Os áudios de Arthur do Val se referem aos áudios enviados pelo político Arthur do Val, mais conhecido como "Mamãe Falei", a um grupo de amigos, durante uma viagem à fronteira da Ucrânia no contexto da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Nos áudios, Arthur fez declarações consideradas sexistas e machistas, a mais notável delas afirmando que "[ucranianas] são fáceis porque são pobres". Os áudios foram vazados ao jornal Metrópoles e logo tiveram ampla repercussão na mídia, além do repúdio de diversas organizações e personalidades, incluindo o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Após o caso, Arthur retirou sua pré-candidatura ao governo de São Paulo. Após a aprovação do processo de cassação de seu mandato no Conselho de Ética, ele renunciou ao cargo de deputado estadual por São Paulo no dia 20 de abril. Mesmo após a renúncia, teve seu mandato cassado.

Contexto 180px|right|thumb|Arthur do Val em 2019 Viagem à fronteira da Ucrânia No final de fevereiro de 2022, Arthur do Val e Renan Santos, coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), gravaram um vídeo ainda no aeroporto de Frankfurt anunciando sua ida à fronteira da Eslováquia com a Ucrânia, com o objetivo de acompanhar de perto a invasão russa ao país. Eles afirmaram ter custeado a viagem com recursos próprios e criticaram a posição de neutralidade defendida por Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva diante do conflito. A dupla foi criticada na internet, incluindo pelo Senador da República, Flávio Bolsonaro.

Durante a estadia, o grupo lançou uma campanha de arrecadação de fundos, reunindo 2.653 doações entre 1º e 4 de março e totalizando R$ 275.366,20. A proposta inicial era adquirir suprimentos diretamente na região e repassá-los a organizações humanitárias atuantes no leste europeu. Entre os materiais comprados, segundo notas fiscais divulgadas pelo movimento, estavam bandagens, curativos, antissépticos, kits de primeiros socorros, lanternas, roupas térmicas, além de gastos com combustível para veículos que transportavam refugiados da Ucrânia para a Eslováquia. Em 8 de março, publicou um documento de 25 páginas intitulado “Missão Ucrânia – prestação de contas”, no qual informou que, do total arrecadado, cerca de R$ 40 mil foram destinados às compras realizadas na região de fronteira. Após a divulgação dos áudios, o MBL revisou sua decisão inicial de reter os valores arrecadados para futura transferência a organizações humanitárias na Ucrânia e decidiu encerrar a “Missão Ucrânia”. Com isso, a maior parte dos recursos — R$ 211.829,58 — foi destinada imediatamente à Representação Central Ucraniano-Brasileira, entidade indicada pela embaixada da Ucrânia para receber contribuições.

Áudios Enquanto Arthur voltava ao Brasil de sua viagem à fronteira da Ucrânia, em um furo jornalístico de Gustavo Zucchi, publicado no dia 4 de março pelo colunista do Metrópoles Igor Gadelha, foram vazados áudios de Arthur, onde ele faz diversos comentários machistas, dizendo, por exemplo, que ucranianas "são fáceis porque são pobres", e que usava seu número de seguidores para atrai-las. Alegou que fila de refugiados teria mais mulheres bonitas do que a "melhor balada do Brasil", e que encontrou "doze policiais deusas, que você casa e faz tudo que ela quiser [...] quatro dessas eram minas que, você, se ela cagar, você limpa o cu dela com a língua". Finalizou dizendo que pretendia voltar ao país após a guerra. Arthur alega ainda que Renan Santos viajava pelos países europeus "só pra pegar loira".

Transcrição

Repercussão O fato foi amplamente noticiado em diversos jornais, e teve repercussão internacional. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, classificou a fala como "tão asquerosa que nem merece comentário". A deputada Mônica Seixas, do PSOL, afirmou que, se a autoria dos áudios fosse comprovada, pediria a cassação do mandato de Arthur: "Quebra grave de decoro, além de violência de gênero com as mulheres ucranianas". Sergio Moro, que tinha apoiado a viagem de Arthur e era seu aliado político, lamentou o ocorrido e pediu posicionamento rápido do partido, dizendo que tem "uma vida pautada pela correção e pelo respeito a todos — tanto no campo público quanto na vida privada". Guilherme Boulos disse que "ir a um país em guerra para assediar mulheres desesperadas é nojento demais". O governador de São Paulo, João Doria, considerou o ocorrido "repudiante", "inaceitável" e "vergonhoso". O vereador Fernando Holiday, ex-integrante do MBL, disse: "As declarações atribuídas a Arthur do Val são deploráveis e injustificáveis". Fernando Haddad ironizou, dizendo: "Outra gafe verbal, Moro?" O MBL decidiu se desfiliar do Podemos, mas continuaram a apoiar a pré-candidatura de Moro nas eleições de 2022.

A cúpula do Movimento Brasil Livre disse que analisaria os áudios. O Podemos, em nota assinada pela presidente da sigla, Renata Abreu, classificou as falas como "gravíssimas e inaceitáveis", e anunciou a abertura de um procedimento disciplinar interno que investigaria o caso. A Secretaria da Mulher escreveu uma nota de repúdio "pelas declarações ofensivas e desrespeitosas às mulheres ucranianas e brasileiras", e disse que acionaria "os órgãos responsáveis, inclusive a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, para que sejam tomadas todas as providências cabíveis". O senador Humberto Costa, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, afirmou que pretende convocar o deputado "para explicar as declarações misóginas, machistas e atentatórias à dignidade humana". Eduardo Bolsonaro disse que acionaria o Ministério Público contra Arthur. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, comentou que pediria a "cassação imediata" do mandato do deputado, chamando-o de "nojento", "baixo" e "sujo", e classificando as falas como "horripilantes".

A deputada estadual Isa Penna alegou que recebeu uma ligação de Arthur "para saber o quão fodido ele está": "eu não só disse que eu acho que o áudio dele é escroto, como disse que acho que tá muito ferrado", e afirmou que entraria com uma representação jurídica contra o deputado. O deputado estadual Paulo Fiorilo escreveu que a situação é "inaceitável e inacreditável", e a deputada federal Carla Zambelli disse que o comportamento de Arthur foi "vil e cruel". A deputada federal Sâmia Bomfim afirmou que do Val "objetifica mulheres" e saiu do Brasil para ganhar "likes", chamando-o de "machista asqueroso". A deputada federal Jandira Feghali declarou que os áudios são "estarrecedores", e que causam "nojo, indignação, repulsa". O presidente do Partido Socialismo e Liberdade, Juliano Medeiros, pediu a cassação do mandato do Arthur. Gil Diniz disse que o deputado é "sem caráter, um anão físico e moral", e Janaina Paschoal afirmou que o caso é "revoltante" e "triste". O senador e líder do Cidadania, Alessandro Vieira, também criticou a fala, chamando-o de "exibicionista". A deputada estadual Marina Helou, do Rede Sustentabilidade, classificou o episódio como uma "afronta" a todas as mulheres. Segundo ela, não se tratam apenas de "declarações infelizes", mas de um exemplo "cru" do patriarcado.

O vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues, chamou o episódio de "repugnante e inaceitável, por todas as razões, sobretudo de ordem humanitária. Atitude típica de delinquente", e chamou Arthur de "abjeto, nojento, totalmente sem escrúpulos, sem moral ou humanidade!" Políticos do partido de Arthur, o Podemos, pediram a expulsão de Arthur. O senador Alvaro Dias declarou: "Minha posição é de pedir a ele que se desligue do partido e, se não concordar, que se decida pela expulsão". O deputado José Nelto afirmou que "ele vai pagar o preço", e que "o melhor para ele agora é pedir para sair do partido imediatamente para não ser expulso". A ex-embaixatriz da Ucrânia Fabiana Tronenko pediu a cassação do mandato de Arthur, e chamou-o de "cretino" e "vagabundo". O encarregado de negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Anatoliy Tkach, qualificou os comentários como "inaceitáveis". A Representação Central Ucraniana-Brasileira pediu ao presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Carlão Pignatari, a cassação do mandato de Arthur. A Sociedade Ucraniana do Brasil afirmou que os áudios ofendem "não só as mulheres que foram citadas, mas a todas. Atinge também nossa origem e história". O jornalista Jamil Chade escreveu uma carta para Arthur em sua coluna no UOL, sobre "a condição feminina na guerra e na paz", onde comenta sobre o que viu em campos de refugiados e o desespero dessas pessoas. A namorada de Arthur, Giulia Blagitz, anunciou o término da relação em suas redes sociais.

No dia 7 de março, o âncora e apresentador do Jornal da Band, Eduardo Oinegue, pronunciou-se sobre o caso dizendo que:

Internacionalmente, Arthur do Val foi ameaçado por grupos extremistas ucranianos. O jornal Folha de S.Paulo chegou a produzir uma reportagem sobre o tema, mas posteriormente decidiu tirá-la do ar alegando que não haveria interesse público para justificar a publicação das ameaças.

Resposta No dia seguinte, ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, Arthur do Val confirmou a autoria dos áudios, dizendo que estava errado, que aquele não era seu pensamento e que sua fala "foi um erro, em momento de empolgação". Ele alegou que "houve um mal entendido" e que as "pessoas estão misturando os áudios com outro contexto": "Eu fui fazer uma coisa, mandei um áudio infeliz e a impressão que passou é que fui fazer outra coisa". Logo depois, publicou em seu canal um pedido de desculpas, e anunciou que estaria retirando sua candidatura ao governo de São Paulo. No dia 6, Arthur publicou um vídeo de 28 minutos onde aparece comprando doações para os ucranianos ainda no lado da Eslováquia e entregando os suplementos já em território da Ucrânia, para rebater as críticas de que viajou para fazer turismo sexual, dizendo: "Falar que eu fui para lá para fazer turismo sexual ou outro tipo de coisa... Por favor, assista o vídeo e tire a sua própria conclusão". Em entrevista à Folha de S.Paulo, Arthur disse que decidiu se afastar do MBL.

Arthur apareceu no programa Domingo Espetacular, da RecordTV, no dia 13 de março, onde falou sobre a controvérsia, sendo entrevistado por Carolina Ferraz. Arthur reconheceu que deveria amadurecer e considerou os áudios como vergonhosos, mas comentou: "O que eu quis dizer é que os países que são mais pobres são mais acessíveis. E são mesmo". Ele alega que os pedidos de cassação foram uma "ferramenta que encontraram para acabar com um opositor político", e que já recebeu ameaças de morte.

Processo de cassação Logo após o vazamento, deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) disseram que acionariam o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, o que foi feito no dia 6. Quinze deputados estaduais assinaram uma representação contra Arthur, protocolada na Alesp, pedindo que o parlamentar seja investigado por cometimento de ato de quebra de decoro e responda a um processo disciplinar, resultando na perda de seu mandato. O documento diz: "Na condição de Deputados e Deputadas Estaduais, queremos registrar perante este Conselho de Ética e Decoro Parlamentar nosso repúdio ao teor sexista, misógino, indigno e violento dos áudios". No dia 7, todos os 21 pedidos contra Arthur foram unidos em apenas um. Caso seja decidido que Arthur será cassado, a decisão precisará ser aprovada pela Mesa Diretora da Casa e em seguida receber o voto da maioria dos deputados na Alesp.

Defesa prévia Paulo Henrique Franco Bueno, advogado de Arthur do Val, entregou a defesa prévia pedindo que a cassação do Arthur do Val não fosse admitida pelo colegiado por ser juridicamente impossível. A tese é baseada no livro Contra o Sistema da Corrupção, de Sergio Moro. Seus argumentos são: As mensagens foram vazadas ilegalmente Por terem sido enviadas em privado, as mensagens se enquadram em crime de opinião, que não é ilícito