Cecília de Assis Brasil (Washington D.C., — Pedras Altas, ), é conhecida por ter mantido diários que foram compilados e publicados em um livro, com o nome “Diário de Cecília de Assis Brasil”. A obra serve de testemunho para vários fatos históricos da história do Rio Grande do Sul, e também revela uma visão íntima da vida familiar e social de uma mulher gaúcha no início do século XX, revelando os aspectos peculiares dela ver o mundo e de seus interesses como a vida no campo e o amor aos animais.
Primeiros anos Cecília de Assis Brasil nasceu em Washington, D.C., em 26 de maio de 1899, período em que seu pai, o estadista e diplomata brasileiro Joaquim Francisco de Assis Brasil, representava o país nos Estados Unidos.O seu nome originou-se de uma promessa feita por Assis Brasil, a qual estabelecia que suas duas primeiras filhas receberiam os mesmos nomes de suas respectivas mães, como forma de homenagem às suas duas esposas. Diante disso, nasceram Cecília e Lydia.
Assis Brasil havia ficado viúvo em Portugal, no ano de 1894, de Maria Cecília Prates de Castilhos (irmã de Júlio de Castilhos). Além da esposa, ele também perdeu dois filhos homens, ainda crianças (Joaquim e Francisco), todos vítimas de tifo, uma doença fatal para a época. Com isso, fica viúvo e com duas filhas pequenas do primeiro casamento: Maria Cecília e Carolina.
Contudo, quatro anos depois, ele conheceu a nobre portuguesa Lydia Pereira Felício de São Mamede. Juntos, o casal teve oito filhos, dos quais Cecília e Lydia nasceram nos Estados Unidos, enquanto os demais nasceram no Brasil.
Após o término do mandato de embaixador nos Estados Unidos, a família passou a residir definitivamente no Brasil.Silveira Osório, Pedro Luiz da. "Assis Brasil - Coleção Esses Gaúchos". Porto Alegre: Editora Pallotti, 1986, 30 pp., Assis Brasil adquiriu as terras para a sua granja modelo e deu início à construção do Castelo de Pedras Altas, localizado no Rio Grande do Sul, cuja edificação levou aproximadamente cinco anos. Na noite de 24 de junho de 1913, a família pernoitou pela primeira vez na residência.
Durante a juventude, Cecília acompanhou os momentos tensos de revoluções e embates da época, chegando a viver parte de sua vida exilada no Rio de Janeiro e no Uruguai, juntamente com sua família.
Vida no campo e formação A vocação para a escrita de diários foi uma influência obtida diretamente de seu pai. Com anotações diárias, Cecília iniciou a prática ainda jovem.Poliglota, ela falava seis idiomas: além do português; inglês, francês, espanhol, alemão e italiano. Demonstrando familiaridade com autores clássicos e revistas de circulação internacional, como a Life e a Les Annales, as quais lia diariamente. A família assinava 27 revistas inglesas, americanas e franceses das mais variadas especialidades.
Apesar da formação intelectual, que a permitia ler obras como The Jungle Book, de Rudyard Kipling,
Ao mesmo tempo, Cecília também compreendia e dominava o linguajar rude dos gaúchos. Era habitual o uso de expressões regionais e gauchescas em seu cotidiano, tais como "de vereda" (de repente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia" (refeição ou comida).
Sua devoção à vida no campo fez com que desenvolvesse profundo conhecimento prático sobre a rotina rural, sabendo como "deitar" uma galinha com ovos, cuidar de uma ninhada de pintos ou tratar de cordeiros órfãos. Na culinária, dominava as técnicas tradicionais, sabendo exatamente o "ponto" certo da calda do doce de figo.
Também acompanhava de perto o desenvolvimento das vacas da raça Jersey, importadas da Inglaterra, e do gado da raça Devon, linhagens que seu pai introduziu de forma pioneira no Brasil do plantel da Rainha da Inglaterra.
Nos momentos de lazer, divertia-se com os irmãos em pescarias de lambaris ou em longas cavalgadas. Atenta e politizada, costumava observar a movimentação de políticos e revolucionários que se deslocavam até o castelo para se aconselhar com Joaquim Francisco de Assis Brasil.Silveira Osório, Pedro Luiz da. "Assis Brasil - Coleção Esses Gaúchos". Porto Alegre: Editora Pallotti, 1986, 31 pp.
Morte Em março de 1934, realizaram-se os festejos do casamento de sua irmã caçula, Lina. Um dia após a celebração, Cecília passeava a cavalo com seus irmãos Joaquim e Dolores nos arredores do castelo, na região denominada Cerro da Guarda.
Apesar de ser um dia de verão ensolarado, o tempo ficou nublado rapidamente, resultando em uma garoa acompanhada de uma breve tempestade. Momentos depois, Cecília dirigiu-se aos irmãos dizendo: “Já passou a tempestade”. Estas foram suas últimas palavras antes de ser fulminada por uma descarga elétrica, que também matou o seu cavalo de forma imediata, em 11 de março de 1934, aos 34 anos.
O impacto do raio causou o derretimento de toda a prataria que ela utilizava no cavalo. Sua irmã, Dolores, permaneceu horas sem conseguir escutar devido à intensidade do estrondo provocado pelo raio.
Em seu diário pessoal, Assis Brasil registrou posteriormente que ele próprio confeccionara o caixão da filha. O estadista relatou que Cecília “estava com um semblante feliz, não parecendo que sentiu dor”, acrescentando ainda que ela merecia o “título de filha predileta, não fosse o fato dos pais amarem todos da mesma forma”.
O acidente e a morte trágica da filha de Assis Brasil repercutiram amplamente, sendo noticiados pelos principais jornais do estado do Rio Grande do Sul e de todo o país
O Diário de Cecília
A família de Cecília conseguiu conservar apenas os cadernos que iniciam em 1916, quando a jovem de Pedras Altas estava com cerca de dezessete anos de idade. Mesmo assim, muitos cadernos se perderam e longas são as intermitências entre eles.
Com a autorização da família, o jornalista Carlos Reverbel, teve acesso aos escritos da jovem, e foi responsável pela seleção do conteúdo e pela publicação do livro, no ano de 1983. Reverbel selecionou os escritos de 1916 até 1928.
O diário ainda continuou a ser escrito após essa data. Desde quando foi publicado, até os dias de hoje, o livro “Diário de Cecília de Assis Brasil”, sensibiliza os leitores.
Seja pela autenticidade da autora, pelo seu singular modo de vida, seja pela sua paixão pela vida no campo e pelos animais.
A jovem, que devorava as poesias do norte-americano Henry Longfellow em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven, registrou o seu cotidiano, como também foi testemunha das revoluções do início do século passado.
Em seu diário, Cecília além de contar a vida no castelo, também relata as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço e aliados de Assis Brasil) e chimangos(republicanos de lenço branco).
Embora escrito de maneira simples, sem a intenção de fazer literatura, as críticas positivas ao livro, foram inúmeras na época de seu lançamento.
Abaixo segue uma matéria, publicada no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, uma crônica da escritora Rachel de Queiroz, sobre o Diário, no ano de lançamento:
No dia 19 de fevereiro de 1918, Cecília registra um dia bem atarefado em Pedras Altas, segue: “Chegaram dois senhores: o engenheiro Charles Vincent, belga, administrador de um posto zootécnico em Santa Catarina, e um brasileiro, mestiço de grego e italiano, chamado Miguel Savas. Vão com Papai a Ibirapuitã comprar Devon. Papai também levará as éguas de corrida. Para nos despedirmos delas, fizemos outro passeio ao Cerro da Guarda. A Quimquim foi na Galé, o Seu Alípio na Morena, Nia na Hipócrita e eu na Enérgica, que considero minha. Troquei-a com o Papai pelo Junius Brutus”.
Nos páginas do diário, pode-se perceber também o apreço da autora pela cultura gaúcha. Ela, que vivia no campo, deixa claro que a vida que escolhera, a deixa muito satisfeita, como se percebe nesse trecho do dia 24 de outubro de 1916, terça-feira: “Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto, agarro- me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora? Tenho plena confiança de que meu amor ao campo nunca cessará de crescer”.
Em 3 de janeiro de 1923, uma terça-feira, ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com as fraudes eleitorais que reconduziram Borges de Medeiros pela quinta vez em seu mandato ao governo do estado.Sua família busca exílio político durante a Revolução de 23
A instabilidade política que se seguiu durante os anos 20, com movimentos como o tenentismo e a Coluna Prestes no Brasil ganhando forças, a família, vê-se obrigada a deixar o castelo mais uma vez, dessa vez, procurando abrigo no Uruguai na cidade de Melo.
Seu diário passa a ser escrito em quatro pequenos estabelecimentos rurais – Chácara Bela Vista, Estância Nova, Coxilha Grande e Berachi.
Nessa época, os opositores políticos, chimangos, invadiram o castelo, saquearam objetos e deixaram tiros nas janelas, que Assis Brasil nunca os consertou. Pois dizia que “todo o castelo deveria ter suas cicatrizes.”
Seu diário serviu de testemunho único além de sua visão sobre esses fatos políticos, ela também vivenciou as inúmeras visitas de chefes políticos que lá iam visitar seu pai, Joaquim Francisco de Assis Brasil. Nomes como Luis Carlos Prestes, Oswaldo Aranha, Zeca Netto, Juarez Távora, Siqueira Campos, dentre outros.
Os anos de exílio foram bem diferentes na qual Cecília estava habituada com o conforto do castelo. Das localidades em que a família morou no Uruguai, duas delas não passavam de simples ranchos com o chão de terra batida.Reverbel, "Diário de Cecília de Assis Brasil". Porto Alegre: Editora L&PM, 1983, 05 pp.
Mas ao contrário disso, a autora sequer menciona absolutamente qualquer tipo de lamentação por conta disso.
Contudo, o diário narra nessa fase, Cecília ocupada, vendendo leite e manteiga, juntamente com suas irmãs, para manterem os seus sustentos. Apesar de preocupada com o desfecho das revoluções, ela também se mostra ao mesmo tempo feliz em trabalhar.
Cecília só retorna para Pedras Altas por volta de 1927. A dignidade através da educação e a dedicação ao trabalho em família, maior legado que Joaquim Francisco de Assis Brasil quis passar aos seus filhos, pode ser percebido também nos anos vividos no exílio, pela maneira que souberam enfrentar as adversidades.
A moça de Pedras Altas, estava finalmente de volta ao seu lar, porém nunca pensara que o destino lhe reservaria poucos anos pela frente. Como escreveu o autor, que compilou seu diário em livro, o jornalista Carlos Reverbel.
Ele finaliza seu prefácio no livro, dizendo, que, Cecília amava tanto a natureza, que o destino fez com que, ali, ela, “finalmente repousasse, transformando-se em um rebento da Granja de Pedras Altas, assim como as flores, as espigas, as frutas, os pássaros, as árvores, os sulcos do arado e o mugido do gado”.Reverbel, "Diário de Cecília de Assis Brasil". Porto Alegre: Editora L&PM, 1983, 10 pp.