A mammy é um estereótipo histórico dos EUA que retrata mulheres negras, geralmente escravizadas, que realizavam trabalhos domésticos, inclusive o cuidado com crianças, lembra um pouco a personagem conhecida como "Tia Nastácia". A personagem mammy ficcionalizada é frequentemente visualizada como uma mulher de pele escura com personalidade materna. A origem do estereótipo da figura mammy está enraizada na história da escravidão nos Estados Unidos, já que as mulheres escravizadas eram frequentemente encarregadas de trabalhos domésticos e de cuidar de crianças nas residências de famílias que mantinham escravos. A caricatura mammy foi utilizada para criar uma narrativa em que as mulheres negras eram vistas como satisfeitas com a instituição da escravidão e a servidão doméstica. O estereótipo mammy associa as mulheres negras a papéis domésticos, e argumenta-se que, juntamente com a segregação e a discriminação, limitou as oportunidades de trabalho para as mulheres negras durante a era Jim Crow (1877 a 1966).

História A caricatura mammy foi vista pela primeira vez na década de 1830 na literatura pró-escravidão do período anterior à Guerra Civil, como forma de se opor à descrição da escravidão apresentada pelos abolicionistas. Uma das primeiras versões ficcionalizadas da figura mammy é a Tia Chloe em A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe, publicado pela primeira vez em 1852.

Alguns estudiosos veem a figura mammy como enraizada na história da escravidão nos Estados Unidos. Mulheres afro-americanas escravizadas eram encarregadas das funções de trabalhadoras domésticas em residências de brancos americanos. Suas tarefas incluíam preparar refeições, limpar casas, e amamentar e criar os filhos de seus proprietários. Destas circunstâncias surgiu a imagem da mammy.Walker-Barnes (2014), p. 85-88

Era da segregação e monumento do National Mall

Embora tenha se originado no período da escravidão, a figura mammy ganhou proeminência durante a Era da Reconstrução. Alguns estudiosos podem argumentar que o papel da mammy no Sul dos Estados Unidos serve como revisão histórica. Em esforços para reinterpretar e legitimar o legado da escravidão de propriedade em meio à opressão racial, a imagem mammy tornou-se especialmente proeminente na era da segregação racial e continua a ser reproduzida, tendo persistido até o século XXI.

Em 1923, as Filhas Unidas da Confederação propuseram a ereção de uma estátua mammy no National Mall. A estátua proposta teria sido dedicada à "Mammy Negra do Sul". O projeto de lei recebeu uma ovação de pé no Senado, onde foi aprovado por consenso bipartidário, mas morreu em comissão na Câmara dos Deputados após protestos escritos de milhares de mulheres negras.

Crítica histórica A historicidade da figura mammy é questionável. Relatos históricos indicam que a maioria das empregadas domésticas era composta por adolescentes e jovens adultos, e não por "tipos de avó" como a mammy. Melissa Harris-Perry argumentou que a mammy foi uma criação da imaginação da supremacia branca, que reimaginou as jovens escravas desprovidas de poder e coagidas como mulheres tranquilizadoras, confortáveis e consentâneas. Isso contrasta com outros relatos historicamente precisos de mulheres escravizadas que temiam por suas vidas nas mãos de senhores abusivos. Em 1981, Andy Warhol incluiu a mammy em sua série Myths, ao lado de outros personagens mitológicos e folclóricos, como Papai Noel, Mickey Mouse e Superman.

Em Mammy: A Century of Race, Gender, and Southern Memory (2008), Kimberly Wallace-Sanders argumentou que os atributos estereotipados da mammy apontam para a origem de sua inspiração: "um casamento duradouro e conturbado de essencialismo racial e de gênero, mitologia, e nostalgia sulista."

A imagem romantizada da mammy sobrevive na imaginação popular do Estados Unidos moderno. A psicóloga Chanequa Walker-Barnes argumenta que a correção política levou a que a figura mammy fosse menos prevalente na cultura do século XXI, mas o arquétipo mammy ainda influencia a representação das mulheres afro-americanas na ficção, como cuidadoras exemplares, afetuosas, altruístas, fortes e solidárias, atuando como personagem coadjuvante para os protagonistas brancos. Ela cita como exemplos Miranda Bailey, Mercedes Jones e Ivy Wentz.

Características ficcionais A mammy é geralmente retratada como uma mulher idosa, acima do peso e de pele escura. Ela é uma figura idealizada de cuidadora: afável, leal, maternal, não ameaçadora, obediente e submissa. A figura mammy demonstra deferência (também chamado de submissão ou passividade) à autoridade branca. Por vezes, a mammy também é representada como uma mulher atrevida. Ela é devotada aos seus senhores/empregadores e seu objetivo principal na vida é cuidar de suas necessidades. Em algumas representações, a mammy tem sua própria família. Mas suas funções de cuidado sempre vêm em primeiro lugar, fazendo com que a mammy seja retratada como uma mãe ou avó negligente. E, embora a mammy seja devotada à sua família branca, ela frequentemente trata sua própria família de maneira inadequada.

Melissa Harris-Perry descreve a relação entre a mammy e outros afro-americanos em Sister Citizen: Shame, Stereotypes, and Black Women in America (2011) resumindo que "Mammy não era uma protetora ou defensora das crianças ou comunidades negras. Ela representava um ideal maternal, mas não no cuidado de seus próprios filhos. Seu amor, carinho, conselhos, correções e supervisão eram reservados exclusivamente para mulheres e crianças brancas."

Este estereótipo contrasta com o estereótipo da Jezebel, que retrata mulheres afro-americanas mais jovens como ardilosas e promíscuas. A mammy é ocasionalmente retratada como uma mulher religiosa. Na maioria das vezes, a mammy é uma figura assexual, "desprovida de quaisquer desejos pessoais que possam tentá-la a pecar". Isso faz com que a mammy atue tanto como confidente quanto como guia moral para seus jovens sob seus cuidados, capaz de mantê-los em ordem.

Kimberly Wallace-Sanders inclui outras características da mammy em Mammy: A Century of Race, Gender, and Southern Memory (2008): um corpo grande e escuro, um rosto redondo e sorridente, uma voz profundamente sonora e calmante sem esforço, e uma risada estrondosa. Seus atributos pessoais incluem paciência infinita, humor autodepreciativo, uma compreensão implícita e aceitação de sua própria inferioridade, e sua devoção aos brancos. A mammy também era de seios grandes, dessexualizada e potencialmente hostil em relação aos homens negros. Muitas dessas características eram negadas às mulheres escravizadas afro-americanas, mas eram geralmente atribuídas à mammy.

Vestuário O vestuário frequentemente reflete o status de seu senhor. A mammy é geralmente asseada e limpa e usa roupas adequadas às suas tarefas domésticas. Às vezes, uma mammy considerava-se "vestida para impressionar", mas normalmente consistia apenas na adição de um boné e de uma capa de veludo de seda, que tendiam a pertencer ao seu senhor.

Condições de vida Quando a mammy não permanecia na casa de seus senhores ou não estava ocupada atendendo às necessidades dos filhos destes, ela vivia separadamente. Ela morava com seu marido e filhos em uma cabana que se distinguia das cabanas dos demais escravizados em tamanho e estrutura. A cabana era situada próxima à casa do senhor, mas a uma distância das outras cabanas.

Embora suas tarefas fossem muito menos cansativas e extenuantes, suas horas eram frequentemente longas, deixando pouco tempo para seu próprio lazer. Sua vida girava em torno de suas obrigações, que não lhe permitiam ter um estilo de vida individual além de servir. Havia uma flexibilidade em suas funções que a diferenciava de uma enfermeira comum ou de uma ama de leite. Em algumas das casas mais abastadas, a mammy contava com assistentes que a ajudavam a cuidar das crianças da residência. Essas mulheres eram frequentemente muito mais jovens do que a própria mammy.

A mammy, ao contrário dos outros escravizados, geralmente não era vendida, e os filhos da mammy eram mantidos na mesma família pelo maior tempo possível, preservando as mesmas relações que ela tinha com o senhor. Muitas vezes, a mammy era forçada a deixar seus próprios filhos para cuidar das crianças do senhor. Em muitos casos, as mammies optavam por ter seus próprios filhos retirados, pois precisavam fornecer leite materno para nutrir as crianças de seus senhores. Temiam que, se alimentassem seus próprios filhos, não houvesse leite suficiente para os filhos do senhor.

Papéis em residências de plantações O papel ficcional da mammy nas residências de plantações surge dos papéis desempenhados pelos escravizados afro-americanos na plantação. Os escravos afro-americanos desempenhavam funções vitais na residência da plantação. Para a mammy, a maioria dessas tarefas estava relacionada ao cuidado das crianças da família do senhor, aliviando assim a senhora da casa de todo o trabalho braçal associado ao cuidado infantil. Quando as crianças cresciam e eram capazes de cuidar de si mesmas, o principal papel da mammy era ajudar a senhora com as tarefas domésticas. Conforme seus anos de serviço com a família aumentavam, a esfera de influência da mammy também se ampliava. Ela ficava logo após a senhora em autoridade e tinha a capacidade de dar ordens a todos na casa.

A mammy é frequentemente considerada parte da família que possuía escravos tanto quanto os membros de sangue. Embora seja considerada de status inferior, ela ainda era incluída no círculo íntimo. Muitas vezes, foi referida como um "tipo único de maternidade adotiva". Além de atender às necessidades das crianças, a mammy também era responsável por ensiná-las a correta etiqueta, como se dirigir aos anciãos da plantação como "tia" ou "tio". Ela sabia quando falar adequadamente em ocasiões particulares e quando não o fazer. A mammy possuía a capacidade de disciplinar e conseguia manter o respeito daqueles com quem trabalhava, mesmo quando as crianças alcançavam a idade adulta.

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A caricatura mammy tem sido utilizada em anúncios por corporações, especialmente na indústria alimentícia. Em 2020, a marca Tia Jemima foi criticada por seu branding após receber críticas públicas sobre a utilização de uma caricatura mammy como logotipo. A personagem Aunt Jemima não era uma pessoa real e foi interpretada por várias pessoas, começando com a ex-escrava libertada Nancy Green de 1893 a 1923, seguida por outras, incluindo Anna Robinson (1923–1951), Edith Wilson (1948–1966) e Ethel Ernestine Harper (nos anos 1950). Um dos fundadores da Aunt Jemima concebeu o nome e o branding após ouvir uma canção de minstrel intitulada "Old Aunt Jemima". Subsequentemente, outras empresas que lucraram com o uso de imagens de caricaturas negras também receberam críticas. Uncle Ben's, Mrs. Butterworth's e Cream of Wheat são algumas das empresas que foram destacadas. Em 2021, Quaker Oats, proprietária da marca Aunt Jemima, decidiu rebatizá-la como The Pearl Milling Company e alterou seu logotipo da caricatura mammy para a imagem de um moinho tradicional.

Aunt Priscilla's Recipes foi uma coluna de culinária e receitas publicada no Baltimore Sun durante a década de 1930. Tia Priscilla era uma caricatura mammy, a estereotipada cozinheira sulista exemplar que falava em um dialeto quebrado e exagerado. O pseudônimo de Aunt Priscilla era, na verdade, de uma mulher branca chamada Eleanor Purcell. Purcell também lançou vários livros de receitas sob esse pseudônimo. Purcell também assumiu a persona de Aunt Ada em uma coluna do The Evening Sun intitulada "Ask Aunt Ada". Mulheres negras eram frequentemente as faces dessas colunas de culinária ou de administração doméstica, devido aos estereótipos como o da mammy, que as associavam a papéis de servidão e domésticos.

Imagens como as de Aunt Jemima e Aunt Priscilla eram caricaturas mammy que criavam uma representação negativa e limitadora dos papéis de servidão para famílias brancas.

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