O comportamento homossexual, em humanos, é o termo usado para descrever comportamentos sexuais individuais, bem como relacionamentos de longo prazo, mas em alguns usos conota uma identidade social gay ou lésbica. A escrita científica prefere reservar esse termo para humanos e não usá-lo para descrever o comportamento em outros animais, devido ao seu contexto profundamente enraizado na sociedade humana.BAILEY, N. W.; & ZUK, M. Same-sex sexual behavior and evolution. Trends in Ecology & Evolution, 24 (8), 439-446, 2009.

Um outro termo utilizado dentro da área de pesquisa de comportamento homossexual é o comportamento homoerótico. Ele pode ser definido como comportamento sexual entre indivíduo do mesmo sexo (homossexual) envolvendo contato genital que é experimentado como prazeroso. Em alguns trabalhos, a motivação do comportamento (por exemplo, orientação sexual, exploração, falta de parceiros do sexo oposto) pode não ser levada em consideração.MUSCARELLA, F. The Evolution of Homoerotic Behavior in Humans. Journal of Homosexuality, 40:1, 51-77, 2000.

O termo homossexual pode ser usado quando a definição operacional de homoerótico não pode ser aplicada e quando é estranho aplicar o termo homoerótico às descrições de outros pesquisadores do comportamento homossexual.

Hipóteses sobre evolução da homossexualidade A homossexualidade apresenta um paradoxo para os evolucionistas que exploram a adaptabilidade do comportamento humano.KIRKPATRICK, R. C. The Evolution of Human Homosexual Behavior. Current Anthropology, Vol. 41, No. 3, pp. 385-413, 2000. O comportamento homossexual existiu ao longo da história humana e na maioria das culturas humanas.DUBERMAN,  M.  B.VINICIUS, M.; CHAUNCEY, G. Hidden from history: Reclaiming the gay and les- bian past. Penguin, 1989.GREENBERG,  D.  G.  The construction of homosexuality. University of Chicago Press, 1988.BLACKWOOD,  E. Anthropology and homosexual behavior. Haworth Press, 1986.Supõe-se que a sexualidade humana não é dicotômica. Assim, para a maioria das espécies durante a maior parte de sua história evolutiva, os indivíduos teriam exibido comportamento heterossexual e homossexual, uma característica observada em primatas não humanos intimamente relacionados.

Existem várias hipóteses sobre como a homossexualidade evoluiu, entre elas:

Seleção de parentesco: os indivíduos homossexuais altruisticamente renunciaram à reprodução para ajudar na prole de parentes;WEINRICH, J. D. Sexual landscapes: Why we are what we are, why we love whom we love. Scribner, 1987. WILSON, E. O. Sociobiology: The new synthesis. Belknap Press, 1975. Manipulação dos pais: os filhos são manipulados pelos pais para renunciar à reprodução, “tornando-se homossexuais” e ajudando a descendência de parentes;RUSE, M. Homosexuality: A Philosophical Inquiry. Basil Blackwell, 1988.TRIVERS, R. Parent-off spring conflict. American Zoologist, 14:249–64, 1974. Polimorfismo balanceado: sugere que o comportamento homossexual seria retido porque ele coocorre com um segundo traço sob seleção positiva;HUTCHINSON, G. E. A speculative consideration of certain possible forms of sexual selection in man. American Naturalist,  93:81–91, 1959. Seleção direta e positiva: o comportamento homossexual ocorreria por causa de seus benefícios não-conceituais,  como a manutenção de alianças do mesmo sexo (relacionamentos de apoio de longo prazo) que auxiliam na competição por recursos ou na defesa cooperativa.

A teoria evolucionista da homossexualidade mais amplamente conhecida é a de E. O. Wilson.WILSON, E. O. On human nature. Harvard University Press, 1978. A teoria sustenta que indivíduos homossexuais nas primeiras sociedades humanas podem ter ajudado membros próximos da família, direta ou indiretamente, a se reproduzirem com mais sucesso. Ela não postula nenhum valor adaptativo direto ou indireto para o comportamento homossexual em si, além de ser baseada em uma série de suposições falsas e não existir evidências para apoiá-la. Consequentemente, foi amplamente rejeitada como modelo explicativo.MUSCARELLA, F. The homoerotic behavior that never evolved. Journal of Homosexuality, 37(3), 1-18, 1999.

O valor adaptativo e a evolução do comportamento homossexual Alguns trabalhos no campo da psicologia evolutiva consideram que o comportamento homossexual não tem valor adaptativo e, consequentemente, não evoluiu.WRIGHT, R. The moral animal: Why we are the way we are: The new science of evolutionary psychology. Pantheon Books, 1994.THIESSEN, D. Bitter-sweet destiny: The stormy evolution of human behavior. Transaction Press, 1996.SYMONS, D. The evolution of human sexuality. Oxford University Press, 1979.STEVENS, A.; PRICE, J. Evolutionary psychiatry: A new beginning. Routledge, 1996.SEABORG, D. M. Sexual orientation, behavioral plasticity, and evolution. Journal of Homosexuality, 10, 153-158, 1984.RIDLEY, M. The red queen: Sex and the evolution of humannature. Penguin Books, 1993.POSNER, R. A. Sex and reason. Harvard University Press, 1992.MCKNIGHT, J. Straight science? Homosexuality, evolution and adaptation. Routledge, 1997.MARGULIS, L., & SAGAN, D. Mystery dance: On the evolution of human sexuality. Summit Books, 1991.GALLUP, G. G.; SUAREZ, S. D. Homosexuality as a byproduct of selection for optimal heterosexual strategies. Perspectives in Biology and Medicine, 26, 315-321, 1983.FUTUYMA, D. J., & RISCH, S. J. Sexual orientation, sociobiology, and evolu- tion. Journal of Homosexuality, 9, 157-168, 1984.BUSS, D. M. The evolution of desire: Strategies of human mating. American Scientist, vol. 82, 1994.ARCHER, J. Attitudes toward homosexuals: An alternative Darwinian view. Ethology and Sociobiology, 17, 281-284, 1996. Entretanto, outros autores argumentam que essa interpretação pode ser devida a vários fatores: a negatividade com a qual a homossexualidade é vista, uma falsa dicotomização da sexualidade humana (heterossexual e reprodutiva; homossexual e não reprodutiva) e o uso de termos não confiáveis ​​como ''gay'' e ''homossexual'' na escrita científica. Além disso, uma análise das origens evolutivas de qualquer comportamento é complexa e requer a consideração de uma série de explicações concorrentes.BUSS, D. M.; HASELTON, M. G.; SHACKELFORD, T. K.; BLESKE, A. L.; WAKEFIELD, J. C. Adaptations, exaptations, and spandrels. American Psychologist, 53(5), 533-548, 1998.

Assim, alguns estudos postulam que existe uma disposição de toda a espécie para o comportamento homoerótico em humanos e que tal disposição evoluiu por meio da seleção natural porque tinha valor adaptativo. Especificamente, especula-se que adolescentes hominínios e adultos jovens podem ter passado por um período de periferização social e física ligada a  segregação sexual semelhante a encontrada entre muitos primatas. Uma disposição para se envolver em comportamento homoerótico pode ter servido como um mecanismo de afiliação que reforçou e fortaleceu as relações entre os próprios hominínios marginalizados do mesmo sexo. A assistência social de colegas e companheiros de status superior pode ter aumentado a probabilidade de acesso a recursos e pode ter fornecido aliados para ajudar a repelir ataques de outros membros da mesma espécie.

Consequentemente, estudos ainda indicam que uma disposição para se envolver em comportamento homossexual pode ser vista como tendo efeitos diretos sobre a sobrevivência e indiretos sobre o sucesso reprodutivo. Essa disposição ocorre simultaneamente com uma disposição para o comportamento heteroerótico. Amizades entre indivíduos do mesmo sexo, reforçadas por comportamento erótico, podem ter ajudado indivíduos de ambos os sexos a alcançar a sobrevivência pessoal. Além disso, as alianças sociais de longo prazo formadas desta forma podem ter facilitado o acasalamento entre machos e fêmeas com probabilidade de conceber prole e as habilidades das fêmeas de criar seus filhos com sucesso.

O comportamento sexual humano é considerado o mais complexo e altamente evoluído de qualquer espécie animal.BANCROFT, J. Human sexuality and its problems (2nd ed.). Churchill Livingstone, 1989. Trabalhos argumentam que, entre os humanos, o comportamento sexual evoluiu principalmente para promover laços entre machos e fêmeas, o que estava relacionado secundariamente ao sucesso reprodutivo.LOVEJOY, C. O. The origin of man. Science, 211, pp. 341-350,1981.FISHER, H. E. Anatomy of love.  Norton, 1992. Diamond (1992) escreve: "Em nenhuma espécie, além dos humanos, o propósito da cópula tornou-se tão desvinculado da concepção...’’.DIAMOND, J. The third chimpanzee. Harper-Collins, 1992. Especula-se que o comportamento sexual complexo e frequente promoveu fortes laços entre homens e mulheres. Quando a gravidez ocorre, a presença de um par parental ligado aumenta a probabilidade de viabilidade da prole e a propagação final dos próprios genes dos pais. Como o comportamento heterossexual complexo levou ao sucesso reprodutivo, ele foi adaptativo. De Waal (1987) argumenta que, ao longo da evolução humana, o comportamento afiliativo entre homens e entre mulheres adultos pode ter aumentado o sucesso reprodutivo de ambos, e que o comportamento homossexual então evoluiu do comportamento heterossexual.DE WAAL, F. Tension regulation and nonreproductive functions of sex in captive bonobos (Pan paniscus). National Geographic Research, 3, pp. 318-335,1987. No entanto, também foi argumentado que os comportamentos afiliativos também podem ter sido adaptativos para outras unidades sociais independentes das unidades de acasalamento.KINZEY, W. G. A primate model for human mating systems. In W. G. Kinzey (Ed.), The evolution of human behavior: Primate models (pp.105-114). State University of New York Press, 1987.

Vida hominínia e o valor adaptativo do comportamento homossexual O comportamento dos ancestrais hominínios ainda é desconhecido, mas o comportamento social de outros primatas, particularmente chimpanzés comuns (chimpanzés) e chimpanzés pigmeus (bonobos), é frequentemente usado como modelo. DE WAAL, F. Good natured: The origins of right and wrong in humans and other animals. Harvard University Press, 1996. Especula-se que os primeiros ancestrais hominínios viveram em grupos fracamente afiliados de 50-60 indivíduos que incluíam machos, fêmeas e seus descendentes. Eles podem ter sobrevivido ao coletar materiais de plantas, catar alimentos e se envolver em alguma caça cooperativa.CAMPBELL, B. Human evolution (3rd ed.). Aldine, 1985. Os ancestrais hominínios viveram em um mundo ameaçador e perigoso. Eles provavelmente eram mais presas do que caçadoresSUSMAN, R. L. Pygmy chimpanzees and common chimpanzees: Models for the behavioral ecology of the earliest hominids. In W. G. Kinzey (Ed.), The evolution of human behavior: Primate models (pp. 72-86). State University of New York, 1987. e possivelmente engajados em agressões intergrupais frequentes e fatais.WRANGHAM, R.; PETERSON, D. Demonic males. Houghton Mifflin, 1996.WRANGHAM, R. W. The significance of African apes for reconstructing human social evolution. In W. G. Kinzey (Ed.), The evolution of human behavior: Pri- mate models (pp. 51-71). State University of New York, 1987.VAN DER DENNEN, J. M. G. The origin of war: The evolution of a male-coalitional reproductive strategy. Netherlands: Origin Press, 1995.