Os Protestos em Cuba em 2021 foram uma série de manifestações populares contra o governo do Partido Comunista de Cuba. As manifestações foram motivados pela péssima situação econômica que o país atravessava, que levou à escassez de vários bens, como medicamentos e comida, e à ressurgência da pandemia de COVID-19, especialmente devido à variante Delta. O International Institute for the Study of Cuba (IISC) chamou os ocorridos de "os primeiros protestos antigoverno em Cuba desde o Maleconazo de 1994", enquanto jornais como o The Washington Post os chamaram de "as maiores manifestações antigoverno" ocorridas na ilha desde aquele evento.
As manifestações aconteceram no contexto de uma recessão econômica na ilha frente a pandemia de COVID-19, agravado pelo longo embargo dos Estados Unidos contra Cuba e o racionamento do regime cubano. As queixas da oposição cubana focavam-se na queda de qualidade de vida, escassez de eletricidade, mercearias vazias, uma economia em queda e um aumento do autoritarismo por parte do Estado. No primeiro dia dos protestos, as Forças de Segurança agiram de modo a desescalar a situação, dispersando as multidões. Houve, contudo, confrontos violentos entre os manifestantes, os apoiantes do governo e as autoridades, que levou a detenções. Os jornalistas da Associated Press relataram inicialmente vinte detidos, levados por viaturas de polícia ou indivíduos à paisana. Houve vários veículos policiais virados ao contrário e arremessamento de pedras. O governo cubano, liderado pelo presidente Miguel Díaz-Canel, respondeu convocando seus apoiadores às ruas e aumentando a presença militar nas ruas, enquanto culpava a maioria das mazelas que o país atravessa por ações dos Estados Unidos, embora tenha afirmado que também haviam falhado em lidar com a crise que a nação atravessava. Os serviços de internet foram, em grande parte, desativados, podendo ser acedida apenas através de VPN. No segundo dia, os protestos acalmaram em grande escala, salvo algumas exceções. Houve uma presença crescente da polícia na capital Havana e noutros locais, e houve comícios de apoio ao governo em numerosos sítios da ilha. Organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, condenaram o governo cubano, acusando-o de prisões arbitrárias e desaparecimentos de ativistas como método para coibir mais protestos contra o regime.
As primeiras reações internacionais demonstraram a divisão dos vários países do Mundo em termos das relações com Cuba. O governo acusou os Estados Unidos de estarem por detrás dos distúrbios, usando as mesmas táticas das chamadas Revoluções Coloridas. De acordo com o IISC, "os relatórios que recebemos dos nossos contatos na ilha sobre os acontecimentos apontam para a opinião de que a maioria dos participantes nos protestos não foram motivados por exigências políticas, mas sim pelos problemas económicos". A oposição cubana afirmou defender melhorias para a população e o fim do Estado comunista na ilha.
Causas O agravamento da pandemia da Covid-19 e a situação econômica em Cuba motivaram as marchas que ocorreram na capital e em outras cidades. A onda de sanções económicas impostas pelo governo de Donald Trump, dos Estados Unidos (EUA), em 2019 levaram a economia de Cuba a sofrer forte pressão. Tendo começado ano e meio após o começo da pandemia, após vários lockdowns, assim como o colapso do setor do turismo, do qual muitos cubanos dependiam, aumentou a ansiedade social, tendo estes sido atingidos mais fortemente. A reforma monetária que teve início no começo do ano também levou ao aumento da inflação, assim como ao retorno ao uso de moeda estrangeira, que é escassa, em transações de retalho. Em 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) de Cuba caiu 10.9%, e, na primeira metade de 2021, 2%, representando a maior recessão económica desde o Período Especial em Tempos de Paz. Além disso, houve um aumento substancial dos casos da variante Delta da COVID-19 em várias províncias. Apesar de ter havido uma boa gestão da pandemia em Cuba, e de, relativamente a outros países, a taxa de mortalidade ser muito baixa, o aumento dos casos e hospitalizações em regiões como a de Matanzas levou a uma ansiedade social generalizada. Até então, o programa de vacinação tinha alcançado 27% da população, e se espera que esta taxa cubra toda a população no final do ano. Outra causa que levou aos protestos foram apagões que ocorreram devido a um acidente numa central elétrica.Taylor, Adam (12 de julho de 2021). "How Cuba's compounding woes have fuelled discontent". . The Washington Post. Acessado em 15 de julho de 2021. A reparação demorou mais do que o normal, dado que a aquisição de peças, como resultado do agravamento do embargo económico dos Estados Unidos a Cuba, se tornou mais complicada. Estes acontecimentos com problemas elétricos remeteram à situação económica para aquela do Período Especial, que se deu após o fim do Bloco de Leste. A deterioração das condições econômicas levou a reduções no padrão de vida dos cubanos, escassez de alimentos e outros produtos básicos.Harrup, Anthony; Pérez, Santiago. (14 de julho de 2021). "What Is Happening in Cuba? Protests Grow Against the Communist Regime". . The Wall Street Journal. Acessado em 17 de julho de 2021.De Córdoba, José (12 de julho de 2021). "Cuban Protests Demand Freedom, Food, Covid-19 Vaccines". . The Wall Street Journal. Acessado em 15 de julho de 2021.
Promessas de reformas na economia, que segundo alguns analistas como Carmen Sesin eram necessárias, foram feitas mas tais mudanças nunca se concretizaram, em parte por causa das consequências da pandemia COVID-19, segundo o governo cubano, e acabaram sendo uma das causas do descontentamento, com o deterioramento econômico agravado pelo embargo estadunidense. De acordo com Pavel Vidal, um ex-economista do banco central cubano que leciona na Universidade Javeriana, na Colômbia, as reformas em Cuba "não dependem do embargo, e o embargo deve ser eliminado unilateralmente, independentemente das reformas em Cuba. Ambas causam problemas."
Altas cargas horárias, preços elevados dos produtos e a baixa qualidade de vida impulsionaram os protestos que vieram juntos com greves, assim fragilizando ainda mais a economia do país. Junto a crise econômica, manifestantes acusaram médicos de "negligência" durante o período de pandemia; já os médicos culparam a falta de repasse de verbas por parte do governo. O governo cubano se recusou a receber vacinas de COVID-19 do programa COVAX ou a comprar de outros países, optando por desenvolver sua própria vacina, a Soberana 02. Críticos no exterior descreveram o processo como atrasado e o lançamento da vacina como lento e disseram que isso irritou alguns cubanos e motivou seus pedidos de mais vacinas.
Os protestos foram precedidos por uma campanha coordenada nas redes sociais pela oposição cubana, tanto dentro como fora do país, pedindo uma "intervenção humanitária" através das hashtags "#SOSCuba" e "#SOSMatanzas", devido ao aumento de casos. Houve, em simultâneo, desinformação acerca do país não aceitar ajuda externa, que foi mais tarde clarificado pelo governo. O governo do Presidente dos EUA que sucedeu Donald Trump, Joe Biden, havia prometido voltar às políticas promovidas pelo antigo presidente, Barack Obama, de normalização das relações dos EUA e Cuba. Contudo, até então, não fez nenhuma alteração, continuando a haver pressão sobre os países que decidam ter comércio e investimentos em Cuba, e o forte embargo herdado da administração Trump permanece, apesar da pressão feita por empresas americanas e organizações da sociedade civil. Das medidas herdadas da administração anterior, a colocação de Cuba na lista de "países patrocinadores do terrorismo internacional" aumentou a dificuldade de Cuba usar nas suas transações o Dólar Americano e de remessas serem enviadas nesta moeda do exterior para pessoas dentro da ilha. O governo cubano tomou a medida de ilegalizar o uso desse Dólar na ilha, de modo a fazer com que remessas sejam enviadas ao país em outras moedas.
Protestos thumb|Manifestação contra o governo em Havana thumb|Imagem de um veículo policial cubano virado por manifestantes. miniaturadaimagem|Manifestantes pró-governo se reunindo em Cienfuegos. 11 de julho
Os primeiros protestos aconteceram na região de San Antonio de los Baños, no domingo de 11 de julho, a 36 kilómetros de Havana, e em Palma Soriano. Os manifestantes cantavam a canção "Patria y Vida", uma música que ficou popular entre os opositores do Castrismo. O Movimento San Isidro convocou um protesto na avenida Malecón habanero em Havana. Vídeos das manifestações mostraram milhares de pessoas gritando slogans como "Liberdade", "Abaixo com o Comunismo" e "Nós não temos medo". A rede de notícias Martí Noticias, da oposição, publicou vídeos com manifestações acontecendo, além da capital Havana, em várias regiões, como Santiago, Santa Clara, Ciego de Ávila, Camagüey, Bayamo, Guantánamo, San José de las Lajas, Holguín e Cárdenas. De acordo com Orlando Gutiérrez, um exilado dissidente da "Assembleia da Resistência Cubana", houve protestos em mais de quinze cidades e municípios em Cuba.
Forças policiais e militares agiram rápido para reprimir as manifestações. Em algumas regiões houve conflitos, feridos e presos, e diversos casos de saques a lojas estatais e vandalismo foram relatados. Vários veículos policiais foram virados ao contrário, e, às vezes, foram atiradas pedras. O governo cubano afirmou que os protestos são reflexo dos embargos econômicos dos Estados Unidos ainda na era Trump, em meio a pandemia, o que complicou a situação econômica do país. Também culpou "youtubers e influenciadores" de estarem infiltrados incitando a violência. O Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, disse que os protestos "foram vandalismo, não uma revolta social". O Presidente Miguel Díaz-Canel afirmou haver três tipos de manifestantes: "contrarrevolucionários, criminosos e aqueles com frustrações legítimas". A liderança política cubana acusou os manifestantes de serem financiados por agências do Governo dos Estados Unidos.
O Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, esteve presente nas ruas junto com outros representantes. No final da tarde, dirigiu-se à população, e, no seu discurso televisivo, recapitulou a crise económica, a pandemia, e as 243 sanções adicionais da administração Trump que não foram alteradas por Biden. Também falou em profundidade da escassez de medicamentos, peças sobressalentes e combustível para o fornecimento de energia. Sobre os apelos à ingerência humanitária, disse que "todos sabemos de onde vêm", e, interpelando os governo dos Estados Unidos, "[s]e quer realmente defender o povo cubano, deve remover o bloqueio — e depois veremos como faremos as coisas nós próprios". Em referência a um discurso de Raúl Castro, disse que "[v]amos marchar para provar que a rua pertence aos revolucionários", que o Estado está disposto a dialogar, mas também a participar nos eventos, e que "[n]ão abdicaremos da soberania ou independência da nossa nação. Para tal, terão de passar por cima dos nossos cadáveres". Após o discurso, o portal Cubadebate lançou como manchete: "[a] ordem de combate está dada, às ruas os revolucionários!". No mesmo dia, um grande número de apoiantes reuniu-se nas ruas do país. Houve alguns confrontos violentos entre os grupos e os manifestantes. A internet foi desativada maioritariamente desativada, e as redes sociais, assim como aplicações de mensagem, só eram acessíveis através de outros meios que não os convencionais. Durante a noite, vários contingentes das Forças Especiais da Polícia Nacional Revolucionária e do Ministério do Interior foram destacados para a capital Havana e outros locais.
12 de julho