Autorretrato é uma obra da artista belga Berlinde de Bruyckere conservada na prestigiosa Galeria dos Autorretratos da Galeria Uffizi, em Florença.Berlinde de Bruyckere, Autorretrato. Galeria Uffizi. Consultado em 28 de abril de 2025.Pierguidi, Stefano. La collezione di autoritratti della Galleria degli Uffizi: storia e catalogazione. Firenze: Centro Di, 2010.
Introdução Berlinde De Bruyckere é reconhecida internacionalmente por suas esculturas que investigam os limites do corpo humano, entre a vulnerabilidade e a resistência, o sofrimento e a transcendência. Em 2010, a artista produziu um autorretrato tridimensional em cera, resina, madeira e vidro, considerado uma das expressões mais radicais da autorrepresentação contemporânea. Longe de qualquer mimese tradicional, De Bruyckere propõe, por meio desta obra, uma reflexão profunda sobre a existência, a corporeidade e a memória inscrita na carne.
Como observa Marente Bloemheuvel, "em De Bruyckere, o corpo não é um espelho da identidade; é um campo de ruínas onde a história pessoal e coletiva se entrelaçam".Bloemheuvel, Marente. "Berlinde De Bruyckere: The Body Exposed." In: Berlinde De Bruyckere. We Are All Flesh, ed. Franz-W. Kaiser. The Hague: Gemeentemuseum Den Haag, 2014, pp. 54–65. Essa concepção ressoa de maneira singular em seu autorretrato de 2010, no qual a identidade do artista não é afirmada, mas desconstruída até o ponto de quase desaparecimento.
Descrição da Obra O autorretrato de 2010 apresenta uma figura humana, reclinada e fragmentada, moldada em cera tingida com pigmentos que simulam a carne viva. A textura irregular da superfície evidencia a tensão entre o natural e o artificial. A obra encontra-se acondicionada em uma redoma de vidro transparente, apoiada em uma estrutura de madeira bruta, enfatizando a dimensão expositiva e votiva da peça.De Bruyckere, Autorretrato, 2010 (entre outras obras). Consultado em 26 de abril de 2025.
A figura, mutilada e contorcida, carece de um rosto visível e de membros claramente definidos. Como nota Angela Mengoni, "a ausência de traços individualizantes despersonaliza a forma humana, convertendo o autorretrato em um índice de dor universal".Mengoni, Angela. "Scultori dell’interiorità: Berlinde De Bruyckere e la carne ferita." In: Arte e Trauma, ed. G. C. Argan et al. Milano: Postmedia Books, 2017, pp. 89–105.
Análise Formal A obra utiliza materiais tradicionalmente associados à escultura hiper-realista, como a cera e a resina, mas o tratamento que De Bruyckere confere a esses materiais evita qualquer ilusão mimética confortável. A aplicação da cera — em camadas espessas e irregulares — cria uma aparência de carne vulnerável e exposta, remetendo tanto à tradição barroca dos ex-votos quanto às práticas contemporâneas de body art.
O vidro desempenha um papel fundamental: ao mesmo tempo em que protege a escultura, instaura uma distância física e simbólica entre a obra e o espectador. Esta mediação induz uma experiência de voyeurismo interrompido, em que a contemplação é invadida pela consciência da própria separação.
A instalação valoriza a verticalidade quebrada da figura, cujo corpo, ainda que reclinado, parece querer se erguer — uma oscilação entre a queda e a tentativa de ascensão, marca fundamental do pathos que permeia toda a produção de De Bruyckere.
Significados e Interpretações O autorretrato de De Bruyckere recusa qualquer noção celebratória da identidade artística. Em lugar da autoafirmação, a obra propõe uma iconografia da vulnerabilidade e da perda. Como aponta Boris Groys, "a arte contemporânea cada vez mais abandona a glorificação da forma autêntica do eu em favor de sua desconstrução e exposição de suas fissuras".Groys, Boris. Art Power. Cambridge: MIT Press, 2008. pg 47 A figura apresentada não é um "eu" reconhecível, mas um corpo reduzido à sua materialidade mais essencial e frágil.
A escolha dos materiais e da forma remete também às tradições da escultura sacra, especialmente às representações do martírio e do sofrimento, como nas lipsotecas medievais e nas figuras de Cristo sofredor. Nesse sentido, De Bruyckere recupera uma dimensão espiritual da escultura, embora despojada de qualquer transcendência religiosa explícita.
É possível ainda interpretar a obra à luz das leituras contemporâneas da vulnerabilidade, como formuladas por Judith Butler: "Ser exposto à perda é a condição mesma da vida".Butler, Judith. Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence. London: Verso, 2004, pg 20 Neste autorretrato, De Bruyckere encarna essa condição de maneira brutal e silenciosa.
Inserção na História da Arte O autorretrato de 2010 situa-se na tradição de representações que problematizam o eu no modernismo e no pós-modernismo. Diferente dos autorretratos renascentistas, que celebravam o artista como homo faber, senhor da criação, ou dos retratos expressionistas que dramatizavam a interioridade psicológica, De Bruyckere elimina qualquer pretensão de unidade identitária.
A obra dialoga com a desconstrução do corpo promovida por artistas como Francis Bacon e Louise Bourgeois. Tal como Bacon, De Bruyckere "vê o corpo como um campo de forças internas que o deformam".Sylvester, David. Interviews with Francis Bacon. London: Thames & Hudson, 1975. Como Bourgeois, entende a escultura como "um espaço emocional do trauma e da memória".Bernadac, Marie-Laure. Louise Bourgeois. Paris: Flammarion, 1996. pg 122
Neste contexto, o autorretrato de De Bruyckere representa um marco importante da arte contemporânea: a persistência da pergunta sobre o eu em tempos de fragmentação e despossessão.
O autorretrato de Berlinde De Bruyckere, realizado em 2010, transcende a simples representação do indivíduo para oferecer uma poderosa meditação sobre a condição humana. Através da fragmentação, da vulnerabilidade e da materialidade crua, a artista propõe uma reflexão sobre a dor e a memória inscritas na carne, desafiando as convenções históricas da autorrepresentação e reinscrevendo o corpo como um território de exposição, de perda e de resistência silenciosa.
Ao fazer do autorretrato um campo de ruína e regeneração, De Bruyckere não apenas reinventa um gênero clássico da história da arte, mas também revela com pungência a precariedade fundamental da vida humana.
Ver também Autorretratística Coleção de autorretratos da Galeria Uffizi
Categoria:Coleção de autorretratos da Galeria Uffizi