miniaturadaimagem|300x300px|Procissão da Sexta-Feira Santa em Xochislahuaca com Amuzgos em trajes tradicionais O povo Amuzgos do México, localizados majoritariamente em Guerrero e Oaxaca, principalmente nos municípios: Xochistlahuaca, Tlacoachistlahuaca, Ometepec e San Pedro Amuzgos (regiões montanhosas). De origem desconhecida, o povo Amuzgos são uma das poucas etnias que sobreviveu a colonização, mesmo assim quase desapareceu, passando de 20.000 pessoas em 1522 para 200 em 1582, foram cada vez mais arrastados para os “cantos” de suas terras, tendo sua cultura e religião sendo perdidas com o tempo. Passaram por intensos problemas sociais e de inclusão durante o recente episódio da Covid-19 que assolou todo o mundo, mas afetando diretamente grupos mais vulneráveis. Povo que representa ainda as barreiras e desafios que são impostos para a população indígena no tempo presente. Problemas econômicos e sociais assolam a sociedade Amuzgo no século XXI.
História A origem histórica dos Amuzgos ainda é um mistério para muitos. O uso da História Oral e análise linguísticas tem contribuído para que alguns aspectos da história dos Amzugos sejam descobertos. Através da desconstrução de palavras e decodificação de contos e elementos narrativos passados tradicionalmente é possível entender um pouco de sua origem.
Através da análise linguística, foi possível perceber certas semelhanças com a língua dos Mixtecos, o que pode demonstrar um certo contato que estes povos tiveram. Uma emigração conjunta pode ter acontecido do norte através da rota Pánuco, com destino final em Cholula, onde no século XXI é o estado Oaxaca. Mais tarde a colonização fará com que os Amuzgos se desloquem das regiões costeira em busca de novos territórios. Certas palavras e menções tradicionais passam a ideia de que eles teriam sua origem ligada com o mar ou com as águas, que culturalmente seria um elemento muito importante para este povo, sendo a tradução de sua língua "ñomndaa" como "a palavra da água".
O povo amuzgo tinha cidades principais como Xochistlahuaca, Xicayán e Ayotzinapa. Eram influenciados por cacicazgos mixtecos em sua política. Tiveram inúmeros conflitos internos referente a sua dominação, mas sempre conseguiram manter sua própria autonomia, que ajudou a preservar suas tradições e organizações. Esta subordinação aos mixtecos acabou gerando certos desdém entre os povos, permanecendo até em contextos contemporâneos. A agricultura era uma base sólida, influenciando diretamente na organização de trabalho destes povos, além de evidenciar uma certa relação comercial entre outros grupos. Os rituais e celebrações marcavam o cotidiano dos Amuzgos, tanto para comemorar e abençoar as colheitas, mas também era de grande importância para a coesão da comunidade.
Certo deslocamento físico dos Amzugos permitiu que eles se colocassem em uma espécie de "refúgio cultural". Este refúgio se deu pela dificuldades de acesso ao território em que se estabeleceram e também por certas organizações sociais que preservaram suas tradições. Este refúgio é entendido como uma forma de resistência que permitiu os Amzugos a se preservarem tradicionalmente mesmo após a colonização. Estes elementos podem ser enxergados na organização dos Amuzgos ainda hoje em seu cotidiano e nos seus enfrentamentos diários.
Cultura miniaturadaimagem|281x281px|Programa Semilleros Creativos da Secretaria Mexicana de Cultura. Os Amuzgos são falantes de quatro variantes oficiais de sua língua original, a língua oto-mangueana, suas variantes são: Amuzgo do Norte, Amuzgo do Sul, Alto Oriente Amuzgo e Amuzgo do Baixo Leste, apesar dessas variantes serem muito semelhantes, há diferenças significativas entre elas. Por exemplo, as variantes ocidentais (norte e sul) são semelhantes entre elas e mais diferentes das variantes orientais (leste superior e leste inferior) que por sua vez, são semelhantes entre si. O Amuzgo é a décima terceira língua indígena mais comum em Oaxaca, se assemelhando às línguas dos Mixtec. Em Guerrero, a língua é propagada o suficiente para ser aprendido como segunda língua para falantes de espanhol, que vivem na mesma área.
Os Amuzgos são pessoas que valorizam como família todas as pessoas da linhagem, não apenas o núcleo pai, mãe e crianças, se organizam no sistema patriarcal. O casamento acontece por volta dos 17 anos, para os homens e 15 anos para as mulheres, são eventos elaborados, com comida, festa, álcool e música. Nas comunidades mais tradicionais os casamentos são arranjados entre a família sem a participação do casal, a família que procura a união fica responsável por definir a data e o casal se encontra apenas no dia do casamento, enquanto as famílias trabalham para consolidar os laços sociais e econômicos. É papel do homem fornecer presentes, como milho, feijão, pimenta e dinheiro para fazer a vestimenta da noiva, chamada tradicionalmente de huipil, Se a noiva for virgem, o casamento é celebrado com fogos de artifício, se não, há certa tensão. Para realizar grandes projetos, como batizados, casamentos, plantio, construção de moradia, os amigos e a família se reunem para fornecer recursos necessários ao casal.
Os papéis de gênero são tradicionais e continuaram assim conforme as gerações foram passando, embora haja alguma influência moderna. Os homens seguem com seus pais para o plantio e conseguem a maior parte do conhecimento agrícola até seus 12 anos. As mulheres ficam em casa aprendendo o trabalho doméstico com as mães, como por exemplo, a tecelagem. Os homens tem o poder econômico e social, incluindo o direito de tomar a maioria das decisões familiares. As crianças frequentam a escola pelo menos até o nível primário e algumas até o nível secundário, aqueles que escolhem continuar os estudos, vão para Ometepec ou Chilpancingo.
A maioria dos Amuzgos são católicos, com uma parte sendo protestante. As igrejas católicas dominam os centros das sedes municipais, assim como seus festivais, aqueles dedicados aos santos padroeiros, a semana santa, o dia de todos os santos. Os Amuzgos católicos mantêm elementos da crença indígena nos seus festivais e ritos, como por exemplo, a festa de São Marcos onde eles fazem a “petição por trovões”, para que chova e comece a época da plantação, ou na festa do Arcanjo Miguel que marca o fim das chuvas e o início da colheita. A água é figura destaque nos ritos dos católigos, existe entre eles a crença em espíritos da terra e elementos da natureza.
Para eles, a saúde é muito mais um aspecto espiritual do que físico com a doença sendo relacionada a atividades desarmônicas, nos casos mais graves o doente é enviado para instalações médicas em grandes comunidades, como Putla, mas, a maioria dos Amuzgos prefere se consultar com curandeiros tradicionais. Doenças pequenas, como dor de estômago ou gripe, são tratadas com fitoterapia, enquanto as doenças que são consideradas espirituais, são tratadas pelos “tzan tí” (homens sábios) ou pelas “tzan kalwa” (xamãs ou bruxas).
Embora existam mecanismos do governo, a comunidade Amuzgo também reconhece o Conselho dos Anciãos. Além do Conselho dos Anciãos, os Amuzgos frequentemente disputam uma posição no governo. Existem autoridades Amuzgos tradicionais, a maioria delas está relacionada ao desempenho das funções religiosas, como patrocinar um festival. Essas autoridades têm o direito de exigir trabalho para benefício coletivo. Existe também o "comissariado ejidal" que é responsável pelas questões relacionadas à terra.
A culinária amuzgo é fortemente baseada em milho e outros produtos cultuvados localmente, como cacau. O cacau é geralmente consumido como um chocolate quente apenas nas ocasiões especiais. O milho prepara tamales de diferentes sabores, como doce, com frango, com camarão de água doce, com frutas. Um prato tradicional é o chamado "cabeza de viejo" ou "cabeça de velho", que consiste em carne com ervas cozivas no vapor. Outros exemplos de prato são: barbacoa (que é um prato feito cozidos num forno de cova ou de terra, geralmente com carnes de lento cozimento) e também doces de inhame e abóbora.
Um dos problemas enfrentados pela comunidade é a dificuldade na preservação da língua nas gerações mais jovens, para tentar acabar com esse problema o povo Amuzgo criou entre eles a cultura de ensinar as crianças a falar, ler e escrever em Amuzgo, mantendo a língua viva. Outros problemas que a comunidade Amuzgo enfrenta são: a dificuldade na preservação de peças arqueológicas e da história, uma maior participação nos governos e agências federais, estaduais e municipais, presença de álcool em comunidades indígenas, uso de agroquímicos na região, disputas de poder entre autoridades municipais e conselhos indígenas e a propriedade das terras.
Houve vários esforços para preservar e promover a cultura Amuzgo. O primeiro movimento de preservação da cultura foi um encontro regional dos Amuzgos pelos direitos e participação indígena, em Xochistlahuaca. Foi estabelecido o museu comunitário Amuzgo em 1990, em Xochistlahuaca, com dois salões, um dedicados a peças arqueólogas da região e o outro ao artesanato da região. A comunidade Amuzgo fez parceria com a Universidad Autónoma Metropolitana para desenvolver programas de pesquisa, divulgação cultural para preservar e promover a cultura Amuzgo.
Economia miniaturadaimagem|301x301px|Mulher Amuzgo tecendo rebozo em Xochistlahuaca, Guerrero. A economia do povo Amuzgo se baseia por uma combinação de artesanato, agricultura de subsistência, migração e um setor comercial. as práticas econômicas são influenciadas tanto por fatores geográficos como sociais e históricos.
O artesanato é um dos pilares da economia Amuzga, principalmente a tecelagem realizada pelas mulheres. São produzidosTêxteis como panos, redes e huipiles que geram alta valorização dentro da comunidade e até fora dela, com vários desses produtos sendo vendidos em mercados regionais e fora das áreas locais. Outras atividades artesanais incluem a cerâmica, fabricação de queijo, piloncillo (melado de cana-de-açúcar) e fogos de artifício, contribuindo para a diversificação das fontes de renda das famílias.
A agricultura faz parte da economia Amuzga, utilizada majoritariamente para autoconsumo. sendo o Milho a cultura principal acompanhada pelo cultivo de feijão, gergelim, hibisco entre outras, usadas em rotação de culturas e agricultura itinerante. As práticas agrícolas variam de acordo com a disponibilidade de terra, chuvas e a demanda da comunidade. Os produtos excedentes como laranjas, mamão, cana-de-açúcar, entre outros, são vendidos em centros urbanos próximos, principalmente na região de Ometepec, criando uma renda complementar para as famílias de origem Amuzga.
A migração temporária e permanente, geralmente realizada por homens, para outras regiões do México e para os Estados Unidos desempenha uma característica importante da economia Amuzga. As remessas enviadas pelos migrantes desempenham um papel cada vez mais importante na sustentação financeira das famílias, reduzindo parcialmente a dependência da agricultura e do artesanato como única fonte de renda. As mulheres tendem a migrar para centros urbanos em busca de empregos como domésticas.
As atividades comerciais presentes nas comunidades Amuzgas são realizadas de forma básica e são compostas por negócios locais como barracas de taco, restaurantes, lojas de artigos de cultura, mercearias e estabelecimentos vendendo suprimentos para a agricultura. Os estabelecimentos contribuem para a troca de produtos e serviços dentro da comunidade e para um pequeno intercâmbio comercial com as populações vizinhas.
A resistência dos Amuzgos diante da Covid-19 miniaturadaimagem|314x314px|Centro de Saúde Municipal de Zacoalpan Amuzgo Guerrero México.