miniaturadaimagem|Cena de O Pavilhão das Peônias, impressão de xilogravura de 1618. Figuras de árvores com raízes e ramos entrelaçados, além de pares de pássaros, também podem representar a natureza eterna do qing. O chamado "culto de qing" (literalmente, culto do amor, culto das emoções ou culto das paixões; , culto/religião/educação de "qing"; qing significando sentimento, emoção, paixão, ou especificamente nesse contexto afeição, amor) foi um nome dado por acadêmicos literários e historiadores culturais a uma tendência que emergiu na dinastia Ming tardia na China, apresentada no gênero literário até o período Qing, como um movimento que centralizava o qing como valor essencial e moral no drama e ficção, que formou uma corrente cultural de cunho existencial e proposta moral em que se valorizava o amor, sentimentalismo e subjetividade.

Esse ensino foi comparado como tendo semelhanças ao romantismo europeu e, na China do final do século XVI, ele impulsionou sentimentos individualistas e espontâneos, de valorização da amizade acima de laços familiares, como alternativa às convenções confucionistas de então, além de celebrar o conceito de companheirismo no casamento, precedido por relacionamentos amorosos de intelectualidade, beleza e relações de "almas gêmeas" românticas.

História A palavra qing para os chineses é polissêmica, ambígua e geral, pois denotou os mais variados afetos, desde a tristeza e raiva, até a alegria e ao amor, e mesmo as relações de tensão entre eles e seus conjuntos. Nisso, diversos confuncianos tiveram interpretações diferentes sobre ele, desde mais positivas até considerá-lo em conotações negativas, como sendo um estado da mente humana que levaria a ações moralmente suspeitas. Desde o confucianismo inicial, o qing era visto em relação a xing (natureza humana), como surgindo deste último, que seria um conceito essencial mais metafísico e estável, diferente da impulsividade e atividade de qing; discussões foram realizadas contrapondo ambos.

Feng Menglong (1574–1646) impulsionou na literatura a defesa desse conceito. Feng era um dos chamados "eremitas da cidade" ou "pessoas extraordinárias", considerados indivíduos excêntricos, pois eram eruditos que, no cenário de crescimento e mercantilização no Sul da China, não se inseriam como funcionários letrados em cargos oficiais através de exames da burocracia imperial e seguiam uma carreira literária independente; as intensas transformações econômicas e intercâmbio monetário propiciaram uma mudança de mentalidade, pelo colapso das relações hierárquicas com maior mobilidade social, uma complexificação dos desejos e a valorização da identidade. Essa nova perspectiva foi parcialmente promovida por literatos destituídos como uma tentativa de reinventar seu papel de elite, e o discurso do qing passou a ser apropriado também pelos próprios funcionários públicos como agenda de seu papel patriarcal na promoção de uma herança cultural confuciana.

O culto de qing revelava, assim, novas atitudes mentais dos literatos chineses, que visavam em suas obras intelectuais e filosóficas fornecer uma justificativa moral à emoção-desejo e sua situação cósmica no sistema de princípios, indicando sua importância vitalista como fonte da vida, reprodução e mesmo da virtude, uma atitude tal que contrastava com as normas e papéis da ortodoxia neoconfuciana. Feng, por exemplo, foi seguidor da Escola da Mente de Wang Yangming, um neoconfuciano heterodoxo que valorizava a subjetividade humana e defendia um individualismo em que a sabedoria era um potencial inato moral de qualquer pessoa, em união do Princípio Celestial e da natureza humana. Wang Yangming é considerado, portanto, um precursor intelectual dessa nova tendência que, diferente de outras vertentes do neoconfucionismo que viam suspeita no sentimento, não rejeitava qing.

O termo "culto de qing" surgiu parcialmente a partir de Feng Menglong, que eleva a emoção como força cósmica no prefácio à sua História do Amor (情史, qingshi):"Se o céu e a terra não tiver qing, nada pode ser gerado. Tudo em que falta qing é incapaz de iniciar qualquer coisa. A vida renova a vida para sempre, pois qing é uma força que nunca morre. ... Eu estabelecerei o culto do qing, para educar a todos no mundo"Há um trocadilho que Feng faz com "jiao", que significa tanto "culto" religioso quanto "cultivo" educativo. Feng via qing como modelo a ser cultivado em todas relações humanas, abrangendo desde vínculos de amantes a familiares, e entre o Imperador e súditos, como fundamento da estrutura hierárquica.

O Qingshi (História do Amor) de Feng é considerado por Paolo Santangelo uma "reflexão sobre o fenômeno do amor e como a tentativa mais ampla na China tradicional de rastrear as origens da pulsão reprodutiva e, em seguida, varrer suas formas culturais, incluindo as puramente hedonísticas, e suas várias reelaborações sobrenaturais". Feng nele afirmou a importância que dava à sensibilidade e compaixão:"Desde quando eu era jovem, fui dotado de uma sensibilidade obsessiva de sentimento. Quando encontro amigos, dedico-lhes a minha maior sinceridade, estando ao seu lado nos bons e nos maus momentos. Quando conheço alguém que está em grande perigo ou sofre extrema injustiça, procuro ao máximo ajudá-lo, mesmo que não nos conheçamos. E se meus esforços não são suficientes para aliviá-lo de sua situação, eu suspiro por dias, me jogando e revirando na minha cama em noites sem dormir. Sempre que encontro uma pessoa rica em emoções, imediatamente quero me curvar diante dela. Já com alguém que carece de emoção e cuja intenção e linguagem são opostas às minhas, sempre sinto a necessidade de tentar ensiná-lo indiretamente com meus sentimentos, desistindo apenas quando fica claro que ele não possui nenhum desejo em aceitá-los."

Feng propunha a função moralizante do desenvolvimento da emoção, que teria o efeito de:"transformar a pessoa de um estado insensível a um estado que tenha sentimentos... tornar os sentimentos privados em interesse público"Qing tornou-se, nesse contexto, um conceito central na filosofia do período Ming tardio e um dos mais importantes temas propostos na literatura da época como norma de como a vida deveria ser vivida idealmente. Para Feng, qing era "a condição essencial da vida humana ... o fio que liga juntas todas as coisas (nesse trecho, literalmente "moedas") espalhadas"."Intenciono estabelecer uma escola de qing e um vassalo se colocará em frente ao seu senhor com qing. Pode-se então deduzir as relações de todos os vários fenômenos a partir deste único ponto de vista. A miríade de coisas são como moedas espalhadas; qing é a corda que liga todas elas juntas. Quando as outrora espalhadas moedas são afinal enlaçadas, mesmo aqueles em extremidades opostas do mundo podem se tornar de uma família."Na tendência do culto de qing, o termo adquiriu uma conotação de sensibilidade estética que é exteriorizada em emoções, como no encantamento com coisas do mundo. No mesmo período Ming-Qing, vinculou-se também ao conceito de cai, o "talento poético", como visto também no gênero caizi jiaren ("jovem erudito-bela mulher"). Nesse tipo de romance, com um erudito e uma mulher bonita de protagonistas, é essa capacidade poética que permitiria a atração de amantes e realização de qing ("Apenas quando talento se encontra com talento, o amor brota entre ambos"), englobando-se os dois no conceito geral de caiqing (才情). Porém, apesar do movimento do culto de qing se caracterizar pela espontaneidade individual, intuição e expressividade emotiva, o gênero caizi jiaren tornou-se convencional e de padrão estereotipado. Com esse culto ao amor no período Ming tardio, a variedade semântica de qing foi reduzida e passou a ser mais associada ao amor e desejo entre homem e mulher―antes vista com suspeição ética na hierarquia tradicional de relacionamentos segundo o confucianismo (os Cinco Relacionamentos), o matrimônio foi elevado por alguns comentaristas ao lugar cardeal, devido à sua intensa emoção que supera outros vínculos afetivos. miniaturadaimagem|Prato de cerâmica com pintura do período Kangxi. Representa Liu Mengmei com o retrato de Du Liniang Tang Xianzu (1550–1616), discípulo do filósofo yangmingista Luo Ruofang, foi a figura central do culto de qing no período Ming tardio. Em seu O Pavilhão de Peônias considerava a natureza transbordante de qing contrária à razão e ordem (Li, o Princípio ou Rito), chegando a desafiar esta última: "o que não existe em razão, existe em qing". Ele fez uma proclamação que se tornou locus classicus referido depois por escritores sobre qing:"Não sabemos de onde o qing começa, mas ele vai profundo assim que começa. Qing pode matar o que está vivo e reviver o que está morto. Se não pode fazer alguém querer morrer ou ressuscitar o que está morto, então não é o qing supremo. E o amor que vem no sonho deve ser necessariamente irreal? Pois não faltam amantes dos sonhos neste mundo. Somente para aqueles cujo amor deve ser realizado no travesseiro e para quem o afeto se aprofunda somente após o afastamento do ofício é [o amor] inteiramente uma questão corpórea. ... Ai, nem todos os eventos neste mundo podem ser totalmente compreendidos por nós. Não sou um homem de pleno entendimento que pode explicar tudo em termos de razão/princípio (li). Nunca se sabe quando algo absolutamente impossível de acordo com li pode se tornar algo absolutamente possível de acordo com o amor"O escritor Zhang Qi, inspirado por Tang Xianzu, afirmou:"O homem é por natureza rico em qing; um homem sem qing não é um ser humano, sem nem mencionar que seja um homem supremo. Quando se torna uma força material, qing pode moldar o que se vê e ouve; pode aliviar o espírito e facilitar o raciocínio; pode tornar alguém alheio ao dia e à noite e insensível ao frio e à fome; permite chegar a todos os cantos do mundo e mover o céu e a terra; faz do homem o líder de todos os seres vivos; é a razão de tudo o seguinte: os que vivem estarem vivos, os falecidos estarem mortos, os vivos morrerem, os falecidos não terem que morrer e o esquecimento dos vivos de estarem vivendo. Sua presença e poder podem ser sentidos em todos os lugares"Qing passa a se apresentar então em dramas e novelas como um poder misterioso transcendendo as limitações de vida e morte, e seu culto é fomentado por mitos que remetem ao sobrenatural. Diferente do instinto dos animais, que, segundo Feng Menglong, mudam de acordo com as estações, os sentimentos humanos tornam-se imortalizados em criações poéticas. Diversas histórias nesse contexto apresentam por exemplo o símbolo da "árvore do amor mútuo" como aparecendo milagrosamente sobre a tumba de amantes, cujos galhos e raízes se entrelaçam. Outra ocorrência é o "sabor do amor", em que aparece uma fragrância divina como indicando a sublimação e sacralização do desejo.

O poema da dinastia Tang Canto da Tristeza Eterna (do ano 809) impactou sobre os escritores do movimento, em que seus versos de conclusão se tornaram um manifesto de qing: "Estar no Céu como pássaros de uma asa só, na Terra como galhos vinculados". Diretamente influenciada foi a peça O Palácio da Vida Eterna, pelo teatrólogo Hong Sheng (1645–1704), que também se inspirou em Tang Xianzu e teve papel importante no culto de qing. Ele escreveu que a origem de sua peça era "apenas qing".