A Real Feitoria do Linho Cânhamo foi um estabelecimento industrial-colonial fundado pela Coroa Portuguesa em 1783 no Rincão de Canguçu, atual Rio Grande do Sul, com o objetivo de produzir cânhamo, uma fibra essencial velas e cordas navais, visando reduzir a dependência de importações russas.

Operou em regime de plantation com mão de obra escravizada, integrando-se à política mercantilista pombalina de diversificação econômica colonial.

Fundação e contexto A Feitoria surgiu no contexto da expansão imperial portuguesa no final do século XVIII, quando o cânhamo era crucial para a marinha europeia, consumindo centenas de milhares de toneladas anualmente em navios. Experimentos anteriores de cultivo de cânhamo no Brasil datam de 1716, em locais como Colônia do Sacramento e Santa Catarina, mas a Feitoria representou o esforço mais estruturado.

O vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, obtendo sementes de qualidade do Chile via Buenos Aires, sancionou a criação por Carta Régia de outubro de 1783, subordinando-a inicialmente à sua autoridade direta. Em 10 de outubro de 1783, segundo Maximiliano Mac Menz (2005), a Feitoria foi instalada no distrito de Canguçu da Freguesia de Rio Grande, extremo-sul da América Portuguesa. Seu primeiro Inspetor foi o Pe. Francisco Xavier Prates, ajudado na administração por um segundo Inspetor, quatro feitores (soldados europeus), um almoxarife e escriturário, um capelão e um cirurgião. Para o trabalho, foram enviados 21 casais de escravos pertencentes à Fazenda Real de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Os esforços deveriam ser concentrados no plantio, pois “de nenhum modo se devem formar fábricas de cordoaria ou de qualquer outro tecido e apenas se poderão fazer algumas experiências”, numa clara alusão à divisão “colonial” do trabalho." Além disso, a Feitoria contava com trabalhadores livres temporários (capatazes, indígenas e lavradores).

Localizações e produção Inicialmente no Rincão de Canguçu, próximo à fronteira espanhola, a Feitoria transferiu-se em 1798 para o Faxinal do Courita, às margens do Rio dos Sinos, devido a solos inadequados e riscos fronteiriços.​

A Feitoria produziu cânhamo em rama, fio e estopa, enviando lotes para a Real Cordoaria em Lisboa; entre 1785 e 1795, remeteu 1.374 arrobas de rama, 30 de fio e 149 de estopa. Além do cânhamo, cultivava milho, mandioca e feijão para subsistência, e criava gado para couro e tração.

Administração e mão de obra A Feitoria foi administrada por inspetores nomeados pelo vice-rei ou pela Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar, como o padre Francisco Xavier Prates (primeiro, falecido em 1784) e Antônio José Machado Moraes Sarmento. Era subordinada a instituições como a Provedoria da Fazenda Real e governadores locais, como Rafael Pinto Bandeira, gerando conflitos por recursos e controle.

Conflitos e desafios Disputas entre vice-rei, governadores e inspetores envolveram solos inférteis, atrasos financeiros e influência privada. Pinto Bandeira foi acusado de interesses pessoais na relocação, pois aesar de alvarás proibindo manufaturas têxteis (1785), realizou maceração e envio de estopa, com manuais de técnicas europeias.

Transferência para o Faxinal do Courita

Embora estabelecida inicialmente no Rincão do Canguçu em 1783, a Real Feitoria do Linho Cânhamo enfrentou dificuldades operacionais precoces, incluindo a inadequação de parte do solo para a cultura intensiva do cânhamo e a complexidade logística para o escoamento da produção até Porto Alegre. Diante desse cenário, o então governador da Capitania de Rio Grande de São Pedro, Rafael Pinto Bandeira, articulou junto ao vice-rei D. Luís de Vasconcelos a mudança da sede para uma região mais fértil e estrategicamente localizada.

A área escolhida foi o Faxinal do Courita, localizado nas margens do Rio dos Sinos. A transferência formal foi autorizada em 1788 e concluída em janeiro de 1789, sob a supervisão do administrador Antonio José Machado de Moraes Sarmento. A nova localização oferecia vantagens geográficas superiores, permitindo o transporte fluvial da fibra produzida diretamente para os armazéns da capital e, posteriormente, para o Rio de Janeiro.

A instalação da Feitoria no Faxinal do Courita foi um marco para a ocupação da região. Durante décadas, a instituição operou utilizando mão de obra de escravizados africanos e indígenas, tornando-se o núcleo econômico que, em 1824, serviria de base para o assentamento dos primeiros imigrantes alemães no que viria a ser o município de São Leopoldo.

Extinção A Real Feitoria foi encerrada em 1824, transformada em colônia agrícola para imigração alemã, após 40 anos de operação limitada por desafios administrativos e produtivos.

Referências

Categoria:Antigas feitorias de Portugal Categoria:História de São Leopoldo Categoria:História do Rio Grande do Sul Categoria:História econômica do Brasil