O violão no Brasil descreve a história e o desenvolvimento do violão (conhecido internacionalmente como guitarra clássica ou violão de cordas de nylon) em território brasileiro, onde se tornou um dos instrumentos mais importantes e característicos da música do Brasil.Fonte: Acervo Digital do Violão Brasileiro - Seção História. Sua trajetória se inicia no Brasil Colônia com instrumentos precursores ibéricos e evolui ao longo dos séculos, assumindo papéis centrais em diversos gêneros musicais, como o choro, o samba e a bossa nova.Fonte: Tese de Doutorado, USP, sobre o violonista Garoto e a evolução do instrumento.

O instrumento se disseminou por diferentes estratos sociais e contextos musicais, transitando entre a música popular e a música erudita. É utilizado tanto como instrumento de acompanhamento rítmico e harmônico quanto como instrumento solista de grande virtuosismo.PAVÃO, A. O violão e a identidade nacional brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.

História

Origens e período colonial O precursor do violão no Brasil foi a viola de mão, instrumento de cordas dedilhadas popular em Portugal e na Espanha durante o Renascimento. Trazida pelos jesuítas e colonos portugueses a partir do século XVI, a viola de mão foi utilizada em contextos religiosos e, posteriormente, em gêneros populares nascentes.Fonte: Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA) - "Violas de Minas".

Ao longo dos séculos, adaptações locais deram origem a diferentes instrumentos. Enquanto uma vertente resultou na viola caipira, com suas afinações variadas e cordas de aço, outra, ao adotar seis ordens de cordas simples e afinação em quartas (com uma terça maior central), consolidou-se como o violão. Este se tornou o principal instrumento harmônico nos centros urbanos, acompanhando gêneros como o lundu e a modinha.

Afirmação no século XIX Durante o século XIX, o violão se estabeleceu como um símbolo da cultura urbana do Rio de Janeiro, então capital do Império. Enquanto o piano era o instrumento da aristocracia, o violão era predominante nas ruas, nas serenatas e nos encontros de músicos populares, onde nasciam as bases do Choro.

Devido à sua associação com a boemia e as camadas populares, o instrumento adquiriu um estigma social, sendo frequentemente tratado de forma pejorativa pela elite.

Esse preconceito começou a ser desfeito no final do século e início do século XX, com o surgimento de violonistas que refinaram sua técnica e repertório.

O violão nos gêneros musicais

Choro No Choro, o violão de 6 cordas é responsável pela base harmônica e pelo centro rítmico, executando as "levadas" características. Violonistas como João Pernambuco e Quincas Laranjeiras foram fundamentais na definição da linguagem do instrumento no gênero, com composições como "Sons de Carrilhões" se tornando clássicos.Fonte: Acervo Digital do Violão Brasileiro - Artigo sobre João Pernambuco.

Uma inovação crucial foi a introdução do violão de sete cordas, que adicionou uma linha de baixo melódica e contrapontística chamada "baixaria". A linguagem da baixaria foi consolidada e popularizada por Dino Sete Cordas (Horondino José da Silva), tornando-se um elemento definidor da sonoridade dos conjuntos de choro e samba.Fonte: Anais da ANPPOM, Artigo sobre a identidade sonora de Dino 7 Cordas.

Samba No samba, o violão atua como o elo entre a melodia e a percussão. A "batida" ou "levada" do violão no samba tradicional frequentemente sintetiza os padrões rítmicos de instrumentos como o surdo e o tamborim. O violão de sete cordas, por sua vez, realiza o contraponto (baixaria) que dialoga com a linha melódica do cantor.Fonte: Artigo acadêmico, UNIRIO, sobre o acompanhamento de violão no samba.

Bossa Nova A Bossa Nova surgiu a partir de uma nova forma de tocar violão, desenvolvida por João Gilberto. Sua "batida" característica consistia em uma síntese rítmico-harmônica: com o polegar, ele tocava os baixos dos acordes de forma sincopada, enquanto os outros dedos pulsavam os acordes em um padrão rítmico derivado do samba. Isso criou um acompanhamento autossuficiente, fundindo harmonia e ritmo.Fonte: Jornal da USP, "Rádio USP mostra a batida de violão de João Gilberto". O som dos violões de cordas de nylon da fábrica Di Giorgio tornou-se uma marca sonora do movimento.Fonte: Revista do Choro, "A história de Romeu Di Giorgio".

Música sertaneja e regional Em diversas tradições regionais, o violão também desempenha papel central. Sertanejo de Raiz: O violão forma uma dupla com a viola caipira. No pagode de viola, subgênero criado por Tião Carreiro, a viola executa um ritmo complexo e sincopado enquanto o violão fornece uma base rítmica e harmônica sólida, criando uma polirritmia característica.Fonte: Tese de Mestrado, UFG, sobre o Pagode de Viola de Tião Carreiro. Baião: Na música de Luiz Gonzaga, o violão foi integrado à instrumentação tradicional (sanfona, zabumba, triângulo), adaptando sua levada para dialogar com a rítmica percussiva do gênero.Fonte: Artigo acadêmico, SciELO, sobre a instrumentação do baião.

Principais violonistas A evolução do violão no Brasil está diretamente ligada à contribuição de músicos que expandiram suas possibilidades técnicas e estilísticas.

Violonista Gênero(s) Principal contribuição Obras notáveis Garoto Choro Moderno, Samba-canção Harmonização moderna e técnicas que anteciparam a Bossa Nova. Sinal dos Tempos, Jorge do Fusa, Lamentos do Morro Dilermando Reis Valsa, Choro Popularização do violão solista com um vasto repertório de composições próprias. Abismo de Rosas, Se Ela Perguntar, Uma Valsa e Dois Amores Luiz Bonfá Bossa Nova, Samba-jazz Compositor de temas de reconhecimento internacional. Manhã de Carnaval, Samba de Orfeu Baden Powell Afro-samba, Samba-jazz Fusão de técnicas do violão clássico com a rítmica afro-brasileira. Os Afro-Sambas (com Vinicius de Moraes), Tristeza on Guitar Raphael Rabello Choro, MPB, Instrumental Elevação do violão de 7 cordas à condição de instrumento solista virtuoso. Raphael Rabello (1982), Cry, My Cavaquinho (1987) Guinga MPB, Instrumental Compositor com uma linguagem harmônica e melódica singular e complexa. Cheio de Dedos (1996), Suíte Leopoldina (1999) Yamandu Costa Instrumental, Choro, Ritmos latinos Virtuosismo técnico e fusão de diversos estilos musicais brasileiros e sul-americanos. Yamandu (2001), Continente (2017)

Luteria A construção de violões no Brasil (luteria) possui vertentes industriais e artesanais. Produção Industrial: As fábricas Di Giorgio (fundada em 1908) e Giannini (fundada em 1900) foram essenciais para a popularização do instrumento no país.Fonte: Site oficial da Giannini - Seção "Quem Somos". A Di Giorgio ficou associada à Bossa Nova, enquanto a Giannini, além da produção em massa, criou instrumentos como a Craviola, em parceria com o violonista Paulinho Nogueira. Luteria Artesanal: A construção de violões de concerto segue a tradição da escola espanhola de Antonio de Torres. No Brasil, luthiers como Sérgio Abreu são reconhecidos pela alta qualidade de seus instrumentos.Fonte: Unespar, Artigo sobre a história da luteria violonística no Brasil.

Ensino e estudo O ensino do violão no Brasil se dá tanto por tradição oral, em gêneros populares, quanto pelo ensino formal em conservatórios e universidades. No meio acadêmico, o violonista e professor Henrique Pinto (1941-2010) é uma figura de destaque, tendo sido responsável pela formação de gerações de violonistas eruditos e pela elaboração de métodos de estudo como Iniciação Violonística.Fonte: Acervo do Violão Brasileiro - Biografia de Henrique Pinto.

Para a música popular, o trabalho do editor Almir Chediak foi um marco. Seus Songbooks, que transcreveram com precisão harmônica e melódica a obra de grandes compositores da MPB, tornaram-se uma referência para o estudo do violão brasileiro.Fonte: Jornal de Brasília, "O legado de Almir Chediak".

A vitalidade do instrumento é mantida por meio de festivais e concursos, como o Festival Internacional de Violão da UFMS e o Prêmio BDMG Instrumental, que servem de plataforma para novos talentos.

Ver também Luteria Música do Brasil Viola caipira Cavaquinho

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