Partido Missão (MISSÃO) é um partido político brasileiro de direita, fundado pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Seu estatuto e programa foram publicados no Diário Oficial da União em 18 de outubro de 2023, e o registro oficial foi deferido por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 4 de novembro de 2025, tornando-se a 30.ª legenda apta a disputar eleições no país.
O partido adota como número eleitoral o 14, anteriormente utilizado pelo extinto Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e tem como mascote a onça-pintada. Seu programa está sintetizado no Livro Amarelo, uma série de fascículos que orientam a plataforma política da legenda.
História
Antecedentes: o MBL
O Partido Missão tem origem no Movimento Brasil Livre (MBL), organização política fundada em 1.º de novembro de 2014 por Kim Kataguiri, Renan Santos, Rubinho Nunes e outros ativistas. O movimento ganhou projeção nacional ao organizar manifestações em defesa da Operação Lava Jato e contra o governo Dilma Rousseff, culminando com o apoio ao impeachment de Dilma entre 2015 e 2016.
Após o impeachment, o movimento mobilizou-se em favor da reforma trabalhista e da reforma previdenciária do Governo Temer. Consolidou-se como força política de direita, lançando e apoiando candidatos nas eleições de 2016 e 2018, entre eles Fernando Holiday, Kim Kataguiri e Arthur do Val, por diferentes partidos. Nas eleições de 2018, apoiaram a candidatura de Jair Bolsonaro no segundo turno, mas a partir de 2019 distanciaram-se do bolsonarismo, com ruptura definitiva nas manifestações de maio daquele ano, quando grupos bolsonaristas passaram a defender o fechamento do Congresso Nacional e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Fundação e busca pelo registro
Após as eleições de 2018, líderes do MBL manifestaram o desejo de ter uma legenda própria, mas preferiram inicialmente adotar um partido já existente. Nas eleições municipais de 2020, o movimento comandou uma chapa pelo Patriota em São Paulo, quando Arthur do Val obteve 522.210 votos (9,78% dos votos válidos) na disputa pela prefeitura, superando inclusive o candidato do PT, além de eleger três vereadores na capital paulista.
Em 2021, foram abertas negociações com os partidos Cidadania, Podemos e Partido Novo para disputar as eleições de 2022 sob uma legenda única. Em janeiro de 2022, foi firmado um acordo com o Podemos. Porém, em março de 2022, após o vazamento dos áudios de Arthur do Val, o MBL e o Podemos romperam, levando grande parte dos membros a migrarem para o União Brasil.
Após as eleições de 2022, nas quais o MBL acumulou derrotas significativas, o movimento adotou novas posturas estratégicas: passou a defender o uso do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e a criação de um partido próprio. A decisão foi reforçada quando o União Brasil impediu a candidatura de Kim Kataguiri à prefeitura de São Paulo em 2024, favorecendo o então prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Em 4 de novembro de 2023, no 8.º Congresso Nacional do MBL em São Paulo, foram anunciados o nome, o número eleitoral e os símbolos do partido. Renan Santos afirmou naquele congresso ser impossível construir algo a partir das legendas existentes, chamando a maioria de meros cartórios, ao mesmo tempo em que reconhecia o Partido dos Trabalhadores (PT) como um partido real. O mascote escolhido foi a onça-pintada, e as cores do partido — preto, branco e amarelo — foram baseadas no animal. A bandeira é formada por três listras horizontais nessas cores, com o logotipo na faixa branca. O nome "Missão" foi escolhido em referência aos termos de planejamento estratégico empresarial — missão, visão e valores —, distinguindo a agremiação da organização original.
O processo de coleta de assinaturas foi realizado de forma presencial, já que os líderes do MBL consideraram o sistema digital disponibilizado pelo TSE desde 2021 pouco acessível ao usuário. Em novembro de 2024, o portal Intercept Brasil divulgou denúncias de que coletores teriam abordado signatários sem informar claramente o objetivo de registrar um partido político. Representantes do partido justificaram o cuidado com a distinção entre o MBL e o MISSÃO como exigência da legislação eleitoral, que proíbe vínculos entre partidos e associações sem fins lucrativos. No 10.º Congresso Nacional do MBL, em novembro de 2024, o movimento anunciou ter coletado assinaturas suficientes para o registro, contabilizando a margem de perda estimada.
Em 26 de junho de 2025, o grupo atingiu o mínimo de 547.043 assinaturas validadas pelo TSE. Em 23 de setembro de 2025, a Procuradoria-Geral Eleitoral emitiu parecer favorável à criação da sigla e ao uso do número 14.
Registro e primeiros passos
miniaturadaimagem|300x300px|Renan Santos em ato político da Missão no Recife, Pernambuco, em janeiro de 2026.
Em 4 de novembro de 2025, o Plenário do TSE, por unanimidade, deferiu o pedido de registro e a homologação do estatuto do Partido Missão, sob relatoria do ministro André Mendonça. O partido obteve 577.999 apoios válidos, número superior ao mínimo exigido de 0,5% dos votos dados na última eleição geral para a Câmara dos Deputados. Com a decisão, tornou-se a 30.ª legenda com estatuto registrado no TSE.
Em 10 de novembro de 2025, Kim Kataguiri e Guto Zacarias anunciaram que se filiariam ao partido. Em dezembro de 2025, a legenda contabilizava 127 filiados. Ao longo do primeiro trimestre de 2026, durante a janela partidária encerrada em 3 de abril, o partido registrou crescimento expressivo, chegando a 17.382 filiados, sendo um dos quatro partidos brasileiros a crescer em filiações no período de 2025 a 2026. Em março de 2026, Kim Kataguiri e Guto Zacarias formalizaram suas filiações.
Eleições de 2026
O Partido Missão esteve apto a disputar as eleições gerais de 2026, sendo a primeira participação da legenda em um pleito nacional. O partido anunciou candidaturas para todos os cargos majoritários e legislativos.
Renan Santos, em uma convenção virtual ocorrida em 20 de julho, lançou sua candidatura oficial à presidência da República, com o militar da reserva Aroldo Medina sendo seu vice na chapa. O evento previa-se para 1 de agosto, porém antecipou-se pelo partido, sob a justificativa de ameaças ao candidato.
Para o governo do Rio de Janeiro, o partido lançou o Coronel do BOPE João Jacques Soares Busnello. Até abril de 2026, o partido havia confirmado pré-candidaturas a governador em ao menos sete estados, incluindo Paraná, Minas Gerais, Pernambuco e Maranhão.
Por ter sido registrado no TSE apenas em 2025, o partido não tem acesso ao fundo partidário antes das eleições gerais de 2026, visto que tal recurso exigia o cumprimento dos requisitos da cláusula de barreira na eleição anterior para a Câmara dos Deputados.
Todavia, o partido teve acesso ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) nas eleições de 2026, já que 2% do recurso foram distribuídos de forma igualitária entre todos os partidos com registro no TSE. Para o pleito daquele ano, 3 307 679,85 de reais esteve disponíveis para a agremiação realizar suas campanhas eleitorais.
Em 12 de agosto de 2026, foi registrado no sistema do TSE a filiação do senador Flávio Bolsonaro. Isso impossibilitou o registro da candidatura de Flávio pelo PL para disputar a eleição presidencial em 13 de agosto de 2026. A campanha do senador alegou fraude no registro da filiação e pediu investigação da Polícia Federal. Renan Santos alegou que o partido não filiou o senador e atribuiu a filiação a um hacker. Em checagem feita pelo TSE, foi constatada que a filiação que obstruiu o registro da candidatura de Flávio Bolsonaro não foi objeto de ataque hacker. Segundo o TSE o registro foi feito com a credencial do Partido Missão. No mesmo dia, o Ministro Nunes Marques determinou o restabelecimento da filiação de Flávio Bolsonaro ao PL e a exclusão do vínculo com o MISSÃO.
Em 30 de agosto de 2026, Dias Toffoli, ministro do Tribunal Superior Eleitoral, determinou cautelarmente a suspensão da propaganda eleitoral digital da chapa de Renan Santos à Presidência da República, além de restringir o recebimento de recursos do fundo eleitoral e a participação em debates. A decisão ocorreu após a identificação de dezesseis perfis em redes sociais utilizados pela campanha que foram informados à Justiça Eleitoral posteriormente ao registro da candidatura. Segundo Toffoli, a utilização desses perfis antes de sua comunicação poderia ter permitido que seus conteúdos continuassem sujeitos aos mecanismos de recomendação das plataformas, diferentemente dos perfis regularmente declarados, o que poderia conferir vantagem à candidatura. No dia seguinte, a decisão foi revogada pelo pelo ministro Dias Toffoli e a campanha presidencial foi retomada.
Ideologia e posicionamento
Autodefinição do partido
O Partido Missão rejeita os rótulos tradicionais de liberal e conservador, descrevendo essa dicotomia como "uma agenda americana do século XX que não se traduz na política atual". Em seu lugar, o partido se apresenta como "tecno-otimista". O partido propõe uma base ideológica que combina elementos do liberalismo econômico, conservadorismo social e intervenção estatal em áreas estratégicas. O presidente Renan Santos descreve a sigla como pertencente ao campo da direita, mas "altamente pragmática", afirmando um afastamento do "liberalismo inicial do MBL" e um programa que "em termos econômicos conversa com muita coisa do ponto de vista liberal, mas flerta com desenvolvimentismo também. Não há um dogmatismo nisso".
O partido se apresenta como "a direita do terceiro milênio" e um "projeto político de ruptura geracional", voltado especialmente ao público jovem. Entre seus princípios declarados estão o nacionalismo, a "defesa dos valores culturais greco-romanos e judaico-cristãos clássicos", o combate à corrupção, o endurecimento das leis penais, a guerra às organizações criminosas, a promoção da industrialização no Nordeste brasileiro, a responsabilidade fiscal e o combate ao desmatamento. O partido também defende a adoção de reservas em Bitcoin e a reindustrialização com ênfase em autonomia tecnológica.
O deputado Kim Kataguiri apresentou uma proposta de emenda à Constituição que autorizaria o Brasil a produzir armas nucleares e defendeu a pena de morte para membros de facções criminosas. O econacionalismo também integra a plataforma do partido, com a defesa da autossuficiência em energia limpa a partir de uma perspectiva de preservação do patrimônio nacional, em linha com o pensamento do filósofo conservador Roger Scruton. O partido também defende a elaboração de uma nova Constituição por meio de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Análises externas
Para analistas de direita, o Missão representa um projeto de ruptura estratégica de longo prazo. Bernardo Santoro, em artigo na Revista Oeste, argumentou que o partido pode ser o mais coerente dos projetos da nova direita na construção de hegemonia cultural, ao combinar formação política estruturada, presença digital orgânica e projeto ideológico próprio. O analista político Luan Sperandio avalia que a centralização decisória na cúpula nacional é natural no início do partido, mas alerta que o excesso de concentração de poder pode limitar o crescimento futuro da legenda, como ocorreu com o Partido Novo.
Fernando Holiday, ex-coordenador nacional do MBL que rompeu com o movimento em 2021, avalia que a escolha de Renan Santos como pré-candidato à presidência é estratégica por ser uma figura menos associada ao antibolsonarismo, o que permitiria ao partido testar discursos radicalizados em segurança pública e contra o funcionalismo público sem o desgaste de lideranças já polarizadas.
Críticas