miniaturadaimagem| Relógio feito por Balthazar Martinot, 1678
Balthazar Martinot (1636–1714), conhecido como Balthazar Martinot, o Velho (l'Aîné), foi um relojoeiro francês, membro de uma importante família de relojoeiros que atuou na França entre os séculos XVII e XVIII. Nasceu em Rouen, na Normandia, em 1636, e morreu em Saint-Germain-en-Laye em 30 de dezembro de 1714, sendo sepultado na igreja local.
Martinot exerceu funções na corte francesa. Em 1665, sucedeu seu sogro, Pierre Belon, como valet de chambre-horloger ordinaire da rainha-mãe Ana da Áustria. Posteriormente, atuou como relojoeiro do rei Luís XIV, função que exerceu em diferentes períodos. Registros do British Museum indicam sua atuação como relojoeiro de Luís XIV em 1678–1679 e 1693–1695.
Foi considerado um dos mais importantes relojoeiros franceses de seu período. Sua produção destinava-se tanto ao mercado francês e europeu quanto a mercados do Extremo Oriente. Exemplares atribuídos a Martinot encontram-se atualmente em diversas coleções museológicas, entre elas as do Museu do Louvre, do Victoria and Albert Museum, do Cleveland Museum of Art, da Frick Collection e do Petit Palais, em Paris.
Família
Balthazar Martinot nasceu em Rouen, filho do relojoeiro Balthazar Martinot, o Velho (1610–1697) e de Catherine Hubert. Sua família materna também estava ligada à relojoaria. Catherine era filha de Noël Hubert, relojoeiro e responsável pelo Gros-Horloge de Rouen.
A família Martinot formou uma das mais importantes dinastias de relojoeiros da França. Diversos membros da família exerceram atividades relacionadas à fabricação, manutenção e comércio de relógios ao longo dos séculos XVII e XVIII.
Balthazar Martinot casou-se com Anne Belon, filha de Pierre Belon, que também exercia a função de valet de chambre-horloger ordinaire da rainha Ana da Áustria.
O casal teve, entre outros descendentes, Anne Martinot, que morreu em 1707. Ela foi casada com Philippe Van Dievoet, conhecido como Vandive, ourives do rei e do delfim da França e irmão do escultor de origem bruxelense Pierre Van Dievoet.
Atuação profissional
Martinot começou a trabalhar em Paris por volta de 1660. Em 1683 estava estabelecido na rue Galande e, em 1697, no quai des Orfèvres. Em 1710, retirou-se para Saint-Germain-en-Laye, onde possuía uma propriedade.
Sua posição profissional e sua proximidade com a corte lhe proporcionaram relações com membros da aristocracia e da elite política e religiosa francesa. Entre seus clientes e protetores estiveram Luís XIV, o Grande Delfim, além de membros das famílias nobres de Aumont, La Trémoille e Rohan.
Em 1695, Martinot organizou em Versalhes, juntamente com o relojoeiro Nicolas Gribelin, uma loteria de relógios destinada à corte. As peças utilizadas como referência para os bilhetes eram representadas em medalhas que traziam a imagem de um relógio e a inscrição latina Honos et praemia alunt artes ("A honra e as recompensas alimentam as artes").
Um inventário datado de 1700 indica que Martinot possuía uma importante coleção particular de relógios em Paris.
Produção relojoeira
A produção de Balthazar Martinot compreendia relógios de bolso e relógios de mesa e de pêndulo. Seus trabalhos fazem parte da tradição da relojoaria francesa desenvolvida durante o reinado de Luís XIV.
Em muitos relógios desse período, o mecanismo e o gabinete eram produzidos por diferentes artesãos especializados. Alguns dos gabinetes associados aos relógios de Martinot são atribuídos a André-Charles Boulle (1642–1732), célebre marceneiro e decorador da corte francesa, conhecido especialmente pela técnica de marchetaria posteriormente denominada marchetaria Boulle.
A associação entre Martinot e Boulle não significa necessariamente que ambos tenham produzido individualmente todas as partes de cada relógio atribuído a seus nomes. A fabricação de peças de luxo na França dos séculos XVII e XVIII frequentemente envolvia a colaboração entre relojoeiros, marceneiros, bronzistas, gravadores e outros artesãos.
Um relógio conservado no Petit Palais, em Paris, é catalogado como obra de Balthazar Martinot. O exemplar possui mecanismo de relojoaria e gabinete decorado com marchetaria utilizando cobre, casco de tartaruga e madeira, e está datado pelo museu como pertencente ao século XVIII.
Relação com Portugal e o Brasil
A produção de Martinot esteve inserida no circuito internacional de objetos de luxo das cortes europeias. Relógios franceses eram comercializados e oferecidos como presentes diplomáticos ou dinásticos, alcançando diferentes cortes europeias.
Uma peça atribuída a Balthazar Martinot passou a integrar o patrimônio da Casa Real Portuguesa e posteriormente o acervo histórico da Presidência da República do Brasil. Segundo a tradição divulgada sobre o objeto, o relógio esteve relacionado à família real portuguesa e chegou ao Brasil em 1808, durante a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro.
A chegada da peça ao Brasil deve ser compreendida no contexto da transferência da corte portuguesa para a América portuguesa, determinada pela invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas e pela conjuntura das Guerras Napoleônicas. Em 1808, o príncipe regente D. João transferiu a corte e o governo português para o Rio de Janeiro, acompanhado por integrantes da família real e por parte significativa da administração e do patrimônio da monarquia.
A partir desse período, objetos pertencentes à corte portuguesa passaram a integrar o patrimônio histórico existente no Brasil. O relógio atualmente associado a Balthazar Martinot tornou-se posteriormente parte do acervo presidencial brasileiro.
O relógio do Palácio do Planalto
Um relógio de pêndulo atribuído a Balthazar Martinot, com gabinete associado à tradição de André-Charles Boulle, pertence ao acervo histórico da Presidência da República do Brasil. A peça é frequentemente denominada relógio de Dom João VI em fontes brasileiras.
O relógio apresenta elementos decorativos característicos da produção francesa de luxo dos séculos XVII e XVIII, incluindo bronze dourado, madeira, marchetaria e casco de tartaruga. Seu mecanismo apresenta inscrição relacionada ao nome Martinot.
A identificação precisa da autoria de cada componente deve ser feita com cautela, uma vez que relógios desse tipo eram constituídos por partes produzidas por diferentes especialistas. A atribuição do mecanismo a Martinot e do gabinete à tradição de Boulle é sustentada por características materiais, técnicas, estilísticas e inscrições, mas não deve ser interpretada como prova de que todos os componentes tenham sido executados pessoalmente pelos dois artesãos.
Danos durante os ataques de 8 de janeiro de 2023
Em 8 de janeiro de 2023, durante os ataques aos edifícios que abrigam as sedes dos Três Poderes da República, em Brasília, o relógio foi severamente danificado.
A peça encontrava-se exposta no terceiro andar do Palácio do Planalto. Imagens do sistema de segurança registraram o momento em que Antônio Cláudio Alves Ferreira retirou o relógio do local em que estava exposto e o arremessou ao chão. O impacto provocou danos significativos ao mecanismo, ao gabinete e a elementos decorativos da peça.
Posteriormente, perícia realizada pela Polícia Federal identificou, por meio das imagens do circuito interno de segurança, que o relógio foi danificado em dois momentos diferentes durante os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
O relógio foi inicialmente considerado de difícil recuperação devido à extensão dos danos e à necessidade de preservar seus componentes históricos.
Restauração
Após os ataques, as partes do relógio foram recolhidas e submetidas a procedimentos de conservação. A restauração foi realizada na Suíça, no âmbito de uma cooperação entre instituições brasileiras e suíças.
O processo envolveu especialistas em relojoaria e conservação de objetos históricos. Entre os desafios estavam a recuperação de componentes do mecanismo, a recomposição do gabinete e a restauração de elementos decorativos produzidos com materiais como bronze e casco de tartaruga.
A peça retornou ao Brasil em janeiro de 2025 e foi reintegrada ao acervo do Palácio do Planalto em 8 de janeiro de 2025, dois anos após os ataques.
A restauração permitiu que o relógio voltasse a funcionar e fosse novamente incorporado à exposição do patrimônio histórico da Presidência da República.
O mecanismo e o chamado "ressort réglant de Martinot"
A literatura tradicional sobre a história da relojoaria atribui a Balthazar Martinot, em colaboração com Blaise Pascal e o duque de Roannez, o desenvolvimento, por volta de 1660, de um sistema de mola destinado a regular o movimento do balanço de relógios portáteis.
Esse dispositivo ficou conhecido na literatura relojoeira francesa como ressort réglant de Martinot ("mola reguladora de Martinot"). A afirmação deve, entretanto, ser tratada historicamente com cautela, pois o desenvolvimento da regulação de relógios no século XVII ocorreu em meio a experimentos realizados por diversos relojoeiros e cientistas.
Em 1675, Christiaan Huygens patenteou e desenvolveu o sistema de espiral reguladora associado ao balanço de relógios, uma inovação fundamental para a precisão dos relógios portáteis.
Importância histórica
Balthazar Martinot ocupa lugar de destaque na história da relojoaria francesa do século XVII. Sua carreira esteve ligada à corte de Luís XIV e à produção de relógios destinados às elites europeias e a mercados internacionais.
Sua importância para a história luso-brasileira está também relacionada à presença no Brasil de um relógio atribuído a seu trabalho. A peça tornou-se parte do patrimônio histórico da Presidência da República e passou a representar uma ligação material entre a cultura cortesã francesa, a monarquia portuguesa e a história da formação do Estado brasileiro.
O episódio de 8 de janeiro de 2023 acrescentou uma dimensão contemporânea à trajetória do objeto, ao transformá-lo em um dos símbolos dos danos causados ao patrimônio histórico durante os ataques aos edifícios dos Três Poderes. Sua restauração e retorno ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2025, preservaram a peça como parte do patrimônio histórico e artístico sob responsabilidade da Presidência da República.
Ver também
André-Charles Boulle Ana da Áustria (1601–1666) Luís XIV de França João VI de Portugal Casa Real Portuguesa Transferência da corte portuguesa para o Brasil Palácio do Planalto Ataques às sedes dos Três Poderes do Brasil em 2023 Relojoaria Marchetaria Boulle
Bibliografia
LENGELLÉ, Henri-Gustave, dito Tardy. Dictionnaire des horlogers français. Paris: Tardy, 1972. DA VINHA, Mathieu. Les valets de chambre de Louis XIV. Paris: Perrin, 2004. AUGARD, Jean-Dominique. Les Ouvriers du Temps. Genebra: Antiquorum, 1996. ALBILLO, Ana José Braña. El tiempo de los Borbones: arte de la relojería en las colecciones reales de Felipe V a Fernando VII. Universidade de Valladolid, 2016.
Categoria:Relojoeiros da França Categoria:Artistas da França Categoria:Nascidos em 1636 Categoria:Naturais de Ruão Categoria:Mortos em 1714 Categoria:Mortos em Saint-Germain-en-Laye Categoria:Relojoaria