Ione de Medeiros (Juiz de Fora, 18 de junho de 1942), é uma encenadora, pianista, pesquisadora de teatro, curadora, produtora cultural e arte educadora brasileira. É fundadora e diretora do Grupo Oficina Multimédia e idealizadora e coordenadora do Verão Arte Contemporânea.

Biografia Ione nasceu no dia 18 de junho de 1942 na cidade de Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais.

A cidade industrial, conhecida como Manchester Mineira e que se destacava pela sua arquitetura Art déco ainda presente em muitas de suas construções. Por isso, quando na adolescência conheceu Ouro Preto e sua arquitetura barroca, distante de sua realidade, ficou fascinada. Esse fascínio iria interferir diretamente em seu destino e em seu futuro como artista, instigando seu desejo de conhecer melhor outros aspectos culturais do país. Sua formação dividiu-se entre as cidades de Petrópolis e Juiz de Fora, onde fez o curso superior de piano, línguas neolatinas, e literatura francesa.

Começou a estudar piano com seis anos de idade com sua mãe. Estava destinada a uma carreira de solista, mas desde muito jovem, sentia o desejo de conhecer outras áreas da criação artística. Começou a se interessar pelo cinema num cineclube que frequentou nos anos 60 em Juiz de Fora. Coordenado pelo professor Pierre Merrigoux recém chegado da França, ali os estudantes conheciam a história do cinema, e assistiam aos primeiros filmes criados e aos novos que iam chegando com a Nouvelle Vague de François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais além de Ingmar Bergman e Luis Buñuel (Le Chien Andalou), todos cineastas ainda novos e produzindo filmes pouco codificados que começavam a reconfigurar a linguagem cinematográfica.

Chegando em BH nos anos 70, Ione foi direto para a FEA uma escola também inovadora, onde o ensino da música extrapolava a perspectiva estritamente sonora e abria espaço para uma conexão com outras linguagens artísticas onde ela pôde ampliar seus horizontes, e, ali se radicou como artista. Lá iniciou suas atividades como professora de iniciação musical para crianças e adolescentes, que mais tarde daria continuidade no Centro Pedagógico da UFMG.

Nos anos 70, seu encontro com o Festival de Inverno da UFMG, cuja fama já era conhecida pela diretora, antes mesmo de chegar em BH foi fundamental. Foram 15 anos de participação, onde ela vivenciou experiências como aluna, professora e coordenadora, que resultaram num grande aprendizado.

Em 1977, Rufo Herrera um compositor argentino também chegou em BH como professor do IX Festival de Inverno da UFMG. Era um músico que se radicara no Brasil e que queria fazer música cênica. Rufo criou em BH o Grupo Oficcina Multimédia do qual Ione participou dede o início, reunindo músicos, artistas plásticos e bailarinos. Foi um encontro definitivo para sua carreira. O que a levou para o teatro foi principalmente o desejo de viver uma experiência coletiva deixando para trás a carreira de instrumentista e diversificando sua atenção para as outras áreas da criação artística.

Quando, em 1980, Rufo quis voltar para o instrumento e para a orquestração não restou outra opção para a jovem artista; ou assumia o grupo ou essa historia terminaria ali, mas ela já não podia parar. Segundo seu depoimento, Ione de Mederiso não escolheu ser diretora, assumiu esta função para manter o Grupo e continuar no teatro. Sua experiência de palco resulta a partir de então destes 45 anos de atividades ininterruptas, divididos entre o período em que trabalhou com o Rufo (como atriz-musicista e assistente de direção) e o que começou a dirigir o Multimédia (1983) até hoje. A criação passou a fazer parte de sua rotina e se manifestou em experiências as mais diversas, no palco e fora dele. Existe uma soma de eventos que foram criados com sua participação, como o MAAV (Museu de Arte Viva), o Grupo Mandioca com Rim (com o artista plástico Estevão Machado e Paulo Santos, do Uakti, além de uma série de atividades alternativas realizadas com o Multimédia em espaços não convencionais, que nunca foram registradas, pouca gente viu ou conheceu, e que são considerados muito importantes para sua formação.

Belo Horizonte tornou-se uma cidade especial para a diretora, porque ali conheceu, Berenice Menegale, a FEA e o Rufo, que a ajudaram a radicalizar seu compromisso com as artes que antes ela apenas namorava à distância. Em BH nasceram seus dois filhos, Gilberto Medeiros (pós-doutor em física e professora do Curso de Ciências da Computação na UFMG) e Mônica Ribeiro, atriz-bailarina que aos 15 anos entrou para o Grupo e lá permaneceu durante oito anos, assumindo entre outras funções a de assistente de direção.

Hoje, Mônica é doutora em artes e pró-reitora adjunta de Ação Cultural da UFMG e professora do curso de graduação em Teatro da EBA/UFMG e continua mantendo a parceria com o GOM. Em BH Ione fez amigos, além de artistas criadores e técnicos que possibilitaram a continuidade de seu percurso. Aqui, em Belo Horizonte, ela diz "me reconheci como mineira e acredito que o fortalecimento desta identidade se transferiu diretamente para o meu trabalho artístico".

Depoimento de Mônica Ribeiro, filha de Ione de Medeiros:

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, existe uma rua de nome Outono. Lá tem uma casa que há mais de trinta anos é um “entra e sai”. São artistas.... dizem os vizinhos, curiosos com as figuras e impressionados com o fluxo. Artistas e cães foi, desde sempre, uma constante nessa casa, na qual, eu habitei por mais de trinta anos. Vi, senti e participei de boa  parte da história que esse livro conta. Desde os meus sete anos que diversas pessoas se reúnem na casa da rua Outono para ensaiar, planejar, discutir, festejar, trabalhar, reunir e produzir espetáculos. (...).

São muitas as ideias que ecoam (..). Dentre elas gostaria de rememorar algumas como: continuidade, persistência, construção de uma história, memória oral, processo de trocas, múltiplas perspectivas de uma transcrição, acreditar não acreditando, saber não sabendo, enfim, certezas provisórias...

Ione ainda pergunta, em um de seus cadernos de exercícios de rítmica corporal: “Quem é o dono?” E revela que o grupo é como um complô de revelações para transmitir uma ideia. “Comunicação”, ela insiste. (...)

Claro está que a decisão do caminho a seguir foi a muito tomada. Ione, como bem diz Marcelo Castilho [Avellar], não hesita ao fazer suas escolhas. Ela simplesmente não para e não vai parar. Caminha sabendo mais acerca do que não quer do que segura do que quer. No entanto, sei que ela sabe que está no caminho, um caminho escolhido por ela. Por tanto, possível de ser percorrido.Mônica Ribeiro é Atriz-bailarina, Doutora em Artes (UFMG), pró-reitora adjunta de Ação Cultural da UFMG e professora do Curso de Graduação em Teatro, da Licenciatura em Dança, a qual criou em parceria com a Profa. Dra. Lucia Pimentel e o Prof. Dr Arnaldo Alvarenga, da Pós em Artes da Escola de Belas Artes e no ProArtes, mestrado profissionalizante da UDESC.

Carreira Ao lado do compositor e bandoneonista Rufo Herrera, fundou o Grupo Oficcina Multimédia em 1977, no IX Festival de Inverno da UFMG. Mudou-se para Belo Horizonte em 1967 e tornou-se professora da Fundação de Educação Artística, em 1973 onde permaneceu até 1983. De 1984 a 1998 foi professora de música no Centro Pedagógico da UFMG e coordenou os Festivais de Inverno da UFMG (Infantil, de 1989 a 1992; e Jovem, de 1994 a 1998). A partir de 1983 deu início à sua pesquisa multimeios como diretora e encenadora à frente do Grupo Oficcina Multimédia. É considerada uma das diretoras teatrais em atividade mais influentes na cidade e no país, comemorando em 2023, 40 anos de direção teatral. Em 2007 escreveu o livro "Grupo Oficcina Multimédia", no qual relata seus 30 anos de experiência à frente do GOM.

Da música para o teatro No ano de 1977 ao participar do Curso de Arte Integrada do IX Festival de Inverno da UFMG em Belo Horizonte, quando foi criado o GOM, [eu] já atuava desde o ano de 1971 na área pedagógica como professora de musicalização para crianças e adolescentes na Fundação de Educação Artística. Criada em 1963 por um grupo de personalidades do mundo cultural mineiro, entre eles a pianista e professora Berenice Menegale, esta Instituição tinha se instalado como Fundação de Direito Privado sem fins lucrativos, e desde então atuava como centro de experimentação, renovação e difusão artística de base cultural ampla. A inter-relação da música com as diferentes linguagens artísticas constituía um dos principais fundamentos de sua proposta cultural e educacional. Em 1967 idealizara e realizara o 1º Festival de Inverno, em Ouro Preto, evento que em seguida foi assumido pela UFMG e no qual a Fundação continuou coordenando e executando o programa de música até o ano de 1986. No âmbito educacional, destacava-se como responsável por um processo de atualização do ensino musical não só para Belo Horizonte como também em Minas Gerais e em diversos centros de formação do país. Desde sua fundação, um corpo docente de perfil adequado a tal empreitada tinha se proposto a implantar, em Belo Horizonte, uma prática pedagógica baseada na abertura e no aprofundamento do aspecto de criação inerente a todas as etapas do processo de formação musical.

Foi, portanto chegando à Fundação de Educação Artística no ano de 1973 que encontrei pela primeira vez, um processo de musicalização infantil que rompia com uma visão musical voltada para parâmetros estritamente sonoros. Partindo desta premissa, as primeiras relações do aluno com a música, não eram direcionadas de imediato para um contato direto com instrumento musical. O primeiro interlocutor neste processo de aprendizado era o próprio corpo do aluno vivenciando experiências rítmicas no espaço e no tempo e elaborando organizações expressivas que incluíam a percepção da forma do movimento e do som em tudo que nos cerca. Este foi o ponto de partida da rítmica corporal que venho desenvolvendo desde então e que hoje se configura como uma referência especifica do trabalho de preparação corporal do Grupo Oficcina Multimédia.

A equipe de professores que compunha o quadro docente de musicalização para crianças e adolescentes da FEA nos anos setenta era constituída por pesquisadores na área educacional e incluía importantes profissionais da música, como Maria Amélia Martins e Rosa Lúcia dos Mares Guia. A partir de experiências específicas em sua formação e de cursos na escola de Música e Artes Cênicas da Bahia, estas professoras, juntamente com José Adolfo Moura, Anita Patusco, Lina Márcia Pinheiro Moreira, introduziram na Fundação de Educação Artística novas praticas pedagógicas para o ensino musical, tendo como suporte, pesquisa já desenvolvida na FEA (BH) e o intercâmbio com o importante movimento de renovação cultural que vinha da Escola de Música da Bahia.

Criada em 1963 em Salvador esta escola por sua vez contava com uma equipe de artistas e músicos importantes do mundo inteiro, e se propunha a um constante movimento de renovação. Entre eles estava o professor e musicólogo alemão Hans-Joachim Koellreutter que tendo se mudado para o Brasil em 1937, participou da criação e administração desta escola em Salvador (1954) e tornou-se um dos nomes mais influentes na vida musical no país, mantendo um continuo intercâmbio com a Fundação de Educação Artística, tanto na área pedagógica com na produção e criação artística desta cidade. Outros nomes como Ernest Widmer, Walter Smetak, Fernando Lopes, Lindembergue Cardoso, Ilza Nogueira, Rufo Herrera, Jamary Oliveira, Fernando Cerqueira, Pièrre Close, Marco Antônio Guimarães (BH), Afrânio Lacerda (BH), Luis Alberto Pinto Fonseca (BH), faziam da Escola de Musica da Bahia, um referencial cultural vanguardista da Música Contemporânea nos anos sessenta e setenta e suas ramificações se expandiam diretamente para BH e para todo o país, além de se estender para as demais áreas da criação artística como o teatro, o cinema e as artes visuais.