O Tratado de Lutácio foi um tratado de paz firmado entre Cartago e Roma em que encerrou a Primeira Guerra Púnica depois de 23 anos de conflito. A maior parte da guerra foi travada na ilha da Sicília e arredores; em , uma frota cartaginesa foi derrotada por uma frota romana comandada por Caio Lutácio Cátulo enquanto tentava furar o bloqueio de suas últimas bases na ilha. O Senado Cartaginês aceitou a derrota e ordenou que Amílcar Barca, seu comandante militar na Sicília, negociasse um tratado de paz sob quaisquer termos que conseguisse. Amílcar se negou e deixou a tarefa para seu subordinado Giscão, o comandante de Lilibeu. Um rascunho foi rapidamente concordado, mas acabou rejeitado quando foi enviado para Roma para ratificação.
Os romanos então enviaram uma comissão para resolver a questão. Foi concordado que Cartago entregaria os territórios que ainda mantinha na Sicília, abriria mão de vários arquipélagos próximos e libertaria todos os prisioneiros romanos sem pedidos de resgate, porém pagamentos de resgate seriam necessários para garantir a libertação de prisioneiros cartagineses mantidos por romanos. Além disso, o pagamento de uma indenização de 3,2 mil talentos de prata, equivalente a aproximadamente 82 toneladas, ocorreria no decorrer de dez anos. O tratado recebeu seu nome do vitorioso Caio Lutácio Cátulo, que também negociou seu esboço inicial.
Cartago, enquanto recuperava-se de uma feroz e difícil guerra civil que ocorreu após a Primeira Guerra Púnica, preparou em uma expedição para reconquistar a ilha da Sardenha, que tinha sido perdida para os rebeldes. Entretanto, os romanos afirmaram cinicamente que considerariam isso um ato de guerra. Seus termos de paz eram a entrega da Sardenha e da Córsega mais o pagamento adicional de 1,2 mil talentos de prata, aproximadamente trinta toneladas. Cartago estava enfraquecida por trinta anos contínuos de guerra e concordou com os termos em vez de entrar em mais um conflito contra Roma. O pagamento extra e a renúncia da Córsega e Sardenha foram adicionados ao Tratado de Lutácio.
Fontes primárias thumb|esquerda|120px|Estela de Políbio, historiador grego A principal fonte para quase todos os aspectos da Primeira Guerra Púnica é o historiador Políbio, um grego enviado a Roma em originalmente como um refém. Seus trabalhos incluem um agora quase perdido manual sobre táticas militares, mas é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após ou aproximadamente um século depois do fim da guerra. O trabalho de Políbio é considerado pelos historiadores modernos como sendo amplamente objetivo e em sua maior parte neutro entre os pontos de vista romano e cartaginês.
Registros escritos cartagineses foram destruídos junto com sua capital em , assim o relato de Políbio é baseado em várias fontes gregas e latinas agora perdidas. Apenas o primeiro livro dos quarenta que compõem Histórias lida com a Primeira Guerra Púnica. A precisão do relato de Políbio já foi muito debatida nos últimos 150 anos, mas o consenso moderno é aceitá-lo como está escrito na maior parte das vezes, com os detalhes da guerra em fontes modernas sendo quase que completamente baseados em interpretações do relato de Políbio. O historiador moderno Andrew Curry considera que "Políbio acaba sendo bem confiável", enquanto Craige Champion o descreve como "um historiador notavelmente bem informado, trabalhador e perspicaz". Existem outras histórias posteriores sobre a guerra e tratado, porém são fragmentárias ou resumidas. Historiadores modernos geralmente levam em conta escritos de Diodoro Sículo e Cássio Dio, com o crônico bizantino João Zonaras do século XII, que dependia de fontes muito mais antigas, também sendo usado às vezes. Todos, assim como Políbio, tiraram a maior parte de suas informações de relatos anteriores e agora perdidos. O classicista Adrian Goldsworthy afirmou que o "relato de Políbio deve ser geralmente preferido quando difere de qualquer outro de nossos relatos".
Primeira Guerra Púnica A República Romana estava expandindo-se agressivamente no sul da península Itálica no século que precedeu à Primeira Guerra Púnica. Ela já tinha conquistado toda a península ao sul do rio Arno até . Durante esse período, Cartago tinha dominado o sul da península Ibérica, boa parte das regiões litorâneas no Norte da África, Ilhas Baleares, Córsega, Sardenha e a metade ocidental da Sicília, sendo um império militar e comercial. Cartago e Roma eram por volta de as maiores potências do Mediterrâneo Ocidental. Os dois já tinham confirmado sua amizade mútua por meio de alianças formais: em 509, 348 e por volta de . As relações eram boas e tinham uma forte ligação comercial. Os dois estados entraram em guerra em sobre a cidade de Messana, na extremidade nordeste da Sicília.
thumb|300px|Territórios controlados por Roma e Cartago antes do início da Primeira Guerra Púnica A guerra durou 23 anos, sendo o mais longo conflito contínuo e a maior guerra naval do todo o período da Antiguidade. A guerra tinha se desenvolvido até em uma disputa em que os romanos estavam tentando derrotar decisivamente os cartagineses e, no mínimo, controlar toda a Sicília. Os cartagineses, por sua vez, estavam empregando sua estratégia normal de esperar seus oponentes se desgastarem por conta própria, possuindo a esperança de reconquistar uma parte ou todo seu território e também negociar um tratado de paz mutualmente satisfatório. Roma era a potência mais poderosa em terra e estava controlando a maior parte da Sicília. A liderança cartaginesa preferia expandir sua área de controle do Norte da África ao custo dos númidas, provavelmente enxergando a Sicília como um teatro de operações secundário.
Os cartagineses mantinham apenas duas cidades na Sicília em : Lilibeu e Drépano. Estas eram bem fortificadas e situadas no litoral oeste, onde podiam ser reabastecidas e reforçadas sem que os romanos pudessem usar seu exército para interferir. Amílcar Barca assumiu o comando das forças cartaginesas na Sicília em , mas tinha a sua disposição apenas um pequeno exército, enquanto a frota foi recuada. Ambos os lados estavam extremamente desgastados financeiramente após mais de vinte anos de guerra e estavam com dificuldades para encontrarem homens em idade militar para seus exércitos e marinhas. vidências da situação financeira cartaginesa inclui um pedido de empréstimo de dois mil talentos para o Reino Ptolemaico, que foi recusado. Roma também estava próxima da falência e o número de cidadãos homens adultos, o recurso humano para o exército e marinha, tinha caído dezessete por cento desde o início da guerra.
O Senado Romano percebeu no final de que não conseguiriam capturar Drépano e Lilibeu a menos que ampliassem seu bloqueio para o mar. Os cofres do estado estavam vazios, assim o Senado abordou cidadãos ricos por empréstimos para financiar a construção de um navio cada, valores que seriam pagos de volta com reparações que seriam impostas sobre Cartago quando a guerra fosse vencida. O resultado foi uma frota de aproximadamente duzentos navios construídos, equipados e tripulados sem dinheiro público. Os cartagineses organizaram uma frota maior com a qual tinham a intenção de transportar suprimentos para a Sicília. Ela foi interceptada pelos romanos sob o comando de Caio Lutácio Cátulo e Quinto Valério Falto, com os mais bem treinados romanos derrotando os inferiores cartagineses na Batalha das Ilhas Égadas. Dos 250 navios cartagineses, cinquenta foram afundados e setenta capturados. Os romanos continuaram suas operações terrestres contra Lilibeu e Drépano depois disso.
Tratado thumb|esquerda|190px|Moeda romana de referindo-se à vitória de Cátulo; ela mostra um navio de guerra dentro de uma coroa de louros O Senado Cartaginês, com essa derrota mais recente, estava relutante em destinar os recursos necessários para construir e tripular mais uma frota. De qualquer forma, era provável que suas guarnições sicilianas se rendessem pela fome antes que qualquer coisa pudesse ser feita. Em vez disso, Amílcar foi ordenado a negociar um tratado de paz com os romanos sob quaisquer termos que conseguisse. Amílcar, ao receber essa ordem, se recusou e afirmou que uma rendição era desnecessária. Vários historiadores modernos levantaram a possibilidade que Amílcar, por motivos políticos e de prestígio, não queria ficar associado ao tratado que formalizaria a derrota de Cartago após 23 anos de guerra. A tarefa das negociações caiu sobre Giscão, o comandante de Lilibeu e o segundo cartaginês mais graduado na Sicília.
Giscão abriu discussões com Cátulo. Os romanos nomeavam anualmente dois homens, conhecidos como cônsules, para cada um liderar um exército. O mandato de Cátulo estava terminando e seu substituto logo chegaria na Sicília. Isto fez com que ele fosse flexível nas negociações, pois estava ansioso para concluir uma paz definitiva enquanto ainda tinha autoridade, podendo reivindicar o crédito de encerrar a guerra. Giscão e Cátulo concordaram que Cartago entregaria todo o território que ainda mantinha na Sicília, libertaria os prisioneiros romanos sem pedidos de resgate, porém resgates seriam necessários para prisioneiros cartagineses mantidos por romanos; mais o pagamento de uma indenização de 2,2 mil talentos de prata, aproximadamente 57 toneladas, no decorrer de vinte anos. Estes termos foram enviados a Roma para ratificação, porém foram rejeitados pela Assembleia das Centúrias, uma das três assembleias populares romanas. Uma comissão de dez homens foi enviada para a Sicília a fim de resolver a questão. Ela era presidida por Quinto Lutácio Cercão, irmão de Cátulo, que neste momento o tinha sucedido como cônsul. O historiador Adam Ziolkowski argumentou que existia uma facção em Roma contra o tratado e possivelmente contra o fim da guerra, que era liderada pelo ex-cônsul Aulo Mânlio Torquato Ático. Este possível desentendimento entre os políticos romanos foi exemplificado por Ático sendo eleito cônsul novamente junto com Cercão.
Giscão rapidamente concordou com concessões adicionais junto à comissão: várias ilhas próximas da Sicília também seriam entregues e a indenização aumentaria para 3,2 mil talentos, com os mil talentos adicionais sendo pagos imediatamente, com o tempo permitido para o pagamento do restante sendo reduzido para apenas dez anos. Haviam algumas outras cláusulas menores incluídas no acordo final: nenhum dos lados poderia interferir com os aliados do outro ou guerrear contra eles, não poderiam recrutar soldados do território do outro e nem levantar fundos para obras públicas do território do outro. Tudo isso foi formalizado no Tratado de Lutácio, nomeado em homenagem a Cátulo, que permaneceu na Sicília como um procônsul. Amílcar imediatamente entregou o comando da Sicília para Giscão, que ficou formalmente encarregado de informar Cartago sobre o que havia sido concordado no tratado. Cátulo, por sua vez, retornou para Roma e celebrou um triunfo em 4 de outubro.
A opinião dos historiadores sobre o tratado e mista. Nigel Bagnall afirmou que as negociações de ambos os lados "demonstraram serem realistas e razoáveis em suas exigências". Adrian Goldsworthy disse que "os termos de paz deixaram claro que [Cartago] fora derrotada", enquanto para Richard Miles "os termos concordados em 241 eram severos". Por outro lado, Bruno Bleckmann considerou que o tratado foi "surpreendentemente moderado", já para H. H. Scullard foi "um tanto leniente" com Cartago.
Sardenha e Córsega