O Campeonato Paulista de Futebol de 1992 foi a 52.ª edição do campeonato organizado pela Federação Paulista de Futebol e disputada entre 4 de julho e 20 de dezembro de 1992, tendo o São Paulo como bicampeão. O vice-campeão foi o Palmeiras. O artilheiro do campeonato foi Válber, do Mogi-Mirim, com 17 gols.

Participantes O Campeonato Paulista da Primeira Divisão de 1992 foi dividido nos grupos verde e amarelo. O Grupo A foi composto das equipes melhores classificadas no Campeonato Paulista de 1991 e o Grupo B, pelas equipes piores classificadas naquele torneio, incluindo Araçatuba, que subiu da segunda divisão de 1991.

Regulamento Da mesma maneira que no ano anterior, os 28 clubes foram divididos em dois grupos de 14, jogando entre si dentro de cada chave em dois turnos. Os seis primeiros do Grupo A (Verde) e os dois primeiros do Grupo B (Amarelo) classificaram-se para as semifinais, sendo divididos em dois grupos de quatro conforme suas posições na primeira fase. As quatro últimas equipes do Grupo A desceriam em 1993 para o Grupo B, sendo substituídas pelos quatro melhores times do Grupo B. Não houve descenso do Grupo B para a Divisão Intermediária, mas os dois melhores dessa divisão subiriam para o Grupo B em 1993. Os critérios de desempate na primeira fase ram, pela ordem, maior número de vitórias, melhor saldo de gols, maior número de gols marcados, vantagem no confronto direto (apenas em caso de empate entre duas equipes), goal average (divisão do número de gols marcados pelo de gols sofridos) e sorteio. A vitória valia ainda dois pontos.

Na segunda fase, os quatro clubes de cada chave jogavam em dois turnos, somente dentro de cada grupo. No Grupo I entrariam o primeiro (São Paulo), o quarto (Santos) e o quinto (Portuguesa) colocados do Grupo A e o segundo colocado do Grupo B (Ponte Preta). No Grupo II entrariam o primeiro colocado do Grupo B (Mogi Mirim) e o segundo (Palmeiras), terceiro (Corinthians) e sexto (Guarani) colocados do Grupo A. Por ter conquistado o Grupo A, o São Paulo entrou na segunda fase com um ponto de bonificação. Os critérios de desempate seriam os mesmos da primeira fase, mas seriam levados em conta apenas os jogos da segunda fase.

Os campeões de cada grupo decidiriam o título em dois jogos. Caso os times empatassem em número de pontos, ainda que uma das equipes levasse vantagem no saldo de gols, haveria uma prorrogação após a segunda partida e, persistindo o empate, disputa de pênaltis. Como o São Paulo eventualmente ganhou os dois jogos, não foi necessário que a segunda partida se estendesse. O Campeonato Paulista de 1992 também foi o primeiro com as novas regras estabelicidas pela Fifa, que passavam a proibir que os goleiros pegassem a bola com as mãos quando esta fosse recuada intencionalmente com os pés por outro jogador de seu time."Bola pra frente", Placar número 1.075, setembro de 1992, Editora Abril, pág. 28

Preparativos O São Paulo iniciou o torneio como favorito, não só por ser o atual campeão, mas também por ter acabado de conquistar a Taça Libertadores da América pela primeira vez, um mês antes. Começou também preocupado com o preparo físico dos jogadores,"Pronto para dois desafios", Placar número 1.073-A, julho de 1992, Editora Abril, pág. 8 pois, enquanto se preparava para enfrentar o Barcelona na final do Mundial Interclubes em dezembro, teria de jogar, além do Paulistão, a Supercopa Libertadores — e isso porque o time abriu mão de participar da Copa do Brasil,"Agenda superlotada", Placar número 1.075, setembro de 1992, Editora Abril, pág. 10 em favor do Palmeiras. Havia ainda o luto pela morte em um acidente de carro do goleiro reserva AlexandreConrado Giacomini, São Paulo — Dentre os Grandes, És o Primeiro, Ediouro, 2005, pág. 241 — o que mais tarde abriria espaço para a ascensão de Rogério Ceni,Alexandre da Costa, Almanaque do São Paulo Placar, Editora Abril, 2005, pág. 266 que no Campeonato Paulista de 1992 ainda era o terceiro goleiro, atrás de Marcos. "Passamos por um momento de desconcentração, pela euforia da Libertadores", explicava o zagueiro Antônio Carlos, sobre a eliminação precoce no Campeonato Brasileiro. "Mas isso não se repetirá no Paulista." Com quatro empates nos cinco primeiros jogos, a campanha não foi exatamente como ele esperava.

Já o Palmeiras chegava com os primeiros reforços do recém-assinado contrato de co-gestão com a multinacional de laticínios Parmalat: Sorato, contratado junto ao Vasco, Carlinhos, que veio do Atlético Paranaense, e Edinho Baiano, do Joinville, além de outros jogadores que vieram por empréstimo (como Jean Carlo, então considerado uma das maiores promessas do futebol brasileiro<ref>Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti, Almanaque do Palmeiras Placar, Editora Abril, 2004, pág. 477</ref>) ou que tiveram seus passes comprados em definitivo depois de disputarem o Brasileiro pelo alviverde — a Parmalat gastou um total de 515 mil dólares, quantia vultosa para a época e que já era maior do que a verba anual que o clube receberia pelo patrocínio naquele ano."Pagando para ter paz", Placar número 1.073-A, julho de 1992, Editora Abril, pág. 7 Junto com as contratações que se dariam ao longo do campeonato, a multinacional investiu 2,5 milhões de dólares. Ela também introduziu um novo uniforme, com finas listras brancas se alternando a listras mais grossas de um verde mais claro do que o habitual.

Quem também vinha reforçado era o Corinthians, que apresentava o zagueiro Henrique, trocado com o União São João por três jogadores, como seu maior reforço e ainda alugou os passes do lateral esquerdo Nelsinho, que tinha deixado o São Paulo em abril, do meia Edu Manga e do atacante Nílson. O clube ainda sonhava em contratar Evair, então encostado pelo técnico Nelsinho Baptista no Palmeiras, e Dener, que poderia deixar a Portuguesa, mas foi escalado por seu time logo na primeira rodada, o que acabou com o sonho corintiano."Timão ainda mais forte", Placar número 1.073-A, julho de 1992, Editora Abril, pág. 4

Primeira fase Começado o campeonato, o São Paulo ainda deixou o País em agosto e setembro para disputar torneios de verão na Europa, incluindo o Troféu Teresa Herrera, na cidade da Corunha (Galiza), na Espanha, onde bateu seu rival de dezembro, o Barcelona, por 4 a 1. "Jogamos o verdadeiro futebol brasileiro", comemorava o técnico Telê Santana. O jornal espanhol Marca era ainda mais efusivo: "O conjunto paulista é tão rápido e cintilante no ataque como o chicote de Indiana Jones."André Ribeiro, Fio de Esperança, Gryphus, 2000, pág. 340 De volta ao Brasil, dois jogos pelo Paulistão, seguidos por mais uma viagem à Espanha, para a disputa de outros torneios amistosos, incluindo o Troféu Ramón de Carranza, que o São Paulo também conquistou, com goleada de 4 a 0 sobre o Real Madrid.

O time perdeu Antônio Carlos, vendido ao Albacete, e foi atrás de Válber no Botafogo. Foi a maior mudança do time para o segundo semestre. Toninho Cerezo também foi contratado nessa época, quase como uma casualidade, segundo Telê Santana. "O Cerezo chegou um dia no clube para conversar comigo e pedir uma ajuda na sua indicação para um clube do Exterior", contou Telê. "Aí perguntei a ele: 'Você quer jogar futebol?' Ele respondeu que queria e então fiz-lhe a proposta [para jogar no São Paulo]."André Ribeiro, Fio de Esperança, Gryphus, 2000, pág. 341 Cerezo chegou questionado por causa de seus 37 anos de idade, mas em pouco tempo ganhou a confiança da torcida.Alexandre da Costa, Almanaque do São Paulo Placar, Editora Abril, 2005, pág. 443 Dinho, contratado antes do Paulistão, começou bem o Paulistão e ganhou uma vaga no meio-campo, embora tenha-a perdido na reta final para Cafu, que trocou a lateral direita para jogar mais avançado. A mudança de Cafu para o meio teve origem na ascensão de Vítor, que tinha tido uma chance na lateral esquerda em 1991, quando da venda de Leonardo, mas não a aproveitou."Dose dupla de talento", Placar número 1.078-B, dezembro de 1992, Editora Abril, pág. 4 Ao longo do Paulistão de 1992, contudo, Telê confiou nele e ele firmou-se como titular quando da contusão de Cafu, que ao voltar passaria a jogar no meio. "Como lateral eu tenho de ajudar mais na marcação", avaliava o jogador. "Jogando no meio-campo ganhei liberdade para atacar e ficar mais pertinho do gol.""Moderno. E como Telê queria", Paulo Guilherme, Jornal da Tarde, 7/12/1992, Edição de Esportes, pág. 8 Telê conseguira uma grande vitória pessoal durante a primeira fase, quando afirmou seguidamente que poderia haver casos de doping no Campeonato Paulista, o que fez com que exames antidoping fossem obrigatórios em jogos do São Paulo, enquanto os outros times só tiveram de passar por tal avaliação uma vez em cada turno.André Ribeiro, Fio de Esperança, Gryphus, 2000, pág. 353

Pintado também ganhou destaque ao longo do Paulistão, ajudando a equipe a terminar o campeonato com a melhor média de gols sofridos."O ano da eternidade", Placar número 1.079, janeiro de 1993, Editora Abril, págs. 24-26 Já Raí, destaque no estadual anterior, seguiu na mesma toada, terminando como artilheiro do time no torneio com quinze gols, sendo onze deles em apenas três jogos: ele marcou três vezes contra Ponte Preta e Palmeiras e cinco vezes na goleada por 6 a 0 sobre o Noroeste, em 15 de outubro, um deles "uma obra-prima"."O primeiro entre os gênios do Morumbi", Placar número 1.079, janeiro de 1993, Editora Abril, pág. 27 Raí passou o campeonato inteiro em meio a especulações sobre sua possível venda para o Exterior,André Ribeiro, Fio de Esperança, Gryphus, 2000, pág. 334 o que só se concretizaria no início de 1993, e ainda assim com o jogador permanecendo por mais seis meses no São Paulo. A classificação para a segunda fase veio com folga e antecipação, acompanhada da notícia de que a revista britânica World Soccer tinha eleito Telê o quarto melhor técnico do mundo.André Ribeiro, Fio de Esperança, Gryphus, 2000, pág. 342

Enquanto isso, o Palmeiras trocava seu técnico: apesar de um começo bom na Copa do Brasil e nem tanto no Paulistão (amargava a 12.ª colocação"Certeza: a revolução começou", Luiz Antônio Prósperi, Jornal da Tarde, 21/12/1992, Edição de Esportes, pág. 7), Nelsinho Baptista não suportou a pressão das principais torcidas organizadas do clube, que pediram sua saída mesmo quando o time deixava o campo após a vitória por 4 a 0 sobre o Sampaio Corrêa, do Maranhão."Cobranças em dobro", Placar número 1.075, setembro de 1992, Editora Abril, págs. 20-21 Para seu lugar foi contratado Otacílio Gonçalves, que tinha conquistado o Campeonato Paranaense de 1991 e a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 1992 com o Paraná Clube.

A Parmalat também montou uma infraestrutura no Parque Antártica, que lhe permitiu monitorar as atividades mais de perto, sob o comando de José Carlos Brunoro. Otacílio chegou e pediu dois jogadores, que acabariam logo contratados: Maurílio e Cuca. Em busca também de uma grande contratação, o Palmeiras buscou na Europa Mazinho. A saída de Nelsinho também proporcionou a volta de Evair, que havia sido afastado do elenco pelo técnico. Esses reforços e o estilo amigável do treinador foram as principais razões para a recuperação alviverde no campeonato."Vice conformado", Luiz Antônio Prósperi, Jornal da Tarde, 21/12/1992, Edição de Esportes, pág. 4

O Corinthians neste campeonato voltou a usar a Fazendinha depois de dez anos, agora com capacidade para 15 mil pessoas, mas em nenhum dos quatro jogos lá disputados houve capacidade máxima.Celso Dario Unzelte, Almanaque do Corinthians Placar, Editora Abril, 2005, pág. 484 Um fato curioso dessa campanha do Corinthians foi que no jogo contra o Santo André, no estádio Bruno José Daniel, o time venceu por 1 a 0 com um gol de mão de Fabinho aos 39 minutos do segundo tempo.Celso Dario Unzelte, Almanaque do Corinthians Placar, Editora Abril, 2005, pág. 487