miniaturadaimagem|285x285px|Lenço verde como símbolo de luta politica. O Lenço Verde é um símbolo da luta pelo direito ao aborto criado por Marta Alanis e Susana Chiarotti em 2003 durante o 18º Encontro Nacional de Mulheres, realizado em Rosário, na Argentina. Na ocasião, a reivindicação pela legalização do aborto foi pauta central nos debates e o uso coletivo dos lenços no encerramento do encontro contribuiu para sua consolidação como símbolo de resistência e luta política feminista.

A partir de 2018, o lenço verde ganhou ampla difusão em diversos países da América Latina, no contexto das mobilizações feministas pela descriminalização do aborto, e, cerca de quatro anos depois, passou a ser adotado também nos Estados Unidos. O símbolo teve como referência o lenço branco utilizado pelas Mães da Praça de Maio, associação argentina de direitos humanos formada por mães de pessoas desaparecidas ou assassinadas durante a ditadura militar.

Contexto histórico A luta pela legalização do aborto na Argentina ganhou maior visibilidade a partir do período de redemocratização, após o fim da ditadura militar (1966–1973), que possibilitou a ampliação da atuação de movimentos sociais e feministas.

O Encontro Nacional de Mulheres teve sua primeira edição em 1986, em Buenos Aires, consolidando-se como um espaço de articulação política e debate do movimento feminista argentino. Em 1995, no encontro realizado em San Salvador de Jujuy, foi promovida a primeira oficina dedicada aos temas da anticoncepção e do aborto, que até então eram debatidos de forma integrada às questões de saúde e sexualidade.

Antes de verdes, os lenços eram lilás. Numa conferência que ocorreu na Sede das Nações Unidas em Nova Iorque em 2000, um grupo de feministas das quais fazia parte Marta Alanis utilizou estes lenços para aumentar a visibilidade da luta pelos direitos reprodutivos. Depois desste evento, e pouco antes do 18.º Encontro Nacional de Mulheres, realizado em Rosário em 2003, as ativistas Marta Alanis e Susana Chiarotti tiveram uma conversa telefónica onde discutiram que côr melhor representaria a luta pelo direito à interrupção voluntária da gravidez. A cor lilás foi descartada pela sua relação com o feminismo mais abrangente, o amarelo por ser visto como a cor papal, o azul celeste pela sua associação com o nacionalismo e o branco por ser a côr das Mães da Praça de Maio. Decidiram-se, por esse motivo, pelo verde. A primeira utilização coletiva dos lenços verdes, deu-se no contexto da oficina “Estratégias para a legalização do aborto”, bem como a realização da primeira assembleia dedicada ao direito ao aborto; mulheres católicas, do grupo Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), distribuem lenços verdes e várias mulheres adicionam aos lenços palavras de ordem como: "legalização", "aborto", entre outras.miniaturadaimagem|259x259px|Símbolo da Campanha pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito na marcha do 8 de Março de 2018, em Buenos Aires, na Argentina.No encontro de 2004, em Mendoza, avançou-se na decisão de criar uma campanha nacional em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos. Em 14 de maio de 2005, uma reunião realizada em Córdova reuniu cerca de 70 feministas, culminando, em 28 de maio do mesmo ano, no lançamento da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito. A campanha adotou como estratégia central a apresentação de projetos de lei para a legalização do aborto, ampliando o debate público e institucional sobre o tema no país. Diversas ações foram realizadas em defesa da legalização do aborto e em apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade. Em 2015, emergiram movimentos como “Ni Una Menos” (“Nem uma a menos”), que organizou uma grande manifestação em 3 de junho em Buenos Aires. A mobilização contribuiu para fortalecer a atuação da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, ampliando a visibilidade da pauta no debate público.

O ano de 2018 foi um marco nessa luta. Em março, a campanha apresentou a oitava versão de seu projeto de lei, com o apoio de 71 deputados. Entre abril e junho, ocorreram as chamadas “martes verdes”, uma série de debates realizados às terças-feiras no Congresso Nacional da Argentina, reunindo diferentes gerações em defesa da legalização do aborto. Esse processo resultou na aprovação do projeto pela Câmara dos Deputados da Argentina, embora posteriormente tenha sido rejeitado pelo Senado da Argentina. Durante as votações, milhares de pessoas acompanharam as discussões nas ruas, demonstrando a ampla mobilização social.

Após sucessivas tentativas de aprovação, o projeto de legalização do aborto foi enviado novamente pelo então presidente Alberto Fernández ao Congresso argentino no final de 2020. Assim, em 30 de dezembro de 2020, foi aprovada a legalização do aborto no país, um marco que reforça a luta de mulheres e demais pessoas que gestam pelo direito de decidir sobre seus corpos. A lei estabelece a garantia da realização do procedimento com base no direito de escolha, reconhecendo não apenas como um direito das mulheres, mas também de outras identidades de gênero capazes de gestar, como homens trans. Trata-se de uma conquista importante no campo da diversidade de gênero e sexualidade, ao reconhecer o direito assegurado a todas as pessoas com útero.miniaturadaimagem|260x260px|Lenço verde em Lisboa, na manifestação do 8 de Março de 2024

Cabe destacar que a Argentina já possuía avanços significativos no campo dos direitos da população LGBTQIAP+, como a Lei de Matrimônio Igualitário (2010) e a Lei de Identidade de Gênero (2012). Ainda assim, o reconhecimento do direito à interrupção da gravidez por pessoas que gestam constitui um marco relevante para o debate sobre diversidade sexual e de gênero no país. A essa conquista soma-se o Decreto nº 123 de 2021, que sinaliza o reconhecimento e o fortalecimento das políticas de igualdade de gênero na Argentina. Em 2022, o Encontro Nacional de Mulheres passou a se denominar Encontro Plurinacional de Mulheres, Lésbicas, Trans, Travestis, Bissexuais, Intersexuais e Não Binárias, refletindo a ampliação dos sujeitos políticos envolvidos e das pautas articuladas pelo movimento.

Inspirado no Lenço Branco usado pelas Mães da Praça de Maio, as ativistas optaram pela cor verde, por esta representar a esperança e por não estar associada a nenhum movimento social ou político argentino. Além disso, a cor também possui um sentido político: o violeta já era associado ao feminismo, o laranja era utilizado pela Igreja, o vermelho por partidos políticos de esquerda e o azul pelo Partido Justicialista. Até mesmo o amarelo já havia sido apropriado por diferentes grupos. Nesse contexto, o verde surgiu como uma alternativa ainda não vinculada diretamente a uma identidade política específica, sendo mais comumente associado ao design de moda, especialmente ao chamado “verde Benetton”. O tom de verde usado está entre o 347 C e o 3415 C do sistema de cores da Pantone, passando a ser conhecido com "Verde aborto legal". O lenço contém a frase: "Educação sexual para decidir, anticoncepcional para não abortar, aborto legal para não morrer".

Popularização miniaturadaimagem|Manifestação pela legalização do Aborto em Florianópolis. Pouco a pouco o lenço foi-se tornando popular, utilizado nas manifestações Ni Una Menos atingiu a notoriedade pública em 2017, centenas de pessoas com lenços verdes estamparam capas de jornais e viralizaram nas redes sociais, evidenciando o lenço verde como um importante símbolo dessa luta. O movimento Me too, com a marcha "Um grito global pelo aborto legal" que teve lugar no dia 28 de setembro, tendo também conseguido uma ampla cobertura da parte dos meios de comunicação que falaram de uma "maré verde".

O lenço verde que é usado no pescoço, no pulso ou nas mochilas, é usado por celebridades e a Avôs da Praça de Maio também o adoptaram e usam-no nas suas manifestações semanais. Até 2018, a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal distribuía cerca de 8000 lenços por ano. Em 2018, foi distribuídos mais de 200.000. Como reação, o movimento antiaborto argentino criou o lenço azul claro, a favor das duas vidas. Internacionalização O Lenço Verde atravessa as fronteiras argentinas em 2018 e foi adoptado nos restantes países da América Latina pelos movimentos que lutam pelo direito ao aborto. No Chile, por exemplo, o lenço foi usado com as mensagens "Aborto livre, seguro e gratuito" e "NãoBastam3Causas", referindo-se ao facto de que só era permitido abortar, quando a vida da mãe estivesse em risco, o feto não fosse viável ou a gravidez resultasse de uma violação.

Em Espanha foi usado nas manifestações internacionais de apoio à Lei do Aborto na Argentina. Em 2020, após a aprovação do projeto da Lei sobre o aborto em Espanha, a Ministra da Igualdade Irene Montero, compareceu a uma conferência de imprensa com o lenço no braço. Dois anos mais tarde, o Lenço Verde foi usado nos Estados Unidos da América, nas manifestações em defesa do direito ao aborto, contra a anulação do caso Roe vs Wade. miniaturadaimagem|301x301px|Manifestação "Nem presa nem morta", pela legalização do Aborto em Florianópolis No Brasil, organizações engajadas na promoção da justiça reprodutiva também têm mobilizado o símbolo do lenço verde em diferentes contextos culturaisc. Durante o Carnaval de 2024, por exemplo, essas organizações distribuíram lenços verdes com o objetivo de evidenciar a crescente mobilização da chamada Maré Verde no país. Os lenços, personalizados especialmente para o período festivo, foram enviados para diversos estados brasileiros e traziam mensagens como “Nem presa nem morta”, em referência à campanha lançada em 2018, e “Direito ao nosso corpo, legalizar o aborto!”.

A campanha "Nem Presa Nem Morta" atua no campo da comunicação e da incidência política em defesa do direito ao aborto no Brasil. Seu foco está na promoção da justiça reprodutiva, na descriminalização e legalização do aborto e na defesa do direito de decidir sobre o próprio corpo e a própria vida.

Criada em 2018 como uma iniciativa coletiva durante o Festival pela Vida das Mulheres, a campanha surgiu com o objetivo de incidir no julgamento da ADPF 442 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ação que propõe a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Desde então, a campanha permanece ativa na disputa de narrativas, no enfrentamento aos estigmas associados ao aborto e na mobilização social para ampliar o debate público sobre o tema e sobre a justiça reprodutiva no país.

Lenço verde como símbolo de luta

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