Álvaro Ribeiro (Campinas, Província de São Paulo, Império do Brasil, - Campinas, Estado de São Paulo, Estados Unidos do Brasil, ), foi um jornalista e político brasileiro, mais conhecido por ter sido fundador do Correio Popular, jornal diário da cidade de Campinas, no interior paulista, onde continua a circular por toda sua região metropolitana, até os dias de hoje, desde sua fundação em , fazendo dele o jornal mais antigo da cidade ainda em circulação.
Biografia Filho do comerciante Antônio Joaquim Ribeiro e Maria Augusta Diniz Ribeiro, ambos de origem portuguesa, Álvaro foi uma das figuras de destaque da sociedade campineira nos tempos da República Velha.
Carreira jornalística Embora seja mais frequentemente lembrado pela fundação do Correio Popular, Ribeiro apoiou a fundação de outros jornais, além de ter trabalhado no ramo. Ribeiro trabalhou em jornais locais como o Cidade de Campinas, do ex-intendente municipal Antônio Lobo, e o Comércio de Campinas, de Henrique de Barcelos.
Diário do Povo
No Comércio de Campinas, onde Ribeiro fora redator, estava na chefia das oficinas de impressão Antônio Franco Cardoso ("Cardosinho", como era chamado). Diante do encerramento das atividades daquele jornal, ambos tornaram-se sócios, com o objetivo de fundar um novo jornal local. Esse jornal ve0io a ser o tradicional "Diário do Povo", que nasceu em .
Passado pouco mais de uma década, desentendimentos entre os sócios atingiram tal ponto que, em 1924, Ribeiro deixou a codireção do Diário do Povo, passando este ao comando total de Cardosinho, que conduziu o jornal até seu falecimento, em 1959, ficando o jornal sob administração de sua família, que enfrentou dificuldades sucessivas na administração da folha, até que decidiram vendê-la a José Augusto Roxo Moreira, herdeiro da indústria têxtil que promoveu uma importante modernização tecnológica do jornal, o que, porém, não evitou novas crises. O jornal foi vendido mais duas vezes: a primeira, para Orestes Quércia, proprietário do Jornal de Hoje (JH), concorrente do Diário, e em seguida, para o Grupo RAC, da família Godoy, que adquiriu o jornal por volta de 1997.
Sob a gestão do grupo RAC, o jornal teve relativo sucesso, o qual não durou muito, especialmente após o mesmo grupo lançar o jornal Notícia Já, de conteúdo bastante similar, o que marcou a decadência final e o fim do Diário do Povo. As edições impressas circularam pela última vez no início de novembro de 2012, alguns meses depois de o jornal ter completado seu centenário. miniaturadaimagem|303x303px| Primeira capa do Correio Popular
Correio Popular
Fundado em por Ribeiro, apoiado por Antônio Joaquim Ribeiro, seu irmão, e por Ademar Ribeiro, seu sobrinho, o Correio Popular veio a se tornar o jornal mais prestigiado da cidade, crescendo década após década, apesar das dificuldades sucessivas causadas pela instabilidade política das décadas que sucederam à fundação. Com o falecimento de Ribeiro em , o jornal passou a ser administrado por seu irmão.
Quase uma década depois, iniciou-se uma nova era na história do jornal, que foi adquirido por Sylvino de Godoy, por meio da empresa "Correio Popular S/A", aberta em , para adquirir e administrar os negócios do jornal. inaugurando a "dinastia" da família godoy na condução do jornal. Sylvino foi presidente do jornal de 1938 a 1970, quando veio a falecer.
Com o falecimento de Sylvino, a presidência do jornal passou a Edvard de Vita Godoy, seu filho, que permaneceu na posição até 1976, quando Edvard veio a falecer. Quem o sucedeu no comando do jornal foi Carmela de Vita Godoy, esposa de Sylvino, permanecendo no cargo até 1978, quando a presidência é assumida por Carmen de Vita Godoy Jacob, filha de Sylvino, que inaugurou uma nova fase na história do jornal, promovendo uma série de modernizações, como a mudança da impressão em linotipo para off-set, além da inauguração de um parque gráfico.
Carmen permaneceu na posição até 1987, ano em que foi sucedida no comando do jornal por Sylvino de Godoy Neto, o qual, por sua vez, estabeleceu mais um marcona história do Correio, avançando a modernização e o crescimento da folha campineira, que experimentou um crescimento sem precedentes nas décadas seguintes.
Sylvino Neto é atualmente presidente do Grupo RAC, que se formou sob sua gestão, em 1997. O Correio atualmente está sob presidência de Ítalo Hamilton Barioni. Até os dias de hoje, o Correio Popular segue sendo o mais tradicional e prestigiado jornal diário de Campinas e região.
Atuação na política Ribeiro também se destacou na política local. Tendo sido eleito vereador, iniciou sua primeira legislatura em , cargo para o qual foi reeleito mais seis vezes consecutivas, durante as quais sempre integrou a ala oposicionista na Câmara Municipal.
Pavilhão de Campinas na Exposição internacional do Centenário da Independência Um fato especialmente notável ocorreu em . Naquele ano se realizava a Exposição do Centenário da Independência, na qual a cidade de Campinas não apenas tomou parte, como teve um pavilhão exclusivo na avenida das Nações (atual Avenida Presidente Wilson).
Segundo a historiadora campineira Beatriz Piva Momesso, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas, a conquista do pavilhão de Campinas foi possível pela união dos esforços de Álvaro Ribeiro e de Raphael de Andrade Duarte, então prefeito de Campinas. A cidade foi a única do interior paulista a se fazer representada. Conforme nota publicada na época, no jornal Gazeta de Campinas, o pavilhão campineiro era tão impressionante quanto o pavilhão do estado de São Paulo, senão superior.
Revolta de 1924
Ribeiro também desempenhou papel de liderança política para além do âmbito das instituições oficiais, notadamente durante a instabilidade social provocada pela Revolta Paulista de 1924, deflagrada sob a liderança de Isidoro Dias Lopes, com o objetivo de derrubar o governo do então Presidente da República Artur Bernardes. miniaturadaimagem|248x248px|Bilhete de residência português emitido em favor de Ribeiro (Fonte: Correio Popular) Com a tomada de Campinas pelas tropas revoltosas, Álvaro Ribeiro foi nomeado "governador revolucionário de Campinas" por Olinto Mesquita de Vasconcelos, então tenente-coronel no exercício da função de comandante do 2º Grupo de Artilharia de Montanha (G.A.M.), de Jundiaí, que também foi uma das figuras de liderança da rebelião tenentista. esquerda|miniaturadaimagem|297x297px|Abaixo assinado enviado a Carlos de Campos Após a derrota dos rebeldes pelas forças legalistas – o que, no interior, somente se efetivou de fato em setembro daquele mesmo ano –, o Estado brasileiro empreendeu todos os esforços para punir os rebeldes. Temendo ser preso, Ribeiro buscou exílio em Portugal, ainda em 1924.
Mais tarde, em , foi enviado um abaixo-assinado ao Presidente do Estado de São Paulo, que então era Carlos de Campos, contendo 556 assinaturas, entre as quais estavam representados diversos círculos sociais de Campinas, tais como proprietários e empregados de comércios e de indústrias locais, além de proprietários de terras, lavradores, trabalhadores ferroviários, escrivães, engenheiros, dentistas, farmacêuticos, médicos e advogados.
Finalmente, com a eleição de Washington Luís, de quem Ribeiro era próximo, retornou este ao Brasil. Quanto ao processo criminal no qual era acusado de ter sido cúmplice na revolta, ao final foi absolvido pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmando-se o julgamento inicial na sentença, prolatada por Washington Osório de Oliveira, que na época do julgamento era juiz titular da 1ª Vara Federal da Seção do Estado de São Paulo.
Livro "Falsa Democracia" esquerda|miniaturadaimagem|243x243px|Livro "Falsa Democracia" miniaturadaimagem|264x264px|Retrato de Ribeiro, na contracapa do livro, desenho de Gerson PinheiroDurante o exílio, nasceu o único escrito em forma de livro que sua breve vida lhe permitiu publicar – "Falsa Democracia: A Revolta de São Paulo em 1924".
O título da obra não deixa dúvidas da oposição do autor ao jogo político que vigorou durante a primeira república brasileira, período caracterizado pelo forte controle do Estado e da economia pelos antigos senhores de escravos, agora grandes proprietários de terras, os latifundiários, características que renderam ao período o nome "República das Oligarquias".
Conforme contam os filhos do autor, o destaque da obra foi denúncia do abandono dos mais desfavorecidos, que acabavam vítimas dos interesses das classes abastadas.
Relato do massacre dos operários em 1917 miniaturadaimagem|290x290px|Fotografia incluída no livro onde se vê a Porteira do Capivara, antes da construção do Viaduto Cury Um evento de destaque que Ribeiro incluiu livro foi o massacre de operários de Campinas em 1917, episódio que se desenrolou no contexto da Greve Geral que eclodiu em julho daquele ano, promovida por diversas organizações criadas por trabalhadores partidários das ideias anarquistas, em especial do anarquismo italiano.
O episódio ocorreu quando operários de Campinas, após saberem da prisão de um ex-colega de trabalho, por ter sido acusado de "agitador", e que ele seria levado a São Paulo, apressaram-se até a Estação Ferroviária de Campinas (atualmente desativada), para se manifestar pedindo a soltura do companheiro ao delegado de polícia.
Sabendo que o pedido não seria atendido, grande parte dos manifestantes se deslocou até a chamada "Porteira do Capivara", uma trecho da ferrovia onde havia uma passagem de nível que conectava o centro da cidade à Vila Industrial (hoje localizada sob o Viaduto Cury), a fim de impedir a saída do trem que devia transportar o trabalhador detido até a capital.
Embora não estivesse de acordo com a ação dos operários, sendo um partidário do liberalismo econômico, Ribeiro qualificou a ação dos agentes policiais como um massacre deliberado. Ele relata que um trem especial, vindo de São Paulo, trazendo duzentos praças da polícia militar, havia parado na altura da Ponte Preta, cerca de duzentos metros de distância da Porteira do Capivara. Os soldados desembarcaram e avançando agachados, chegaram próximos e abriram fogo contra os trabalhadores, os quais estavam todos desarmados. Foram atingidos cerca de 19 trabalhadores, resultando na morte de 03 deles, e em 16 outros feridos. Quase todas haviam sido atingidos pelas costas, pois foi onde foi se identificou os ferimentos da maioria deles. Mais tarde, operários pretenderam inaugurar um mausoléu no cemitério, em memória dos companheiros assassinados. As autoridades se opuseram, não tendo sequer permitido o epitáfio "Barbaramente assassinados pela polícia na porteira do Capivara", por considerá-lo ofensivo ao decoro oficial, segundo conta Ribeiro.
Segundo se tem notícia, o poder público municipal jamais promoveu a memória dos trabalhadores assassinados. Apesar disso, cidadãos comuns trataram de fazer sua parte para que manter a memória do episódio. Décadas depois, em 1959, foi afixada uma placa em memória dos operários, a pedido de Américo Brancaglion, trabalhador ferroviário e vereador de Campinas na 1ª legislatura (1948-1951) pelo PCB. Quase cinco décadas depois, em julho 2007, quando então completavam 90 anos do massacre, a Federação Operária de São Paulo (FOSP), organização anarquista, providenciou outra placa, à esquerda da primeira.
Vida pessoal Em , casou-se com Hermínia de Godoy, filha do comerciante Lázaro Marcellino de Godoy e de Elisa Hucke de Godoy. A cerimônia se deu na então chamada Paróquia de Santa Cruz (hoje, "Basílica Nossa Senhora do Carmo"), conhecida também como "matriz velha" por ter sido a igreja matriz de Campinas entre 1781 e 1883, ano em que se inaugurou a "matriz nova", a Catedral Nossa Senhora da Conceição. Álvaro e Hermínia tiveram, pelo menos, duas filhas e um filho, cujos nomes são Elisa Augusta, Maria José e Álvaro.
Morte