Jamgön Ju Mipham, ou Ju Mipham Jamyang Namgyal Gyamtso (; mais conhecido como "Rinpoche Mipham" ou também Mipam, na transliteração THL) (1846–1912) foi um filósofo e polímata tibetano muito influente da escola Nyingma, a primeira escola budista no Tibete. Escreveu centenas de livros em mais de 32 volumes sobre temas como pintura, poética, escultura, alquimia, medicina, lógica, filosofia e tantra.Trungpa, Chogyam (2013). The Tantric Path of Indestructible Wakefulness (volume 3) As obras de Mipham ainda são centrais para o currículo escolar nos mosteiros nyingma hoje.Duckworth (2011), p. 46 Mipham também é considerado uma das principais figuras do movimento Ri-me (não sectário) no Tibete.Ray, Reginald A. (2002). Indestructible Truth: The Living Spirituality of Tibetan Buddhism. cap. 9.

Derivação do nome "Ju" ("segurando") era o nome da família de Mipham, pois seu clã paterno teria se originado como divindades de luz clara que vieram ao mundo humano segurando uma corda. "Jamgön" (sânscrito Mañjunātha) indicam que ele era considerado uma emanação do bodhisattva Mañjuśrī. Seu tio materno, Ministro-Lama Drupchok Pema Tarjay, nomeou-o Mipham Gyamtso ("Oceano Invencível" ou "Oceano Inconquistável").Pettit (1999), p. 24 Na literatura tibetana, a palavra "mi-pham" é a tradução padrão do sânscrito "ajita", que significa "invicto", que é um epíteto comum do bodhisattva celestial Maitreya.

Biografia Mipam, o Grande, nasceu em uma família aristocrática em 1846 no Principado de Derge de Kham ou Tibete Oriental. Filho de Mukpodongza Singcungma, sua mãe, e seu pai, Gönpo Dargye, era um renomado médico (de quem provavelmente Mipham recebeu algum treinamento em ciências durante sua juventude).

Ele foi reconhecido como uma criança excepcional desde tenra idade, memorizando textos desde os seis anos de idade. Aos dez anos já havia composto muitos textos. Aos doze anos, entrou no mosteiro como um monge comum da linhagem Ogmin Urgyen Mindrolling em um mosteiro filial da grande sede nyingma Shechen.

Quando ele tinha quinze ou dezesseis anos, depois de estudar o muito difícil sistema Mindrolling de cantar por apenas alguns dias e orar a Manjushri, diz-se que ele o dominou completamente. Em um retiro de 18 meses no Eremitério Junyung, ele realizou a forma de Manjushri conhecida como "Leão dos Filósofos" (em tibetano: smra ba'i seng ge), usando uma liturgia composta pelo décimo quinto Karmapa, Khakhyab Dorje. Ele fez muitas pílulas medicinais abençoadas com o mantra de Manjushri, e muitos sinais milagrosos teriam se manifestado. Depois disso, foi dito que ele poderia realizar qualquer sutra ou tantra sem nenhum esforço, e nenhum texto era desconhecido para ele. Ele foi a muitos lamas para obter os lungs (transmissões orais) necessários, mas não precisava de estudo ou ensinamentos para nenhum texto.Goodman, Steven (1981). "Mi-pham rgya mtsho: An Account of His life, the Printing of His Works, and the Structure of His Treatise entitled mKhas pa'i tshul la 'jug pa'i sgo". Windhorse (I).

Em 1860, um conflito chamado Guerra Nyarong se iniciou com a invasão de Gönpo Namgyal em Derge, o que levou à fuga de Mipham em peregrinação ao Tibete Central, passando algum tempo no monastério guelupa Ganden.

Em 1909, mudou-se para o eremitério Tashi Belbarling, onde passou o resto da vida. Em alguns versos aos seus dias finais, ele confessa ter sofrido por 17 anos de uma doença debilitante: uma "grave moléstia dos canais energéticos" que o levou a experimentar "sofrimento intenso e ininterrupto". Mesmo doente, continuou altamente produtivo em seus escritos.

Ele foi uma figura incomum entre os eruditos budistas eminentes, pois ao nascer não foi considerado uma reencarnação reconhecida, mas após sua morte surgiram três diferentes alegadas linhagens reencarnatórias, uma de seu corpo, outra de sua fala e outra de sua mente (três vajras).

Professores Mipham foi "um luminar do renascimento Nyingma do século XIX e do movimento ecumênico Rimê, que começou na região de Kham, no leste do Tibete".Phuntsho (2005), p. 13 Como tal, ele recebeu ensinamentos de mestres de todas as linhagens Nyingma e Sarma. Seus gurus raízes foram Dza Patrul Rinpoche, de quem recebeu instruções sobre o Bodhicharyavatara e Dzogchen de Shantideva, e o renomado mestre Jamyang Khyentse Wangpo, de quem recebeu a transmissão das linhagens transmitidas oralmente, ou Kama, e reveladas ou Terma, e muitos outros ensinamentos. Durante suas viagens, estudou sob vários dos mais influentes professores da linhagem não-sectária, como Jamgön Kongtrul Lodrö Thayé; seus outros mestres foram Dzogchen Khenpo Padma Vajra; Lab Kyabgon Wangchen Gyerab Dorje; Jubon Jigme Dorje; Bumsar Geshe Ngawang Jungne e Ngor Ponlop Jamyang Loter Wangpo.Smith (2001), p. 230

Jamyang Khyentsé Wangpo foi a principal figura do movimento "não sectário" (Rimé) ao final do século XIX no Tibete oriental.Mipham. A Joia Opalescente, apresentada e traduzida por Arguillère, Stéphane (2004). Librairie Arthème Fayard. Ele especialmente considerava Mipham Rinpoche seu filho espiritualCornu, Philippe (2001). Dictionnaire encyclopédique du Bouddhisme. Éditions du Seuil. e foi ele quem o incitou a dar uma forma definitiva e perfeitamente coerente à doutrina da escola Nyingmapa. Mipham mostrou-se, na filosofia, o digno continuador de Rongdzom Tchökyi Zangpo e especialmente de Longchenpa (1308–1364), mas também utilizou o pensamento do filósofo indiano Shantarakshita (século VIII) e especialmente do grande pensador sakyapa Gorampa (1429–1489) para articular claramente o Maaiana, em particular o Madhyamaka, com as doutrinas tântricas e Dzogchen dos Nyingmapa.Comentário de Nyoshül Khenpo Rinpoché, traduzido e comentado por Arguillère, Stéphane (2000). Le chant d’illusion et autres poèmes. Gallimard. De fato, Stéphane Argullère escreve:"Mipham foi inspirado por Longchen Rabjam [para] a visão última [...] pois que ele visivelmente considerou os tratados deste autor, como o Tesouro do Elemento RealStéphane Arguillère traduziu essa obra maior sob o título Le Trésor de Joyaux de l'élément réel dans la Profusion de la vaste sphère, Longchenpa, sa vie, son œuvre, sa doctrine. Peeters Publishers, Louvain, 2007 . [o segundo Dzödun de Longchenpa] como o "nec plus ultra" do pensamento de contemplaçãoMip'am Rinpoché, Nor-bu ke-ta-ka, traduzido e comentado por Arguillère, Stéphane (2004), L'opalescent joyau. Librairie Arthème Fayard. p. 18.. [No entanto], Mipham [não é] fiel à letra de Longchenpa em sua interpretação do Madhyamaka: ele vai muito mais longe do que seu predecessor distante no sentido de uma quase fusão do Madhyamaka e Dzogchen"Mip'am Rinpoché, Nor-bu ke-ta-ka, traduzido e comentado por Arguillère, Stéphane (2004), L'opalescent joyau. Librairie Arthème Fayard. p. 18-19.E ele acrescenta:"Mipham como intérprete do Madhyamaka; é em grande parte fiel ao pensamento de GorampaMip'am Rinpoché, Nor-bu ke-ta-ka, traduzido e comentado por Arguillère, Stéphane (2004), L'opalescent joyau. Librairie Arthème Fayard. p. 35.. [...] Em vários pontos, Mip'am Rinpoche retoma, de fato, quase até a paráfrase, as objeções levantadas por Gorampa [...] contra a doutrina de Tsongkhapa (1357-1419)."Mip'am Rinpoché, Nor-bu ke-ta-ka, traduzido e comentado por Arguillère, Stéphane (2004), L'opalescent joyau. Librairie Arthème Fayard. p. 33.

Filosofia Um tema-chave no trabalho filosófico de Mipham é a unidade de ideias aparentemente díspares, como dualidade e não-dualidade, sabedoria conceitual e não-conceitual (nirvikalpa), análise racional e meditação não fabricada,Duckworth, Douglas (2011). Jamgön Mipam. His Life and Teachings. Boston; Londres: Shambhala. p. 76. presença e ausência, imanência e transcendência, vacuidade e Natureza de Buda.Duckworth, Douglas Samuel (24 de outubro de 2016). Mipam on Buddha-Nature: The Ground of the Nyingma Tradition (em inglês). Albany: SUNY Press. p. xiii. Imitando as escolas sarma, Mipham tentou conciliar a visão do tantra, especialmente Dzogchen, com o sútrico Madiamaca.Koppl, Heidi (2008). Establishing Appearances as Divine. Snow Lion Publications. Isso estava em desacordo com a escola Nyingma, que geralmente posicionava a visão do tantra como superior à visão de Madhyamaka.

Mipham rebatia as tradições rangtong da Guelupa e Prasaṅgika do Madiamaca, que consideravam a Realidade Última apenas em absoluta negação (apofatismo) como sendo a Vacuidade em si sem existência hipostática, a qual por sua vez seria também um fenômeno como todos os outros, vazia e meramente objeto mental ou conceitual da linguagem. Ao contrário disso, Mipham afirmava que a Realidade Última como Vacuidade, em sua forma mais alta, não é simplesmente ausência de existência hipostática. Ele define essa última descrição como "realidade última notacional", adotando-a porém como um passo de superação de conceitos parciais extremos para permitir a "realidade última não notacional", como uma realidade livre de todas as fabricações e extremos, acima da existência e não-existência, negação e afirmação, vazio e não-vazio. A isso ele também denominou Grande Coalescência, Grande Caminho do Meio, Caminho do Meio Resultante e Igualdade.

Para Mipham, a unidade das visões filosóficas é finalmente resolvida no princípio da coalescência (sânscrito: yuganaddha, tib: zung 'jug), que é a não-dualidade das realidades convencionais e últimas, do samsara e do nirvana.Pettit, John W. (2002). Mipham's Beacon of Certainty: Illuminating the View of Dzogchen, the Great Perfection. Studies in Indian and Tibetan Buddhism (Volume II). p. 4. Ao contrário de Tsongkhapa, que sustentou que a vacuidade, como uma negação absoluta, era a realidade e a visão definitivas, Mipham vê a coalescência de gnose e vacuidade, forma e vacuidade, etc., como "a última pedra angular hermenêutica de suas interpretações".Pettit, John W. (2002). Mipham's Beacon of Certainty: Illuminating the View of Dzogchen, the Great Perfection. Studies in Indian and Tibetan Buddhism (Volume II). p. 131.

Em seus muitos textos, Mipham explora a tensão e a dialética que surge entre o raciocínio filosófico da mente comum (rnam shes) que é representada pela filosofia Madhyamaka e a sabedoria não-conceitual luminosa (ye shes), que é o foco dos ensinamentos do Dzogchen. Ele tenta uma síntese de ambos para mostrar que não são perspectivas incompatíveis e que os ensinamentos do Dzogchen estão de acordo com a razão.Duckworth, Douglas (2011). Jamgön Mipam. His Life and Teachings. Boston; Londres: Shambhala. p. 77.

Dois modelos das duas verdades Mipham desenvolveu um modelo duplo da doutrina budista das duas verdades. O primeiro modelo é a perspectiva tradicional madiamaca que apresenta as duas verdades da vacuidade e da aparência, com a vacuidade representando o nível da verdade última e a aparência representando a verdade relativa. Neste modelo as duas verdades são realmente a mesma realidade e são apenas conceitualmente distintas.Duckworth, Douglas (2011). Jamgön Mipam. His Life and Teachings. Boston; Londres: Shambhala. p. 78.

Em seu segundo modelo das duas verdades, Mipham apresenta uma verdade autêntica e uma verdade inautêntica. Experiência autêntica é qualquer percepção que esteja de acordo com a realidade (gnas snang mthun) e percepções que não estão de acordo com a realidade são consideradas inautênticas. Isso difere do primeiro modelo porque no primeiro modelo apenas a vacuidade é última, enquanto no segundo modelo a verdade última é a experiência meditativa da sabedoria unitária. Em vez de ser apenas uma negação, inclui o conteúdo subjetivo da cognição da sabedoria, bem como a natureza objetiva da realidade. Nesse modelo, a verdade última também é a realidade experimentada de forma não conceitual, sem dualidade e reificação, que no Dzogchen é denominada rigpa, enquanto a verdade relativa é a mente conceitual (sems).Duckworth, Douglas (2011). Jamgön Mipam. His Life and Teachings. Boston; Londres: Shambhala. p. 80-81.