miniaturadaimagem|Distribuição geográfica das brigadas criadas pela reorganização (1982) A reorganização do Exército Brasileiro na ditadura militar (1964–1985) centrou sua ordem de batalha nas brigadas e elevou seu nível tecnológico. Foi realizada quando os militares eram poder dirigente no país, interessados no poderio das Forças Armadas, mas os gastos militares relativos à população e economia não eram altos para o padrão mundial. As mudanças, ocorridas principalmente nos anos 70, elevaram o poder de combate do Exército, mas a derrota das Forças Armadas Argentinas na Guerra das Malvinas de 1982 levou à conclusão de que o Brasil estava defasado, inaugurando uma nova fase de reformas na Nova República com o plano Força Terrestre 90 e seus sucessores.

O país estava alinhado aos Estados Unidos na Guerra Fria, mas diminuiu sua dependência militar pelo desenvolvimento de uma doutrina militar e indústria bélica próprias e o rompimento do Acordo Militar em 1977. Houve tensões com a Argentina nos anos 70, posteriormente acalmadas. A maior preocupação na área de segurança era com a luta armada de esquerda, contra a qual surgiram unidades de contrainsurgência e órgãos de inteligência e repressão como os DOI-CODI. Ainda assim, as autoridades militares não abriam mão de desenvolver as capacidades de guerra convencional, como pode ser visto na expansão das forças mecanizadas e blindadas. Essa modernização era considerada fonte de legitimidade nacional e internacional.

As mudanças eram exigidas nos anos 60 por oficiais otimistas com as possibilidades econômicas e inconformados com a condição da força terrestre, tecnologicamente obsoleta e com organização inconsistente. As principais grandes unidades eram divisões desfalcadas e incompletas. Estudos no Estado-Maior do Exército produziram o Plano Diretor de 1970, após o qual as grandes unidades eram brigadas de infantaria e cavalaria coordenadas por Divisões de Exército. O escalão regimento deixou de existir na infantaria e artilharia. As divisões permaneceram subordinadas a quatro Exércitos e dois Comandos Militares, com as forças concentradas no Rio de Janeiro e na região Sul, mas houve uma expansão moderada na Amazônia e a criação de unidades especializadas na selva.

Até então, o Exército tinha tanto forças motorizadas, mecanizadas e blindadas quanto infantaria a pé e cavalaria hipomóvel; essas duas categorias foram muito reduzidas no período. As tropas foram reaparelhadas com novas armas leves, caminhões, carros de combate M41, blindados M113, EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu e obuseiros, incluindo artilharia autopropulsada. Organizavam-se em brigadas de infantaria (comum, motorizada, paraquedista e blindada) e cavalaria (mecanizada e blindada), cada qual com três a quatro batalhões de manobra junto a unidades de apoio de combate e logístico. O efetivo era de ao redor de 170.000 nos anos 70, chegando a 194.380 em 1985. A ordem de batalha à base de brigadas permanece em vigor no início do século XXI.

Contexto miniaturadaimagem|esquerda|Coluna militar durante manifestações em 1968 Na ditadura militar o poder político foi concentrado em “anéis” de tecnocratas das estatais, militares influentes no governo e representantes do grande capital, com os militares assumindo papel dirigente, exercido em prol dos interesses dominantes. Para manter a unidade corporativa, após o golpe de Estado de 1964 houve um expurgo dos militares dissidentes, alinhados ao governo deposto, mas nos anos seguintes surgiriam dissidências políticas de linha-dura, assim como tensões nos altos escalões, como a disputa entre o general-presidente Ernesto Geisel e o ministro do Exército Sílvio Frota.

O alto escalão reformou a progressão de carreira, condições de exercício das funções civis, direito a manifestações públicas e outras questões para afastar os escalões intermediários da política. Surgiu a proposta de unificar a direção política das três Armas em um ministério unificado, mas ela não teve sucesso e havia dissensões entre as Armas. O período também foi marcado pela ascensão do Serviço Nacional de Informações, com uma “comunidade de informações” derivada, mas autônoma, das Forças Armadas. O controle do Exército sobre as Polícias Militares foi reforçado, eliminando o poder bélico estadual remanescente, e as polícias reorientadas para o enfrentamento à guerrilha e manutenção da ordem pública.

Uma das prioridades do regime implantado em 1964 era a modernização das Forças Armadas. Por dados de 1982, os gastos com a defesa chegaram a 12% do orçamento naquele ano, após uma duplicação de 1974 a 1980. Entretanto, ao final dos anos 70 a pesada dívida pública limitava a demanda militar. Estimativas do SIPRI com dólares de 2018 indicam um pico de gastos em 1976, superado apenas em 1985, com gastos muito maiores nos anos seguintes. Por estimativas americanas, em 1977 os gastos militares per capita brasileiros eram metade dos argentinos, e baixos para o padrão mundial. Na América Latina como um todo, os orçamentos militares permaneceram baixos na Guerra Fria, mesmo com a tradição de governos militares.

A modernização foi em todas as três Armas. Na Marinha, a Armada e os Fuzileiros Navais tiveram avanços qualitativos, com a modernização do porta-aviões Minas Gerais, a desativação de algumas belonaves antigas e a produção das fragatas da classe Niterói nos estaleiros. Sua meta tecnológica era o submarino nuclear. A Força Aérea adquiriu do exterior os Mirage III e F-5E para superioridade aérea, constituiu os primeiros Cindacta e investiu no vetor de dupla finalidade Veículo Lançador de Satélites/míssil balístico.

A maximização do poderio militar foi ancorada num complexo militar-industrial. A capacidade produtiva ociosa das indústrias civis deveria reaparelhar as Forças Armadas. Universidades, órgãos de pesquisa militares e instituições financeiras estatais alimentaram a indústria bélica nacional. Até então pequena, tornou-se uma das mais sofisticadas do Terceiro Mundo, com um grande mercado exportador para outros países subdesenvolvidos. Surgiram as estatais Embraer, Emgepron e IMBEL. As três maiores do segmento foram a Embraer e as empresas privadas Engesa e Avibras. A participação do setor na economia nacional era muito pequena, e o mercado internacional de armas permanecia quase inteiramente ocupado pelos países industrializados. A expansão foi acompanhada por projetos como o programa nuclear; ele e o programa espacial tiveram destinos possíveis duais, podendo ser tanto civis quanto militares, e enfrentaram oposições externas, especialmente dos americanos.

A principal influência estrangeira no Exército vinha dos Estados Unidos desde a formação da Força Expedicionária Brasileira, tomando o lugar da antiga Missão Militar Francesa. No início do pós-guerra houve uma “fúria copiadora” da organização, equipamento (facilmente importado após o Acordo Militar de 1952), métodos e manuais americanos, a ponto das escolas militares ensinarem o emprego de unidades inexistentes no Brasil. Houve modernização, mas nos anos 50 surgiu insatisfação com a imitação de uma superpotência global, cujo modelo, como ressaltava o general Castelo Branco, era inadequado à realidade brasileira. Ao assumir a Presidência em 1964, Castelo Branco seguiu um alinhamento muito próximo aos Estados Unidos, mas nos governos seguintes houve certo distanciamento e o Brasil rompeu o Acordo Militar em 1977. Desejava-se uma doutrina militar “tupiniquim”, e nos anos 60 a demanda era considerada urgente, sendo finalmente concretizada, ou ao menos tendo suas bases, nas mudanças radicais efetuadas até os anos 70.

A guerra convencional e a contrainsurgência miniaturadaimagem|Armas e “material subversivo” apreendidos em 1964|esquerda Na Guerra Fria as Forças Armadas tinham ambições duplas, a segurança interna, conforme as necessidades dos americanos e do segmento no poder, e o Brasil Potência, com poderio militar. A perspectiva de uma guerra com os países vizinhos era remota nos anos 60. Sob influência americana, oficiais brasileiros imaginavam uma força expedicionária para uma guerra em outro continente. Por sua vez, no pós-guerra os americanos acreditavam que mecanismos como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca impediriam as guerras regionais, e as Forças Armadas latinoamericanas teriam maior importância interna. Oficiais brasileiros estudavam a “guerra revolucionária” desde os anos 50. Com o início da ditadura militar, as Forças Armadas propunham-se a suprimir o dissenso político. Nos anos 60 e 70, uma revolução comunista tornou-se a principal preocupação na área de defesa e segurança.

A ditadura foi confrontada pela luta armada de esquerda, reagindo duramente e construindo um aparelho de inteligência civil e militar. O Centro de Informações do Exército, criado em 1967, centralizou as informações obtidas pelas 2ªs seções dos Estados-Maiores, tomando espaço do Estado-Maior do Exército (EME) e constituindo uma estrutura politicamente importante paralela à cadeia de comando principal. O território foi dividido em Zonas de Defesa Interna, correspondentes aos Exércitos, e através delas os comandantes do Exército podiam recorrer a unidades da Marinha e Força Aérea. Eles contavam também com os novos DOI-CODI, organizações interagências nas quais a maioria do efetivo era de policiais.

O Plano Diretor de 1970 previa duas hipóteses, Alfa, uma guerra revolucionária na América Latina, e Beta, uma guerra entre os blocos ocidental e comunista. A hipótese Alfa era considerada a mais provável e tinha três variantes, a primeira em território nacional, segunda em outro país e terceira como mistura das duas, com uma possível ação ofensiva em território estrangeiro. Na hipótese Beta, o país contribuiria até um corpo de exército expedicionário ao bloco ocidental. A Brigada Paraquedista engajou-se na repressão à luta armada e formou comandos e forças especiais, e a criação das Brigadas de Infantaria de Selva também refletia preocupações internas. O tema era estudado nas escolas militares. O maior laboratório da contrainsurgência foi a Guerrilha do Araguaia (1972–1975).

miniaturadaimagem|Carro de combate M41 para guerra convencional Se viesse, o conflito externo teria como oponente a Argentina. As relações tornaram-se tensas nos anos 70, com uma preocupação argentina de fraqueza diante do Brasil no jogo de poder continental, mas de 1979 em diante houve uma aproximação diplomática. As tensões arrefeceram. Em 1971 o Brasil planejou uma intervenção armada nas eleições no Uruguai, a Operação Trinta Horas.

O combate numa grande guerra insurrecional teria consequências deletérias para o Exército, mas a vasta maioria das tropas não participaram da contrainsurgência. A fraqueza dos guerrilheiros não justificava o emprego de forças regulares em grande escala, e ele teve maus resultados quando foi tentado. A Doutrina de Segurança Nacional e a pressão da linha-dura favoreciam a segurança interna em detrimento da externa, mas os militares consideravam que uma força de guerra convencional poderia adaptar-se a uma guerra irregular, mas não o inverso. Os gastos com o reaparelhamento e a nova organização, especialmente em suas forças mecanizadas e blindadas, eram claramente voltados à guerra convencional. Apesar da rivalidade com a Argentina, o principal motivo era modernizar o Exército como parte da modernização do Estado, obtendo legitimidade nacional e internacional. Para ascender ao status de grande potência, como sonhavam as lideranças, era preciso um Exército à altura.

Processo das reformas Desenvolvimento do Plano de 1970 miniaturadaimagem|Presidente Emílio Garrastazu Médici inaugura um hospital militar|esquerda