A história do jogo do bicho no Rio de Janeiro teve início com a criação em 1892 de uma loteria privada para ajudar a financiar o Jardim Zoológico de Vila Isabel, no então distrito federal. Desde sua primeira proibição formal desde 1895, o jogo do bicho não apenas sobreviveu, como se reorganizou e adaptou às novas condições no Rio de Janeiro. Longe de desaparecer, a prática consolidou-se como uma atividade clandestina, operada por redes que envolveram pequenos comerciantes, vendedores ambulantes e, posteriormente, figuras centrais denominadas "banqueiros". Essa transformação marcou a transição do jogo do bicho de uma iniciativa recreativa vinculada ao zoológico para uma estrutura organizada e enraizada no cotidiano urbano, evoluindo para um fenômeno sociocultural e permanecendo resistente às tentativas de erradicação ao longo do século XX. Ao mesmo tempo, mesmo com a criminalização da prática na década de 1940, os bicheiros, por meio de suas redes de influência e conexões com autoridades, garantiam a continuidade de suas operações criminosas. Ao final da ditadura militar, o jogo do bicho já estava profundamente enraizado na estrutura criminosa do Rio de Janeiro, funcionando como uma das facções mais poderosas e resilientes no país, capazes de se adaptar aos novos tempos e continuar sua atuação como uma organização mafiosa, diversificando suas atividades e expandindo seu domínio territorial, enquanto suas raízes no crime organizado se aprofundavam.

Antecedentes miniatura|João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, foi o mentor do jogo do bicho.|alt=

As raízes do jogo do bicho contemporâneo situam-se no Rio de Janeiro entre o final do período monárquico brasileiro e o início da era republicana. O empresário João Batista Viana Drummond havia comprado em 1872 uma vasta chácara na encosta da serra do Engenho Novo, onde ele passou a investir no ramo imobiliário e idealizou o construção do primeiro bairro planejado da então capital do Império, Vila Isabel. Envolvido numa série de atividades e empreendedor ativo na urbanização do bairro, o então Comendador Drummond solicitou em 1884 junto à Câmara Municipal do Município Neutro permissão para dotar a cidade de um Jardim Zoológico na Vila Isabel. Bem relacionado com os poderosos, o empresário obteve autorização para o novo empreendimento, que foi aberto provisoriamente como Jardim Zoológico de Vila Isabel em 6 janeiro de 1888, tendo sua inauguração “oficial” em meses depois.

Contudo, o zoológico passou a demandar altos custos de manutenção. O agora Barão de Drummond buscava soluções para atrair público e aumentar as receitas do parque. Embora o governo imperial subsidiasse o empreendimento com 10 contos de réis anuais, Drummond argumentava que a soma era insuficiente para cobrir os custos operacionais e desenvolver o zoológico. Após a queda da monarquia brasileira e a instituição de um governo repúblicano, o empresário solicitou junto à Conselho de Intendência Municipal da capital federal auxílio para enfrentar os desafios financeiros significativos com o zoológico, não em forma de mais dinheiro público, mas na forma da exploração de jogos lícitos dentro do Jardim. Em 13 de outubro de 1890, foi celebrado aditamento ao contrato original entre Drummond e a Intendência Municipal em 1884 que autorizava a exploração de “jogos públicos lícitos” no zoológico de Vila Isabel. O documento previa a realização de jogos públicos sob fiscalização policial, com o objetivo declarado de financiar melhorias no zoológico e fomentar atividades educativas, como aulas de zoologia e exposições permanentes.

Dentre os diversos jogos legais permitidos dentro de suas dependências, foi criado um no qual haveria um sorteio atrelado aos ingressos do zoológico. Esse novo jogo contaria com 25 animais possíveis, iniciando pelo avestruz e terminando com a vaca, e teria sido uma adaptação, feita por sugestão do mexicano Manoel Zevada, gerente do zoológico, de um certo "jogo das flores" a uma versão reino animal.

O jogo do bicho no Rio de Janeiro Em 3 de julho de 1892, ocorreu a reinauguração do Jardim Zoológico de Vila Isabel. Ao comprar o bilhete de entrada, o visitante recebia um comprovante com a imagem de um animal. No final daquela tarde, foi aberta uma caixa de madeira suspensa em um poste próximo da entrada principal do zoológico que revelaria o "animal vencedor". Com o avestruz como animal sorteado, a primeira extração do "jogo dos animais" premiou com o equivalente a 20 réis (vinte vezes o valor do ingresso) 23 visitantes.

O sucesso imediato do jogo levou a um aumento significativo da afluência diversificada ao zoológico, incluindo membros da elite e setores populares. Logo, o jogo passou a ser divulgado como uma loteria com prêmios diários na imprensa, que não apenas relatava os resultados, como também anúnciava premiações de até 40 mil réis. Também em poucos dias, bilhetes começaram a ser vendidos fora das dependências do parque, como a Rua do Ouvidor, o que possibilitou a participação de um público ainda maior.

Entre 1892 e 1894, o jogo do bicho começou a se expandir, inicialmente restrito ao Zoológico do Rio de Janeiro e sob o controle exclusivo do barão de Drummond, que escolhia o "bicho do dia". Durante esse período, o jogo era legal e extremamente popular, refletindo uma crescente mania por loterias na cidade. A popularidade aumentou ainda mais com o surgimento dos intermediários (bookmakers), que passaram a financiar e organizar as apostas, espalhando o jogo pela cidade. Esses agentes compravam grandes quantidades de bilhetes e formavam uma clientela fixa, permitindo que os apostadores jogassem sem precisar ir até o zoológico. O próprio barão também expandiu suas operações, inaugurando escritórios em diversos pontos do Rio e criando uma rede de distribuição de bilhetes por meio de comerciantes locais. Acredita-se que esses negociantes do barão podiam ganhar quantias significativas, cerca de 50 mil-réis por dia, o que indicava a profissionalização do jogo.

Paralelamente, pequenos comerciantes começaram a montar suas próprias operações de jogo do bicho, independentes do controle do barão e do zoológico. Essas casas de apostas independentes compravam grandes quantidades de bilhetes do jogo do bicho em pontos de venda autorizados para revendê-los, muitas vezes junto com bilhetes de outras loterias, criando suas próprias redes de apostadores e promovendo apostas em seus próprios termos.

Da permissão à proibição Desde sua criação em julho de 1892, o jogo do bicho rapidamente ganhou popularidade no Rio de Janeiro. O respaldo institucional foi essencial para o sucesso inicial da atividade. Autorizado pelo poder público desde o acordo entre o barão Dummond e a Intendência Municipal em outubro de 1890, o jogo do bicho foi tratado inicialmente como uma inovação alinhada aos objetivos de modernização e lazer urbano. Contudo, sua crescente difusão e os impactos sociais associados começaram a suscitar reações ambíguas por parte das autoridades. Apenas 20 dias após seu lançamento, o então chefe de polícia da capital federal publicou um ofício no jornal carioca O Tempo, argumentando que o jogo do bicho era uma forma de jogo de azar, pois os ganhos dependiam exclusivamente do acaso, o que, segundo a legislação vigente, era proibido. O Código Penal de 1890, nos artigos 369 e 370, proibia jogos de azar em locais públicos e privados, entendendo como tais aqueles em que o ganho ou perda dependiam da sorte.

Em meados da década de 1890, o jogo do bicho tinha fugido ao controle do jardim zoológico. Essa popularização descontrolada despertou preocupações das autoridades municipais, que passaram a enxergar o jogo como uma ameaça à moralidade pública e à ordem urbana. O discurso oficial, que antes ressaltava o valor educativo e recreativo do zoológico, mudou para associar o jogo do bicho ao "vício" e à "desordem". Essa visão moralista foi compartilhada por alguns setores da sociedade, como a Associação dos Empregados do Comércio, que condenava o jogo por ser um "inimigo do trabalho honesto" e das virtudes tradicionais. A ideia de contenção dos jogos de azar estava ligada a uma moral de comportamento público inspirada em uma ética protestante, presente em certos projetos sociais da época.

Em 1895, o prefeito Furquim Werneck de Almeida acionou a Procuradoria dos Feitos da Fazenda Municipal para investigar os contratos com a Companhia do Jardim Zoológico, responsável pela operação do jogo do bicho, e os procuradores recomendaram a rescisão do contrato com a companhia devido à exploração da atividade. Como resultado, foi editado o Decreto nº 133, em 10 de abril daquele ano, autorizando o prefeito a rescindir o contrato com a empresa de João Drummond. Por um lado, o decreto refletia a crescente pressão para conter os "escândalos" atribuídos à prática, especialmente devido à sua rápida disseminação entre as classes populares e à dificuldade de controle por parte das autoridades. No entanto, outras atividades de aposta, como o boliche e o frontão, que também ocorriam no zoológico, não foram alvo da mesma medida repressiva.

Após a proibição, o Jardim Zoológico da Vila Isabel entrou em declínio, e o jogo do bicho se reorganizou fora do alcance direto do poder público. Essa transição marcou o início de sua consolidação como uma prática clandestina, operada por uma rede de "banqueiros" e sustentada pela adesão popular, que pôs a prova repetidamente as tentativas de repressão à atividade durante o século XX.

Expansão na clandestinidade miniatura|Decreto-lei de 1946 assinado pelo presidente Dutra determinou a proibição dos jogos de azar no país.|alt=

O aparecimento de casas de apostas, banqueiros e vendedores independentes havia permitido às autoridades públicas caracterizar o jogo do bicho como um “jogo de azar” ilegal, e estes números continuaram a incomodar as autoridades depois de o jogo do bicho ter sido retirado do jardim zoológico. Nas áreas suburbanas cariocas, bilhetes continuaram a ser vendidos em estabelecimentos como botequins, padarias e mercearias, barbearias, charutarias e funilarias. Algumas famílias chegavam a bancar o jogo na sua própria casa. Já outras pessoas de menos posse, mas com iniciativa, passaram a atuar por conta própria nas ruas, criando os famosos "pontos de bicho". Nesta fase, os resultados dos sorteios passaram a ser divulgados discretamente por meio de códigos ou anúncios velados.

Durante a primeira metade do século XX, a interação entre o jogo do bicho, a polícia e o poder público no Rio de Janeiro foi marcada por uma complexa rede de tolerância mútua, repressão pontual e corrupção. Embora o jogo fosse ilegal, sua grande popularidade e a presença generalizada tornavam qualquer tentativa de erradicá-lo ineficaz, criando uma situação ambígua em que as autoridades, em vez de erradicar a prática, acabavam por conviver com ela. Com a criminalização crescente do jogo, os banqueiros do bicho passaram a manter relações com setores da polícia, pagando propinas em troca de proteção, o que permitia que suas operações continuassem sem interrupções significativas. Por outro lado, as autoridades utilizavam o jogo do bicho como uma ferramenta para reforçar sua presença nas ruas e exercer controle social. As operações policiais contra o jogo eram muitas vezes realizadas de forma ostensiva, com prisões e apreensões que buscavam mais demonstrar o poder do estado do que efetivamente eliminar a prática. Ademais, o foco das autoridades na criminalização do jogo era muitas vezes seletivo, recaindo desproporcionalmente sobre as classes populares, enquanto os banqueiros e intermediários de classes sociais mais altas mantinham relativa impunidade.