Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão? foi o enredo apresentado pelo Paraíso do Tuiuti no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 2018. O samba-enredo homônimo foi composto por Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal Leonardo e interpretado no desfile por Nino do Milênio, Celsinho Mody e Grazzi Brasil. Com o desfile, a escola conquistou o vice-campeonato do carnaval, perdendo o título para a Beija-Flor de Nilópolis, que desfilou com o enredo "Monstro É Aquele que não Sabe Amar — os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu".

O enredo do desfile, criado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, teve como tema os 130 anos da assinatura da Lei Áurea, completados em 2018. O enredo abordou a escravidão em várias civilizações da antiguidade, passando pela abolição da escravatura no Brasil com a assinatura da Lei Áurea, até chegar na escravidão moderna e na precarização do trabalho no Brasil contemporâneo. O Tuiuti foi a quarta escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, iniciando sua apresentação na madrugada da segunda-feira de carnaval, dia 12 de fevereiro de 2018. Um dos destaques do desfile foi a Comissão de Frente, coreografada por Patrick Carvalho, que encenou negros escravizados sendo libertos por pretos-velhos. A Comissão recebeu todos os prêmios do ano. O último setor do desfile causou polêmica ao criticar as reformas trabalhistas do Governo Temer. Uma ala, denominada "Manifestoches", ironizou os protestos a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, satirizando os manifestantes como "marionetes" manipuladas por "grupos poderosos". Na última alegoria, um destaque central desfilou caracterizado de vampiro com uma faixa presidencial, em alusão ao presidente Michel Temer. No Desfile das Campeãs, em circunstâncias não esclarecidas, o destaque desfilou sem a faixa presidencial e protestos contra Temer foram coibidos pela direção da escola.

O desfile teve grande repercussão nas redes sociais e na imprensa internacional, sendo comentado por diversos jornais estrangeiros. Especialistas elogiaram o desfile e alguns veículos de imprensa apontaram o Tuiuti entre as favoritas ao título. Além da Comissão de Frente, a escola ainda teve o samba-enredo, o enredo e o carnavalesco mais premiados do ano. O Tuiuti foi vice-campeão com um décimo de diferença para a campeã Beija-Flor, conquistando o melhor resultado de sua história até então. A escola conseguiu a pontuação máxima na maioria dos quesitos, perdendo apenas cinco décimos no total. Este foi o terceiro desfile do Tuiuti na primeira divisão, sendo que, nos dois desfiles anteriores, ela terminou na última colocação.

Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Desfile do Tuiuti no carnaval de 2017. O Paraíso do Tuiuti fez sua estreia no Grupo Especial no carnaval de 2001, desfilando com o enredo "Um Mouro no Quilombo. Isto a História Registra!", sobre um mouro que saiu da Espanha em direção à Meca, mas, depois de ser salvo de um naufrágio por um judeu, foi parar no Brasil, guerreando no Quilombo dos Palmares. A escola teve problemas para manobrar suas alegorias no desfile e um dos carros alegóricos feriu a perna de uma mulher antes de entrar na pista da Marquês de Sapucaí. Como resultado, a escola se classificou em último lugar, sendo rebaixada de volta para a segunda divisão. No carnaval de 2016, o Tuiuti voltou a vencer a segunda divisão, garantindo seu retorno ao Grupo Especial, dezesseis anos após seu rebaixamento. No carnaval de 2017, o Tuiuti desfilou com o enredo "Carnavaleidoscópio Tropifágico", sobre os cinquenta anos da Tropicália. Assim como em 2001, a escola enfrentou problemas em seu desfile, se classificando em último lugar. A última alegoria do desfile se desgovernou e atropelou cerca de vinte pessoas. Ao tentar consertar a direção do carro na avenida, o motorista deu marcha à ré, imprensando pessoas contra a grade que separa a pista da arquibancada. Chovia no momento do acidente. Uma das vítimas, a radialista Elizabeth Ferreira Jofre, faleceu em 29 de abril de 2017, após passar cerca de dois meses internada. Quatro pessoas foram indiciadas pelo acidente: o motorista Francisco de Assis; o engenheiro Edson Gaspar; o diretor de carnaval, Leandro Azevedo; e o diretor de alegorias, Jaime Benevides. Ainda em 2017, a Unidos da Tijuca também teve um grave acidente com o desabamento da parte de cima de uma de suas alegorias. Devido aos acidentes, a LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) decidiu cancelar o rebaixamento naquele ano, mantendo todas as escolas no Grupo Especial em 2018. esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Grazzi Brasil durante o Desfile das Campeãs. Pela primeira vez em sua história, o Tuiuti desfilaria duas vezes seguidas no Grupo Especial. Para o carnaval de 2018, a escola promoveu diversas mudanças em sua equipe. Patrick Carvalho assumiu a coreografia da Comissão de Frente. Marlon Flores e Danielle Nascimento formaram o novo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola. Leandro Azevedo, André Gonçalves (Andrezinho), Thiago Monteiro e Rodrigo Soares formaram a Direção de Carnaval; enquanto Thiago Monteiro e Rodrigo Soares assumiram a Direção de Harmonia. A escola ainda montou um trio de intérpretes com Celsinho Mody e Grazzi Brasil (importados do carnaval de São Paulo) e Nino do Milênio, que fez sua estreia como cantor oficial no Grupo Especial, após passagens por escolas do grupo de acesso. Os demais membros foram mantidos, incluindo o mestre de bateria, Ricardinho, e o carnavalesco Jack Vasconcelos, que assinaria seu quarto desfile consecutivo na agremiação. O carnaval de 2018 teve um período de preparação conturbado. Em junho de 2017, a Prefeitura do Rio anunciou o corte de 50% do repasse de verbas públicas para as escolas de samba. A decisão gerou polêmica visto que em sua campanha à Prefeitura, Marcelo Crivella prometeu manter o patrocínio às escolas. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella também foi acusado de ser influenciado pela sua religião ao cortar parte da verba do carnaval. A LIESA ameaçou cancelar os desfiles e sambistas organizaram protestos, mas o Prefeito manteve o corte. Sem dinheiro, a LIESA decidiu cancelar os ensaios técnicos, após quinze anos bancando o evento. Em outubro de 2017, faltando cerca de quatro meses para os desfiles, o Ministério do Trabalho interditou os barracões de todas as escolas na Cidade do Samba. Os barracões foram liberados ao final de novembro, após as escolas cumprirem uma série de exigências visando melhores condições de trabalho. No dia 15 de julho de 2017 a LIESA sorteou a ordem de apresentação das escolas de samba para o desfile de 2018. Último colocado do Grupo Especial de 2017, o Tuiuti encerraria a primeira noite de apresentações, mas trocou de lugar com a Mocidade Independente de Padre Miguel, assumindo a posição de quarta escola a desfilar.

O enredo miniaturadaimagem|296x296px|Jack Vasconcelos, carnavalesco e autor do enredo do desfile. No dia 5 de maio de 2017, o Paraíso do Tuiuti divulgou que seu enredo teria como tema os 130 anos da assinatura da Lei Áurea, completados em 2018. A sinopse do enredo, assinada pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, foi divulgada no dia 12 de maio de 2017. "Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?" abordou a escravidão em várias civilizações da antiguidade, passando pela abolição da escravatura no Brasil com a assinatura da Lei Áurea, até chegar na escravidão moderna e na precarização do trabalho no Brasil contemporâneo. O título do enredo foi retirado do último verso do clássico samba-enredo "Sublime Pergaminho", apresentado pela escola Unidos de Lucas no carnaval de 1968. O verso de "Sublime Pergaminho" é afirmativo ("Uma voz na varanda do paço ecoou: Meu Deus, meu Deus! Está extinta a escravidão!"); enquanto no título do enredo foi transformado numa pergunta, questionando sobre as condições em que os escravizados foram libertos, a desigualdade social e a exploração do trabalho humano.

Desenvolvimento

O enredo foi desenvolvido em seis setores ao longo do desfile. O primeiro setor defendeu a ideia de que as escolas de samba funcionam como quilombos modernos, servindo como espaços de preservação cultural, onde as comunidades se organizam e expressam sua identidade através da arte. O segundo setor abordou a escravidão nas várias civilizações da antiguidade; enquanto o terceiro setor tratou do tráfico negreiro durante a Era dos Descobrimentos. O quarto setor teve como tema a escravização no Brasil, abordando as várias atividades exercidas pelos escravizados no país e como a escravidão moldou o cenário cotidiano, social e cultural do Brasil Colônia. O quinto setor tratou da luta pelo abolicionismo no Brasil e a assinatura da Lei Áurea. O quinto e último setor do desfile tratou da escravidão moderna e da precarização do trabalho humano na contemporaneidade.

O samba-enredo

esquerda|miniaturadaimagem|280x280px|Cláudio Russo, um dos compositores do samba-enredo do desfile. O Paraíso do Tuiuti não realizou disputa de samba-enredo. A escola encomendou seu samba aos compositores Cláudio Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal Leonardo. A parceria foi composta por quatro compositores da escola e um convidado especial (Moacyr Luz). Dona Zezé é moradora do Morro do Tuiuti e matriarca de uma família de componentes e torcedores da escola. Ingressou na ala de compositores da agremiação no ano 2000. É autora dos sambas da escola de 2004 e 2011. Um dos autores do clássico "Liberdade! Liberdade! Abre as Asas sobre Nós" (Imperatriz Leopoldinense, 1989), Jurandir se filiou à Ala de Compositores do Tuiuti na década de 1990, vencendo seis disputas de samba-enredo na escola até então. Aníbal Leonardo é autor dos sambas de 2008, 2009, 2010 e 2012 do Tuiuti. Compositor do Tuiuti desde 2015 e autor do samba de 2016 da escola, Cláudio Russo assinou sua segunda obra na agremiação. miniaturadaimagem|280x280px|Moacyr Luz é um dos compositores do samba-enredo do desfile. "O enredo é muito oportuno, pois estamos falando de um tema que está à flor da pele do brasileiro. Completamos 130 anos de abolição da escravatura, mas continuamos com milhares, talvez milhões, de pessoas no país inteiro ainda sendo escravizadas, trabalhando em troca de um prato de comida. São erros históricos da nossa sociedade que ainda não foram reparados. Compusemos um samba que vai ao encontro de anseios nossos como cidadãos."

O samba foi lançado oficialmente no dia 7 de julho de 2017, numa festa realizada na quadra da escola, em São Cristóvão. A obra do Tuiuti é a décima segunda faixa do álbum Sambas de Enredo 2018, lançado em novembro de 2017.

Letra e melodia