O modelo de competição de gramáticas emergiu como hipótese proposta pelo linguista americano Anthony Kroch em uma sequência de artigos publicados no decorrer das décadas de 80, 90 e 2000, sustentando-se como uma interface entre a Sociolinguística Variacionista e o Gerativismo, uma coadunação teórico-metodológica entre as teorias de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1984) e de Variação e Mudança (Weinreich, Labov e Herzog, 1966; 1968). Nessa abordagem teórica, vinculada à epistemologia da escola linguística generativa — mais precisamente à Sintaxe Diacrônica (permitida pela linguística histórica) —, as gramáticas são definidas como conjuntos de formas/estruturas disponíveis aos falantes quando em fase de aquisição da linguagem — conforme a GU (gramática universal) —, ou seja, construtos teóricos de linguagem, ou "objetos-língua", que entram em competição/variação.

O cerne dessa hipótese, portanto, está na questão de como as línguas mudam, pois, sendo línguas naturais: nascem, vivem e morrem. Logicamente, se vivem, passam por diferentes contextos culturais, sociais e afins, correspondentes às diferentes épocas às quais perpassam, e, assim sendo, tendem às mudanças. Como o gerativismo mira as mudanças desde uma perspectiva paramétrica, quando se fala em mudança gramatical, se fala em mudança abrupta. Por outro lado, quando se fala em competição entre gramáticas e suas formas, se fala em variação — diferentemente das concepções sociolinguísticas, para o gerativismo de Kroch, as mudanças precedem a variação. Tal competição, no entanto, não corresponde a uma mudança, mas sim à fase posterior à mudança paramétrica, de nível estrutural e sistêmico, que possibilita a existência de novas estruturas: novas formas; correspondentes a outras gramáticas diferentes das quais regiam, então, as variantes já existentes.

Competição de gramáticas no português Um exemplo frequentemente discutido dessa hipótese, no contexto da língua portuguesa, é o fenômeno de fronteamento — ou scrambling, conforme descrito em estudos de outras línguas, como os de Mackenzie sobre o espanhol antigo e moderno. Nesse fenômeno, é possível antepor ao verbo constituintes distintos do sujeito, como no exemplo a seguir, que não é gramatical no português brasileiro contemporâneo:

Um gato quero [eu].

Nessa construção, o objeto aparece à esquerda do verbo, enquanto o sujeito é deslocado para a direita. Pesquisas indicam que, no português clássico (PCl), falado entre meados do século XVI e o início do XIX, esse tipo de estrutura era mais frequente. A perda gradual do fronteamento coincide com o aumento da ocorrência de sujeitos em posição pré-verbal.

Essas análises, consolidadas na área de sintaxe histórica, apontam que a fixação do sujeito em posição inicial está associada a uma mudança de parâmetros sintáticos no português, que restringiu as possibilidades de deslocamento de constituintes. No português brasileiro atual, observa-se maior rigidez na ordem oracional, com a primeira posição da sentença tendendo a ser ocupada pelo sujeito.

No âmbito do modelo de competição de gramáticas proposto por Kroch, considera-se que o português apresenta traços de três gramáticas em competição: a do português clássico (PCl), a do português brasileiro (PB) e a do português europeu (PE). As gramáticas modernas (PB e PE) seguem predominantemente a ordem sujeito-verbo (SV), em que o sujeito tende a preceder o verbo. Já o português clássico era regido por um parâmetro de ordem verbo-segundo (V2), típico das línguas germânicas, que permitia a anteposição de diferentes constituintes ao verbo.

A presença esporádica de fronteamento em registros dos séculos XIX e XX é interpretada como evidência de uma transição entre essas gramáticas: a coexistência de estruturas antigas (V2) e modernas (SV) indicaria um período de competição gramatical, no qual vestígios da gramática do português clássico ainda se manifestavam, embora em declínio no uso cotidiano.

Parâmetro como gatilho, variação como seu reflexo A introdução de um novo parâmetro linguístico pode ser entendida como o acionamento de um gatilho que desencadeia uma série de mudanças estruturais na língua, manifestadas sob a forma de variação. Em termos gerais, a hipótese propõe que, quando ocorre uma mudança de parâmetros em uma determinada língua, surgem novas possibilidades estruturais. Os falantes em fase de aquisição passam a internalizar os novos parâmetros, o que resulta na formação de novas gramáticas no nível da chamada língua-I (língua interna).

Esses falantes, por sua vez, passam a alternar entre diferentes formas, de acordo com os parâmetros das gramáticas internalizadas. Assim, as novas gerações, em contato com o novo parâmetro, incorporam-no à sua gramática interna e gradualmente o refletem também na escrita — processo mais lento, dado o caráter mais conservador da língua escrita em comparação com a falada.

A observação das variações de uso permite identificar relações entre as preferências estruturais dos falantes e os parâmetros em mudança. Por exemplo, em línguas cujo parâmetro categórico é de ordem sujeito-verbo (SV), há maior restrição à interpolação de clíticos, à inversão do sujeito e a outras ordenações que rompam a sequência de sujeito contíguo ao verbo. Assim, o parâmetro exerce influência direta sobre quais estruturas e opções discursivas ou estilísticas são consideradas gramaticais e de uso categórico na língua em questão.

Bibliografia

Giró, José Luis Mendívil (2015). El cambio lingüístico: sus causas, mecanismos y consecuencias. Editorial Síntesis. ISBN 978-8490777442 Jubran, Clélia Spinardi (2015). Gramática do português culto falado no Brasil: a construção do texto falado. Editora Pinsky Ltda. ISBN 978-8572449298

Silvestre, Juan Camilo Conde (2007). Sociolingüística histórica. Madrid: Gredos Editorial. ISBN 978-8424928636

Categoria:Aquisição da linguagem