A ciência indígena refere-se aos sistemas de conhecimento e práticas dos povos indígenas, que estão profundamente enraizados em suas tradições culturais e compreensão das relações de um território ou lugar das Nações Indígenas. Esses sistemas de conhecimento foram desenvolvidos ao longo de muitas gerações por meio da observação contínua dos ambientes naturais, da experimentação prática e da transmissão intergeracional de saberes. Por estarem diretamente relacionados às condições ecológicas e culturais de cada povo, apresentam grande diversidade de métodos, interpretações e aplicações.

A ciência indígena é a aplicação e interseção do conhecimento indígena e da ciência. Em ecologia, isso às vezes é chamado de conhecimento ecológico tradicional. A ciência indígena é holística, seguindo os mesmos métodos da ciência ocidental, incluindo (mas não limitado a): observação, previsão, interpretação, questionamento. Em diversas sociedades indígenas, a produção do conhecimento não ocorre de forma separada das práticas sociais, espirituais e ambientais. O conhecimento sobre plantas, animais, ciclos climáticos, rios e paisagens integra um conjunto mais amplo de relações que orientam a vida coletiva e a interação com o território. Porém, enquanto o método científico ocidental busca um distanciamento do objeto ou fenômeno, o pensamento indígena é essencialmente relacional: o fenômeno é percebido “em termos de relações que o ligam as forças naturais e a todas as formas de vida".

Essa perspectiva relacional frequentemente enfatiza a interdependência entre seres humanos, animais, plantas, elementos naturais e espaços habitados. Dessa forma, os fenômenos são compreendidos não apenas em suas características individuais, mas também a partir das conexões estabelecidas entre diferentes componentes do ambiente.

Apesar das contribuições enquanto “herança coletiva da experiência humana com o mundo natural", a ciência indígena muitas vezes foi desvalorizada pelo establishment científico ocidental. Durante os processos de colonização e expansão dos Estados nacionais, muitos sistemas de conhecimento indígenas foram marginalizados ou considerados inferiores em comparação aos modelos científicos europeus. Essa desvalorização esteve frequentemente associada a políticas de assimilação cultural e à imposição de formas específicas de produção e validação do conhecimento. Segundo Catherine Odara Hoppers, há um histórico silenciamento dos métodos holísticos, “estratégias que impediram a coexistência e o intercâmbio frutífero” da ciência ocidental com outros sistemas de conhecimento.

No entanto, tem havido um crescente reconhecimento nas últimas décadas da importância de incorporar perspectivas indígenas e sistemas de conhecimento na prática científica dominante, particularmente em campos como ecologia e gestão ambiental. O termo establishment é freqüentemente usado na Austrália para se referir aos principais partidos políticos e também aos poderes por trás desses partidos. No livro, Anti-political Establishment Parties: A Comparative Analysis de Amir Abedi (2004), Amir Abedi refere-se ao Partido Trabalhista e aos Partidos de Coalizão (o Partido Liberal e o Partido Nacional/País) como partidos do establishment.

Esse reconhecimento tem estimulado iniciativas de pesquisa colaborativa entre cientistas e comunidades indígenas, buscando estabelecer formas mais equilibradas de produção do conhecimento. Em muitos casos, essas parcerias envolvem o compartilhamento de informações sobre monitoramento ambiental, conservação da biodiversidade, gestão de recursos naturais e mudanças climáticas.A contribuição da ciência indígena também tem sido destacada em debates internacionais sobre sustentabilidade. Organizações científicas e organismos multilaterais têm reconhecido que conhecimentos acumulados por povos indígenas podem oferecer perspectivas relevantes para o enfrentamento de desafios ambientais contemporâneos, especialmente em contextos de conservação e uso sustentável dos recursos naturais.

Além das áreas relacionadas ao meio ambiente, sistemas de conhecimento indígenas abrangem campos como medicina tradicional, astronomia, agricultura, navegação, meteorologia e manejo territorial. Esses saberes constituem importantes formas de interpretação e compreensão do mundo, desenvolvidas em estreita relação com contextos históricos, culturais e ecológicos específicos.Atualmente, o diálogo entre ciência indígena e ciência acadêmica é objeto de crescente interesse em universidades, centros de pesquisa e organismos internacionais. Esse movimento busca promover o reconhecimento da pluralidade de formas de conhecimento existentes e incentivar abordagens mais inclusivas na produção científica contemporânea.

Tradicional e científica O conhecimento e as experiências indígenas têm sido tradicionalmente transmitidos oralmente de geração em geração. Este ponto de vista tem sido empregado por cientistas e formuladores de políticas para adotar novos paradigmas para a interpretação e gestão humana dos processos naturais. Embora existam diferenças no uso e na estrutura entre a ciência indígena e o conhecimento científico, a ciência indígena tem uma base empírica e tem sido tradicionalmente usada para prever e compreender o mundo.

O conceito de ciência indígena se fundamenta na ideia de que cada cultura tem sua própria ciência e compreensão do mundo. Gregory Cajete argumenta que as tradições indígenas têm sido historicamente observadas a partir da percepção ocidental e, para que seja possível entender, de fato, essas culturas, “deve-se ser capaz de ver através de suas lentes e ouvir suas histórias em suas vozes e através de suas experiências". Segundo o autor, embora não haja (ou não precise haver) termo nas línguas indígenas que remetam à “ciência”, a ciência indígena mantém sua importância para a vida nativa, ao ser vista enquanto processo de conhecimento e compreensão da realidade, que se acumula ao longo do tempo. Assim, a ciência indígena é essencialmente relacional: resulta da percepção adquirida a partir da experiência e da relação com o mundo. Trata-se de uma “metáfora para uma ampla variedade de processos tribais de percepção, pensamento, ação e o “’vir a conhecer’”.

Entre as áreas que são englobadas pela ciência indígena, segundo Cajete, estão aquelas relacionadas às “plantas, animais e fenômenos naturais”, como astronomia, lavoura, criação de animais, caça, pesca, metalurgia, geologia, plantas medicinais, mas também a outros aspectos da vida humana, como espiritualidade, comunidade, criatividade, tecnologia. Trata-se de um “mapa da realidade natural derivado da experiência de milhares de gerações”.

Licenciaturas Interculturais Indígenas É crescente o número de estudantes autodeclarados indígenas nas universidades brasileiras, um aumento de 374% entre 2011 e 2021, segundo dados do último Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No período, as matrículas desses estudantes passaram de 9.764 para 46.252. Além da presença de indígenas em cursos “tradicionais” como direito, medicina, engenharia, entre outros, as universidades brasileiras têm absorvido a demanda por formação de professores indígenas, em nível universitário. Os cursos de Licenciaturas Interculturais surgiram a partir da reivindicação dos povos indígenas por Educação Superior e pelo acesso à Educação Escolar Indígena Qualificada e diferenciada:“Os cursos de licenciaturas interculturais, além de compor a agenda da oferta qualificada de Educação Escolar Indígena nas comunidades indígenas, têm-se constituído como parte da luta desses povos por Educação Superior e, consequentemente, das respostas do Estado brasileiro ao atendimento dessa demanda”.Segundo informações do MEC são mais de 20 cursos de licenciatura indígena no país. Os cursos de Licenciatura Indígena buscam garantir o diálogo entre saberes indígenas e não indígenas a fim de valorizar os conhecimentos de cada povo, apresentando ferramentas para revitalização de línguas indígenas, formando em nível superior professores para lecionarem nos últimos anos do Ensino Fundamental e no Ensino médio nas escolas indígenas das aldeias em diversas áreas do conhecimento, entre elas: ciências da natureza, matemática, ciências sociais, humanidades, línguas, artes e literatura.

Esses cursos superiores surgem como resultado de um histórico de lutas e políticas públicas que datam desde antes da constituição federal de 1988, que garante aos povos indígenas o direito à cidadania plena e o reconhecimento de sua identidade diferenciada e sua manutenção. Temos diversas legislações sendo criadas com objetivo de reconhecer, validar e promover a educação indígena de acordo com suas particularidades, tanto na formação de alunos dos ensinos fundamental e médio, quanto para formação de professores em cursos superiores. Passando pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Como resultado de anos na implementação de políticas públicas diversas nessa área, em 2005 o Ministério da Educação (MEC), lança o Programa de apoio à Formação Superior e Licenciaturas Indígenas, fomentando instituições de Educação Superior de todo país a proposta projetos de Cursos de Licenciaturas específicas para formação de professores indígenas e de Permanência de alunos indígenas.

Além da presença de indígenas no ensino superior, seja em cursos “tradicionais” e/ou em cursos interculturais, temos dentro do movimento de aproximação da produção científica da academia com os conhecimentos tradicionais. Parte desse movimento é refletida com a titulação de Doutor honoris causa a notórias lideranças indígenas como o Xamã indígena do povo yanomami Davi Kopenawa e Ailton Krenak da etnia Krenak.

Universidades com Cursos de Licenciatura Indígena Universidade do Estado da Bahia (UNEB) - Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena (LICEEI) e Pedagogia Intercultural em Educação Escolar Indígena (PIEEI). Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) – Licenciatura em Pedagogia Intercultural, ofertado na unidade Amambai; Agroecologia Intercultural para os Povos Indígenas do Pantanal (bacharelado) ofertado na Unidade Universitária de Aquidauana; Agroecologia Intercultural, (tecnológico) para Indígenas Apenados em Regime Semiaberto e Indígenas não Apenados de Dourados. Universidade Estadual de Roraima (UERR) - Curso de Licenciatura em Ciências Humanas com ênfase na Educação Indígena, na modalidade da Educação à Distância-EaD.UNIVERSIDADE ESTADUAL DE RORAIMA. Resolução n.º 13, de 14 de abril de 2023. Dispõe sobre a aprovação da reformulação do Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura em Ciências Humanas com ênfase na Educação Indígena, na modalidade da Educação à Distância (EaD/UAB). 2023. Disponível em: https://ementario.uerr.edu.br/assets/docs/resoluCAo_13-2023_-_sei_17201_005837_2022_03_(1).pdf. Acesso em: 15 jul. 2024. Universidade Estadual do Amazonas (UEA) – Curso de Pedagogia - Licenciatura Intercultural Indígena. Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) - “Licenciatura Intercultural para a Educação Básica Indígena em Ciências da Linguagem”, ofertado no Polo de Grajaú; “Licenciatura Intercultural para a Educação Básica Indígena em Ciências da Natureza”, ofertado no Polo de Santa Inês; “Licenciatura Intercultural para a Educação Básica Indígena em Ciências Humanas”, ofertado no Polo de Barra do Corda. Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT) - Licenciatura Intercultural Indígena, com três habilitações: Línguas, Artes e Literatura; Ciências Matemáticas e da Natureza; e Ciências Sociais, além da Pedagogia Intercultural Indígena. Universidade Estadual do Pará (UEPA) - Licenciatura Intercultural Indígena nas áreas de Ciências Humanas e Sociais; Ciências da Natureza e Matemáticas; Linguagens e Artes, oferecido pelo Núcleo de Formação Indígena (NUFI).