Yhuri Cruz (1991, Rio de Janeiro, Brasil) é artista visual e escritor, graduado em Ciência Política (UNIRIO) e pós-graduado em Jornalismo cultural (UERJ). Trabalha com questões anticoloniais e raciais, promovendo a intersecção entre sua herança ética e estética familiar e as esferas institucionais e transgressoras do campo artístico. Suas produções se desenvolvem a partir de criações textuais, projetos performativos e instalações que entram em diálogo com o sistema de poder atual, críticas institucionais, relações de opressão racial, resgates subjetivos e violências sociais reprimidas ou não resolvidas.

Realiza o projeto Pretofagia, uma investigação da expansão contínua da subjetividade preta e sua emancipação, que conta com mais de cinco exposições-cenas participantes. Foi indicado ao Prêmio PIPA 2019 e venceu o IV Prêmio Reynaldo Roels Jr. em 2020 com sua obra O cavalo é levante: Monumento à Oxalá e axs trabalhadorxs.

Formação e Carreira

Yhuri Cruz iniciou sua formação em 2011 ao cursar Arte e Cultura no Centro Cultural Justiça Federal e em Imagem Cultural, uma escola particular do Rio de Janeiro. Em 2013 graduou-se em Ciência Política pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Em 2015 realizou pós-graduação em Jornalismo Cultural pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Em 2017 participou de dois cursos semestrais, Imersões Poéticas, pela Escola sem Sítio e Arte e Crítica, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Em 2018 participou do "Programa Formação e Deformação" e da "Cenas para outras linguagens", ambas formações fornecidas pela EAV Parque Lage. Como projeto final realizou a obra Monumento-documento à Presença e participa da 10ª Bienal Internacional de Arte Siart Bolívia: Los Orígenes de la Noche, em La Paz, Bolívia. Em 2019 cursou Filosofia Africana Contemporânea no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. No mesmo ano o artista realizou o projeto Pretofagia, resultado da residência artística realizada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e é indicado ao PIPA 2019.

Em 2020 venceu o IV Prêmio Reynaldo Roels Jr. com a obra O cavalo é levante: Monumento à Oxalá e axs trabalhadorxs. No mesmo ano participou do curso O tempo e a Quebra, juntamente com Jota Mombaça, durante a residência Pivô Pesquisa. Cursou Matrizes Africanas do Samba na Casa da Mukanda Cultural, centro cultural que realiza pesquisas, palestras e cursos sobre arte, educação e culturas afro-brasileiras e afro-diaspóricas. Também participa de dois cursos ministrados pelo Laboratório de Arte Contemporânea e Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Conflitualidade e Violência, Pele Negras, Máscaras Brancas: Frantz Fanon e Racismo e branquitude.

Seu trabalho consiste em promover a intersecção entre sua herança ética e estética familiar, anticolonialidades e esferas institucionais e transgressoras do campo artístico. Desenvolve sua prática artística e literária a partir de criações textuais, projetos performativos e instalações que entram em diálogo com o sistema de poder atual, críticas institucionais, relações de opressão racial, resgates subjetivos e violências sociais reprimidas ou não resolvidas.

Suas produções agem entre o fantasmagórico e o real e buscam representar o que o artista denomina de memórias subterrâneas e da necropolítica como plano colonial. As memórias coletivas e individuais das quais Yhuri se utiliza são tomadas como assombrações íntimas, fantasmas de traumas que atravessam o espaço e tempo constroem as formas canônicas e dissidentes de subjetividades e de sociabilidades. A partir de tais relações, sua produção escultórica comumente se materializa em pedras e gravuras, suas obras de caráter performativo e instalativo se relacionam com monumentos, presenças afrodiaspóricas, memoriais e informações silenciadas.

Obras selecionadas

Exposição-Cena e Performance Yhuri Cruz produz cenas dramatúrgicas que promovem encontros entre diferentes linguagens. Suas exposições-cenas, como o artista as nomeia, se apropriam de características do universo da performance e da peça teatral, apesar de não pertencerem inteiramente a nenhuma das duas categorias artísticas. Suas produções são uma combinação de desenho, texto, corpo, imagem, coreografia, canto, música, e se relacionam diretamente com o lugar expositivo em que se apresentam. O artista possui a memória como tema inicial para sua escrita e busca inventar novas lógicas e mitos que representem narrativas negras subvalorizadas.

Pretofagia (2019)

O termo Pretofagia surge em 2018 com a produção artística Nenhuma direção a não ser ao centro, de Yhuri Cruz. O conceito de torna carregado de uma energia combativa que investiga a expansão contínua da subjetividade preta e sua emancipação. Como exposição-cena, Pretofagia é a primeira produção do artista, realizada em 2019 no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro a partir de uma residência praticada no local. Durante a elaboração do projeto o espaço cultural foi local de construção de práticas coletivas, aulas e debates públicos. A exposição possuiu desenhos, objetos escultóricos e instalações, e todo o conjunto orbitava em torno de uma cena dramatúrgica performada em quatro atos, com a participação de Yhuri Cruz outros nove artistas convidados.

Pretofagia não se encerra com o fim da exposição, o trabalho se torna um conceito em processo e uma pesquisa conjunta que Yhuri realiza com diferentes profissionais do meio cultural, explorando os caminhos para o fortalecimento das subjetividades negras. Outros trabalhos expositivos como Farol Fun-Fun: Pangeia, A cova do escravo é a cidade e Anastácia como Vênus: Uma cena de tradução são algumas de suas produções que fazem parte do projeto Pretofagia, sendo chamadas de Cenas Pretofágicas.

A exposição-cena também se torna uma publicação gráfica no formato de impressos de alta circulação. Ao ser manuseado o objeto se assemelha com o jornal impresso, quando desdobrado se torna um livro aberto e seu verso possui a possibilidade de um lambe-lambe. São criadas seis variações externas da publicação que, quando unidas, compõem uma peça com mais de três metros de comprimento. +Ficha TécnicaExposição, texto e direção da cenaYhuri CruzArtistas-criadores da cenaAlex Reis, Caju Bezerra, Dani Câmara, Davi Pontes, Ellen Correa, Mayara Velozo, Nelson da Silva, Pedro Bento e Yhuri CruzCuradoria e assistênciaFernanda Carvalho e Marcelo CamposFotografiaAlex Reis, Bernardo Feitosa e Pedro LingerLocalCentro Municipal de Arte Hélio Oiticica - Rio de Janeiro Farol Fun-Fun: Pangeia (2019)

Seguindo com a pesquisa Pretofagia Yhuri Cruz cria uma segunda exposição-cena, Farol Fun-Fun: Pangeia, performada no Museu da República, no Rio de Janeiro. A cena é uma representação audiovisual do conto Farol Fun-Fun, escrito pelo artista.

O conto retrata a criação do universo e os primeiros desenhos feitos pelo personagem Tempo, e teve como inspiração as histórias de Nanã e Oxalá, orixás primordiais das religiões afro-brasileiras. No conto, as personagens Tempo, Escura e Farol Fun-Fun são responsáveis pela escrita do que se entende hoje como vida e imagem. A performance tem o intuito de representar a ritualização de objetos de arte enquanto trabalha-se com a lógica de autonomia, incorportação e encorpação das subjetividades do indivíduo.A encenação de Farol Fun-Fun rendeu a criação do objeto escultório Pangeia, um tríptico em granito que se completa com a finalização da performance e possui forte relação com a cena retratada. Assim como em Pretofagia, Farol Fun-Fun também conta com a participação dos Pretusis, da série de máscaras de granito que são acionadas pelos personagens durante a apresentação. +Ficha TécnicaExposição, texto e direção de cenaYhuri CruzArtistas-criadores da cenaTatiana Henrique e Yhuri CruzAssistênciaAlex ReisFotografiaAlex Reis e Luiz BaltaLocalMuseu da República - Rio de Janeiro O cavalo é levante: Monumento a Oxalá e axs trabalhadorxs (2019)

É uma instalação de arte realizada em espaço público inspirada no poema do artista "Eu cavalgo em campos de mármore", de 2018. A obra completa consiste na performance diáspora, construção do monumento e distribuição de canjica ao fim do processo.

O cavalo é tomado como um código multicultural dentro da cultura afro-brasileira e possui forte significados para a população. A escolha do animal na obra procura traçar paralelos entre os significantes dos cavalos presentes em monumentos coloniais e pós-coloniais como reforço ao poderio militar, as concepções ideológicas que as bandeiras de tais monumentos trazem e o cavalo como representação do humano como canalizador de entidades pertencentes às religiões de matrizes africanas e afro-brasileiras. As entidades representadas na obra são Oxalá e o próprio trabalhador, que é reconhecido como agente espiritual do espaço social.

Yhuri Cruz, juntamente com amigos e familiares realiza uma caminhada carregando bandeiras pela cidade do Rio de Janeiro, partindo do bairro Olaria, onde o artista cresceu, até o Campo de Santana, parque localizado no centro da cidade, local em que constroem o monumento e distribuem canjica à população. A escolha do Campo de Santana como o espaço de construção da obra está relacionada com as memórias e histórias de tal espaço, que no período escravista era local de tortura pública às pessoas negras, de passeio público no período republicano e, no século XXI, é uma região onde se encontram pessoas em situação de rua e passagem diária de trabalhadores que se utilizam da Central do Brasil. +Ficha TécnicaConcepçãoYhuri CruzColaboraçãoAmigos e familiaresLogística e assistênciaAlex Reis e Fernanda CarvalhoFotografiaJéssica SenraLocalRio de Janeiro A cova do escravo é a cidade (2020)

Cena concebida dentro da pesquisa Pretofagia de Yhuri Cruz, produzida a partir do poema homônimo escrito em 2019 pelo artista. A Cova do escravo é a cidade foi encenada no Solar dos Abacaxis, no início de 2020. A performance, que une cena e canto, retrata uma história de um retorno mal assombrado, uma história de fantasma e vingança, cujo lugar e tempo estão inseridos diretamente no passado colonial.

O poema retrata a vida de um homem escravizado, no século XIX, que trabalha em uma fazenda de cana-de-açúcar e frequentemente ouve uma música racista ser tocada pela família branca em suas celebrações. A partir do trauma sonoro, o homem atravessa o tempo histórico e assombra os brancos vivos da atualidade, evocando a fantasmagoria colonial não digerida e apontando sua permanência no presente. A cova do escravo é a cidade compreende o terror e o suspense como categoria estética possível de fabulação e empoderamento negro.

Para a cena são criadas mais duas máscaras de pedra da série PRETUSI, utilizadas primeiramente na cena Pretofagia. +Ficha TécnicaConcepção, texto e direção de cenaYhuri CruzArtistas-Criadores da cenaAlex Reis, Clara Anastácia, Dani Câmara, Jade Zimbra, Leo Morais, Nelson da Silva e Yhuri CruzMúsicaLeo MoraisFotografiaGabrielle dos SantosLocalSolar dos Abacaxis - Rio de Janeiro Anastácia como Vênus - Uma cena tradução (2020)

Durante a pandemia de COVID-19 Yhuri Cruz participa de uma web residência no Pivô Pesquisa, em que realiza um estudo dramatúrgico voltado à arte negra e afro-diaspórica. O projeto resulta na live-cena Anastácia como Vênus - Uma cena tradução, que é elaborada a partir de uma tradução não-oficial do artista para o artigo "Venus in two acts", da autora estadunidense Saidiya Hartman.

A cena é composta por Yhuri Cruz, Caju Bezerra, Iagor Peres e Jade Zimbra em uma conferência virtual, onde engajam em ações como canto, debates e edição de arquivos digitais com o intuito de aproximar a figura de Anastácia, ícone histórico e religioso afro-brasileiro, à figura de Vênus, um fantasma do arquivo da escravidão investigada por Hartman, a fim de exercitar uma fabulação crítica das duas mulheres.