Agustín Gamarra Messía (Cuzco, 27 de agosto de 1785 — Ingavi, La Paz, 18 de novembro de 1841) foi um político e militar peruano que foi Presidente do Peru em duas ocasiões: de 1829 a 1833 e de 1839 a 1841. Seu último mandato não foi concluído, devido ao fato de ter falecido na Batalha de Ingavi, durante a última tentativa de anexar a Bolívia ao Peru, uma de suas mais acentuadas obsessões políticas. Encarna a figura do caudilho militar ambicioso com participação ativa na vida política peruana durante as primeiras décadas da República. Também foi o primeiro presidente eleito democraticamente (La Mar havia sido eleito pelo Congresso), embora o sufrágio estivesse limitado a uma minoria privilegiada da população.

Durante a Guerra da Independência, inicialmente alistou-se nas forças realistas, comparecendo às campanhas no Alto Peru contra os exércitos rio-platenses, servindo sob as ordens de José Manuel de Goyeneche, Joaquín de la Pezuela, Juan Ramírez Orozco e José de la Serna. Atuou também na repressão da rebelião dos Irmãos Angulo e Mateo Pumacahua (1814) e contra as guerrilhas de indígenas do Alto Peru, conseguindo derrotar a Republiqueta de Larecaja. Subiu por todos os escalões inferiores até o posto de tenente-coronel. Porém, foi envolvido duas vezes em conspirações tramadas pelos patriotas e enviado a Lima em 1820.

Pouco depois, juntou-se à causa da Independência alistando-se no Exército Libertador de José de San Martín. Esteve em seguida em duas expedições enviadas à serra central e na infeliz campanha de Ica (1822). Durante a Segunda Campanha de Intermedios figurou como segundo no comando do general Andrés de Santa Cruz (1823). Com a chegada de Simón Bolívar e do exército grã-colombiano, foi nomeado chefe do Estado-Maior e como tal se destacou na Batalha de Ayacucho (1824). Foi nomeado prefeito de Cusco e chefe do Exército do Sul. Em 1828, invadiu a Bolívia; assinou com dita nação o Tratado de Piquiza e foi nomeado Marechal.

Sob as ordens do presidente do Peru, marechal José de La Mar, participou da Guerra contra a Grã-Colômbia como Comandante-geral do Exército peruano, mas ambicionou o poder e, contando com a cumplicidade dos generais Antonio Gutiérrez de la Fuente e Andrés de Santa Cruz, derrubou La Mar em plena guerra. Assumiu então a Presidência do Peru e, logo em seguida, assinou a paz com a Grã-Colômbia por meio do Tratado Larrea-Gual. Este primeiro governo durou de 1829 a 1833 e se caracterizou por seu autoritarismo e por seu desejo de integrar a Bolívia ao Peru. Em 1834, provocou uma rebelião de seus partidários contra o governo do recém-eleito Presidente Luis José de Orbegoso; derrotado, partiu exilado para o Chile.

Em 1835, quando Orbegoso e Santa Cruz pactuaram para a realização da confederação entre Peru e Bolívia, Gamarra se opôs, mas foi derrotado na Batalha de Yanacocha, tendo que se exilar novamente. Conspirou do Chile contra a constituída Confederação Peru-Boliviana liderada por Santa Cruz e integrou a Segunda Expedição Restauradora dirigida pelo general chileno Manuel Bulnes. Desembarcada a expedição no Peru, Gamarra interveio como diretor-geral de operações na campanha militar que culminou com a derrota dos confederados na Batalha de Yungay, após a qual Santa Cruz fugiu e a Confederação chegou ao fim (1839). Gamarra exerceu provisoriamente a presidência do Peru, até que o Congresso reunido em Huancayo o ratificou como Presidente Constitucional do Peru. Este segundo mandato durou de 1839 a 1841. Voltou a intervir na Bolívia, mas foi derrotado e morto na Batalha de Ingavi (18 de novembro de 1841).

Biografia

Nascimento e primeiros anos Filho de Fernando Gamarra, escrivão espanhol, e de Josefa Petronila Messía, indígena de origem modesta,Estes dados de seus pais provêm de Manuel de Mendiburu, em seu Diccionario histórico-biográfico del Perú … "Dicionário histórico-biográfico do Peru..." Primeira parte (Tomo IV. Lima, 1880). José de la Riva Agüero (Pruvonena), seguindo a Irrisari, afirma que seu pai era o padre Zaldívar; por isso alguns jornais inimigos de Gamarra o chamaram de "Frei Agustín Zaldívar". nasceu em Cusco. Era ainda menino quando seu pai morreu, pelo qual recebeu a proteção de seu tio, o sacerdote Zaldívar.

Estudou no Colégio de São Boaventura dos frades franciscanos, onde cursou Teologia. Depois, cursou Cânones no Colégio de São Francisco. Porém, em 1809, abandonou a carreira religiosa e optou pela carreira militar.

A serviço das armas espanholas (1809-1821) Gamarra alistou-se em 1809 como cadete no exército realista que o general arequipenho José Manuel de Goyeneche preparava contra o movimento liberal iniciado em La Paz e pouco depois em Buenos Aires (1810). Passou para o Alto Peru e lutou na Batalha de Guaqui (1811), onde, por seu comportamento, fez-se merecedor do posto de subtenente. Esteve depois sob as ordens do general Pío Tristán nas batalhas de Tucumã (1812) e Salta (1813); e sob as ordens do general Joaquín de la Pezuela em Vilcapuquio e Ayohuma (1813).

Já com a patente de capitão e nas fileiras do Regimento N.º 1 (integralmente formado por cusquenhos), solicitou incorporar-se às forças que o general Juan Ramírez Orozco alistava contra o movimento revolucionário que os irmãos Angulo e o brigadeiro Mateo Pumacahua lideraram em Cusco em 1814. A expedição realista marchou de Oruro até entrar vitoriosamente em La Paz e logo em Arequipa. Gamarra foi promovido a tenente-coronel em 7 de janeiro de 1815 e compareceu em seguida à Batalha de Umachiri (11 de março de 1815), sangrento encontro que determinou a vitória realista sobre o movimento patriota iniciado em Cusco.

Gamarra integrou a Junta de Purificação, encarregada de julgar e punir os participantes da revolução de Cusco, mas por sua atitude benevolente foi excluído do tribunal. Acontecia que entre os patriotas perseguidos figuravam vários de seus amigos e conhecidos. Prudentemente, foi-lhe confiado um cargo administrativo, na contadoria provincial de Puno, mas pouco tempo depois foi encarregado de combater as guerrilhas alto-peruanas, as quais reduziu pela força das armas e oferecendo-lhes indulto. Não obstante, ao terminar sua missão, seu batalhão foi desarticulado (outubro de 1816) e ele foi acusado perante o vice-rei Pezuela por seu superior, o general espanhol Mariano Ricafort. Apesar disso, o Vice-rei o promoveu à classe de coronel e o destacou para o território rio-platense do Tarija com a missão de pacificá-lo, em maio de 1817.

Posteriormente dirigiu-se rumo ao Alto Peru, onde foi acusado de encorajar uma conspiração no quartel-general de Tupiza, que deveria iniciar-se com a prisão dos comandantes espanhóis, para marchar depois em direção a La Paz e Cusco ao mesmo tempo em que a Expedição Libertadora de José de San Martín chegava à costa peruana. Não se pôde provar nada contra ele, e foi transferido para Lima, junto com o temido segundo batalhão do Regimento N.º 1, do qual era chefe. Chegando à capital, em novembro de 1820, foi despojado do comando de seu batalhão e designado como ajudante de campo do vice-rei José de La Serna. Sua ascendente carreira militar no exército realista ficava assim truncada, mas abria-se outra opção para ele.

Nas fileiras patriotas (1821-1825) Gamarra pôs fim à sua fidelidade à monarquia espanhola, quando, junto com outros oficiais e soldados, apresentou-se ao quartel-general de San Martín em Retes, em 24 de janeiro de 1821, incorporando-se assim ao exército emancipador.

Foi enviado à serra central com a missão de formar um exército regular com base nas "montoneras" (milícias) que atuavam na região. Chegou a Jauja, mas foi difícil cumprir sua missão, pois os recrutas eram avessos à disciplina militar. De qualquer modo, conseguiu a formação de duas unidades de combate: o Batalhão Leales e o Esquadrão de Granadeiros do Peru. Mudou-se para Pasco, com instruções de não se comprometer em nenhuma ação estando em desvantagem, mas uma vanguarda de sua divisão foi surpreendida e derrotada pelo exército realista comandado por Mariano Ricafort, seu antigo superior (abril de 1821).

Em uma segunda campanha à serra central, serviu como chefe do Estado-Maior do general argentino Juan Antonio Álvarez de Arenales, que lhe comissionou surpreender o general realista José Carratalá, que se encontrava no povoado de Concepción, perto de Jauja. Gamarra não pôde cumprir a missão e retirou-se para Jauja, em maio de 1821. Arenales enfureceu-se a tal ponto com Gamarra, que chegou inclusive a pedir a San Martín sua separação do exército. alt=|miniaturadaimagem|A Batalha de Ayacucho, onde Gamarra participou como chefe do Estado-Maior do Exército Patriota. Sua contribuição militar ao longo da campanha foi muito importante, pois conhecia a geografia do país. Ocupada Lima pelo exército libertador, Gamarra mudou-se para a capital onde participou do entusiasmo gerado pela Proclamação da Independência em 28 de julho de 1821 e esteve entre os condecorados com a Ordem do Sol. A seguir, como chefe do Estado-Maior, integrou-se ao destacamento patriota comandado pelo general Domingo Tristán que foi enviado para o sul, com a missão de ocupar Cañete e Ica. Mas, ao chegar ao vale de Ica, foram atacados pelo exército realista de Canterac e sofreram um sério revés na Batalha de Macacona (7 de abril de 1822), motivo pelo qual Gamarra foi julgado, sendo suspenso da milícia por quatro meses. No meio da convulsão política que o Peru atravessava, José de la Riva-Agüero foi nomeado Presidente da República, por instigação de um grupo de chefes do exército patriota (entre eles Gamarra) amotinados no Balconcillo. Gamarra rejeitou o Ministério da Guerra que Riva Agüero lhe ofereceu; em vez disso, foi promovido a General de Brigada (8 de abril de 1823) e partiu junto com o general Andrés de Santa Cruz para a Segunda Campanha de Intermedios, contra os realistas do Alto Peru, que durou de maio a setembro de 1823 e concluiu sem resultado positivo para os patriotas.

Sendo iminente a chegada de Simón Bolívar, Gamarra apressou-se a manifestar-lhe sua adesão. Incorporou-se ao Exército Libertador, embora não tenha participado da Batalha de Junín (6 de agosto de 1824) por pertencer à arma de infantaria que não interveio em dita batalha. Mas, por outro lado, como chefe do Estado-Maior foi um dos artífices do triunfo alcançado na Batalha de Ayacucho (9 de dezembro de 1824), embora sua intervenção não tenha sido mencionada devidamente por Antonio José de Sucre no relatório enviado a Bolívar, omissão que Gamarra jamais perdoou. De qualquer forma, recebeu a promoção a General de Divisão, em janeiro de 1825.

Prefeito de Cusco (1825-1827) No dia 6 de fevereiro de 1825 foi nomeado por Bolívar como prefeito de Cusco e chefe militar dos departamentos do sul. Nesse mesmo ano casou-se com Francisca Zubiaga y Bernales, que chegou a ser conhecida como a Mariscala.

Como Prefeito realizou um trabalho elogiável, pois sufocou imediatamente a resistência que alguns oficiais realistas ainda tentavam opor. Preocupou-se também em incentivar a agricultura e em melhorar os serviços assistenciais e os da Casa da Moeda.

Após a retirada de Bolívar e a queda do regime vitalício no Peru (1827), manteve-se na Prefeitura e no comando do poderoso exército do sul, a serviço do governo do marechal José de La Mar. Foi eleito deputado por Lampa ao Congresso Geral Constituinte de 1827.

Invasão à Bolívia (1828)

Na Bolívia ainda subsistia o regime vitalício ou bolivariano, com o marechal Sucre à frente, o que significava um grave perigo para a fronteira peruana do sul. No final de 1827, vários motins ocorreram na Bolívia contra a dominação colombiana, sendo todos sufocados. Mas outro ocorrido na cidade de Chuquisaca em 18 de abril de 1828 teve melhor êxito. Ao tentar sufocá-lo, Sucre foi ferido no braço direito e obrigado a buscar refúgio, vendo-se forçado a delegar o comando ao general José María Pérez de Urdininea, presidente do Conselho e ministro da Guerra.