolitana da sua competência técnica.

Este período coincidiu com a intensificação da perseguição política. A 9 de julho de 1760, o seu Superintendente Bento de Moura Portugal, FRS, foi preso no honroso e cruel Forte da Junqueira, em Lisboa, sob a acusação de "lesar o erário público" e de "envolvimento na conspiração dos Távora". Morreu no cárcere em janeiro de 1766 sem que nenhuma das acusações fosse provada ou sequer julgada, um fim trágico que é visto por muitos historiadores como o momento em que Portugal perdeu a oportunidade de protagonizar uma revolução científica e industrial no século XVIII.

Fase IV: A Reativação e os Desafios do Século XIX (1801–c. 1840) O renascimento das ferrarias foi decretado pela Carta Régia de 18 de maio de 1801, emitida pelo Príncipe Regente D. João VI. Esta decisão inseriu-se no movimento político conhecido como "Viradeira", que procurou reverter muitas das medidas do anterior regime. Para liderar a reativação, foi nomeado Intendente Geral das Minas e Metais do Reino o cientista luso-brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838).

José Bonifácio constatou o estado obsoleto da tecnologia e, para modernizar a fábrica, contratou os peritos prussianos Barão de Eschwege e Frederick Varnhagen. A reconstrução iniciou-se em 1802, mas o projeto foi abruptamente interrompido pelas Invasões Francesas (1807-1809). Mais tarde, durante as Guerras Liberais (1828-1834), as infraestruturas foram reativadas de forma improvisada para fabricar armas para o exército Miguelista.

Fase V: Declínio Final e Legado (c. 1840–início do séc. XX) Apesar dos esforços de reativação, as ferrarias nunca recuperaram a sua proeminência. Um relatório de 1837, do Barão de Eschwege, atestava o bom nível técnico da fundição, mas a sua viabilidade estava comprometida. As minas e a fundição continuaram a operar de forma intermitente até ao início do século XX, quando foram definitivamente encerradas.

O declínio final deveu-se a fatores estruturais ligados à Revolução Industrial. A "distância e dificuldade de escoamento da produção" tornaram o modelo da fábrica obsoleto face aos novos centros industriais, mais bem localizados e tecnologicamente mais avançados.

Hoje, do outrora vital complexo industrial, restam apenas ruínas na Foz de Alge. Estas encontram-se submersas no leito da albufeira da Barragem de Castelo do Bode, ficando visíveis apenas nos anos de seca, como um testemunho do património industrial e militar de Portugal.

Superintendentes e Figuras-Chave Nome Período de Atividade Cargo Contribuições e Contexto Francisco e Pedro Dufour Meados do séc. XVII Superintendentes Mestres franceses responsáveis pela fundação e arranque tecnológico inicial durante a Guerra da Restauração. Bento de Moura Portugal, FRS c. 1740s–1750s Superintendente e Conservador Cientista e engenheiro iluminista. Aplicou conhecimento científico à produção. Perseguido pela Inquisição e por Pombal, morrendo na prisão. Marquês de Pombal 1759-1761 (como decisor) Primeiro-Ministro Ordenou o encerramento da fundição e a transferência dos seus mestres para um projeto industrial em Angola. José Bonifácio de Andrada e Silva 1801–c. 1809 Intendente Geral das Minas e Metais Cientista luso-brasileiro encarregado da reativação e modernização da fundição. O seu trabalho foi interrompido pelas Invasões Francesas. Barão de Eschwege e Frederick Varnhagen Início do séc. XIX Peritos Técnicos Especialistas prussianos contratados por José Bonifácio para introduzir tecnologia moderna e superar o atraso técnico da fundição.

Ver também Guerra da Restauração Bento de Moura Portugal, FRS Marquês de Pombal José Bonifácio de Andrada e Silva Foz de Alge Figueiró dos Vinhos Tomar

Categoria:Figueiró dos Vinhos Categoria:História militar de Portugal