O Vergel do Lago é um bairro localizado no sudoeste da cidade de Maceió, capital do estado brasileiro de Alagoas, mais conhecido por estar às margens da Lagoa Mundaú e pelo comércio e pesca do sururu.

Etimologia O termo “vergel” é derivado do latim viridiarium, “terreno ou área onde são cultivadas árvores frutíferas”, ou seja, um pomar.Vergel. Dicionário Michaelis. s.d. Consultado em 18 de agosto de 2022. “Vergel do Lago” designa um “pomar à beira de um lago”, referência ao antigo sítio próximo à Lagoa Mundaú que deu origem ao bairro.Vergel do Lago, dos sítios até a Virgem dos Pobres. História de Alagoas. 05 de agosto de 2018. Consultado em 19 de agosto de 2022.

História

Antecedentes Desde o século XIX, pelo menos, a área constituída por alagadiços entre a “Lagoa do Norte” e os bairros Trapiche da Barra, ao sul, cujo porto fazia a conexão da antiga vila de Maceió com a então capital Alagoas do Sul (atual Marechal Deodoro), e Levada (leste) era conhecida como “Ponta Grossa”, nome que foi dado a diversas propriedades da região. Documento de 20 de janeiro de 1849 fala de um sítio Ponta Grossa, posse de Francisco de Santa Maria. Outro, de fevereiro de 1882, informa estar à venda o sítio Ponta Grossa, do senhor Torquato Ramos, medindo “500 braças de frente e 700 de fundo” (914,40 m x 1.280,16 m). Um sítio Ponta Grossa, em 1896, foi posto à venda por Ildefonso Loyola.

Já no século XX a edição de 1o de janeiro de 1905 do jornal Gutenberg anunciou estar à venda “um magnífico sitio na Ponta Grossa com cerca de 300 casas que pagam foros ao proprietário do mesmo sítio, assim como 280 pés de coqueiros e mais árvores frutíferas. O terreno começa na ponte de Água Negra e vem terminar à margem da lagoa, no ponto denominado Boca da Levada. Possui uma excelente casa de vivenda e para melhores informações nesta redação ou à rua do Macena nº 94”.

Em 12 de março de 1910 o mesmo Gutenberg, sobre um “sítio Vergel do Lago, outrora Ponta Grossa”, informou:

"Arrenda-se o sítio Vergel do Lago, outrora Ponta Grossa, com casa de vivenda, fruteiras, coqueiros, terrenos para plantação de cana, mandioca, grandes pastagens, boa água etc. Também se faz negócio por venda ou arrendamento com os terrenos foreiros d’Água Negra, devidamente medidas, onde já existem mais de 60 casas edificadas, tendo lugar para edificação de maior número. Quem pretender dirija-se à rua do Rayol, nº 2 ou ao escritório do Professor Goulart. Jaraguá, 8 de março de 1910 Rodolpho Santa Cruz".

Os foreiros citados nos anúncios, entre outros, foram ocupando a região ao longo do período, pessoas que viviam da pesca e do comércio baseados na Lagoa Mundaú e no movimento dos portos lagunares do Trapiche da Barra, da Levada e de Bebedouro, ligados às atividades do Porto de Jaraguá.Torres, C. A. A. (2004). Condicionantes históricos da ocupação de Maceió e sua evolução. In A expansão urbana de Maceió e seus reflexos ambientais na Laguna Mundaú. Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2004, p. 36-40. Consultado em 22 de setembro de 2022.

De propriedade privada a bem público No início de 1911 a gestão do intendente Luís de Mascarenhas decidiu adquirir uma área para construir o Abatedouro Municipal. Como o entorno do Canal das Águas Negras estava ocupado com moradias e outras edificações ele propôs comprar apenas a parte desabitada (a área à esquerda do canal) do Sítio Vergel do Lago (recém-adquirido pelo governador à época Euclides Malta). Depois de muita negociação o sítio foi vendido à intendência em maio por 13:280$000 (treze contos duzentos e oitenta mil réis). Em dezembro do mesmo ano Luís de Mascarenhas renunciou ao cargo, deixou Maceió e a questão do abatedouro foi esquecida.

O governador de Alagoas João Batista Accioli Júnior retomou o assunto em 1915. Concedeu o uso do Sítio Vergel do Lago para a instalação do Abatedouro Municipal a Pedro Santerre Guimarães. O empresário não cumpriu os compromissos assumidos e a concessão foi repassada a Gustavo Adolpho Schmidt Júnior, comerciante que também não realizou o empreendimento.

Hidroaviões O estado e a laguna são ligados à aviação: o alagoano Marcos Evangelista da Costa Villela Júnior figura entre os pioneiros no país com a criação dos aviões Aribu e Alagoas.Primeiros voos. Revista Pesquisa FAPESP. São Paulo, edição 284, outubro de 2019. Consultado em 24 de setembro de 2022. Já Antônio Guedes Muniz, “o garoto que brincava às margens da lagoa de Mundaú”, foi apresentado à aviação pelo conterrâneo Villela Júnior. Projetou a série M, sendo o mais conhecido o modelo M-5.Antônio Guedes Muniz. In História da Aeronáutica Brasileira, Volume 2: de 1921 às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Editora Itatiaia, 1990, p 544-545. Consultado em 24 de setembro de 2022.

A ligação ganhou força em 1923. Maceió fez parte da histórica primeira viagem de avião entre as Américas do Norte (Nova York) e do Sul (Rio de Janeiro), realizada entre 17 de agosto de 1922 e 08 de fevereiro de 1923 pelos aviadores Walter Hinton e Euclides Pinto Martins a bordo do Sampaio Corrêa II, um hidroavião modelo Curtiss H-16.Um grande estímulo: o Brasil na rota dos reides internacionais. In História da Aeronáutica Brasileira, Volume 2: de 1921 às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Editora Itatiaia, 1990, p. 133-134. Consultado em 26 de setembro de 2022. Vindos de Recife, eles amerissaram na laguna às 12 horas e 30 minutos de 30 de janeiro de 1923,Raid New York-Rio: de Recife a Maceió. A Província. Recife, 31 de janeiro de 1923. Ano LII, n. 25. Consultado em 26 de setembro de 2022. receberam diversas homenagens e decolaram rumo a Salvador às 10 horas e 45 minutos do dia seguinte, 31 de janeiro.Raid New York-Rio: de Maceió a Salvador. A Província. Recife, 01 de fevereiro de 1923. Ano LII, n. 26. Consultado em 26 de setembro de 2022. Na obra Maceió de Outrora o autor Félix Lima Júnior relata: “Na lagoa pousavam hidroaviões, quando o serviço de transporte aéreo não se fazia, como presentemente, utilizando somente aviões. Entre os descidos na lagoa deve ser lembrado o ‘Sampaio Correa’, do aviador cearense Pinto Martins, vindo da América do Norte, na terceira década deste século, quando se sucediam os raids.”. E conclui: “Foi ele, creio, o primeiro a pousar nas águas tranquilas da Mundaú.”.

Eventos como esse levaram a presidência de Artur Bernardes a publicar o Regulamento para os Serviços Civis de Navegação Aérea (Decreto nº 16.983, de 22 de julho de 1925),Regulamento para os Serviços Civis de Navegação Aérea. In Decreto nº 16.983, de 22 de julho de 1925. Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil. Consultado em 28 de setembro de 2022. pretendendo normatizar o setor aéreo nacional.Silva, M. F. B. (2012). A Regulamentação da Atividade de Aviação. In A desgermanização da Condor: estruturação e reestruturação de um sistema técnico no Brasil. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 08 de março de 2012, p. 35-38. Consultado em 28 de setembro de 2022. O decreto federal fez o governador de Alagoas Pedro da Costa Rego considerar a construção de um aeroporto local. Para ele o Vergel do Lago era apropriado: à margem da laguna, possuía um grande espaço desabitado, próximo aos bairros centrais da capital (na época) e com o aeroporto passaria a receber também voos para pouso em terra. O sítio foi avaliado, mas o Decreto Estadual nº 1.209, de 30 de junho de 1927, estabeleceu no Tabuleiro do Pinto (Rio Largo) a área concedida à empresa francesa Aéropostale para a construção do seu centro de operações. O serviço da Aéropostale começou a funcionar em novembro de 1927,Maceió - Parada Paradisíaca. Associação e Memória da Aeropostale no Brasil. s.d. Consultado em 22 de setembro de 2022. ainda com as obras em andamento, e o denominado Aeroporto Costa Rego foi inaugurado oficialmente em 14 de outubro de 1928.Aeroclube e a história da aviação alagoana. História de Alagoas. 22 de janeiro de 2017. Consultado em 28 de setembro de 2022. Além da Aéropostale, a partir de 1930 passaram a operar seus hidroaviões no Vergel do Lago as companhias Syndicato CondorO advento das empresas aéreas no Brasil - Influência alemã. In História da Aeronáutica Brasileira, Volume 2: de 1921 às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Editora Itatiaia, 1990, p. 197-212. Consultado em 28 de setembro de 2022. e NYRBA (absorvida pouco depois pela Panair do Brasil).O advento das empresas aéreas no Brasil - Influência norte-americana. In História da Aeronáutica Brasileira, Volume 2: de 1921 às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Editora Itatiaia, 1990, p. 227-238. Consultado em 28 de setembro de 2022.

Controvérsia

Se não existem dúvidas quanto à localização do Píer do Hidroavião no Vergel, há divergência sobre o outro aeródromo da Lagoa Mundaú. Ora é colocado “próximo ao” ou “quase na entrada do” Canal da Levada, ora próximo ao antigo Bar das Ostras, podendo ser acessado pelas ruas Santo Antônio e Félix Bandeira. Algumas fontes indicam o Porto da Levada como local de embarque e desembarque dos hidroaviões.Nascimento, B. T. L. (2008). O bairro da Levada. In A imagem e seus reflexos: um estudo do bairro da Levada. Universidade Federal de Alagoas. Maceió, 21 de agosto de 2008. p. 65-80. Consultado em 30 de setembro de 2022.

O Bar das Ostras funcionava na Rua Cruzeiro do Sul, nº 487, distando pouco mais de 1 km da entrada do Canal da Levada, portanto não tão próximo. Além disso, as vias de acesso citadas não seriam a melhor escolha para chegar ao canal. Curiosamente, essa também era a distância do bar até o local do Píer do Hidroavião. Portanto, a meio caminho entre um e outro.

Já o Porto da Levada fazia parte de um projeto discutido desde o século XIX que pretendia redesenhar esse canal. O porto foi inaugurado em 1912 na entrada (ou próximo a ela), com o restante da intervenção sendo concluído em 1925 (ou 1927).Levada de Maceió, o porto da cidade restinga. História de Alagoas. 16 de maio de 2017. Consultado em 30 de setembro de 2022.

Uma portaria do antigo Ministério da Viação e Obras Públicas (MVOP), de 30 de junho de 1930, relacionou vinte e três aeródromos marítimos existentes no Brasil,A Infraestrutura Aeroportuária. In História da Aeronáutica Brasileira, Volume 2: de 1921 às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica. Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Editora Itatiaia, 1990, p. 256. Consultado em 26 de setembro de 2022. entre eles o “Porto Maceió – Saco Sul da Lagoa do Norte”. Uma análise do mapa da laguna exclui o Píer do Hidroavião do “Saco Sul”, restando saber de qual estrutura fala a portaria ministerial, se do Porto da Levada ou do comentado píer nas proximidades do futuro Bar das Ostras.

O que se sabe: no fim dos anos 1920 o Porto da Levada já funcionava, até o início da década de 1940 o Píer do Hidroavião já fora construído e nos anos 1950 a estrutura próxima ao Bar das Ostras era utilizada em atividades aeroportuárias.

O Vergel do Lago recebeu os dois (três?) aeródromos da Lagoa Mundaú ou um deles foi o Porto da Levada, talvez o mais antigo?

Enfim, bairro Enquanto a aviação comercial continuava seu desembarque no Brasil (e na laguna) o interior do Vergel seguia sendo ocupado. Durante o episcopado de Dom Santino Maria Coutinho a Arquidiocese de Maceió decidiu construir um local para “amparar os necessitados” da capital, “fornecendo-lhes alimento, roupa, agasalho, assistência moral e religiosa”. Foi escolhido o Sítio Vergel do Lago. Gustavo Schmidt Júnior, concessionário do sítio desde 1916, em julho de 1931 abriu mão de seu direito de exploração em favor do município para que este destinasse parte do terreno à obra de caridade.