alt=File:Belt and Road international forum. Right President of China Xi Jinping.jpg|miniaturadaimagem|322x322px|Xi Jinping, Vladimir Putin e Joko Widodo no fórum internacional da BRI, 2017. O financiamento climático na China engloba os fluxos de capital mobilizados por órgãos estatais, instituições financeiras públicas e privadas para mitigar emissões de gases de efeito estufa e aumentar a resiliência às mudanças do clima, tanto no mercado doméstico quanto em países parceiros. Em 2023, a China foi responsável por cerca de 30% das emissões globais do ano, mantendo‑se como o maior emissor mundial.
Internamente, o país estruturou seu arcabouço de financiamento verde a partir de 2016, quando o Banco Popular da China e seis ministérios publicaram as Diretrizes para o Sistema Financeiro Verde, criando um catálogo oficial de projetos elegíveis e padrões de divulgação de riscos ambientais. Essas diretrizes permitiram a emissão de mais de 1,5 trilhão de yuans em títulos verdes entre 2016 e 2021.
No plano internacional, a China tem ampliado sua atuação por meio de fundos de cooperação Sul–Sul e da Iniciativa Belt and Road (BRI). Em 2023, a instalação de contratos e investimentos em energia via BRI somou 7,9 bilhões de dólares.
No entanto, a China enfrenta críticas quanto à aplicabilidade de suas próprias normas ambientais em projetos externos. Apesar de uma rígida regulamentação doméstica, as diretrizes verdes da Iniciativa BRI são predominantemente criticadas por falta de transparência — documentos não vinculantes que deixam lacunas na prestação de contas e no monitoramento de impactos.
Na esteira dessas controvérsias, Pequim tem buscado ampliar instrumentos verdes internacionais: em abril de 2025, emitiu seu primeiro título verde soberano de 6 bilhões de yuans na Bolsa de Londres, sinalizando a diversificação de sua base de investidores e reforçando o uso global de sua própria moeda em operações sustentáveis. Contexto climático e vulnerabilidades A China é atualmente o maior emissor anual de gases de efeito estufa do mundo, respondendo por aproximadamente 30% das emissões globais de CO₂ em 2023. Esse patamar deriva de um modelo de desenvolvimento historicamente baseado em indústria pesada e uso intensivo de carvão, o que torna o desacoplamento entre crescimento econômico e emissões um enorme desafio de política pública.alt=File:Power Plant (Tianjin, China).jpg|esquerda|miniaturadaimagem|Termelétrica de Jungliangcheng em Tianjin.Nas zonas costeiras chinesas, o duplo impacto da elevação do nível do mar e da subsidência do solo vem se agravar: 45% das áreas urbanas de 82 grandes cidades estão afundando — em 16% dos casos, a taxas superiores a 10 mm/ano — afetando cerca de 270 milhões de habitantes. Além dos perigos costeiros, ondas de calor recorde e secas prolongadas vêm cobrando um preço alto. Em 2022, as mortes atribuíveis a eventos de calor aumentaram 342% em comparação ao período-base (1986–2005) e que a perda de horas de trabalho devido ao calor alcançou 38,3 bilhões, equivalendo a 1,91% do PIB chinês ( 313,5 bilhões de dólares americanos). Em agosto de 2023, o governo registrou oficialmente as primeiras fatalidades por insolação desde o aumento extremo de temperaturas, com pelo menos duas mortes confirmadas e dezenas de atendimentos emergenciais em Shenzhen durante uma sequência de oito dias acima de 40 °C.
Nos cumes do Tibete e no noroeste, o recuo glacial avança a um ritmo alarmante. A área total de geleiras na China encolheu 26% desde 1960, com cerca de 7.000 pequenos glaciares desaparecendo nesse período. Em particular, o glaciar Laohugou No. 12 no Qilian, monitorado desde a década de 1950, recuou cerca de 450 m e perdeu até 13 m de espessura nos últimos anos, reduzindo drasticamente os estoques de água que alimentam rios vitais como o Yangtzé e o Amarelo.
Marcos legais e institucionais Desde meados dos anos 2000, a China vem erguendo um conjunto de marcos legais e institucionais que permitem canalizar recursos públicos e privados para ações de mitigação e adaptação ao clima.
Em 2006, entrou em vigor a Lei de Energia Renovável, que instituiu um sistema de custeio solidário da integração de fontes limpas à rede elétrica por meio de uma tarifa adicional de 0,001 yuan por kWh elevada a 0,008 yuan em 2011 — para financiar subsídios a projetos eólicos, solares e de biomassa conectados à rede. A lei também determinou que o preço de compra da energia renovável fosse fixado por órgãos estaduais competentes, criando um mecanismo análogo a feed‑in tariffs que garantiu a expansão rápida da capacidade renovável, embora tenha acumulado déficits de subsídio de até 400 bilhões de yuen em 2021 devido ao crescimento acelerado da oferta frente à arrecadação.
Em paralelo, o Plano Nacional para Enfrentar as Mudanças Climáticas de 2014 estabeleceu metas obrigatórias de redução de intensidade carbônica — queda de 40–45% das emissões por unidade de PIB até 2020, em relação a 2005 — e estimulou a implementação de leilões de energia renovável, incentivos fiscais e a ampliação de mecanismos de eficiência energética em setores-chave como indústria, transporte e edifícios.
No âmbito financeiro, o conceito de financiamento verde foi institucionalizado em 2016 com as Diretrizes para o Sistema Financeiro Verde, publicadas pelo Banco Popular da China (PBC) em conjunto com seis ministérios. Essas diretrizes criaram um catálogo oficial de projetos elegíveis – excluindo “carvão limpo” em 2021 – e definiram padrões de divulgação de riscos ambientais e critérios para emissão de títulos verdes, alavancando mais de 40 bilhões de dólares em títulos verdes já no primeiro ano e impulsionando mais de 1,5 trilhão de yuans entre 2016 e 2021.
Por fim, o Sistema Nacional de Comércio de Emissões (ETS) foi inaugurado em julho de 2021, cobrindo inicialmente mais de 2.200 usinas do setor de geração de energia e aproximadamente 5 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano — cerca de 40% das emissões nacionais — com negociação eletrônica na Bolsa de Shanghai e preço de abertura em 48 yuan por tonelada ( 7,4 dólares). Em março de 2025, está prevista a inclusão das indústrias de aço, cimento e alumínio, ampliando o escopo do ETS para cerca de 8 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (60% das emissões).
Financiamento público A China criou fundos especiais para apoiar o desenvolvimento de energias limpas. Em 2021 foram orçados 89 bilhões de yuan para subsídios adicionais a geração renovável e 6,01 bilhões para o Fundo de Desenvolvimento de Energia Limpa, ambos destinados a fomentar usinas fotovoltaicas, eólicas e projetos de gás não convencional. Na esfera de títulos verdes, as Diretrizes para o Sistema Financeiro Verde, publicadas em 2016 pelo Banco Popular da China e seis ministérios, permitiram a emissão de mais de 1,5 trilhão de yuans em títulos verdes entre 2016 e 2021.
Entre 2013 e 2021, a China forneceu em média anual quase 4 bilhões de dólares em financiamento climático a países em desenvolvimento, totalizando mais de 34 bilhões nesse período. Em complemento, o montante de empréstimos diretos bilaterais ao clima promovido pela China foi quase o dobro daquele oferecido pelos Estados Unidos, atingindo cerca de 3 bilhões de dólares por ano, em contraste com 1,5 bilhão anuais pelos EUA no mesmo intervalo. Esse fluxo robusto de recursos reforça o papel da China como ator central no financiamento climático Sul–Sul, embora o país não esteja atualmente sujeito a obrigações formais de reporte no âmbito da UNFCCC.
Mais recentemente, em maio de 2025, a China comprometeu 40 bilhões de dólares em investimentos de infraestrutura energética verde no Sudeste Asiático, incluindo 11,8 bilhões apenas em projetos de energia limpa. Além disso, também anunciou 51 bilhões de apoio financeiro à África para os próximos três anos, com 30 projetos de energia limpa, reforçando sua estratégia de expansão global de financiamentos climáticos.
Financiamento privado No setor privado chinês, os empréstimos verdes concedidos pelos bancos comerciais são a principal forma de financiamento climático.
Até setembro de 2022 o estoque de empréstimos verdes alcançou 20,9 trilhões de yuans ( 3 trilhões de dólares), equivalendo a cerca de 10% do total de crédito bancário. Já em 2023, esse estoque subiu para 30,08 trilhões de yuans, ou 12,7% do total de empréstimos, poupando anualmente mais de 1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalentes. Dentro desse universo, os bancos estatais dominam (74% do volume), seguidos pelos bancos de capital aberto (16,5%), bancos comerciais (8,12%), enquanto os bancos privados ainda têm participação modesta (0,01%).
Paralelamente, o mercado de títulos verdes domésticos registrou emissões cumulativas de 3,1 trilhões de yuan até setembro de 2022, segundo o FMI, com destaque para empresas não financeiras e governos locais. Em 2019, apenas as empresas listadas emitiram 339 bilhões em títulos verdes, representando 21,3% do mercado global naquele ano. Os fundos de investimento ambiental, social e em governança somavam 4 bilhões de yuan ao final de 2022, indicando ainda estágio inicial, mas forte potencial de expansão.
Além disso, o setor privado chinês vem ampliando sua presença em projetos de cleantech globalmente. Desde 2023, conglomerados industriais e bancos comerciais estatais comprometeram mais de 100 bilhões de dólares em investimentos diretos e parcerias em tecnologias limpas — incluindo painéis solares, turbinas eólicas, baterias e infraestrutura de recarga — em mercados da Europa, América Latina e Sudeste Asiático, incluindo o Brasil.
Cooperação internacional e financiamento externo alt=File:Kerry Hotel Beijing, 2018 Beijing Summit of FOCAC, Sep 2018.jpg|miniaturadaimagem|Hotel em Pequim durante o FOCAC de 2018 Na esfera bilateral, a China intensificou seu apoio a projetos de infraestrutura e energia limpa em países em desenvolvimento por meio de linhas de crédito concessionais. No Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) de setembro de 2024, o governo chinês anunciou a disponibilização de 360 bilhões de yuan em crédito para África nos três anos seguintes, incluindo o financiamento de 30 projetos de energia limpa, como parques solares e linhas de transmissão, ao lado de investimentos em infraestrutura de transporte.
Em iniciativas multilaterais, a Iniciativa Belt and Road (BRI) tornou-se canal central para o financiamento externo chinês. Em 2024 a China investiu 11,8 bilhões de dólares exclusivamente em energia renovável (solar, eólica e resíduos) e 639 milhões em hidrelétricas dentro dos projetos BRI, montante recorde desde 2013. Em 2023, a instalação de contratos e investimentos em energia via BRI somou 7,9 bilhões de dólares, reforçando a prioridade de Pequim pela “transição verde” em seus parceiros da Ásia, África e Europa.
Principais setores beneficiados
Doméstico Na China, o setor de energia renovável é o principal beneficiário do financiamento climático privado e público. Até o terceiro trimestre de 2024, o estoque de empréstimos verdes destinados à produção e distribuição de energia elétrica, calor, gás e água alcançou 35,75 trilhões de yuans — valor que representa 13,9% de todo o crédito bancário nacional e cresce 19% em um ano, refletindo o foco na modernização das redes e na expansão de usinas solares e eólicas.
No mercado de títulos verdes, a China continua como o segundo maior emissor global, com boa parte direcionada a projetos de energia limpa e eficiência energética em indústrias e edifícios.
Externo alt=File:Estación Perú 02.jpg|esquerda|miniaturadaimagem|290x290px|Estação Peru na Linha A do Metro de Buenos Aires, financiada com recursos chineses. No Brasil, o consórcio liderado por estatais chinesas completou em 2019 a linha de transmissão de ultra‑alta tensão Belo Monte–Rio de Janeiro (2.539 km, 800 kV), que transporta energia hidrelétrica do Norte para o Sudeste do país e ajudou a reduzir déficits energéticos locais.