Nicholas Thomas Wright FRSE (Northumberland, 1 de dezembro de 1948), conhecido como N. T. Wright ou Tom Wright, é um renomado estudioso do Novo Testamento, teólogo paulino e bispo anglicano. Entre 2003 e 2010, atuou como bispo de Durham e também como Lorde Espiritual no Parlamento do Reino Unido. Após esse período, tornou-se professor pesquisador de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo no St Mary's College da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Em 2019, passou a atuar como pesquisador sênior no Wycliffe Hall, da Universidade de Oxford.
Autor de mais de setenta livros, Wright é amplamente reconhecido nos meios acadêmico e teológico, especialmente por sua série As Origens Cristãs e a Questão de Deus. O terceiro volume dessa coleção, A Ressurreição do Filho de Deus, é considerado por muitos teólogos e líderes cristãos como uma obra inovadora e fundamental sobre a ressurreição de Jesus. Em seus escritos, Wright aborda temas centrais da teologia e da vida cristã, com destaque para a Nova Perspectiva sobre Paulo, a doutrina da justificação e a esperança cristã na ressurreição e nova criação.
Juventude Wright nasceu em Morpeth, Northumberland. Em uma entrevista concedida em 2003, afirmou não se lembrar de um tempo em que não estivesse ciente da presença e do amor de Deus. Recordou também de uma ocasião, aos quatro ou cinco anos, em que estava "sentado sozinho em Morpeth e, completamente sobrecarregado, cheguei às lágrimas, com que Deus me amava tanto que morreu por mim. Tudo o que aconteceu comigo desde então produziu ondas e mais ondas do mesmo sentimento"..
Ele foi educado na Sedbergh School, nos Yorkshire Dales, onde, em 1968, concluiu seus estudos com especialização em Clássicos. No final da década de 1960, cantava e tocava violão em um clube de música folk no lado oeste de Vancouver. Em 1971, formou-se com honras de primeira classe em literae humaniores (literatura clássica) pelo Exeter College, Oxford. Durante esse período, foi presidente da Oxford Inter-Collegiate Christian Union.
A partir de 1971, estudou para o ministério anglicano em Wycliffe Hall, Oxford, onde formou-se — também com honras — como bacharel em teologia em 1973. Na mesma instituição, foi ordenado diácono em 1975, ano em que também obteve seu título de mestre, e foi designado sacerdote no ano seguinte, em 1976.
Carreira Entre 1975 e 1978, Wright tornou-se pesquisador júnior no Merton College, Oxford, onde também atuou como capelão júnior. De 1978 a 1981, foi membro e capelão no Downing College, Cambridge. Ao fim deste mesmo período, concluiu seu doutorado (D. Phil.) através de sua tese "O Messias e o Povo de Deus: Um Estudo em Teologia Paulina com Referência Particular ao Argumento da Epístola aos Romanos" no Merton College sob orientação de G. B. Caird.
Em seguida, entre 1981 e 1986, lecionou como professor assistente de Estudos do Novo Testamento na Universidade McGill, Montreal. Retornou depois à Universidade de Oxford, onde atuou como capelão, tutor e membro do Worcester College, além de professor de Novo Testamento, cargo que ocupou de 1986 a 1993.
Em 1994, deixou Oxford para assumir o cargo de reitor da Catedral de Lichfield, função que desempenhou até 1999. Entre 1995 e 2000, Wright também escreveu a coluna dominical Readings para o Church Times, uma experiência que ele descreveu como crucial para lhe dar coragem para iniciar sua popular série de comentários bíblicos … para Todos, dedicada aos livros do Novo Testamento.
Em 2000, mesmo ano em recebeu o título de Doutor em Divindade (D.D.) pela Universidade de Oxford, Wright foi consagrado Teólogo Canônico de Westminster, posição que o tornou um dos Lorde Espirituais na Câmara dos Lordes do Parlamento do Reino Unido. Neste período, ele concluiu sua grande obra A Ressureição do Filho do Deus, escreveu um comentário de Romanos para a coleção The New Interpreter's Bible e deu início à série … para Todos.
Em 2003, Wright foi nomeado bispo de Durham, consagrado em 3 de julho daquele ano na Catedral de York por David Hope, então arcebispo de Iorque. Em 4 de agosto de 2006, foi designado para o Tribunal Reservado de Causas Eclesiásticas, com mandato de cinco anos.
Renunciou ao bispado de Durham em 31 de agosto de 2010 para aceitar o cargo de professor pesquisador de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo no St Mary's College, na Escócia, com o objetivo de dedicar-se com maior liberdade à pesquisa acadêmica e à divulgação pública. Em 2019, proferiu as Palestras Gifford na Universidade de Aberdeen, com o tema Discernindo o Amanhecer: História, Escatologia e Nova Criação. Ainda em 1º de outubro de 2019, foi nomeado pesquisador sênior no Wycliffe Hall, Oxford — instituição onde havia estudado para o ministério anglicano entre 1971 e 1973.
Visões Teológicas Nova perspectiva sobre Paulo Wright é uma das principais vozes da chamada Nova Perspectiva sobre Paulo — ou, mais precisamente, de um conjunto de interpretações See also this copy. das cartas do apóstolo. Ele argumenta que Paulo é uma figura essencial para qualquer cristão sério e que, por ocupar um lugar central no cânone do Novo Testamento, tem sido frequentemente mal interpretado, distorcido e abordado com perguntas incorretas e inadequadas sobre a fé cristã. Segundo Wright: "Paulo, no século XX, foi usado e abusado tanto quanto no século I. Podemos, à medida que o século se aproxima do fim, ouvi-lo um pouco mais atentamente? Conseguiríamos, de alguma forma, arrepender-nos das maneiras como o tratamos mal e respeitar um pouco mais a sua própria maneira de fazer as coisas?"
Esse questionamento resume bem a preocupação central da Nova Perspectiva sobre Paulo e um dos objetivos fundamentais dos estudos de Wright: permitir que Paulo fale por si, sem que lhe sejam impostas questões e pressupostos modernos. Ao fazer isso, busca-se compreender o que o apóstolo realmente queria dizer às comunidades para as quais escrevia. Segundo Wright, ao analisar o corpus paulino por essa ótica, passagens difíceis tornam-se mais claras, os textos ganham coerência interna e entre si, e é possível traçar um panorama mais preciso da mensagem de Paulo — sem desrespeitar os detalhes presentes em seus escritos.
O ponto de partida da Nova Perspectiva é o trabalho de E. P. Sanders, especialmente seu livro Paul and Palestinian Judaism (ainda não traduzido para o português), publicado em 1977. Nessa obra, Sanders argumenta que a visão tradicional do Novo Testamento sobre o judaísmo do primeiro século é imprecisa. Ele propõe que esse judaísmo seja entendido como um "nomismo pactual", ou seja, um sistema baseado na eleição divina de Israel e na obediência à Torá como forma de manter-se na aliança, e não como um meio de afiliar-se a ela, o que é feito unicamente através da graça de Deus.
Wright reconheceu que as ideias de Sanders corroboravam a visão que ele próprio vinha desenvolvendo, embora tenha divergido dele em diversos pontos ao longo da década seguinte. Assim como outros estudiosos da Nova Perspectiva, Wright rejeita a ideia de que os judeus da época praticavam uma "justiça pelas obras". No entanto, ele ressalta que a história de Deus com Israel, o povo da aliança, alcança seu clímax em Jesus Cristo.
Paulo e a justificação Ao falar sobre justificação, Wright afirma que "as discussões sobre justificação em grande parte da história da igreja, certamente desde Agostinho, começaram com o pé esquerdo — pelo menos no que diz respeito à compreensão de Paulo — e assim permaneceram assim desde então". Segundo ele, a Igreja acabou agrupando as questões sobre a reconciliação entre o ser humano e Deus sob o rótulo de "justificação", atribuindo ao termo um significado que, na visão de Wright, não corresponde de forma plena ao que realmente se encontra no Novo Testamento. Com base nisso, Wright argumenta que essa compreensão distorcida tem desrespeitado o texto bíblico há séculos. Para ele, não são interpretações posteriores, mas é o próprio texto que deve guiar o entendimento sobre o que Paulo quis dizer com justificação.
Buscando retornar diretamente às palavras de Paulo, Wright propõe uma definição alternativa para o termo, que contraria a visão tradicional. Ele identifica três elementos fundamentais para compreender o conceito de justificação no pensamento paulino:
A justificação está enraizada na linguagem da aliança (ou linguagem pactual); Ela emprega termos jurídicos, funcionando como uma metáfora poderosa dentro do contexto da aliança; Não pode ser separada da escatologia — ou seja, das ideias sobre o fim dos tempos e a realização final dos propósitos de Deus.
Ao enfatizar a linguagem da aliança, Wright destaca que a justificação faz referência ao problema do pecado e do mal no mundo, e à maneira como Deus estabeleceu uma aliança com seu povo para trazer salvação. No uso da linguagem jurídica, Deus é visto como o juiz que busca corrigir o que está errado, enfrentar o mal e restaurar a justiça no cosmos.
Por fim, a definição que Wright propõe para "justificação" nas cartas de Paulo não está relacionada, como geralmente se pensa, a exigências pessoais para alcançar a salvação. Em vez disso, está ligada a um sinal de pertencimento: a justificação é o que identifica alguém como membro do povo de Deus.
Jesus histórico Wright é conhecido por seguir a tradição da "escatologia consistente" de Albert Schweitzer no debate sobre o Jesus histórico, posicionando-se contra o "ceticismo consistente" de William Wrede e do Jesus Seminar, a quem considera os equivalentes modernos de Wrede. Para ele, Jesus foi profundamente enraizado no judaísmo do primeiro século, ainda que se opusesse a aspectos centrais da tradição do Segundo Templo. Wright descreve Jesus como "duplamente", "multiplicadamente", "completamente" e "profundamente" subversivo — mas também o distingue claramente dos movimentos sediciosos e revolucionários da Palestina daquele período.
Suas ideias compartilham semelhanças com as de estudiosos como E. P. Sanders e Ben F. Meyer — este último, menos conhecido, é chamado por Wright de "o herói anônimo" dos estudos do Novo Testamento. No entanto, ele discorda de Sanders quanto à ausência de hostilidade por parte dos fariseus para com Jesus, defendendo que a oposição violenta relatada nos Evangelhos reflete um contexto histórico plausível. Além disso, Wright defende com firmeza a crença na ressurreição dos mortos e na Segunda Vinda literal de Cristo como doutrinas centrais do Cristianismo.
Apesar de crítico dos círculos teológicos mais liberais, Wright mantém diálogo com alguns de seus expoentes. Um exemplo notável é Marcus Borg, com quem dividia admiração mútua. Juntos, coescreveram o livro The Meaning of Jesus: Two Visions (inédito no Brasil), no qual apresentam suas visões contrastantes. Já com John Dominic Crossan, cofundador do Jesus Seminar, Wright debateu em 2005 a historicidade da ressurreição de Jesus no Fórum Greer-Heard Point-Counterpoint. Enquanto Crossan a considera uma interpretação teológica feita pelos autores do Novo Testamento, Wright insiste tratar-se de um evento histórico real, plenamente coerente com a visão de mundo do judaísmo do Segundo Templo.
Em 2012, com a publicação de Como Deus se tornou Rei: a história esquecida dos evangelhos, Wright passou a criticar certas leituras do Jesus histórico tanto na pregação evangélica dos Estados Unidos quanto nos escritos de C. S. Lewis — a quem ele reconhece como uma grande influência pessoal. Numa entrevista, Wright resumiu seu ponto: "Um dos alvos deste livro são os cristãos que dizem: ‘Sim, a Bíblia é verdadeira. Ela é inerrante e assim por diante.’ Mas, então, não dão atenção ao que a Bíblia realmente diz. Para muitos cristãos, parece suficiente dizer que Cristo nasceu de uma virgem, morreu em uma cruz e ressuscitou — mas nunca fez nada além disso. É isso que estou questionando: essa não é a forma correta de entender os Evangelhos".
Ressureição dos Mortos