Os Fasci Italiani di Combattimento — traduzidos literalmente como “Fasces de Combate Italianas” e também como “Ligas Italianas de Combate” ou “Bandos Italianos de Combate” — foram um movimento político italiano fundado por Benito Mussolini em Milão, em 23 de março de 1919, e transformado no Partido Nacional Fascista (PNF) durante o III Congresso Nacional, realizado em Roma em novembro de 1921. Herdeiro direto dos Fasci d'Azione Rivoluzionaria da campanha intervencionista de 1914–1915, o movimento reuniu inicialmente veteranos, Arditi, futuristas, republicanos, antigos socialistas, sindicalistas revolucionários, nacionalistas, estudantes, jornalistas e representantes de associações patrióticas. A heterogeneidade social e ideológica da primeira fase refletiu-se no Programa de San Sepolcro, que combinava nacionalismo e reivindicações territoriais com sufrágio feminino, republicanismo, anticlericalismo, jornada de oito horas, participação operária na gestão industrial, tributação progressiva do capital e confisco parcial dos lucros de guerra.

Depois do fracasso nas eleições gerais de novembro de 1919, nas quais a lista milanesa encabeçada por Mussolini obteve 4.657 votos e não elegeu representantes, os Fasci deslocaram-se progressivamente para a direita. A partir de 1920, no contexto do Biênio Vermelho, desenvolveram uma rede de esquadras de ação que atacava sedes socialistas, câmaras do trabalho, sindicatos, cooperativas, administrações municipais e organizações das minorias eslovena e croata nas regiões anexadas. A violência paramilitar, financiada ou tolerada em diferentes graus por proprietários agrários, industriais, autoridades locais e setores dos aparelhos policial e militar, permitiu ao movimento destruir parte da infraestrutura política socialista e expandir-se das grandes cidades para as áreas rurais do centro e do norte da Itália.

Integrados aos Blocos Nacionais promovidos pelo primeiro-ministro Giovanni Giolitti, os fascistas entraram na Câmara após as eleições de 15 de maio de 1921. Trinta e sete candidatos ligados aos Fasci foram eleitos; 36 formaram o grupo parlamentar fascista, enquanto Alfonso Imperati, eleito numa lista fascista, aderiu ao grupo misto. A parlamentarização fortaleceu Mussolini, mas agravou o conflito entre sua estratégia nacional e os chefes provinciais do squadrismo. A crise do Pacto de Pacificação, assinado com socialistas e sindicalistas em agosto de 1921, foi solucionada pela transformação do movimento em partido, medida que preservou a violência provincial, mas submeteu formalmente os núcleos locais a uma organização política nacional.

Denominação e natureza organizacional

O substantivo italiano fascio, cujo plural é fasci, significa literalmente “feixe”, “molho” ou “conjunto”, mas desde o século XIX também designava uma liga ou associação política. Antes de sua identificação exclusiva com o fascismo, o vocábulo fora usado por grupos de orientações distintas, como os Fasci Siciliani de trabalhadores e camponeses, ativos entre 1891 e 1894, e os agrupamentos republicanos, socialistas e sindicalistas da passagem do século. A expressão remetia simultaneamente à união de indivíduos em torno de um objetivo e ao feixe lictório da Roma antiga, embora a associação romana tenha sido intensificada apenas com a elaboração simbólica posterior do movimento.

Os Fasci Italiani di Combattimento não foram fundados como partido convencional. Mussolini preferia apresentá-los como movimento, associação de combatentes ou “antipartido”, fórmula que permitia reunir correntes incompatíveis e conservar liberdade tática. A direção nacional possuía uma secretaria, um comitê central e um jornal oficial, mas os núcleos locais mantiveram ampla autonomia para definir alianças, programas, métodos de recrutamento e estruturas paramilitares. Essa descentralização facilitou a rápida disseminação territorial, porém criou centros de poder provinciais que nem sempre obedeciam a Mussolini. Os chefes locais, posteriormente conhecidos como ras, controlavam esquadras armadas, redes de financiamento e alianças com notáveis regionais; a formação do PNF foi, em parte, uma tentativa de submeter essas redes a uma disciplina hierárquica nacional.

Antecedentes

Intervencionismo revolucionário

miniatura|esquerda|Benito Mussolini detido nas proximidades da Piazza Barberini, em Roma, após uma manifestação intervencionista em 11 de abril de 1915. Fotografia de Adolfo Porry Pastorel.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, no verão de 1914, o Reino da Itália, embora formalmente aliado à Áustria-Hungria e ao Império Alemão pela Tríplice Aliança, declarou neutralidade. A decisão abriu um conflito interno entre neutralistas e intervencionistas. No interior da Unione Sindacale Italiana (USI), sindicalistas revolucionários como Filippo Corridoni, Alceste De Ambris e Sergio Panunzio sustentaram que a derrota dos impérios centrais poderia libertar nacionalidades oprimidas e criar condições para revoluções sociais na Europa. A corrente intervencionista rompeu com a maioria anarco-sindicalista e forneceu quadros à futura Unione Italiana del Lavoro (UIL), fundada em junho de 1918 e associada a Edmondo Rossoni.

Mussolini, então diretor do jornal socialista Avanti!, abandonou a posição neutralista oficial do Partido Socialista Italiano (PSI) e passou a defender uma intervenção que, em sua interpretação, poderia acelerar a crise da ordem liberal e desencadear uma revolução nacional. A ruptura levou à sua substituição na direção do jornal, à fundação de Il Popolo d'Italia, em 15 de novembro de 1914, e à expulsão do PSI em 29 de novembro. Em 5 de outubro de 1914, Corridoni e outros militantes haviam fundado o Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista; em dezembro, esse agrupamento aproximou-se dos Fasci autonomi d'azione rivoluzionaria de Mussolini, e em 6 de janeiro de 1915 as diferentes correntes convergiram nos Fasci d'Azione Rivoluzionaria.

A campanha intervencionista alcançou seu auge na primavera de 1915. Gabriele D'Annunzio pronunciou em 5 de maio, em Quarto, perto de Gênova, um discurso que se tornou um dos marcos da mobilização nacionalista. Depois da assinatura secreta do Tratado de Londres, o rei Vítor Emanuel III, o primeiro-ministro Antonio Salandra e o ministro das Relações Exteriores Sidney Sonnino conduziram a entrada da Itália na guerra ao lado da Tríplice Entente, efetivada em 24 de maio de 1915.

Guerra, veteranos e “trincerocracia”

Mussolini serviu no Exército Real Italiano até ser ferido em 23 de fevereiro de 1917 e afastado após hospitalização. Durante o conflito, ele e Il Popolo d'Italia receberam apoio financeiro de fabricantes de armamentos e empresários milaneses favoráveis à mobilização de guerra, fato que alimentou controvérsias sobre a independência editorial do jornal. Da experiência militar surgiu a ideia de uma “trincerocracia”, isto é, uma nova elite política constituída por combatentes, jovens oficiais e homens que teriam adquirido nas trincheiras disciplina, coragem e legitimidade para governar. Mussolini descreveu os veteranos como uma futura “aristocracia do amanhã” e sustentou que os homens das trincheiras deveriam substituir a classe parlamentar liberal.

O fim da guerra, em novembro de 1918, foi acompanhado pela desmobilização de milhões de soldados, inflação, desemprego, dívida pública e dificuldades na reconversão da economia de guerra. O Tratado de Saint-Germain atribuiu à Itália o Trentino-Alto Ádige, Trieste, a Ístria e Zara, mas não satisfez todas as reivindicações sobre Fiume e a Dalmácia. Nacionalistas difundiram então a expressão “vitória mutilada”, segundo a qual os aliados haviam negado à Itália os frutos integrais de seu sacrifício. Os Arditi, tropas de assalto de elite, desempenharam papel relevante na cultura política do pós-guerra; em janeiro de 1919, Mario Carli criou em Roma uma associação de arditi, seguida por outra em Milão, dirigida por Filippo Tommaso Marinetti e Ferruccio Vecchi. Essas associações confederaram-se nacionalmente no fim daquele mês e forneceram militantes, símbolos e métodos de ação ao fascismo nascente.

Crise social e Fiume

Desde julho de 1919, ocupações de terras espalharam-se do Lácio ao Mezzogiorno e à planície do Pó; o Decreto Visocchi, de 2 de setembro de 1919, legalizou retrospectivamente parte das ocupações conduzidas por cooperativas e associações de veteranos. Em 1920, greves, mobilizações camponesas e ocupações de fábricas atingiram seu auge. Embora essas ações não constituíssem um plano revolucionário unificado, setores das classes médias, proprietários e autoridades interpretaram-nas, sob o impacto da Revolução Russa de 1917, como ameaça bolchevique.

A ocupação de Fiume por D'Annunzio, iniciada em setembro de 1919, criou um polo concorrente de nacionalismo mobilizador. Os Fasci apoiaram publicamente a empresa e recolheram donativos, embora Halperin afirme que parte dos recursos não chegou ao poeta e foi usada pela própria organização. Quando a cidade sofreu escassez de abastecimentos, organizações ligadas aos Fasci e grupos patrióticos femininos organizaram a retirada de aproximadamente quatro mil crianças para cidades do norte da Itália. O Tratado de Rapallo, assinado em novembro de 1920, criou o Estado Livre de Fiume, e as tropas italianas expulsaram D'Annunzio após o chamado “Natal de Sangue”.

Fundação

Reuniões de março de 1919

Mussolini e Il Popolo d'Italia organizaram em Milão uma reunião preparatória em 21 de março de 1919, à qual teriam comparecido pouco mais de sessenta pessoas. Dois dias depois, em 23 de março, realizou-se a assembleia nacional na sala do Círculo da Aliança Industrial e Comercial, no Palazzo Castani, em Piazza San Sepolcro. O espaço foi cedido ou alugado por intermédio de Cesare Goldmann, industrial milanês de origem judaica e vinculado à maçonaria, presidente de uma associação comercial e industrial. A literatura apresenta números divergentes para a assembleia: as reconstruções variam entre cerca de cinquenta e duzentos participantes, enquanto uma tradição consolidada menciona 119 presentes. As listas oficiais elaboradas posteriormente pelo regime ampliaram o número de “sansepolcristas” e nem sempre distinguem presença documentada, adesão precoce e atribuição honorífica retrospectiva.

A assembleia reuniu arditi ligados a Vecchi, futuristas como Marinetti e Carli, sindicalistas revolucionários, republicanos, antigos socialistas, jornalistas, veteranos, nacionalistas e representantes de associações de ex-combatentes. Entre os nomes associados à fundação aparecem Mussolini, Michele Bianchi, Ferruccio Vecchi, Marinetti, Giuseppe Bottai, Roberto Farinacci e, em listagens posteriores, membros do futuro quadrunvirato da Marcha sobre Roma — Italo Balbo, Emilio De Bono e Cesare Maria De Vecchi. A presença documental de alguns personagens varia conforme a fonte; por isso, a historiografia distingue os participantes comprovados da memória oficial criada durante o regime. Selena Daly inclui ainda Marinetti e o poeta Giuseppe Ungaretti entre os fundadores ou primeiros associados ao núcleo futurista do movimento. Segundo memórias de Gino Coletti, secretário e promotor da Associação Nacional dos Arditi da Itália, a segurança da reunião teria sido garantida por veteranos das tropas de assalto, testemunho retrospectivo que ilustra a centralidade atribuída aos Arditi na narrativa de origem.

Os primeiros aderentes incluíram pessoas de origens sociais e políticas muito distintas; fontes citadas na versão italiana do artigo registram a presença de pelo menos cinco judeus entre os participantes ou primeiros membros. Esse dado não impede que o fascismo posterior tenha desenvolvido legislação e política antissemita a partir de 1938; demonstra apenas que o movimento de 1919 ainda não era organizado em torno do antissemitismo racial que caracterizaria a fase final do regime.

Programa de San Sepolcro