Shangqing (上清, "Pureza Suprema" ou "Mais Alta Clareza") é uma corrente taoísta que tomou forma sob os Jin entre a aristocracia com base nos Mestres Celestiais, a antiga tradição mística do Sul e a tradição alquímica de Ge Hong. Sua primeira matriarca é Wei Huacun, mas Tao Hongjing, que estruturou sua teoria e prática, em grande parte segundo as revelações do médium Yang Xi, e reformulou seu cânone, é geralmente considerado seu verdadeiro fundador. O seu prestígio contribuiu para o surgimento da corrente que tomou a partir do final do século V o nome da montanha em que seu eremitério estava, Maoshan. Localizado no território da comuna de Jurong em Jiangsu, não muito longe de Nanjing, o Monte Mao permaneceu a sede principal da escola até hoje.Robinet, Isabelle (1984). La révélation du Shangqing dans l'histoire du taoïsme. 2 vols. Paris: Ecole française d'Extrême-Orient.Robinet, Isabelle (1997). Taoism: Growth of a Religion. Stanford: Stanford University.
As práticas de Shangqing, essencialmente individuais ao contrário das dos Mestres Celestiais ou da corrente Lingbao, negligenciam os rituais coletivos e os talismãs exorcistas. Para alcançar a imortalidade, meditação, visualização, êxtase, técnicas de respiração e ginástica daoyin são preferidas à alquimia. A recitação do cânone, de natureza sagrada, também desempenha um papel importante. Inicialmente recrutando dos estratos sociais superiores, Shangqing foi a escola taoísta dominante sob o Tang, e sua influência se encontra até na literatura. A sua importância só começa a diminuir a partir da segunda metade do Song do Norte. Sob o Yuan já mudou sua natureza, especializando-se em rituais e talismãs―famosos por seu poder como evidenciado pelo mito do jiangshi―e ampliou sua base de recrutamento. Ela se junta à Aliança Zhengyi. No século XXI, a "arte de Maoshan" designa uma magia por vezes sulfurosa, muito distante do espírito original da corrente, especialmente praticada no Sul da China ou nas diásporas do Sudeste Asiático.
Shangqing foi por vezes descrita como uma forma "mística" de taoísmo, enfatizando a noção do corpo humano como um microcosmo contendo energias universais, que poderiam ser atualizadas pela união extática com divindades. Os praticantes realizavam visualizações (cun) e excursões extáticas (yuanyou) segundo modelos xamânicos, em viagens visionárias pelos confins do mundo e pelo céu, sintonizando com movimentos rítmicos cósmicos e se identificando com o eixo central do universo: o polo celeste da "Concha do Norte". Com a ênfase na meditação, haveria muito menos atenção ao cultivo fisiológico pela ingestão de ervas, drogas ou ritos sexuais físicos, que haviam sido importantes nas formas anteriores do taoísmo.
Seu principal texto de referência é o Verdadeiro Livro da Grande Caverna da Pureza Suprema (Shangqing dadong yuzhenjing 上清大洞真經).Lista completa de textos em Robinet, Isabelle. "Shangqing". In: Encyclopedia of Taoism
História O primeiro grupo de textos de Shangqing foi escrito de 364 a 370 nas proximidades de Nanjing, capital do Jin Oriental, pelo médium Yang Xi (330–386) a partir de revelações de imortais. Entre eles, Wei Huacun (251–334), que será considerada a fundadora da escola. Aristocrata do Jin Ocidental, membro dos Mestres Celestiais e asceta residente em Henan, ela teria obtido e comentado os primeiros textos que seus filhos teriam trazido para o Sul após a retirada da aristocracia Jin.
Naquele contexto, a China estava dividida em Norte e Sul, e, após a invasão dos "bárbaros" (xiongnus) no Norte, na consequente fuga a aristocracia levou consigo a tradição dos Mestres Celestiais. Ocorreu, assim, uma virada do domínio taoista, que se moveu agora ao Sul e lá se misturou com as tradições han dos arcanos mestres fangshi. Com isso, a ascensão de Shangqing representou uma vitória das antigas tradições locais do Sul sobre as tendências racionalistas do Norte.
Yang Xi exercia suas funções em Maoshan, a serviço do oficial Xu Mi e seu irmão Xu Hui, aparentados com o alquimista Ge Hong, e Yang ali detinha um lugar de adivinhação como médium da família Xu. Os textos começaram a ser transmitidos, inspirando até imitações. Lu Xiujing (406–477) inclui-os no primeiro rascunho do cânone taoísta. miniaturadaimagem|Tao Hongjing, responsável pela compilação dos textos shangqing A corrente tornou-se uma escola por direito próprio graças a Tao Hongjing (456–536), tutor dos príncipes da dinastia Qi. Ele comentou os textos e desenvolveu um sistema estruturado incluindo um panteão. Mais interessado no taoísmo e no budismo do que em cargos públicos, em 492 ele recebeu permissão para deixar a corte para se estabelecer no Monte Mao. Ele mandou construir ali a ermida Huayang, o primeiro templo Maoshan, com a ajuda do imperador Wudi dos Liangs, com quem mantinha excelentes relações; outros seguirão rapidamente.
Após sua morte, a escola continuou a florescer, recrutando muitos dentre a aristocracia. A fama de seus textos transmitidos de forma esotérica era tal que havia roubos e falsificações. Originalmente estabelecida não muito longe da atual Nanjing, teve uma certa difusão no norte da China quando as proscrições de 504 e 517 obrigaram certos senhores ao exílio. Assim, a enciclopédia taoísta publicada sob o patrocínio do imperador Wu de Zhou do Norte (r.561-578) pôs os textos de Shangqing em primeiro lugar.
Ela dominou a cena taoísta sob o Tang, representada entre outros por Wang Yuanzhi, Pan Shizheng, Sima Chengzhen, Wu Jun e Li Hanguang. Durante este período, todos os seus patriarcas receberam um título do imperador. Sima Chengzhen fez iniciação de certos textos ao poeta Li Bo e ao imperador Xuanzong, que em 731 colocaram as divindades de Shangqing no comando das montanhas sagradas. O imperador Taizong patrocinou pessoalmente três templos no Monte Mao. A seção taoísta da enciclopédia imperial Taiping Yulan (太平御覽) é composta principalmente de textos da escola.
Ao mesmo tempo, Shangqing começa uma transformação de natureza, integrando textos das escolas de Lingbao e dos Mestres Celestiais que a aproximaram dessas correntes. Foi dado maior lugar ao clero e maior importância aos rituais públicos exigidos pela corte e pela sociedade.
Durante a segunda metade de Song do Norte, a sua influência junto da corte estava em declínio, mas manteve-se ativa porque, tendo mudado de orientação, especializou-se em rituais e talismãs. Ela era uma das Três Montanhas de Talismãs (经箓三山) junto com Gezao e Longhu. Novas construções surgiram no Monte Mao, incluindo os Três Templos e os Cinco Mosteiros (三宮五觀) que permaneceram até a Revolução Cultural. Sob o Song, alguns de seus patriarcas ainda gozavam do favor imperial, como o 23º patriarca Zhu Ziying cujas orações teriam dado um herdeiro a Zhenzong. Recebeu o título de Mestre Nacional (國師), título supremo para os religiosos. Os 35º e 44º patriarcas, Ren Yuanpu (?–1263) e Wang Daomeng, também foram escolhidos para acabar com uma inundação e uma invasão de gafanhotos, respectivamente. Com os imperadores Song e Yuan desejando centralizar a administração das escolas do sul, Maoshan caiu sob a autoridade de Zhengyi no século XIII.
No final do século XX, os taipings, o exército japonês e a Revolução Cultural destruíram completamente os templos do Monte. Dois deles, Jiuxiaogong e Yuanfugong, foram reconstruídos; pode-se ver ali o selo e a insígnia oficial da escola datada do período Song.
Maoshan, "Monte Mao", leva o nome dos três irmãos Mao Ying, Mao Gu e Mao Zhong, eremitas e curandeiros da dinastia Han. Na época de Tao Hongjing, também era chamado de Juqu (de qu, curva) ou Pulmão da terra (地肺山). É uma das terras da imortalidade no taoísmo. O monte e seus mitos são descritos em detalhes em uma monografia escrita sob o Yuan por Liu Dabin (劉大彬 1317–1328).
Características A corrente Shangqing retoma elementos dos Mestres celestiais, bem como conceitos e crenças da base religiosa chinesa. A tradição mística e extática de Chu e a tradição alquímica individualista, importante no sul do Chang Jiang, conferem-lhe um caráter original em relação às escolas taoístas do norte. O budismo também exerceu uma pequena influência. Tao Hongjing se interessou por ele e viu com bons olhos os empréstimos, tanto dessa nova religião quanto do confucionismo. A tradição alquimista é reinterpretada: a absorção de elixires e outras pílulas da imortalidade é amplamente substituída por um conjunto de práticas que prefiguram a alquimia interna que nascerá sob o Song, enquanto o vocabulário alquímico assume um novo significado ligado à experiência da meditação. O termo zhenren, "ser verdadeiro" que sofreu transformação espiritual e corporal, substitui o termo original para imortais, xianren. Tal como acontece com os alquimistas, existem mestres e discípulos, mas nenhum clero; cada um é seu próprio oficiante. A partir dela, ocorreu também transformação e interiorização das práticas sexuais físicas, em relações de amor platônico com divindades; diminuiu-se o poder burocrático, formal e teúrgico dos Mestres Celestiais, e o ideal de imortalidade física foi transmutado em salvação espiritual.
O Shangqing quebra com as antigas tradições orais e cria grande coerência pelo registro de escrituras, o que possibilita ser chamado de uma "escola". Não é, porém, uma "igreja", pois também rompe com essa organização formal dos primeiros Mestres Celestiais.
A escola é durante os primeiros séculos marcada pela origem social dos seus membros. As divindades descritas por Tao Hongjing são ordenadas como os aristocratas e oficiais das Dinastias do Norte e do Sul. A importância dada à escrita, o lugar limitado dos talismãs e da alquimia, a rejeição das práticas sexuais pelos seguidores mais delicados são todos traços que refletem a cultura de seu meio. A recitação do cânone deve produzir o mesmo efeito que as práticas descartadas, tornando possível dispensá-las. A ênfase recai sobre a meditação e visualização cunshen. Baseando-se nas descrições detalhadas dos textos, o adepto contempla o interior de seu corpo e mantém em seu devido lugar as divindades que ele contém, visualiza-as desatando os laços mortais, ou então viaja guiado por outras divindades em mundos diferentes e vê seu nome escrito nos registros da imortalidade. Há também um componente milenarista, porque Yang Xi previu um fim do mundo durante o qual os seguidores seriam salvos por Li Hong, um personagem messiânico assimilado a Lao Tsé. A cosmologia de Shangqing, como a cosmologia budista, prevê ciclos de destruição-recriação do universo.
Sua antropologia é diferente da noção clássica chinesa de humanidade, pois considera que não há apenas duas almas no homem (a alma celeste hun e a alma terrena po), mas que ele também hospeda uma multidão de divindades do corpo. A escola inaugura a noção de "nós embriônicos", que são gérmens congênitos da mortalidade, ontológicos e fisiológicos, que se encontram em pontos específicos do corpo desde antes do nascimento. Também inova na característica dos "nove palácios internos" da mente, que se tornariam constituintes do taoismo em geral. O ser humano é visto triplamente, considerado como indivíduo autônomo e responsável, inserido em uma linhagem e com papel no cosmos, segundo os conceitos tradicionais de correspondência. A salvação do indivíduo é dependente também de seus ancestrais, pois as ações do adepto, em pecados e méritos, se transmite à posição dos descendentes. O maior pecado é a transmissão de textos sagrados sem autoridade devida, o que leva à condenação do adepto e de seus ancestrais a torturas no submundo, e os barra de alcançarem a imortalidade.