Uma proposta de cessar-fogo entre Israel e Hamas e troca de prisioneiros para encerrar a guerra entre Israel e o Hamas foi acordada em 15 de janeiro de 2025. Ela foi redigida, inicialmente, por mediadores dos Egito, Qatar e Estados Unidos, e apresentada pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em 31 de maio de 2024. Foi proposta uma iniciativa em três etapas: começando com um cessar-fogo de seis semanas e a libertação de todos os israelenses mantidos em Gaza em troca de alguns dos palestinos mantidos por Israel; então um cessar-fogo permanente, a retirada completa das tropas de Israel de Gaza e, por fim, um processo de reconstrução com duração de três a cinco anos.
Segundo a proposta, o Hamas libertaria, na primeira etapa, 33 reféns israelenses que atendessem a certos critérios humanitários. Os critérios humanitários preveem a libertação de todas as mulheres e crianças restantes, além de feridos e reféns idosos. Em troca, Israel libertaria de 30 a 50 palestinos (começando com crianças e mulheres) para cada israelense libertado. Se não houvesse suficientes reféns que atendessem a esses critérios, o grupo entregaria os falecidos. Durante a primeira fase, Israel teria de autorizar a entrada de quantidades “suficientes” de ajuda humanitária, permitir que os palestinos deslocados regressassem às suas casas e começar a fazer sua retirada progressiva de Gaza. Durante o cessar-fogo temporário, as negociações começariam entre ambas as partes com o objetivo de alcançar a interrupção permanente das hostilidades. Na segunda fase, Israel aceitaria o cessar-fogo permanente e o Hamas libertaria os reféns restantes, homens vivos, tanto civis como soldados, em troca de outros prisioneiros palestinos. Na terceira etapa, os restos mortais dos reféns israelenses falecidos seriam restituídos.
Segundo a primeira proposta, de 5 de Maio, Israel se comprometeria a retirar o bloqueio à Faixa de Gaza, mas este compromisso não está presente na versão de 31 de Maio. Em 10 de junho, o Conselho de Segurança das Nações Unidas apoiou a proposta, nomeando-a Resolução 2735. No final do mesmo mês, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, declarou que Israel estava aberto a um cessar-fogo parcial, que não incluísse o fim da guerra em Gaza. Por um lado, a administração Netanyahu foi acusada de sabotar as negociações de cessar-fogo. Por outro, os altos funcionários norte-americanos John Kirby e Antony Blinken acusam o Hamas de dificultar o progresso e de provocar o fracasso na obtenção de um consenso.
O acordo foi alcançado por meio de negociações mediadas pelos Estados Unidos, Egito e Catar. A CNN informou que tanto a administração Biden como a administração transitória de Trump desempenharam papéis iguais, com o papel da primeira tendo sido facilitado pelo negociador do Oriente Médio, Brett McGuirk. Ainda segundo a CNN, ambas administrações estavam dispostas a trabalhar em conjunto, devido ao desejo mútuo de uma solução antes da posse da segunda. Antes da conclusão do acordo, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, alertou repetidamente que o Hamas iria "pagar caro" caso não houvesse a libertação dos reféns, incluindo sete cidadãos americanos, antes da sua tomada de posse em 20 de Janeiro de 2025. Um diplomata disse ao The Washington Post que Trump também pressionou o lado israelita a aceitar o acordo. Fontes israelitas também afirmam que a administração transitória de Trump reacendeu as negociações para um cessar-fogo. Após a finalização do acordo, Trump declarou que Gaza nunca mais serviria como um “refúgio para terroristas”. Em 17 de janeiro de 2025, o acordo foi aprovado pelo gabinete de segurança israelense e, posteriormente, pelo gabinete israelita completo, tendo sido também assinado pelos seus negociadores.
Em 18 de março, Israel lançou ataques aéreos surpresa em Gaza enquanto o Ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que Israel "voltou a lutar em Gaza".
Antecedentes
Cessar-fogo inicial e mediação Após o ataque liderado pelo Hamas a Israel em outubro de 2023 e a consequente declaração de guerra de Israel ao Hamas, o Egito e a Jordânia começaram a coordenar uma resposta para evitar a escalada do conflito. Tentativas de chegar a um cessar-fogo foram levantadas no Conselho de Segurança das Nações Unidas ainda naquele mês.
Israel solicitou a demissão do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, após uma declaração onde se referia a retaliação de Israel como uma punição coletiva injustificada. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, rejeitou a resolução de cessar-fogo, equiparando a interrupção dos combates à rendição ao Hamas e ao terrorismo. O secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, apresentou propostas de “pausas humanitárias” aos países da região, mas afirmou que um cessar-fogo permitiria que o Hamas iniciasse um segundo ataque a Israel. Um consenso foi quase alcançado, mas abandonado após a invasão de Gaza por Israel.
Numa conferência de imprensa em novembro daquele ano, Netanyahu declarou que um cessar-fogo exigiria o regresso dos reféns israelitas feitos durante o ataque. A Arábia Saudita, a Jordânia e o Egito intensificaram os esforços para alcançar um cessar-fogo; na Cúpula Extraordinária Conjunta Árabe-Islâmica, organizada dia 11 de novembro para tratar do assunto, o Irã e a Arábia Saudita também apelaram pelo mesmo propósito. O The Washington Post noticiou em 18 de Novembro que os EUA estavam perto de um acordo para libertar reféns e pôr fim aos combates, elaborado durante as discussões em Doha, no Qatar. Em 22 daquele mês, Israel e o Hamas trocaram reféns e mantiveram um cessar-fogo de quatro dias. Passado o prazo, ainda prolongaram o cessar-fogo por mais dois dias e libertaram mais reféns e detidos. Por fim, Israel retomou a sua ofensiva, tendo afirmado repetidas vezes que o faria, mesmo que a pausa se prologasse.
De acordo com o coordenador de comunicações estratégicas do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Kirby, o governo dos Estados Unidos começou a pressionar ambos Israel e Hamas a negociar. Em dezembro, o Egito apresentou um plano de cessar-fogo obtido pela Associated Press, que libertaria gradualmente os reféns e formaria um governo palestino para administrar Gaza e a Cisjordânia ocupada, cedendo o controle ao Hamas. Vários dias depois, a National Public Radio relatou uma proposta revista, que removeria as referências à governância autônoma de Gaza e da Cisjordânia ocupada. Os esforços do Conselho de Segurança das Nações Unidas não conseguiram oferecer um cessar-fogo devido às preocupações relacionadas com a monitorização da ajuda humanitária pelas Nações Unidas. Em janeiro, vários comandantes israelitas expressaram a sua convicção de que a libertação de reféns só poderia ser conquistada através da diplomacia. De acordo com o The New York Times, o general Gadi Eisenkot declarou publicamente que Israel deveria "resgatar civis, antes de matar um inimigo".
Novas negociações de cessar-fogo Ao longo de janeiro de 2024, mediadores egípcios e qatarianos sugeriram diversas propostas, que durariam de semanas a meses. Autoridades do Hamas declararam que os reféns restantes, estimados em mais de cem, seriam libertados se um cessar-fogo favorável e abrangente fosse oferecido, porém Netanyahu rejeitou qualquer cessar-fogo se o Hamas tivesse permissão para governar Gaza. As autoridades israelitas sugeriram um cessar-fogo permanente se os líderes do Hamas fossem para o exílio, um acordo ao qual o Hamas se opôs.
Em 25 de janeiro, os Estados Unidos anunciaram que o diretor de sua Agência Central de Inteligência (CIA), William Joseph Burns, se reuniria com autoridades israelenses, egípcias e qatarianas. Segundo os EUA, Israel propôs um cessar-fogo de sessenta dias. Nas discussões, os responsáveis discutiram a troca de reféns, o reforço da Autoridade Palestina e a melhoria das relações entre Israel e a Arábia Saudita em troca do apoio a um Estado Palestino.
Após a reunião em Paris, o principal líder político do Hamas, Ismail Haniya, declarou que a organização estava considerando um acordo, mas continuava comprometida com a retirada das forças israelitas de Gaza, uma exigência rejeitada por Netanyahu. A Al-Aqsa informou que o Hamas continuou a discutir a proposta até 4 de fevereiro, quando Antony Blinken chegou à Arábia Saudita para adiantar o alicerce para um cessar-fogo. Em 7 de Março, as negociações de cessar-fogo não pareciam progredir. Segundo o Axios, um site de notícias estadunidense, o Hamas priorizou o regresso dos palestinos ao norte de Gaza nas discussões. Antes do Ramadã, os mediadores dos EUA, Egito e Qatar aumentaram os esforços para chegar a um cessar-fogo, porém Netanyahu rejeitou a contraproposta do Hamas como "ridícula", se declarando ainda "aberto à negociação".
Em 18 de março, Israel e o Hamas começaram a negociar pela primeira vez desde dezembro. O Hamas aliviou as suas exigências, retirando a exigência de manter um cessar-fogo permanente. Um aviso das Nações Unidas sobre uma fome iminente impulsionou as discussões para chegar a qualquer cessar-fogo. Os Estados Unidos abstiveram-se de votar a Resolução 2728 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (que exigia o cessar-fogo durante o Ramadã e a libertação incondicional dos reféns) porém permitiu a aprovação da votação, criando um conflito com Netanyahu. Em 26 de março, as negociações estavam paralisadas. Israel acusou o Hamas de paralisar as discussões, encorajado pela abstenção dos EUA na Resolução 2728. O diretor da CIA, o primeiro-ministro do Qatar e autoridades egípcias reuniram-se em Doha para discutir uma proposta que incluía um aumento do número de prisioneiros palestinos libertados.
Ataque ao comboio de ajuda humanitária e mudança da política dos EUA Em 1º de Abril, um ataques israelense a um comboio de ajuda humanitária da World Central Kitchen matou sete trabalhadores, entre eles um palestino, um australiano, um polonês, três britânicos e um canadense-estadunidense. Biden condenou o ataque, afirmando que Israel "não fez o suficiente para proteger os civis". Num telefonema três dias após os ataques, ele ainda orientou Netanyahu a procurar um “cessar-fogo imediato”, alertando que os EUA poderiam mudar a sua política sobre a guerra se Israel não cumprisse as suas exigências.
Depois disso, Biden urgiu o Egito e o Qatar a pressionarem o Hamas para alcançar um cessar-fogo temporário e a libertação dos reféns. Em 7 de abril, Israel retirou a 98ª Divisão de Paraquedistas de Khan Yunis, reduzindo significativamente a presença israelense no sul de Gaza. Ainda assim, segundo o ministro da defesa israelita, Yoav Gallant, a retirada tinha como único objectivo redistribuir recursos para uma invasão planejada de Rafah.
Processo de negociação
Abril: Discussões iniciais No início de abril, as negociações pareciam estar paralisadas em pelo menos dois entraves: O Hamas insistiu que só libertaria os reféns em troca de um cessar-fogo permanente, mas Israel só concordaria com um temporário. Os palestinos também exigiam que os habitantes de Gaza fossem autorizados a regressar às suas casas, o que Israel rejeitou.
Em 8 de abril de 2024, o diretor da CIA, William Joseph Burns, apresentou ao diretor do Serviço Secreto Israelense, ao primeiro-ministro do Catar e ao diretor do Serviço Geral de Inteligência do Egito uma proposta para libertar quarenta reféns em troca de um cessar-fogo de seis semanas. O Hamas rejeitou a proposta de trégua temporária e exigiu mais uma vez um cessar-fogo permanente.
Em 15 de abril, um alto congressista norte-americano, Steny Hoyer, ameaçou que os EUA iriam “reavaliar a sua relação com o Qatar” se este não pressionasse o Hamas a libertar os reféns. O Qatar respondeu dizendo que iria reavaliar o seu papel como mediador.