Guerlinguetus brasiliensis, popularmente conhecido como caxinguelê, quatipuru-pequeno, esquilo, serelepe e quati-coco (regionalismo de Santa Catarina), é um mamífero roedor da família dos esquilos ou ciurídeos (Sciuridae), endêmica da América do Sul, com ocorrências no Brasil e Argentina. Possui três subespécies reconhecidas. É uma espécie arborícola de hábitos diurnos. Sua alimentação é granívora, frugívora e insetívora. É classificada como uma espécie pouco preocupante em decorrência de sua ampla distribuição e abundância nos habitats onde está presente.
Etimologia
O nome popular caxinguelê tem origem controversa. Antenor Nascentes propôs que deriva do quimbundo kaxinjiang'elê, "rato de palmeira". Renato Mendonça menciona a origem etimológica proposta por M. Soares, segundo a qual o termo deriva do quimbundo ka- (prefixo diminutivo) + jingulu (plural de ngulu, "porco"), com possível influência de línguas indígenas. Já Nei Lopes também parte do quimbundo, mas sugere um cruzamento entre kaxijiangêle, usado como designação popular para roedores ciurídeos, e xinguilé, que designa uma dança na qual a mulher que acabou de dar à luz, acreditando-se possuída por algum calundu, executa saltos e movimentos vertiginosos - o que, segundo o autor, faz alusão direta ao comportamento agitado e saltitante do animal. Por sua vez, Castro cita o termo do quicongo kinsengele. Registros históricos da palavra incluem formas como caxinglê (1817 e 1853), quexinguelê (1853), caxinglé (1877), caxiangulê (1881) e caxinguelê (1899).
Segundo Antenor Nascentes, o termo tem origem no tupi akutipu'ru, com o sentido de "cutia enfeitada", o que poderia levar à interpretação de quatipuru como variante de acutipuru. No entanto, o Dicionário Houaiss não relaciona a forma quati- às variantes de cutia (derivado do tupi akuti), mas sim como uma variação de cuati (do tupi kwa'ti, "raposa"). Já o BrTup afirma que "acuti-puru, em nheengatu, pode traduzir-se literalmente por 'cutia enfeitada' e nada mais é do que o nome tupi para o esquilo, também chamado cuatipuru, por corruptela". O registro histórico mais antigo da palavra, com o sentido de "mesmo que caxinguelê", data de 1928, com a forma quatipurú.
Esquilo tem origem duvidosa. A tradição aponta para o grego skíouros, -ou () com o sentido de "esquilo", literalmente "aquele que faz sombra com a cauda", possivelmente transmitido por uma forma intermediária squirus. Segundo José Pedro Machado, todos os vocábulos românicos aparentados com esse étimo apresentam grande variedade de sufixos, e muitos deles sugerem a existência de uma raiz mais antiga, como skir- ou skil-. O registro histórico mais antigo em português data de antes de 1538, com a forma esquio.
A origem de serelepe é controversa. Para Antenor Nascentes e Antônio Geraldo da Cunha, trata-se provavelmente de um vocábulo de formação expressiva. Nei Lopes, por sua vez, sugere origem no quicongo sele, com o sentido de "uma espécie de rato". O registro histórico mais antigo conhecido data de 1889, com a forma sêrêlêpe. Quati deriva do tupi kwa'ti, com o sentido de "espécie de mamífero carnívoro", conforme citado por José Pedro Machado, com significado literal de "nariz pontudo". O missionário e explorador francês André Thevet registrou a palavra coati já em 1557, em uma obra publicada em francês. Na Argentina, a espécie é ainda referida localmente pelos nomes esquilo-cinza () e esquilo-missionário ().
Taxonomia e sistemática
Reconhece-se apenas duas espécies no gênero Guerlinguetus: Guerlinguetus aestuans (S. aestuans) e Guerlinguetus brasiliensis. O nome científico Guerlinguetus brasiliensis é atribuído a Johann Friedrich Gmelin (1788), que o publicou como sinônimo de Sciurus aestuans e atribuído a Georg Marcgraf (1648). René Primevère Lesson (1838) reconheceu a espécie como válida, afirmando que Frédéric Cuvier, no Suplemento de Buffon, Tomo I, havia fornecido o nome; entretanto, nesta obra, F. Cuvier (1831) não utilizou uma designação binomial para o esquilo descrito por Marcgraf. Segundo o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN 1999: Arts. 11.6.1 e 50.7), a autoria de tal nome deve ser atribuída ao primeiro publicador, mesmo que tenha sido dada como sinônimo júnior. Gmelin (1788) indicou como localidade-tipo "Brasilia et Guiana", mas, conforme argumentado por outros autores para a espécie originalmente relatada por Marcgraf (1648), aqui restringe-se a localidade-tipo para Recife, Pernambuco, Brasil.
upright=1.1|miniaturadaimagem|Guerlinguetus aestuans (avistado na Guiana Francesa) a outra espécie reconhecida do gênero Guerlinguetus e intimamente relacionada geneticamente com G. brasiliensis
Guerlinguetus é um gênero de esquilos arborícolas tropicais que ocorre desde o leste da Colômbia, Venezuela e Guianas, estendendo-se pelo bioma Amazônia de terras baixas, passando pela Mata Atlântica do leste e sul do Brasil até o nordeste da Argentina. Não é conhecido em países vizinhos como Paraguai e Bolívia, onde o gênero é substituído pelo morfologicamente muito semelhante Notosciurus. Apesar de ser amplamente distribuído na Amazônia brasileira, Guerlinguetus não é registrado ao sul do rio Solimões, entre os rios Javari e Madeira. Está ausente da maioria das áreas, exceto das florestas galerias amplas na periferia do bioma Cerrado, no centro do Brasil, e em enclaves de florestas mesófilas na Caatinga do leste brasileiro.
As espécies de Guerlinguetus, assim como todos os esquilos sul-americanos, são exclusivas de ambientes florestais. O gênero apresenta distribuição majoritariamente parapátrica com Notosciurus, exceto na região geral do rio Maranhão, no Peru. Guerlinguetus é facilmente distinguível dos demais esquilos sul-americanos pelo seu tamanho: maior que Microsciurus, Sciurillus e Syntheosciurus, mas menor que Hadrosciurus e Simosciurus. Comparado a Notosciurus, que possui tamanho similar, Guerlinguetus é único pela presença de quatro pares de mamas em vez de três e, tipicamente, pela ausência de uma mancha pós-auricular diferencialmente colorida. Cranialmente, o gênero distingue-se pela fossa orbitotemporal igualmente dividida por um processo pós-orbital bem desenvolvido, e pelo segundo molar superior que apresenta duas cristas paralelas bucolinguais, perpendiculares ao eixo ântero-posterior do crânio.
Guerlinguetus brasiliensis é uma espécie politípica. A subespécie G. b. brasiliensis (Gmelin) ocorre no nordeste do Brasil, abrangendo os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. G. b. paraensis (Goeldi & Hagmann) está distribuída na Amazônia oriental brasileira, nos estados do Pará, sul do rio Amazonas, desde a bacia do rio Xingu até o leste do Maranhão, Tocantins, Piauí e leste de Mato Grosso. Por sua vez, G. b. ingrami (Thomas) é encontrada na faixa costeira do Brasil, desde o Espírito Santo até o Rio Grande do Sul, estendendo-se também até a província de Missões, na Argentina. Abreu-Jr et al. (2020) a partir de análises de genoma mitocondrial identificaram quatro linhagens genéticas dentro do complexo Guerlinguetus: três que correspondem a G. aestuans e uma de G. brasiliensis.
Descrição
Os indivíduos de Guerlinguetus brasiliensis apresentam peso médio de 193 gramas, com o dorso uniformemente castanho ou castanho-oliváceo. A coloração ventral é altamente variável. Possuem cauda volumosa, com comprimento igual ou superior ao do corpo, e orelhas grandes, que se projetam além do perfil da cabeça. Na subespécie nominal a coloração ventral é geralmente branca na garganta, no peito, na barriga e nas partes internas das patas dianteiras e traseiras, enquanto a cauda apresenta tonalidade grisalha. Ao sul da ocorrência da nominal, no estado do Espírito Santo, surgem formas intermediárias entre a subespécie nominotípica e G. b. ingrami. Esses espécimes exibem menor extensão de áreas ventrais brancas, com predomínio de coloração amarelada, mas mantêm a cauda grisalha. Mais ao sul e a oeste do Espírito Santo, os indivíduos apresentam branco restrito à garganta e ao peito, por vezes também nas regiões posterior e inguinal do ventre. A cauda, diferentemente, nunca é grisalha, sendo pontilhada de tons laranja ou vermelho. A terceira subespécie, G. b. paraensis, assemelha-se a G. b. ingrami, porém possui menor quantidade de cinza na região ventral, pelagem aparentemente mais curta e um porte ligeiramente menor.
Distribuição e habitat
esquerda|upright=1.1|miniaturadaimagem|G. b. ingrami avistado se alimentando no Balneário Garça Vermelha, em Peruíbe, em São Paulo
Guerlinguetus brasiliensis ocorre na Amazônia brasileira a leste dos rios Iriri e Xingu e ao sul da região do baixo Amazonas, abrangendo os estados do Pará, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Além disso, estende sua distribuição por toda a região nordeste e sudeste do Brasil, desde o Ceará até o Rio Grande do Sul, alcançando também a província de Missões, na Argentina. A espécie aparentemente habita duas áreas geograficamente separadas: uma corresponde à subespécie amazônica G. b. paraensis, e a outra compreende as subespécies G. b. brasiliensis e G. b. ingrami, que ocorrem de forma contínua desde o nordeste até o sul do Brasil e na Argentina. Em termos hidrográficos, está presente nas sub-bacias do Araguaia, do Contas, do Doce, do Grande, do Guaíba, do Gurupi, do Iguaçu, do Jequitinhonha, do litoral da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, do Paranapanema, do Paraná RH1, do Paraíba do Sul, do Alto Parnaíba, do Alto São Francisco, do Tietê, do Baixo Tocantins, do Alto Uruguai e do Xingu.
Embora a distribuição de Guerlinguetus brasiliensis sugira que essa espécie habite diversos biomas do leste da América do Sul - desde a Amazônia até o Cerrado central brasileiro, as florestas secas do Nordeste (Caatinga) e a Mata Atlântica - acredita-se que esteja restrita a ambientes florestais, não ocorrendo em comunidades de vegetação aberta. Nas florestas Amazônica e Atlântica, a espécie é comum e bem representada em coleções científicas. Já no Cerrado e na Caatinga, é considerada rara, estando limitada a matas de galeria marginais e bolsões isolados de vegetação mésica, respectivamente. Como outros esquilos arborícolas, é especialista em habitat arbóreo, sendo tipicamente capturado ou observado a alturas entre cinco e 12 metros na camada intermediária da floresta. No entanto, demonstra tolerância a alterações ambientais, podendo ser encontrada também em áreas urbanas.
Ecologia
upright=1.1|esquerda|miniaturadaimagem|G. b. ingrami avistado se hidratando na Base Ecológica da Serra do Japi, em Jundiaí, em São Paulo