A língua iudjá (ou juruna) é uma língua indígena brasileira da família linguística Juruna, do tronco tupi, falada pelos yudjá no Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso. Possui 280 falantes, de acordo com um censo de 2006.
O etnônimo Juruna (Yuruna, Jurúna, Juruûna, Juruhuna, Geruna) é de origem estrangeira e significa “boca preta” em Língua Geral, motivado por uma tatuagem que os yudjá usavam antigamente. Sua autodenominação é yudjá, que significa "dono do rio". Juruna não é um termo pejorativo, pois surgiu da referida tatuagem; entretanto, é preferível utilizar o endônimo Yudjá.
Fonologia
Inventário Fonológico
Consoantes Os fonemas consonantais do Yudjá sãoFargetti, Cristina Martins; Carmen L. Reis Rodrigues. 2008. Consoantes do xipaya e do juruna - uma comparação em busca do proto-sistema. Alfa, São Paulo, 52 (2): 535-563, 2008. (PDF) BilabialAlveolarPalatalVelarGlotalObstruintesPlosivap bt dkʔAfricadatʃ dʒFricativas zʃ ʒhSonorantesNasalmnTepeɾFricativa lateralɬAproximantewj A divisão das consoantes em obstruintes e sonorantes justifica-se na língua pelo comportamento semelhante com relação à nasalidade ocorrido com as sonorantes: todas podem ser nasalizadas diante de vogal nasal.
Vogais Os fonemas vocálicos breves do Yudjá: AnteriorCentralPosteriorFechadaiɨuMédiaeAbertaa Há no yudjá a ocorrência de vogais longas. Elas são responsáveis muitas vezes pelo contraste entre palavras, mas a localização da sílaba tônica não depende unicamente delas.
Tons O yudjá é definido como uma língua tonal. No yudjá, cada sílaba apresenta apenas um tom significativo (há línguas com mais de um tom por sílaba), e esse tom pode ser pontual ou glide (em que ocorrem deslizes para baixo ou para cima como pequenos glissandos). Dessa forma, o sistema tonal do yudjá pode ser classificado como um sistema de registro, com ocorrência de glides como variantes de tons de registro.
Tons que ocorrem, foneticamente, no yudjá: [ ´ ] alto, [ ¯ ] médio, baixo (não marcado), [ \ ] descendente e [ / ] ascendente. Fonologicamente, porém, há somente tom [ ´ ] alto e tom baixo (não marcado).
Fonotática O peso silábico das sílabas em yudjá são definidos de tal maneira:
(C)VC: pesada
(C)VV: pesada
(C)V: leve
A sílaba tônica em yudjá recai sobre a última sílaba, caso todos os tons sejam iguais. Caso contrário, o acento ocorre na primeira sílaba com tom alto da esquerda para a direita.
A nasalização no yudjá se propaga de maneira regressiva, mas não ocorre devido à presença de um consoante nasal na coda, pois a única presença de consoante na coda é a oclusiva glotal no fim da palavra.
Escrita Como a maioria das línguas indígenas no Brasil, o yudjá é uma língua oral que recebeu posteriormente uma escrita baseada no alfabeto utilizado no português brasileiro. A proposta ortográfica atual para a língua yudjá utiliza o alfabeto do português brasileiro com as seguintes modificações: +GrafemaFonema'ʔxʃjʒtxtʃdjdʒrɾlɬyjïɨ
Gramática Existem dois tipos de classes de palavras no yudjá: As classes abertas, que são os nomes, verbos, adjetivos e advérbios, e as classes fechadas, que são os pronomes, clíticos, afixos, conjunções, interjeições e partículas.
Nomes A classe dos nomes é constituída por elementos que podem ocorrer como núcleo de sintagma nominal em função de argumentos de verbos e de posposições: FraseGlosaSignificadoalí pakua ixumenino banana comerO menino comeu bananapitxa pïza hé aupeixe canoa LOC estarO peixe está na canoa Os nomes podem também ocorrer como predicado em orações não verbais, porém nessa função deve ser acrescido o sufixo predicativizador “-ha”. FraseGlosaSignificadoWetákḯ peru-ha anuWetag kĩsêdjê-PRED. ASPWetag é kĩsêdjê Podem ser modificados por possessivos, demonstrativos, numerais e estativos: FraseGlosaSignificadou-mé hulá1S-POSS porcoMeu porco (caçado no mato)anï alíaquele meninoAquele meninouna txabḯú waraxí wã1S três melancia comprarEu comprei três melanciasalí kariá wïmenina alegre chegarA menina alegre chegou
Os nomes apresentam a categoria de número, caso refiram-se a “humano”. Apresentam a categoria de posse, com a distinção entre nomes possuíveis (alienáveis e inalienáveis) e não possuíveis. Os inalienáveis sempre ocorrem com os clíticos marcadores de pessoa, os alienáveis não precisam necessariamente ocorrer com os clíticos. Os inalienáveis compreendem a) partes do corpo e b) termos de parentesco.
Os nomes ainda se distinguem em simples e derivados. Estes últimos são obtidos por afixação (reduplicação) e por composição (endocêntrica e exocêntrica).
Reduplicação O processo de reduplicação por sufixação, embora comum em verbos (que também apresentam infixação), ocorre também nos nomes: +OriginalSignificadoReduplicadaSignificadoaku'úrato/coruja (genérico)aku'ú-ku'úgavião (pequeno)pitxítraíra grandepitxítxipirarucuasuassoprarnasusuborboleta Há muitos nomes de animais em que ocorre a reduplicação, mas, ao contrário dos exemplos acima, dificilmente se encontram as formas não reduplicadas uma vez que as reduplicadas são onomatopeicas. ReduplicadaSignificadotxákĩ-txákĩquero-quero (pássaro)xã́xã́socozinho (pássaro)
Composição São considerados compostos os elementos como os exemplificados a seguir por não apresentarem a possibilidade de intercalação de outro elemento (um modificador, por exemplo) e por apresentarem um significado que não ctalidade do composto. Assim, axí se’á (“olho do fogo”) refere-se a lâmpada e não a alguma parte do fogo. Além disso, *axí kï̃ se'á , com o modificador kï̃ ("só") , é agramatical. A seguir, exemplos de compostos:
Composição endocêntrica Nome + Nome PalavraGlosaSignificadose-padetá 'a'ahã́1P-peso imagem/fotobalança (imagem do nosso peso)maruní 'ú'ãtatu(tipo) unhaenxó (unha de tatu grande)axí me kamémáfogo POSS colarlâmpada (colar do fogo)
Composição exocêntrica Nome + Verbo PalavraGlosaSignificadoiyá xipário reto (ESTATIVO)Rio Xingu (rio reto)pïza ipa'ípá'íacanoa voaravião (canoa que voa)axí saasakafogo iluminar-tudolanterna (fogo que ilumina tudo)pïza ipidepídéacanoa andar no chãocarro (canoa que anda no chão) Verbo + Sufixo PalavraGlosaSignificadokabutxú [kararaka-há]lixo tirar-NOMpá (que tira lixo)papérá [itika-há]papel apagar-NOMborracha (que apaga papel)papérá [waxĩ-yãhã]papel escrever-NOMlápis (que escreve papel) Nome + Verbo + Nome + Verbo PalavraGlosaSignificadoaxí saasaka tapḯsá a-rahḯhïfogo ilumina-tudo cara redonda-grandelanterna grande (fogo que ilumina tudo e que tem cara grande e redonda) Pronomes Em yudjá, a função de sujeito de verbos de um só argumento (intransitivos) é marcada por pronomes independentes. Estes ocupam a primeira posição na oração, podendo, contudo, aparecer pospostos ao verbo. Neste caso, apresentam algumas reduções na forma, o que leva a vê-los como uma segunda classe de pronomes. Com algumas exceções somente, para verbos de um só argumento, tais pronomes são o único expediente para marcar a função de sujeito, quando não há um sintagma nominal. Quando este ocorre, não há marcação pronominal alguma do sujeito (nem mesmo no verbo). FraseGlosaSignificadouna bïdḯtu1S cairEu caíbïdḯtu nacair 1Suna 'e'á1S chorarEu chorei'e'á nachorar 1STaperída kuaha txade bïdḯtuTaperida pedra POSP. cairTaperida caiu em cima da pedra Não há uma forma única para a terceira pessoa singular. Para marcá-la é utilizado um dos dois demonstrativos: amï "aquele" e anï "este". Com verbos de dois argumentos (transitivos) ele raramente ocorre.
A marcação de terceira pessoa singular é de caráter enfático nas orações com verbos de dois argumentos. Tal caráter de ênfase também é conferido quando se usa o pronome, em função de sujeito, antes do verbo (quer seja ele de um ou de dois argumentos). Nessas situações, observa-se que o foco da oração recai sobre o sujeito, e não sobre a ação em si, e tampouco sobre o objeto. FraseGlosaSignificadowï nachegar 1SChegueiuna wï1S chegarEu chegueipitxa ixú napeixe comer 1SComi peixeuna pitxa ixú1S peixe comerEu comi peixe Tal implicação semântica não parece ocorrer quando substitui-se o pronome por um sintagma nominal (em oração afirmativa). A ordem básica então é a não-marcada, não implicando, ao que parece, a presença de ênfase. FraseGlosaSignificadoTaperída pitxa ixúTaperida peixe comerTaperida comeu peixeTaperída wïTaperida chegarTaperida chegou Para a primeira pessoa plural há duas formas distintas: ulu'udí (ou udí) e sí, exclusiva e inclusiva, respectivamente.
Para a terceira pessoa plural não há forma única. Há duas formas que, na verdade, são compostas: PronomeElementosGlosaSignificadoabïdaiabï- da- iCOLETIVO pessoal/grupo PLURALeles (= muitos grupos)anïdaianï- da- i3S/este pessoal/grupo PLURALeles (= estes grupos) Por fim, todas as formas estão indicadas na tabela abaixo: Antes do verboDepois do verbo1sunana2sena3samïanï1p (ex.)ulu'udíudí1p (in.)sí2pesí3panïdaiabïdai Verbos A classe dos verbos é constituída por elementos que podem ser núcleo de sintagma verbal (SV) em função de predicado da oração. Podem manifestar a categoria de aspecto expressa por partículas por meio de reduplicação. A reduplicação pode também marcar a categoria de número. Os verbos podem ser modificados por advérbios. Os verbos podem se subdividir claramente em transitivos (simples e bitransitivos) e intransitivos (ativos e estativos). O sintagma verbal, além do verbo, apresenta morfema de modo e partículas de aspecto, e o verbo pode apresentar dois tipos de reduplicação.
Tempo Em yudjá, não há marcação, no verbo, do tempo passado e do tempo presente. O futuro, contudo, é indicado pelo verbo no modo irrealis. Poderia ser dito, portanto, que a língua apresenta a distinção futuro vs. não-futuro.
Modo O realis refere-se a situações que estão ocorrendo ou que já ocorreram e o irrealis refere-se às demais situações, como hábitos gerais, as que ainda não ocorreram, incluindo previsões para o futuro. FraseGlosaSignificadoBarúzi kã́íbi wïBaruzi ontem chegarBaruzi chegou ontemBarúzi wïBaruzi chegarBaruzi chegaBarúzi wï anuBaruzi chegar ASPBaruzi está chegandoKahukáde wï-aamanhã chegar-IRR.Chegará amanhãalí pakua ixúmenino banana comerO menino comeu bananal-ixá na e-bé a hi te2S-comer 1S 2S-DAT falar REP 3SEu vou comer você - disse para ele No primeiro exemplo observa-se o verbo no modo realis, indicando uma ação já ocorrida, confirmada pelo advérbio káĩ́bi "ontem" . Caso o advérbio não estivesse presente, como no exemplo seguinte, a sentença poderia ter o sentido de "Baruzi chega". Com a marca de aspecto anu, como terceiro exemplo, a sentença exprime uma ação no passado ( cf "Aspecto", a seguir). No quarto exemplo, o verbo aparece no irrealis, com o morfema -a . Em verbos que têm realis em -u , este é substituído por -a no irrealis.
No quarto exemplo, com o verbo no irrealis, a presença do advérbio kahukáde "amanhã" implica uma ação futura. No exemplo seguinte o único sentido possível é o passado. Já no último exemplo, não há dúvidas de que a situação a que se refere o verbo é futura.
Pela semelhança de formas, contudo, entre o verbo querer, á , e a marca de irrealis pode-se pensar em uma análise diacrônica: o irrealis pode ter sua origem justamente no verbo "querer", semelhante ao que ocorre com o inglês will.
Aspecto O aspecto do verbo pode ser separado em perfectivo ou imperfectivo. Esse último se subdivide em habitual e contínuo, e o aspecto contínuo se subdivide em não-progressivo e progressivo.
O Perfectivo indica uma situação como um todo, sem ser dividida nas partes que a compõem. Ele é visto como indicando ação completa, com começo - meio - fim, sem ênfase, contudo, no final. Já o Imperfectivo marca essencialmente a estrutura interna da situação.
O Habitual descreve uma situação que é característica de um período de tempo extenso, tão extenso que a situação referida é vista não como uma propriedade incidental de um momento, mas, precisamente, como um traço característico de todo um período.