Independências (estilizado como IndependênciaS) é uma série de dramaturgia brasileira em 16 episódios, produzida pela TV Cultura e exibida todas às quartas-feiras, às 22h, e reprisada aos domingos, às 22h, de 7 de setembro a 21 de dezembro de 2022.
Desenvolvida pelo diretor e cineasta Luiz Fernando Carvalho e escrita por Luis Alberto de Abreu, teve roteiro assinado por Alex Moletta, Paulo Garfunkel e Melina Dalboni com a colaboração de Kaká Werá Djecupé, Ynaê Lopes dos Santos, Cidinha da Silva e Tiganá Santana. A ideia do projeto surgiu na TV Cultura a partir de pesquisa inicial realizada pelo jornalista José Antonio Severo.
A série estreou no dia do bicentenário da independência do Brasil e faz uma releitura contemporânea de fatos da história brasileira a partir da aurora do século XIX, desde a fuga da família real portuguesa para o país, em 1808, até a morte de D. Pedro I, já em Portugal, em 1834.
Foi considerada pela crítica como a primeira teledramaturgia decolonial, apresentada por um ângulo crítico a partir da nova historiografia brasileira, que inclui outros personagens postos à margem da história oficial. Ao dar voz a mulheres, heróis da resistência, indígenas e negros escravizados, Luiz Fernando Carvalho constrói um mosaico raro e inédito, raramente visto em representações audiovisuais, e que tenta mostrar a pluralidade da nação brasileira.
É mais uma parceria entre Luiz Fernando Carvalho e o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, com quem o cineasta já realizou as minisséries ‘Hoje é dia de Maria’, ‘Capitu’ e ‘A Pedra do Reino’.
O elenco mescla lançamentos com atores consagrados, como Antonio Fagundes, Daniel de Oliveira, Isabél Zuaa, Gabriel Leone, Ilana Kaplan, André Frateschi, Celso Frateschi, Cassio Scapin, Rafael Cortez, Walderez de Barros e Maria Fernanda Candido, entre outros. Entre os lançamentos, estão Alana Ayoká, Marcela Vivan, Verônia Mucúna Jamila Cazumbá e Ywy’zar Guajajara.
Argumento
A premissa da série foi a necessidade de revisar a representação de processos históricos, como o quadro "Independência ou Morte", considerada a obra mais consagrada e difundida do momento da independência do Brasil. O quadro de Pedro Américo, como escreveu o diretor Luiz Fernando Carvalho, "em tudo soa falso, espécie de fake news da época, imperialista e excludente. Nos perguntamos: onde estão as mulheres? Onde foi parar Maria Felipa, Leopoldina, Maria Quitéria e mártires como Soror Joana Angélica? José Bonifácio? Frei Caneca? Chaguinhas! E o povo, heróis anônimos de tantos levantes populares? Marisqueiras de Itaparica, onde?".
Enredo O ponto de partida é 1808, quando duas travessias distintas cortam o Atlântico. Africanos escravizados desembarcam no Brasil. O príncipe regente Dom João VI e sua família se refugiam no Rio de Janeiro diante da ameaça representada por Napoleão Bonaparte. A colônia se transforma, reconstruída pela mão de obra escravizada, e revela a intimidade entre a elite, os traficantes de pessoas e a corte. Nos anos seguintes, a violência contra os povos originários eclode. Revoltas lideradas por heróis comuns, estudantes e políticos progressistas abalam a monarquia. Gritos de resistência, vindos de outros cantos do país, contrapõem o grito oficial de independência dado por um Dom Pedro I hesitante, em 1822. Levantes, espalhados por todo o país, contribuíram para a Independência e tiveram como líderes personagens até então apagados: a marisqueira Maria Felipa, Frei Caneca, Chaguinhas, Gonçalves Ledo, Antonio Carlos Andrada e Maria Quitéria.
Elenco Ator Personagem Antônio Fagundes Dom João VI Daniel de Oliveira Pedro I do Brasil Isabél Zuaa Peregrina Alana Ayoká Peregrina (criança) Ilana Kaplan Carlota Joaquina de Bourbon Louisa Sexton Maria Leopoldina da Áustria Gabriel Leone D. Miguel I de Portugal Walderez de Barros Maria I de Portugal Celso Frateschi José Bonifácio de Andrada e Silva André Frateschi Francisco Gomes da Silva (Chalaça) Cassio Scapin Plácido de Abreu Marcela Vivan Domitila de Castro Dani Ornellas Osória Zahy Guajajara Inaiá Ywy'zar Guajajara Cyara Jamile Cazumbá Joana Flor Verônia Mucúna Maria Felipa Maria Fernanda Cândido Maria Graham Katia Daher Isobel Carol Brada Marquesa de Aguiar Marat Descartes Francisco José Rufino de Sousa Lobato José Renato Forner Martim Francisco Andrada Sergio Siviero Antonio Carlos Andrada Flávio Tolezani Gonçalves Ledo Wilson Rabelo Padre José Maurício Nunes Garcia Rafael Cortez Marquês de Marialva Cacá Carvalho Barão Renato Borghi Paulo Fernandes Viana Pedro Paulo Rangel Bibliotecário Luís Mármora Elias o Turco Rogério Brito Paulino Léa Garcia Isolina (mãe de Osória) Ermi Panzo Holufema Juliana Sanches Maria Quitéria Simone Makhamra Joana Angélica Júlio Silvério Chaguinhas Plínio Soares Padre Antônio Alli Willow Noemy Bruna Miglioranza Benedita de Castro Canto e Melo Odilon Esteves Francisco de Castro do Canto e Melo Tay Lopez Frei Caneca Marcelo Andrade Major Vidigal Fafá de Belém Madame Corneta Margareth Menezes Engrácia Dárcio de Oliveira Francisco MontezumaJussara Freire Fazendeira escravocrataMauro Schames Médico
Produção
Resultado de um processo criativo colaborativo que se estendeu de julho de 2021 a maio de 2022, desde a pesquisa, criação, escrita, preparação e realização, a série foi totalmente filmada no Galpão criativo de Luiz Fernando Carvalho, na Vila Leopoldina, onde também foram realizados os ensaios.
A preparação do elenco teve início com oficinas práticas e teóricas, com a poeta, ensaísta, professora e dramaturga Leda Maria Martins, as historiadoras Ynaê Lopes dos Santos e Lilia Schwarcz, a psicanalista Maria Rita Kehl e Jaqueline Côelho.
As gravações da série foram realizadas em 70 diárias e concluídas em maio, no mesmo tablado circular - chamado de Cosmograma pelo diretor - onde os atores ensaiaram seus papeis.
O estilista Alexandre Herchcovitch desenvolveu os figurinos para a série no ateliê montado no Galpão criativo do diretor.
A linguagem experimental e híbrida da obra envolveu diversos vocabulários narrativos. A narração que estrutura toda a história, na voz da personagem Peregrina (Isabél Zuaa), é feita em kimbundu, língua de matriz africana traduzida por legendas em português professor Niyi Monanzambi (UFBA). Os diálogos indígenas foram criados pelo escritor Kaká Werá Djecupé em tupi-guarani e recriados pela atriz indígena Zahy Guajajara, que traduziu para o Ze’eng eté, uma derivação do tupi falada pela etnia Guajajara.As cenas em inglês foram traduzidas do português antigo por Brian Hazlehurst, que também aprimorou a pronúncia dos respectivos atores.
Recepção
A série foi bem recebida pela crítica. Para o crítico Ubiratan Brasil, a série é um "programa que vai ficar para a história. Certamente é uma das melhores produções do ano". Segundo o filósofo, sociólogo e diretor-regional do Sesc-SP Danilo Santos de Miranda, o primeiro episódio "nos deixou a todos impactados por sua beleza artística e sua abordagem mais que necessária deste capítulo de nossa história".
O jornalista Naief Haddad escreveu: "a originalidade do ponto de vista visual e narrativo, que caracteriza os trabalhos de Carvalho, é outra marca da série.(...) Nos 200 anos do grito do Ipiranga, vem a calhar um imperador insólito e falível, sem a pose de herói eternizada no quadro de Pedro Américo".
Para Esther Imperio Hamburger, professora titular de história do cinema e do audiovisual da Escola de Comunicações e Artes da USP, a "série pop barroca convida a uma experiência sinestésica da biodiversidade brasileira, animal, vegetal, étnica, de gênero, religiosa, linguística, histórica, passado e presente. Uma nova dramaturgia para dar conta da nova historiografia". Em O Globo, a crítica Patrícia Kogut deu nota 10 para “Independências”: Antonio Fagundes e Ilana Kaplan estão maravilhosos. E o diretor, como sempre, usa uma linguagem inovadora e emociona.
No artigo assinado pelo crítico Rodrigo Fonseca, "o primeiro episódio (...) é um esplendor sinestésico, misturando imagens de arquivo de aldeias, fotos, pinturas e uma atuação devastadora de Ilana Kaplan como Carlota Joaquina. Esse capítulo abre-alas promove, na sua dramaturgia (a um só tempo barroca e pop), uma cartografia da indignidade humana imposta aos povos originários da Pangeia latina e aos escravizados africanos. É uma espécie de “La Chinoise” (1967), com toda a semiótica do Godard de ontem e de hoje".
Para o diretor Gabriel Priolli, "Independências está a anos-luz da desambição estética da atual telenovela e mesmo das séries brasileiras, que supostamente seriam uma evolução da progenitora. Não é produto de entretenimento, é obra de arte".
Como observou Letícia Magalhaes, "a série tem forte linguagem teatral, e ao mesmo tempo apresenta técnicas impossíveis no teatro, como o uso do close-up extremo, com a câmera bem perto do rosto dos atores”.
Ligações externas
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