miniaturadaimagem|260x260px|Diagrama da Economia Donut que representa as bases sociais (em sua borda interna); e os tetos ecológicos (em sua borda externa). Entre as bordas interna e externa está o espaço justo e seguro onde a humanidade pode prosperar.
A Economia Donut é uma estrutura visual (em forma de uma rosquinha ou boia salva-vidas) para o desenvolvimento sustentável que combina o conceito de limites planetários com o conceito complementar de alicerces sociais. O nome deriva do formato em rosca do diagrama, ou seja, um disco com um buraco no meio. O buraco central no modelo representa a proporção de pessoas que não têm acesso aos bens essenciais à vida (como saúde, educação, equidade e assim por diante), enquanto a borda externa representa os tetos ecológicos (limites planetários) dos quais a vida depende e não devem ser ultrapassados. O diagrama foi desenvolvido pela economista da Universidade de Oxford, Kate Raworth, em seu artigo da Oxfam de 2012, A Safe and Just Space for Humanity. O conceito foi elaborado em seu livro de 2017 Economia Donut: Uma alternativa ao crescimento a qualquer custo e em um artigo publicado no periódico The Lancet Planetary Health.
O diagrama foi proposto para considerar o desempenho de uma economia na medida em que as necessidades das pessoas são atendidas sem ultrapassar os tetos ecológicos da Terra. O principal objetivo do novo modelo é reenquadrar os problemas econômicos e estabelecer novas metas. Nesse modelo, uma economia é considerada próspera quando todos os doze alicerces sociais são atendidos sem ultrapassar nenhum dos nove limites planetários. Essa situação é representada pela área entre os dois anéis, considerada por sua criadora como o espaço seguro e justo para a humanidade.
Kate Raworth observou que o conceito de limites planetários não leva em consideração o bem-estar humano (embora, se os ecossistemas terrestres morrerem, o bem-estar seria irrelevante). Ela sugeriu que os alicerces sociais deveriam ser combinados com a estrutura dos limites planetários. Combinando as métricas de acesso à emprego, educação, alimentação, água, serviços de saúde e energia aos indicadores ambientais dos limites planetários, é possível delimitar um espaço ambientalmente seguro compatível com a erradicação da pobreza e com uma condição de "direitos para todos". No espaço definido entre os limites planetários e os alicerces sociais equitativas, encontra-se uma área em forma de rosquinha onde existe um "espaço seguro e justo para a humanidade prosperar".Climate change: Understanding Rio+20 UN Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, ITIN, 3 April 2012.
Indicadores Fundamentos sociais As fundações sociais são inspiradas nos objetivos sociais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Estes são:
Segurança alimentar Saúde Educação Renda e trabalho (o último não se limita ao emprego remunerado, mas também inclui coisas como tarefas domésticas) Paz e justiça Democracia Equidade social Igualdade de gênero Habitação Redes (ou capital social) Energia Água
Limites Planetários Os nove tetos ecológicos são derivados dos limites planetários apresentados por um grupo de pesquisadores das geociências liderados por Johan Rockström e Will Steffen. Estes são:
Mudança climática – as emissões antropogênicas de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, retêm o calor na atmosfera, alterando o clima da Terra. Acidificação dos oceanos – quando o dióxido de carbono antropogênico é absorvido pelos oceanos, ele torna a água mais ácida. Por exemplo, isso diminui a capacidade da vida marinha de desenvolver esqueletos e conchas. Poluição química — a liberação de materiais tóxicos na natureza reduz a biodiversidade e diminui a fertilidade dos animais (incluindo humanos). Ciclos biogeoquímicos do nitrogênio e do fósforo — o uso ineficiente ou excessivo de fertilizantes provoca seu escoamento para os corpos d'água, onde causam proliferação de algas que matam a vida subaquática. Uso da água doce - usar muita água doce pode secar as fontes e, consequentemente, danificar permanentemente ecossistemas; Mudanças no uso da terra – a conversão de terras para atividades econômicas (como a criação de estradas e agricultura intensiva) danifica ou remove o habitat da vida selvagem, remove sumidouros de carbono e perturbam os ciclos naturais. Perda de biodiversidade — a atividade econômica pode causar uma redução no número e variedade de espécies. Isso torna os ecossistemas mais vulneráveis e pode diminuir sua capacidade de sustentar a vida e fornecer serviços ecossistêmicos. Aerossóis na atmosfera — a emissão de aerossóis (pequenas partículas) tem um impacto negativo na saúde das espécies. Também pode afetar os padrões da precipitação da chuva. Destruição da camada de ozônio — algumas atividades econômicas emitem gases que danificam a camada de ozônio. Como a camada de ozônio protege a Terra da radiação ultravioleta nociva, seu esgotamento resulta, por exemplo, em câncer de pele em animais.
Crítica à teoria econômica dominante O modelo donut é uma coleção de objetivos que podem ser atingidos por meio de diferentes ações de diferentes atores, e não inclui modelos específicos relacionados a mercados ou comportamento humano. O livro Donut Economics consiste em um conjunto de críticas e de perspectivas que sociedade como um todo deve almejar. As críticas encontradas no livro são direcionadas a determinados modelos econômicos e sua base comum.
Os modelos econômicos dominantes do século XX, definidos aqui como os mais ensinados em cursos introdutórios de Economia ao redor do mundo, são neoclássicos. O Fluxo Circular publicado por Paul Samuelson em 1944 e as curvas de oferta e demanda publicadas por William S. Jevons em 1862 são exemplos canônicos de modelos econômicos neoclássicos. Focados nos fluxos de dinheiro dentro de uma unidade administrativa e descrevendo suas preferências matematicamente, esses modelos ignoram os ambientes nos quais estão inseridos: em mentes humanas, na sociedade, na cultura e e no meio ambiente. Essa omissão era viável enquanto a população humana não sobrecarregasse coletivamente os sistemas terrestres, o que não é mais o caso. Além disso, esses modelos foram criados antes que pesquisas e testes estatísticos fossem possíveis. Baseavam-se em pressupostos sobre o comportamento humano convertendo-os em "fatos estilizados". As origens desses pressupostos são filosóficas e pragmáticas. Eles simplificam e distorcem as reflexões de pensadores como Adam Smith, transformando-as em gráficos que se assemelham ao movimento dos corpos na mecânica newtoniana, para que pareçam ser de uso prático para a previsão, por exemplo, da escolha do consumidor.
O corpo da teoria econômica neoclássica cresceu e se tornou mais sofisticado ao longo do tempo. Na década de 1930, o paradigma econômico estava vinculado à teoria keynesiana mas, após a década de 1960, o monetarismo ganhou proeminência. Apesar desse desvio, mesmo com a mudança das recomendações políticas, um elemento permaneceu: o homo economicus (homem econômico racional), a persona na qual as teorias foram baseadas. Raworth, a criadora da Economia Donut, denuncia essa invenção literária como perversa, por conta dos seus efeitos no comportamento dos estudantes de economia que, ao internalizarem essas suposições sobre a natureza humana, passam a agir de maneira mais egoísta. Exemplos desse fenômeno em ação foram documentados em diversas pesquisas, assim como os efeitos na erosão da confiança e da comunidade no bem-estar humano.
Economias reais na perspectiva do Donut miniaturadaimagem|Diagrama da Economia Donut que, em sua borda interna, representa as bases sociais (das quais nenhuma foi atingida); e, em sua borda externa, os tetos ecológicos (dos quais quatro já foram ultrapassados). Kate Raworth explica que a economia donut se baseia na premissa de que "o desafio da humanidade no século XXI é atender às necessidades de todos dentro das possibilidades do planeta. Em outras palavras, assegurar que ninguém fique aquém do essencial para a vida (de alimentação e moradia a saúde e voz política), ao mesmo tempo em que devemos garantir que, coletivamente, não excedamos nossa pressão sobre os sistemas de suporte à vida na Terra, dos quais dependemos fundamentalmente - tais como um clima estável, solos férteis e uma camada protetora de ozônio. O Donut das fronteiras sociais e planetárias é uma nova maneira de enxergar esse desafio e atua como uma bússola para o progresso humano neste século."Apoiando-se nos estudos das geociências e da economia, Raworth mapeia as deficiências sociais e sobrecargas dos sistemas terrestres.
Raworth afirma que "um crescimento significativo do PIB é muito necessário" para que os países de baixa e média renda possam atingir as metas dos alicerces sociais para seus cidadãos.
A estrutura Donut foi usada para mapear o desempenho socioambiental localizado na Bacia do Lago Erhai (China), na Escócia,Sayers, M. and Trebeck, K. (2014) The Scottish Doughnut: a safe and just operating space for Scotland. Oxford: Oxfam GB. no País de Gales,Sayers, M. and Trebeck, K. (2015) The Welsh Doughnut: a framework for environmental sustainability and social justice. Oxford: Oxfam GB. no Reino Unido,Sayers, M. and Trebeck, K. (2015) The UK Doughnut: a framework for environmental sustainability and social justice. Oxford: Oxfam GB. na África do Sul,Cole, M. (2015) Is South Africa Operating in a Safe and Just Space? Using the Doughnut model to explore environmental sustainability and social justice. Oxford: Oxfam GB. na Holanda, na Índia, globalmente e muitos outros.
Em abril de 2020, Kate Raworth foi convidada a participar do planejamento econômico pós-pandemia na cidade de Amsterdã.
Um estudo empírico que aplicou o modelo donut em várias economias mostrou que em 2018 nenhum dos 150 países avaliados foi capaz de, simultaneamente, satisfazer as necessidades básicas de seus cidadãos e manter um nível sustentável de uso de recursos.
Críticas O economista sérvio-americano Branko Milanovic afirmou que, para economia donut se tornar popular, as pessoas teriam que "magicamente" se tornar "indiferentes à nossa qualidade de vida em comparação com os outros, e realmente não se importar com riqueza e renda."
Categoria:Economia ecológica Categoria:Teorias e modelos econômicos