A língua iúpique do Alasca Central (em iúpique: yugtun, AFI: ['iuˠ.tun]), também conhecido como yup'ik, iúpique central ou cugtun, é uma língua pertencente ao ramo inuit da família escaleuta, utilizada pelo povo indígena iúpique residente nas regiões oeste e sudoeste do Alasca, Estados Unidos.
Tanto pelo número populacional quanto pela quantidade de falantes (aproximadamente 10.000), forma o maior grupo étnico entre os indígenas do Alasca. Contudo, de acordo com o Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO, faz parte do grupo de idiomas na categoria "vulnerável", fenômeno que ocorre devido ao processo de aculturação da população pela prevalência da língua inglesa e da cultura estadunidense. Ainda, o sirenik (Сиӷы́ных), uma de suas línguas próximas, foi classificada como extinta em 1997.
Em 25% das vilas iúpique do Alasca as crianças têm esta língua nativa como primeira, principalmente no baixo rio Kuskokwim, na ilha Nelson e ao longo da costa entre essas duas localidades. O iúpique do Alasca central geral se divide em mais quatro dialetos separados por suas localizações geográficas, norton sound, hooper bay-chevak, nunivak e egegik. Por causa da grande variedade linguística entre a comunidade, não é possível identificar um dialeto padrão da língua, que pode sofrer alterações pela região do falante ou por sua família.
Assim como outras línguas escaleutas, o iúpique é polissintético e utiliza principalmente a adição de sufixos às raízes das palavras, estabelecendo o sentido por meio de expressões com grafias longas. Entre esses sufixos estão as chamadas pós-bases (do inglês postbases), sufixos derivacionais presentes nas línguas esquimó-aleútes. Para essa língua, não existe marcação de gênero gramatical ou o uso de artigos, e a categoria de número opõe singular, dual e plural.
Etimologia O termo yup’ik é um endônimo que significa 'pessoa real', relativo tanto ao povo iúpique do Alasca central quanto ao seu idioma. É originado a partir da palavra yuk, pessoa' (derivação da proto-etimologia iŋuˠ) adicionada da pós-base (sufixo) -p’ik que expressa ideia de realidade ou autenticidade.
Originalmente, a expressão era utilizada apenas na região norte, enquanto no sul era utilizado o termo yupiaq e, no dialeto egegik, tarupiaq. Atualmente, yup’ik é utilizado como termo comum entre os dialetos para referenciar a língua, entretanto, não substituiu totalmente os endônimos cup’ik, no dialeto chevak, e cup’ig (nativamente cugtun) no nunivak. + 'Pessoa(s) (ser humano)' e endônimos nos dialetos iúpiqueDialetoSingularDualPluralSingularDualPluralNorton Sound (Unaliq-Pastuliq) (< ) ~ Iúpique Central Geral () (< ) ~ Chevak ()Nunivak ()Egegik ~ ⠀⠀⠀thumb|Criança iúpique da Ilha Nunivak. (1930)|esquerda|189x189px
A origem do nome da língua está na sua utilização como forma de denominar o povo, podendo ser atribuído um significado semelhante a “pessoa da nossa gente”. O significado literal “pessoa real” é referente à utilização da comunidade como forma de designar uma pessoa comum, em contraste aos xamãs, espíritos ou divindades.
Apesar de ser grafado como "yup’ik”, percebe-se uma maior recorrência do termo yugtun na oralidade. A utilização do apóstrofo no nome da língua representa um prolongamento do som da consoante 'p', e auxilia na diferenciação da língua yupik (sem apóstrofo) que geralmente se refere ao idioma iúpique siberiano central, que, apesar de serem da mesma família, são mutualmente ininteligíveis.
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Distribuição A fluência no iúpique do Alasca central está quase completamente limitada a esse grupo étnico, no qual os falantes da língua configuram aproximadamente 42% da população. Em geral, estes estão localizados entre Norton Sound, ao norte; Península do Alasca, ao sul; lago Iliamna, ao leste e a ilha Nunivak à oeste.
Dialetos Atualmente, cinco dialetos compreendem toda a variedade linguística desse idioma, sendo eles: iúpique do Alasca central geral, norton sound, hopper bay-chevak, nunivak e egegik (atualmente considerado extinto).
A formação do continuum dialetal desse idioma pode ser associada à prática histórica de tabu com relação às variações de outras regiões, pois os falantes "muitas vezes se sentem orgulhosos de seus próprios dialetos". De acordo com a análise do Censo dos Estados Unidos de 1980, a divisão de dialetos e sub-dialetos pode ser feita da seguinte maneira:
Iúpique do Alasca Central Norton Sound (ou Unaliq-Pastuliq); falado em Norton Sound Sub-dialeto Unaliq; falado em Elim (Neviarcaurluq), Golovin (Cingik), St. Michael (Taciq) Sub-dialeto Kotlik; falado em Kotlik (Qerrulliik) Iúpique do Alasca Central Geral (GCAY, do inglês general central alaskan yup’ik); falado na ilha Nelson, no Delta de Yukon-Kuskokwim, e na Baía de Bristol Dialetos principais; falados no baixo rio Kuskokwim, na costa até a ilha Nelson, e na Baía de Bristol Sub-dialeto do baixo Kuskokwim; falado em Akiachak (Akiacuaq), Akiak (Akiaq), Atmautluak (Atmaulluaq), Bethel (Mamterilleq), Eek (Ekvicuaq), Goodnews Bay (Mamterat), Upper Kalskag (Qalqaq), Lower Kalskag (Qalqaq), Kipnuk (Qipnek), Kongiganak (Kangirnaq), Kwethluk (Kuiggluk), Kwigillingok (Kuigilnguq), Napakiak (Naparyarraq), Napaskiak (Napaskiaq), Nunapitchuk (Nunapicuar), Oscarville (Kuiggayagaq), Platinum (Arviiq), Quinhagak (Kuinerraq), Tuluksak (Tuulkessaaq) e Tuntutuliak (Tuntutuliaq) Sub-dialeto de Bristol Bay; falado em Aleknagik (Alaqnaqiq), Clark's Point (Saguyaq), Dillingham (Curyung), Ekuk, Manokotak (Manuquutaq), Togiak (Tuyuryaq), Twin Hills (Ingricuar) Dialetos periféricos; falados no alto Kuskokwim, no rio Yukon e próximo ao rio Iliamna Sub-dialeto de Yukon; falado em Alakanuk (Alarneq), Emmonak (Imangaq), Holy Cross (Ingirraller), Marshall or Fortuna Ledge (Masserculleq), Mountain Village (Asaacaryaraq), Nunam Iqua (Nunam Iqua), Pilot Station (Tuutalgaq), Pitkas Point (Negeqliim Painga), Russian Mission (Iqugmiut), St. Mary's (Negeqliq), Scammon Bay (Marayaarmiut) Sub-dialeto do alto ou meso Kuskokwim; falado em Aniak (Anyaraq), Chuathbaluk (Curarpalek), Crooked Creek (Qipcarpak), McGrath, Sleetmute (Cellitemiut), Eek Sub-dialeto do rio Iliamna; falado em Egegik (Igyagiiq), Igiugig (Igyaraq), Iliamna (Illiamna), Kokhanok (Qarrʼunaq), Levelock (Liivlek), Naknek (Nakniq), South Naknek (Qinuyang) Dialetos mistos Sub-dialeto de Nelson Island & Stebbins; falado em Chefornak (Cevvʼarneq), Newtok (Niugtaq), Nightmute (Negtemiut), Stebbins (Tapraq), Toksook Bay (Nunakauyaq), Tununak (Tununeq) Sub-dialeto de Nushagak River; falado em Ekwok (Iquaq), Koliganek (Qalirneq), New Stuyahok (Cetuyaraq), Portage Creek Egegik (extinto), anteriormente falado em Egegik (Igyagiiq) Hooper Bay-Chevak (ou cup'ik) Sub-dialeto de Hooper Bay; falado em Hooper Bay (Naparyaarmiut) Sub-dialeto Chevak; falado em Chevak (Cevʼaq), Nunivak (ou cup'ig); falado em Mekoryuk (Mikuryar) na ilha de Nunivak. Entre os dialetos, aquele que mais se diferencia é o nunivak, entretanto, também são perceptíveis diferenças entre os subdialetos, principalmente nos campos léxico e fonético. +Comparação entre sub-dialetos do iúpique do Alasca central geral Yukon(Kuigpak) Kuskokwim(Kusquqvak) Portuguêsestudar (intrans.); ensinar (alguém) (trans.)estudanteensinar (intrans.)professormãocotoveloferver/cozermundo, exterior, céu, universo, consciêncialâmpada, luzprovar, testar, tentar
Línguas relacionadas O iúpique do Alasca central faz parte de um continuum dialetal que está localizado geograficamente entre o norte do Alasca, o Canadá e a Groenlândia, formando o ramo esquimó da família esquimó-aleúte. Por isso, possui grande proximidade com línguas como inupiaque, inuctitute e groenlandês, pertencentes ao ramo das línguas inuíte. O idioma também possui uma forte relação com outras línguas do ramo iúpique, como o alutiiq, o iúpique siberiano central, o naukan(ski) e o extinto sirenik(ski). Sobre o último, existem divergências acerca de sua classificação pela maior diferença se comparado aos outros idiomas iúpique, por isso, pode ser considerado um ramo distinto dentre as línguas esquimó.
A principal semelhança entre as línguas esquimó-aleútes é a combinação da grande variedade de sufixos, pós-bases e morfemas, caracterizando esta como uma família de idiomas polissintéticos. Alguns exemplos de expressões com um grande número de morfemas são:
Ikircugngaan naspaayukuvgu - 'você conseguirá abrí-lo se você quiser tentar'
Natmurteqatarcit? - 'para onde você vai?'
Fonologia
Consoantes O iúpique do Alasca central possui 28 fonemas consonantais, em que prevalecem as consoantes desvozeadas. As consoantes plosivas não contrastam em voz, contudo, a língua possui uma grande variedade de fricativas, nas quais todas, exceto as pós-alveolar e palatal (que não incluem fricativas), possuem pares desvozeado-vozeado.
+Quadro consonantal do iúpique do Alasca centralLabialAlveolarConsoante pós-alveolar/PalatalVelarUvularNasalPlosivaAfricadat͡st͡ʃFricativaxʷχʷɣʷʁʷlateralAproximantew
Vogais O idioma possui quatro vogais, sendo três delas vogais tônicas, /a/, /i/, /u/; e uma átona, o schwa, que pode ser representado pelos alófonos /ɨ/ (central fechada não arredondada) ou /ə/ (central média não arredondada) e escrito como "e" na ortografia da língua. +Quadro vocálico do iúpique do Alasca centralAnteriorCentralPosteriorFechada⠀⠀i⠀⠀ɨ⠀⠀uAberta⠀⠀a Exceto para o schwa, todas as vogais podem ser combinadas com outras vogais (inclusive idênticas, no caso de duplicação) formando ditongos. Além disso, pode haver prolongamento, indicado pelo sinal ponto mediano ⟨·⟩ após a vogal prolongada. Em casos de encontro consonantal não apropriados na fala é adicionado o schwa entre as consoantes, caracterizando o fenômeno da epêntese na língua.
Tonicidade
Em apenas alguns casos a tonicidade determina o significado de uma palavra e é majoritariamente afetado pelo prolongamento de uma vogal ou consoante. Por exemplo:
[ag·gi:tok] akituuq - 'valioso'
[ag:gi·tok] akiituq - 'barato'⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
[nɨk·a] nek'a - 'minha casa'
[nɨk·a·] nekaa - 'é a casa dele'.
Ortografia
Silabário Yugtun O silabário yugtun ou silabário do Alasca (do inglês: yugtun script), foi criado aproximadamente no ano de 1900 pelo xamã iúpique Uyaquq. A fonte de inspiração do xamã foi a observação de missionários falantes da língua inglesa ao realizarem a leitura de textos sagrados, admirando suas habilidades de proferirem as palavras da mesma forma repetidas vezes. Uyaquq era monoglota, porém tinha um filho bilíngue que compreendia o inglês e o ajudava a realizar traduções de textos da Igreja dos Irmãos Morávios do Alasca para o recém-criado silabário.
Inicialmente, esse sistema de escrita era pictográfico, porém a dependência demasiada das habilidades de memorização e a falta de precisão na representação de expressões pressionou mudanças em sua estrutura. Após diversas modificações, a escrita passou a representar todas as sílabas da língua, por isso, é considerada um silabário. Entretanto, apesar do completo desenvolvimento do silabário yugtun, atualmente a língua iúpique do Alasca central é majoritariamente escrita no alfabeto latino. A direção da leitura desse sistema de escrita, assim como do alfabeto latino, segue o padrão da esquerda para a direita em linhas horizontais.
Alfabeto Latino A primeira construção da ortografia prática foi realizada em 1969 pelo departamento de linguística da University of Alaska Fairbanks, e foi inclusa no programa de educação bilíngue do estado do Alasca a partir de 1970. Atualmente, a versão utilizada é a estabelecida pelo Eskimo Language Workshop em 1972 e que está presente no livro "A Grammar on Central Alaskan Yup'ik (CAY)" de autoria de Osahito Miyaoka (2012). A ortografia da língua é feita no alfabeto latino, sendo essa constituída por 30 letras.