Tu Metes Nojo foi uma banda portuguesa de impacto local, oriunda de Coimbra e praticante de um estilo musical insólito, designado Hard Nojo. Durante a segunda metade dos anos noventa, ganharam renome ao terem sido expulsos do palco principal das Festa das Latas da Academia de Coimbra. Dois dos seus membros (Bruhn e Tó Douglas) continuaram a carreira musical nas bandas Sean Riley & The Slowriders e d3ö.

Informações Gerais

Origem: Coimbra, Portugal Género: Hard Nojo Período de atividade: 1994-2005 Editora: Pexota Records Membros: Voz: Xano Maxi Lino Guitarra: António Suzete Estículos aka Tó Douglas Baixo: Óscar Alhinho aka Bruhn Bateria: Miraldinho Pro aka Miguel Fonseca Galhão aka Jim Morrison Mentor: Zé Guru (membro honorário) Membro Nojentis Causa: Papa João Paulo II

História

Os Too Metes Nojo surgiram em 1994 em Coimbra, no seio de uma das várias movidas musicais que atingiram a cidade durante o final dos anos oitenta e década de noventa. Podem considerar-se antecessores os grupos conimbricenses Objectos Perdidos ou M’as Foice, principalmente ao nível performático, no entanto a banda nasceu da onda punkbilly que alastrou em Coimbra devido ao culto em redor dos Tédio Boys. No início, os membros do combo ainda por formar não passavam de groupies da banda rockabilly Tom Kat. Em fevereiro de 1994, este grupo foi convidado para um festival de música moderna em S. Martinho do Bispo, nos arredores da cidade, um evento que também juntava os Vícius Corruptus e os Bispos Boémios. Entusiasmados com o fervor arruaceiro dos seus groupies, os Tom Kat desafiaram alguns deles a montarem uma banda no próprio dia do evento, convencendo a organização a inseri-la no cartaz de modo imprevisto, prescindindo de meia hora do seu tempo em palco para que o grupo subisse à ribalta.

Quatro destes groupies (Lino, Tó Douglas, Bruhn e Miraldinho Pro), bastante influenciados pelo movimento hardcore punk que grassava em simultâneo nos concertos do Centro Popular dos Trabalhadores de Celas (CPTC), aceitaram o desafio. Os espetáculos no Bairro de Celas, organizados pela produtora Arame Farpado, apresentavam com regularidade bandas oriundas do underground português e local, tais como Subcaos, X-Acto, Inkisição, Gato Morto, Foragidos da Placenta, Hud Sabão, DK Hard Jazz, Katacumba ou Toomates Noise. Foi na senda desta última banda, praticante de música rápida e engajada, que os Too Metes Nojo engendraram o trocadilho irónico do seu nome, na sequência de uma advertência enraivecida de um funcionário do Bingo da AAC/OAF, reciclada pelo espírito agitprop do mistagogo Zé Guru.

Na tarde do próprio dia do concerto inaugural, os Too Metes Nojo realizaram o seu primeiro ensaio na Rua do Brasil, no sótão da residência materna do fotógrafo André Cepeda, compondo “músicas” denominadas “Circuncizado”, “Nigger Pólo Aquático”, “São Cipriano”, “Deus flutua num rio de sangue” e o famosíssimo “Autocarro das 7”. Assim, inventaram um género musical único e irrepetível, ao qual sempre se mostraram fiéis – o Hard Nojo, sob o eterno lema “Only Tu Metes Nojo is pure Hard Nojo”. O concerto inicial dos Too Metes Nojo revelou-se um sucesso inesperado, levando o público a moshar impiedosamente. Apesar de inconcebível, talvez um dos aspetos que contribuiu para o êxito da banda foi a sua indumentária sempre peculiar, incluindo a curiosidade de todos os membros, durante as atuações, envergarem toucas de polo aquático (desporto praticado por todos à exceção do baterista).

O mito em redor dos Too Metes Nojo adensou-se logo no segundo espetáculo, dois meses após a estreia. Ao serem convidados pela Associação de Estudantes da Escola Secundária Quinta das Flores para um concerto, o estabelecimento de ensino foi invadido pelas hordas punk rock e rockabilly dos vários liceus de Coimbra, o que levou o Diretor do Conselho Diretivo a subir ao palco e desligar os amplificadores em plena atuação, visando impedir o mega-mosh que se instalara aquando da interpretação do tema Grindcore “Autocarro das 7”, hit instantâneo que entretanto já se tornara um hino à desobediência. A interrupção do concerto teve direito a discurso e repreensão: “Vão fazer essas danças para as discotecas, e levem esses cabelos em crista, botas da tropa e sapatos de sola alta de volta para as vossas escolas. Aqui não!”. Foi o início de um longo historial de concertos interrompidos e inacabados dos Too Metes Nojo. Ainda na primavera de 1994, aproveitando o hype entretanto avolumado, a banda, em conjunto com os Tom Kat, decide organizar um concerto no lendário CPTC.

A tribo da cena alternativa conimbricense encontrava-se curiosa com o surgimento de uma banda que agitava o meio musical, mas que não se enquadrava em nenhum estilo particular – o que gerou uma das maiores enchentes na sala diminuta de Celas… Rockers, punks, góticos, porkabillys, os frequentadores mais assíduos da discoteca States: todos experimentaram a força repulsiva do Hard Nojo, num concerto verdadeiramente inclassificável, uma encenação musical ultra-provocatória, recheada de apontamentos nojentos e arremesso de legumes, sonoridades deploráveis que saltitavam entre o nonsense mais absurdo (“Façam uma banda para ter prejuízo”) e o puro mau gosto (“Música rápida implica violência”). Neste âmbito, destacou-se a sequência de temas trash “Mensagem (profundíssima, longuíssima, 13 minutos)”, “Mensagem 2 – O Regresso do Nojo” e “Mensagem 3 – O Papa contra-ataca”. As múltiplas variações da “Mensagem” (na verdade uma breve homenagem ao tema "You Suffer” dos Napalm Death) tornaram-se imagem de marca da banda, passando a integrar o alinhamento de todos os concertos. Quanto ao tradicional arremesso de legumes, deveu-se ao escárnio dirigido ao fundamentalismo vegetariano Straight edge cultivado pela fação Punk Hardcore, chacota consubstanciada no aviso de Xano Maxi Lino à audiência: “Comam verdura para ficar com a piça dura!Black Rider (Blogger), Blogspot «sanguenanavalha» com referência às atuações dos Tu Metes Nojo no CPTC Consultado em 23 de outubro de 2021". Em consequência, o público, completamente enojado, ripostou com fortes apupos, tendo alcançando a posteridade as seguintes bocas escolhidas: “Fascista!” (23x, Afonso Pinto dos The Parkinsons), “Vai dar banho ao cão!” (Bebé, das Voodoo Dolls), “Cala-te ó peixeira” (Anónimo), “Marco Paulo!” (Abreu, groupie dos Tédio Boys), “O vocalista tem uma dicção horrível” (Laurie Anderson, desempregada). Conseguindo manter-se incólumes durante 27 minutos (fora os banhos de cerveja), os Too Metes Nojo foram finalmente banidos de cena, numa invasão de palco espontânea e repressiva dos espetadores indignados, liderados pela moicana implacável do Mota, vocalista dos Toomates Noise.

Ainda em 1994, seguiu-se a única atuação além-Coimbra dos Too Metes Nojo, no Cine-Teatro da Fuzeta, Algarve, a convite de Ramon Contreras, Psychobilly de gema. Este concerto, igualmente impresso nos anais do Nojo, desenrolou-se nos pressupostos anteriores, marcando o fim do ciclo iniciático da banda, visto que se tratou do derradeiro espetáculo no qual o grupo utilizou o nome original, alterado posteriormente para Tu Metes Nojo. Na avaliação deste evento, destacou-se o técnico de som da banda Iris (banda de Portugal), que, no final do concerto, apesar da delirante cover que os TMN engendraram para o mítico tema Surfin' Bird (Surfin’Ruben), teve o seguinte desabafo: “Que desgraça! O melhor P.A. do Algarve desperdiçado com estes fedelhos que não tocam a ponta de um corno!”.

Após um ano de interregno, a banda regressou ao ativo ao ser selecionada para um concurso de música moderna organizado pela Rádio Universidade de Coimbra, que montou uma tenda gigante para o efeito na Praça da República. Já absorvidos pelas fações punk e rockabilly da cidade, este concerto marcou uma viragem significativa no público-alvo da estética Hard Nojo: a comunidade estudantil universitária e o seu obsoleto Código da Praxe. Tratou-se de um concerto bastante intenso no plano performático, que serviu principalmente para integrar os Tu Metes Nojo no circuito dos eventos organizados pela RUC, uma rádio instrumentalizada pela banda no intuito de alcançar as massas alternativas conimbricenses, nomeadamente as que rumavam ao fabuloso espaço da Cave das Químicas.

Foi aí, em novembro de 1996, que os Tu Metes Nojo interpretaram a primeira versão do tema choque “Violador”, inspirado nos estupros que assolaram a população estudantil. Após o concerto na Praça da República, mais brando e virado para a comédia (com temas-gag como “Raspadinha” ou “Massacre aos vossos ouvidos”), na Cave das Químicas os Tu Metes Nojo passaram finalmente ao ataque, apresentando um tema no qual o vocalista Xano Maxi Lino, no seu estilo carismático digno de um Jello Biafra, se assumia como o verdadeiro violador de estudantes universitárias. Entre outras palhaçadas relevantes, destacaram-se por igual a movimentação surf em cima de uma tábua de engomar, a leitura amplificada e pormenorizada de panfletos dos hipermercados Continente, e, claro, o velho truque do nudismo em palco. Num ápice, o tema “Violador”, um blues distorcido mesclado num spoken word demente, atingiu o nº1 do Top Santos da Casa, programa da RUC dedicado exclusivamente ao rock nacional. Desta forma, após uma outra atuação no palco secundário da Queima das Fitas, na qual interpretaram uma segunda versão do “Violador” cada vez mais abrasiva relativamente ao Código da Praxe, chegou o momento fulcral na história dos Tu Metes Nojo: a legendária atuação na Festa das Latas de 1997, juntamente com Ruth Marlene e Quim Barreiros, evento que catapultou os Tu Metes Nojo para as repercussões perniciosas da fama.

Ainda hoje proliferam versões contraditórias sobre como foi possível a Comissão da DG/AAC ter escolhido os Tu Metes Nojo para animar a noite do cortejo da Latada de 1997: terá sido simplesmente um erro de casting? Será que os membros da Direção-Geral pretendiam dar oportunidade aos Tu Metes Nojo para se tornarem celebridades da música Pimba? Haveria alguma toupeira afeta ao Hard Nojo infiltrada na Comissão? Não seria evidente que os Tu Metes Nojo representavam um belíssimo cagalhão embrulhado? Teorias da conspiração à parte, a verdade é que, uma semana antes do evento e já com o cartaz divulgado, a Comissão da Latada convocou a banda para uma reunião informal. Nesse encontro, os Tu Metes Nojo foram informados que, pese embora o verdadeiro criminoso já tivesse sido detido, não seria permitida a interpretação do tema “Violador” devido ao conteúdo ofensivo relativamente às estudantes violadas. Finda a reunião, os membros dos TMN não queriam acreditar no ensejo: finalmente poderiam experimentar o Hard Nojo em grande escala, na razão mais profunda da sua existência – obter a máxima repugnância dos espetadores, levando-os a contemplar o asco da sua própria imagem enxovalhada.

Foi assim que a banda providenciou um raríssimo ensaio de garagem antes do concerto no palco principal da Latada, preparando um set poderosíssimo, destinado a colocar à prova a paciência e/ou a má-fé tanto do público estudantil como dos dirigentes associativos. A aposta interna dos membros da banda consistia, pura e simplesmente, em testar o tempo máximo que conseguiriam atuar sem ter o som cortado. Para isso, criaram uma versão do “Violador” ainda mais hostil para com o Código da Praxe e ultrajante q.b. em relação à cantora Ruth Marlene. Além do novo “Violador III”, obviamente selecionado para tema de abertura, foram “compostos” temas originais tais como “Goodbye English Cow (Homenagem à Princesa Diana)”, “José Cid em ácidos”, “Big Show Nojo (Medley)”, “Vamos todos aderir ao Plano Poupança Bacalhau” ou o tão aguardado “Quem nunca foi pedófilo que atire a primeira batata”.